Poemas, frases e mensagens de andrealbuquerque

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de andrealbuquerque

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Sobre a poesia

 
Começo o meu dia a ler um poema. Um exorcismo dos rumores da vida e da morte anunciados em cada esquina. Do respirar sereno da ira, em seu cadafalso. Falsificada em riso, letra e risada. Rumor não é vida nem morte, nem sucedâneo caro ou barato do viver.
A poesia é fundamental... Ah se eu soubesse por que (Cocteau poderia ter escrito assim, mas não o fez)
O mundo não é poético, o mundo é.A poesia que se vire nele. Vire-se nos trinta dinheiros, mendigados na porta da igreja, na entrada dos terreiros e nas ruas. Nos desvãos onde nos ocultamos daqueles que “têm olhos tristes por profissão”. No perene fugir da vida e de si mesmo imerso na vida dos outros e em si mesmo. O que não é pouco, porque é tudo .
 
Sobre a poesia

Pinel

 
A fome arrastou – me até a zona do porto , naquele dezembro de 1983. Dias ruins , todo mundo de cara fechada , um calor dos diabos , mas nas praias cheias de gente , o Rio de Janeiro em férias , jogando pelada e conversa fora na areia e caindo naquela água bonita e fria do mar .
Eu continuava a fugir dos médicos e da polícia . A Pinel , querendo me fazer de doido á força , por conta de desfilar pelado pelos corredores .Claro,ninguém me via , comida e remédio , nem pensar . Aí , pô , até Jesus Cristo esperneia . E a polícia ? Ora , negro , barbudo, esfarrapado , fedendo que nem um gambá , dois dias vagando debaixo dum calor daqueles , vestindo uma calça de pijama ,C e P pintados na roupa ? Pode pegar que é doido .
Também , na semana passada , tomei só três doses e quebrei um boteco e a cara do dono , lá em Madureira . Serviço completo : cabelo e barba.Mas fazer o que ? É o meu jeito de ficar bebum : uns ficam ricos de repente , outros ficam lindos , distribuem cantadas e colhem bofetões , outros choram . Eu , apenas saio quebrando tudo . Um doutor psicodoido lá da Pinel , falou numa tal de embriaguez patológica .Aí, metí – lhe a mão : Arnaldão doidão ? Então tome murro , seu cagão .
Mas o negócio agora é comer , jogar alguma coisa na prensa , lá dentro, para ela trabalhar direito e parar de devorar a mim mesmo . Daqui , deste lado da cidade ,vejo um mar onde ninguém toma banho , só navios velhos e apodrecidos, de casco sujo e fedorento , esquentando ao sol , boiando um junto do outro , feito patota de bêbados . Uma manhã arrastada , se desmanchando já no meio- dia . Comer que é bom , nada . As pernas recomeçaram a fervilhar e doer – seqüela da cachaça, disse aquela doutora que chamam de Joaninha Lennon, óculos de bicho-grilo na ponta do nariz e boca desbeiçada de gente ruim.
Parei diante do bar do Português . Dizem que rolava um carteado incrementado por lá e deveria ter comida sobrando.Pego a rua do oitão , olho pela janela e vejo um baita dum negão , ainda mais alto que eu , empalitosado ,seguro por dois sujeitos enormes feito armário de aço , paletós pretos abertos , óculos escuros , um tremendo berro na cintura de cada um : tiras da cabeça aos pés . Que cagaço , meu Deus ... a barriga roncou alto , mas eles nem perceberam , entretidos com o negão .
- Fala porra , cadê o Miguelito ? – perguntou o de gravata preta
- Já disse que não sei , não faço a menor idéia, cara .Estou almoçando tranqüilo e vocês chegam perguntando desse jeito por alguém que nunca vi , porra ! – O negão não dava mole . O de gravata listrada sapecou – lhe um soco no queixo ,que tirava até espírito obsessor , quanto mais informação. O cara mal virou o rosto , o outro , de gravata preta , plantou – lhe uma tapa no pé do ouvido , empurrou – o contra a parede , deu – lhe um chute no peito e como uma dança ensaiada, saíram do bar .
Ficou lá o sujeito, sozinho, cara quebrada, lambendo nos beiços o próprio sangue, um bom tempo. Depois, levantou- se, foi até uma geladeira detrás do balcão, tirou gelo, pôs no lenço e esfregou naquela cara escrota. Abriu uma gaveta da geladeira, tirou um pacote e gritou bem alto por Luciano. Devia ser um garçom, pois chegou depressa.
O cara ordenou embrulhar o almoço para viagem . Não o vi pagar . O Luciano entrou mudo e saiu calado . O negão pegou o pacote , colocou na sacola plástica entregue pelo garçom , olhou desconfiado pela janela e saiu pela porta de trás . Corri e fiquei observando por cima do muro .
Ele jogou o pacote na lixeira, retornou e saiu pela porta da frente, caminhando rápido pela rua, mas não o suficiente para escapar do carrão que subiu a calçada e o arremessou no espaço, num belo e verdadeiro salto mortal, pois deu uma cambalhota e caiu já mortinho da silva no asfalto quente, feito frigideira.
Olhei e pensei : estava lá num canto o negão morto e eu , o outro negão, olhando e me lascando de fome . Bom, pulei o muro , fui até á lata de lixo , peguei uma sacola plástica cheirando a carne assada e ainda quente ,escrito de caneta : Hernandez . Abri : uma caixa de papelão com o filé mignon mais bonito que já vi na vida,misturado com um arroz bem douradinho e uma macarronada pra lá de suculenta.No outro pacote , uma estatuazinha amarela ,de uma mulher segurando uma bacia com os braços levantados e com um tijolo de ferro chumbado nos pés, todo cheio de uns garranchos ,só consegui ler Jules Rimet ,o resto não deu , porque era estrangeiro e a fome não deixava .
Feia que nem o diabo a estatuazinha , mas brilhava mais que catarro em parede .Comi tudo feito um louco, bem ligeiro , bebi um bocado de água da torneira e pulei o muro de volta .Olhei o negão estirado no chão, atrapalhando o trânsito. Coloquei a estatuazinha de volta, no saco e sacudi tudo no mar, com toda a minha força . Ninguém come estátua.

