Poemas, frases e mensagens de pAuLoGaLvAo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de pAuLoGaLvAo

Problema Bicudo

 
Na verdade da tangencia
Toco nos bicos dos peitos,
Dois hemisférios perfeitos
De vibrátil saliência

E nessa quente circunferência
A que os dedos estão sujeitos
há excepcionais direitos
nas questões de ciência.

O calor os corpos dilata,
É do conhecimento geral,
Mas p’ra saber a área exacta

De uma elipse sensual
Só a tecnologia de ponta
De conceito digital.
 
Problema Bicudo

Verso Mau

 
quando
a voz muda
nos muda
o verso é bom

quando
a letra inerte
te diverte
o verso é bom

quando
sem finesse
e sem saber porquê
um certo não sei quê
acontece
o verso é bom

o verso é bom
não só
quando
tem som
em dó
menor
ou noutro
tom
de um astro
maior
 
Verso Mau

Gigante delirante

 
parece impossível
que em certa ocasião,
no estrondoso nível
de um placo risível
o ofegante elefante
em grande sobressalto
tenha visto então
o seu sapato alto
de retórica eufórica
perder o tacão,
e no esguio salto
a frase heróica,
o poema pertinente
e o fonema eloquente
rebolarem no chão
 
Gigante delirante

Sem Rede

 
não quero seguir
uma página qualquer
de um astro blogger,
do face ou do tweeter

não quero pôr
um polegar like
sentindo que é fake
antes quero a bike
ou um bom cupcake

não quero supor
que o mundo real
sejam emoticons a rir
com flores e fones
ou outros tantos ícones
com ar anormal

não posso admitir
que apenas um clic
certifique
o valor
de um avatar
que sofre por desamor
sem saber amar
 
Sem Rede

Parapeito

 
Debruçada
Numa certa janela
Floresce singela
Uma sílaba delicada
Que muito quer
Ser amada

Espera um complemento
Ou apenas um sinal,
um desenvolvimento
de caligrafia
gramatical

e ao amanhecer
do novo dia
será luminosa
palavra bela,
orgulhosa
por ser já mulher
do seu bem-me-quer
 
Parapeito

Caçada

 
veloz,
o mastim
sem nome
rompe a trela
atroz,
a noite cerra
os dentes em serra
e em lauto festim
consome
a presa dela
 
Caçada

Inflamável

 
a pele viçosa
daquela flor vistosa
sente na pluma,
no toque da lira,
o calor da chama
impetuosa
e logo reclama
com acesa ira

desconhece o viver
feito saber
tangível
da pele rugosa,
menos afectada,
menos susceptível
ao impacto
do fogo fátuo
da palavra incendiada
 
Inflamável

fragilidade

 
a figurinha surgiu,
ternamente moldada
por mãos meigas
desejando vida
e a luz de estrelas
de um sorriso nascente

protegeram-na do frio
com desvelo desmedido
embalando sonhos
com encanto incontido
que das mãos transbordava

subitamente
o barro cedeu
esboroando-se em fragmentos,
areia solta a verter
sem que os dedos impotentes
a conseguissem conter

assim aconteceu
quando o teu sorriso vibrante
por dentro se fechou
 
fragilidade

Slogan

 
Já leste
Na maré vazia
As palavras de ordem
Que naquela falésia
As ondas escrevem?

Esquecidos versos
De um abril em canto
Agora submersos
No desencanto
 
Slogan

Catavento

 
noite e dia
rodopia
procurando antever
a razão
da rajada,
da trovoada,
do turbilhão
dos ventos cruzados
e juízos calados
que se irão abater.

mas cada volta
dessa espiral
instável
e imprevisível,
não gera revolta
mas sim a certeza
de que cada natureza
tem um feitio
e um modo próprio
individual
 
Catavento

toxicoIndependente

 
gosto de versos
efervescentes
e universos
resplandecentes
pulsando,
fervilhando
de imagem e cor
por vezes soluçando
num desgosto de amor

o meu delírio
é o arrobo sentimental,
dependência emocional
tornada vício
que não faz mal

ainda que digas
que são sentimentos piegas,
adoro o estilo empolado,
do impulso arrebatado
escaldante
e provocante,
para noutra dimensão
viajar sem razão
 
toxicoIndependente

Album Duplo

 
Como comentário ao meu texto - LongPlay - Luka escreveu um poema de que gostei muito por captar e olhar noutra perspectiva a essência do LP. Publico agora os dois num Album Duplo, agradecendo a expressão que Luka dirigiu ao meu texto.

a toda a hora
e a seu jeito
gira o disco
com defeito,
tem um risco
tatuado,
indelével sinal
que silêncio retém.
mas todos sabem
que é amado
por quem o adora
no som imperfeito
quando ri e chora
Paulo alvão

Quando ri e chora
todo o som de uma melodia
para uns perfeito
para outros
triste agonia.
Mas que importa
o defeito do disco
se o que traz à memória
é um tempo
de uma história
a canção
vinda de um disco riscado
talvez por mim
tatuado
kirinka luka
 
Album Duplo

Mágoa

 
ser a dentro
chega ao centro
a ponta do cisel
de gestos infelizes
rasgando, cruel,
duas cicatrizes

a lágrima seca
não sulca o leito
mas é erosiva
e deixa marca
no fundo do peito
de forma abrasiva
 
Mágoa

Reencontro

 
A palavra sorriu
Fulgurante
Porque te viu
Diferente
Com o brilho interior
Que se projecta
Confiante

Liberta
Do medo
Desse dedo
Acusador
Que aponta
A ti própria
Causando angústia
E muita
Dor
 
Reencontro

Tasca Lusa

 
o nosso senhor chamado Silvestre
é para muitos um grande economista
boas negociatas sempre teve em vista
e nisso também é indiscutível mestre.

é gestor maior do pátrio restaurante
que anda muitas vezes quase falido
mas não se sentiu mesmo nada aturdido
e salvou-se de forma natural e elegante.

deu novos tachos prontos a estrear
aos empoleirados que foram mais ordeiros
pois, como se sabe, não faltam cozinheiros

uns embuçados e outros que para enfardar
estão logo dispostos a entrar naquela farra:
bem vindos pois, ao banquete da cagarra!
 
Tasca Lusa

Inferno

 
omnipresente,
a oportunidade perdida
é uma doença crónica

persistente
má-formação ortográfica
numa frase enegrecida
 
Inferno

 
Ergue teus olhos doridos
apenas um pouco
caídos que estão
na água amarga
que em ti chove.
O mar não se comove
nem o sol se apaga
ante a comiseração.
Repara como és louco
remoendo ventos idos.
 
mó

Douro

 
os fugazes instantes,
salpicos de ouro
que vestem o rio,
revelam cintilantes,
que o mar recebe a nascente
sob a luz límpida
que a foz guarda
e oferece

do eco vibrante
dessa tarde infinda
permanece,
no ancoradouro
dos nossos instantes,
o silêncio
mais puro,
aquele, que primeiro nos uniu

então, fomos amantes
sem o sermos ainda
 
Douro

LP-LongPlay

 
a toda a hora
e a seu jeito
gira o disco
com defeito,
tem um risco
tatuado,
indelével sinal
que silêncio retém.
mas todos sabem
que é amado
por quem o adora
no som imperfeito
quando ri e chora
 
LP-LongPlay

Pinheiro

 
o raminho plebeu
era dádiva preciosa
da árvore generosa
que o Natal escolheu

dependuravam-se risos
e rasgados sorrisos
de feliz brincadeira,
e a alegria verdadeira
que o envolvia
brilhava em tons
de sincera alegria

agora depende
da industria do plástico
já só se acende
com luz eléctrica

na montra entristece
uma sombra fria
que já não me aquece
como em menino, fazia.
 
Pinheiro