Nota do Autor : Inspirado no roubo da Taça Jules Rimet (conquistada
definitivamente pelo Brasil, em 1970) e ocorrido em dezembro de 1983 .
 
Pinel

Música ao longe

 
No calor da noite, ouço a música ao longe, daqueles que coleiam a vida, que a margeiam, pegando na mão, de passagem, um pouco de sua liquidez.
Detêm inocentes, o segredo de viver: o não aprofundar-se, não mergulhar nessa corrente rápida ou estagnada.
Tê-la entre os dedos, sem pretensão nenhuma que sentir em sua liquidez banal, o imortal que dá forma a esse transitório. Do momento esvaído em si mesmo diante de nós. E mais nada.
Ouço a cantora pedir licença, conversar um pouco e retornar ás canções demandadas pelos semideuses da banalidade heroica.
 
Música ao longe

Ambulatório

 
— Ah Doutor! Há quanto tempo ela está assim ? Foi há muitos anos.Engraçado , não ? Essa marca de pasta de dente, essa do tubo que ela aperta nas mãos , nem se vende mais. O meu pai? Bem, papai era um homem magro e calado.
Alegria e tristeza não mexiam com a cara dele, sabe? Apenas passava a mão pela cabeça, quando alguma coisa ia ruim.Mais nada. Ela não transparecia tudo. Eu e minhas duas irmãs fomos criadas com muito carinho e cuidado: catecismo, bolsa no colégio das freiras, escola normal e curso de piano. Pra gente pobre, melhor impossível.Olhe, não casamos porque não tivemos de casar . Vontade todas tivemos, mas mãezinha era sábia e distinguia um mau caráter á léguas . Livrou – nos todas do precipício do mau casamento.
Estelinha, a mais nova, revoltou-se. Chegou a tomar formicida. O rapaz sequer foi ao velório. Isabel e eu cumprimos o nosso dever filial e cristão, esses anos todos.
Mas o senhor quer saber como começou? Bem, uma noite papai chegou do trabalho, tomou banho, jantou e foi ao banheiro escovar os dentes. Mamãe acompanhou – o e pediu como sempre fazia para que ele fosse dobrando o tubo de creme dental,á medida que usasse.O senhor sabe,economiza sempre um pouquinho.Aí ele falou e nós escutamos : “Guiomar, a pasta tá acabando . Vou no mercadinho de Zezé comprar uma”. Sumiu . Passaram – se os dias e os meses e a razão dela correu junto com o tempo, pra longe, cada vez mais longe . Ficou assim até hoje, apertando o tubo de pasta. O senhor vai manter o Amplictil, não vai?
 
Ambulatório

O rei da chuva

 
Apenas um louco,era o que diziam .O maluco oficial da cidade , se antiguidade na doidice,fosse posto .Cabelos imemorialmente grisalhos, coroando a testa ampla e enrugada , avançada qual promontório sobre dois abestalhados olhos azuis , de olhar triste ;não daquela tristeza dos que têm olhos tristes por profissão (já dizia alguém) , mas uma tristeza que era a toda hora jogada para fora pelos olhos , assim parecia funcionar sua natureza : jogando aquela ganga ruim na cara dos outros , sobre as pedras da rua ; ainda assim uma tristeza intrigante , porque sábia e aparvalhada era o que também parecia e tudo de uma vez só , confundindo as pessoas , que passavam a ve- lo só de baixo pra cima .
Ah , sim : chamavam – no de Biu do Cego ,ironia da vida ou da morte , o possuidor de tão diferentes olhos,filho de um cego .Sentava –se por horas a fio , na ponta da calçada do mercado público,sempre no final da tarde , cismando sabe Deus lá sobre o que , tirando do bolso esfarrapado, grãos de milho catados do chão escuro do mercado ,que atirava no pátio , na festa dos pombos , alternando as mãos,jogando ora por cima da cabeça, ora de costas,por cima dos ombros , arrulhando feito pombo , com a pronta resposta deles , á sua louca generosidade ; vez por outra , um mais afoito segredava-lhe em vôo rente ao ouvido , Biu escancarava aquele riso de porteira velha desconjuntada e a ave partia rápida, em direção ao ocaso do sol .O riso apombalhado - porque não?
Cansava– se ,ás vezes. Dava lugar ao sorriso, um rosto crispado e ausente , angústia demente e silenciosa , barragem de pensamento , sem suspiro pra correr . Nesses dias, parecia desligar – se do mundo , puxando um fio que só ele via ,trepando- se na velha jaqueira da entrada da cidade - quem sabe , pra ele uma saída?
Ali ,matutando horas naquele juízo desleriado e pacífico , naquela doidice de uso só dele mesmo . Depois, dava por encerrada a questão e descia faceiro como um sagüi de tronco abaixo, rindo , homem menino satisfeito consigo mesmo e com o mundo .
Às vezes, alguma mão caridosa ,quem sabe negociando um lugarzinho lá no céu, deixava um de comer pro miserável,.lá entre as velhas raízes ,sem dizer nada; se chamasse ele fazia - se de mouco. Depois, descia , comia e voltava ao seu adoidado filosofar de pé-de-pau .
Não lembro mais quando - já sou promissória vencida nesse mundo de Deus , mas sei que Biu do Cego já estava a quase quinze dias na jaqueira , sem comer nem se mexer . Aboletou –se num galho e disparou um olhar de canhão enferrujado no horizonte , dias , semanas.
Depois , ficou olhando pra barriga , como se tentando entrar em si mesmo pela porta do umbigo . Então, começaram as chuvas ,que viraram aguaceiro , depois cheia , depois flagelo de Deus ou do Diabo contra nós ou eles mesmos , pois não é tudo natureza ?
A correnteza levava tudo : homem, mulher, menino, jumento,todo tipo de criação ,nem a imagem do padroeiro agüentou , o cemitério virou campo sem porteira , ninguém para enterrar os mortos , em muitas léguas . Os políticos vieram , depois que a desgraça já era passada , engravatados, tirando retratos mais deles mesmos que do arraso , muito dinheiro se prometeu . Os poucos sobreviventes ouviam , mas eu sabia que o destino do palavrório era o mesmo do vento que lambia as serras, uma ida sem retorno .
Desci do abrigo do meu roçado no Morro do Agudo e caminhei feito barata tonta , dando voltas, fazendo com os pés o que na cabeça já fazia desde há muito. Na entrada da rua , vi a velha jaqueira , ainda de pé,sabe - se lá se por obra de Deus ou do Tinhoso. Num dos galhos mais grossos , aboletava-se Biu do Cego , chorando de tanto rir.
 
O rei da chuva

Pretty Baby

 
PRETTY BABY

Na cabeça de louros cachos, circundado pelo diadema de retrós, um dilema atroz.
 
Pretty Baby

A fábrica de hipopótamos

 
A claridade do sol espantou o sono e despertou uma ressaca brutal, a penetrar – me as retinas de miopia bêbada e atordoada. Um lençol no chão, talvez expulso a pontapés dessa cama agora imensa e desconfortável.
O bilhete encima da mesa de cabeceira, pregado com raiva e fita durex: “Rubens, fui embora com as crianças. Estou na casa de mamãe, nada quero de ti, senão distância e compreensão com os nossos filhos. Já sofremos demais. Melhor sonhar sozinho. Dói menos. Lembre: Não existe ex-pai. Júlia”.
Fiquei, na preguiça sofrida de acordar abandonado .Não era a primeira vez, Mas agora existiam as crianças , que desconfiavam ter um perdedor como pai . Um cara ridículo. O único palhaço do mundo que não pintava o rosto, porque não acreditava ficar mais engraçado.
As festas foram minguando. O trabalho sumindo, os meninos cada vez menos queriam estar comigo. Júlia, bem, melhor nem falar. Mas tenho de falar. Sempre foi minha parceira de trabalho, muitas festas infantis para animar. Fiquei sozinho com isso tudo. Acabou-se o prazer do riso da meninada.
Ela também era uma sonhadora. Tinha um emprego de professora na escola municipal e isso ajudava a manter - lhe os pés no chão e pagar algumas das nossas contas. Nossa vida era mesmo a comedia dell’arte .
Agora, aprender a fazer sopa de pedra. O pedregulho estava dentro de mim mesmo. A meninada queria mais efeito especial que arte cênica, a palhaçada pura. A cama elástica e o gelo seco podiam mais que minha cara limpa . Mas ao contrário do escritor, minhas idéias subiam no trapézio e se esborrachavam no chão e ninguém ria das suas quedas.
Ficou uma, balançando- se, medrosa, pensando no próximo passo, pois era tudo improviso mesmo. Fui até Queimadas, conversar com o velho Melquisedeque, meu fornecedor de bexigas e muito antenado nessas coisas de animação.
Encontrei – o no fundo da oficina. Um cigarro apagado na boca, rolando pra lá e pra cá naqueles beiços encarquilhados. Levantou a cabeça quando entrei ,mas nada falou.
Cada doido com sua mania. Responder cumprimento dá azar? Como sempre , direto ao assunto :
— Que queres, palhaço da cara lisa?
Falei das minhas dificuldades. Das novidades que me deixavam cada vez mais para trás. O velho escutou e como sempre, respondeu sem olhar para mim. Dirigiu – se desta vez ao velho torno instalado na mesa .
— Volte daqui há duas semanas.
E voltei. Vendeu-me uma engenhoca de bico ajustável, para adaptar ao meu velho torpedo de ar e uma caixa de bexigas enorme como eu nunca vira antes. Tirou uma da caixa, ligou no seu torpedo e em trinta segundos, eu tinha uma odalisca ao alcance da mão.
Ri bastante. A surpresa maior que a alegria, por sinal bem salgada. Fiquei reduzido ao dinheiro da passagem da volta e olhe lá. Mas foi um sucesso.
Não, uma explosão. O palhaço da cara lisa e suas bexigas mágicas atraíram de volta a meninada. O dinheiro voltou a aparecer. Todos queriam hipopótamos amarelos, elefantes azuis, girafas violetas, serpentes prateadas imensas.
Meus filhos adoravam enche-las, ver a borracha informe virando bicho, boneco, caldeirão de bruxa.
Uma noite, resolvi conversar com Júlia. Encontrei-a sorridente, mas um riso de pé atrás, falso, de janela entreaberta. Falei das boas mudanças . Respondeu-me já saber de tudo pelas crianças.
Falei da solidão e do desejo de voltarmos a partilhar tudo como antes, com dinheiro e sem cachaça.
— Rubens, meu amor – a carícia no meu rosto, falsa feito nota de três reais – serás sempre um perdedor. Teu problema é mais profundo que falta de grana. É na mentalidade, o pensar pequeno. Quando a febre das bexigas acabar, voltaremos ao zero inicial .Ainda te amo , mas amo também minha vida e nossos filhos .Não dá . Sofri muito ao descobrir e admitir isso para mim , mas não dá .
E não dando , saí pela noite , ouvindo o som das TVs ligadas dos vizinhos, o contraponto eletrônico de minha decepção . Deitei mas o sono não queria nada mesmo comigo.
Levantei – me, peguei a garrafa térmica ainda com café e fui até a oficina. Sentia–me leve , porque tinha feito o que tinha de ser feito . Agora,completar a obra.
E aqui estou em meu navio. Meu galeão de ar, olhando as pessoas lá embaixo, espantadas, no começo da sua manhã. Admirando a beleza de meu vôo em direção ao sol, um Ícaro de asas de borracha, em direção ao infinito, longe deste mundo, insensato e feio.
 
A fábrica de hipopótamos

Compulsória

 
Leu naquela manhã, a história do escritor Samuel Beckett. Internara-se num asilo ao completar setenta anos.
—Esses escritores... ou muito doidos ou muito lúcidos.Uma lucidez que ofusca a razão pela sua força,pensou.
Percebeu-se estar no mundo, como quem veste uma roupa folgada. Uma súbita inadequação á vida o repelia, a distancias cada vez maiores. No último dia de trabalho, faria diferente. Começaria pela ida á repartição. Resolveu ir a pé. Cinco quilômetros, no máximo. Caminhar afugenta a depressão, dizia um médico no jornal de hoje. Duas horas de antecedência, o paletó sobre o ombro.
Ruas semi desertas e a sensação de sobrar no mundo. A caminhada ao longo da praia atraiu a sede. Parou numa lanchonete de posto de gasolina. Olhou o balconista, que enxugava um copo como se o estudasse, absorto nas próprias mãos e nas ranhuras do vidro. Surgiu um problema prático: onde tomar um banho, ao chegar à repartição? Tomou um refrigerante, pagou e retornou para casa.
Cochilou mais uma hora e seguiu no Voyage, cinzento e bem conservado.
Encorpa-se o dia. Povoam-se as ruas. A esquizofrenia diária dá partida nos motores. A cidade atropela-se a si mesmo. Meia hora depois, o centro antigo da cidade.
Na Joaquim Nabuco, o letreiro da última sessão do Cine Moderno: Sev... Pecados capita. Letras vermelhas contra o fundo branco e inútil. Desabam, na câmera lenta dos anos. Um título patético, lá em cima. Resistem os pedaços do caixilho, agarrados ás paredes.
A vida passa, ao largo da calçada do cinema. Os expositores das fotos promocionais, esvaziados. Que pensara o projetista, ao findar a última sessão? Sentira tristeza ou apenas trocara de roupa e fora tratar de sua vida ?
Fantasiou o fechamento do cinema, sem aviso, tal uma morte súbita. Um final sem the end. Todos sairiam, atarantados. Ou despejariam as pessoas do escuro da sala, no final da projeção (saiam, o filme acabou, o cinema acabou)?
A brusquidão, no fim das coisas que amava. Hoje sim, amanhã nunca mais.
Tal sua aposentadoria, anunciada pela moça do RH A bunda mais desejada da seção. O rastro de perfume: um gato arisco.
— Bom dia, doutor Alfredo. Eis a comunicação de sua aposentadoria.
Saia justa, pernas esculturais. O decote modelava duas obras de arte.
Sonho de consumo dos solteiros e pesadelo diurno de alguns casados. A moça tinha história.
Inclinou-se sobre seu ombro. Da cabeça de longos cachos, o perfume ativo acariciava-lhe o ser.
— Bom dia, Fátima. Compulsória ou expulsória? A essa altura, qual a diferença?
Unhas verdes, amarelas, azuis, róseas, sobre a folha do memorando. O sorriso burocrático dourava a pílula.
— Por favor, leia e assine aqui.
Disposto em límpida impressão ”comunicamos a sua aposentadoria conforme a lei....” Dali a trinta dias. Assinou, quase sem ler. Dissimulou a surpresa pelo próprio esquecimento. Nada demais. Assim era ele. Mais trinta dias no batente. Depois... depois o que? Um velho, sem planos.
Papelada sob o braço, retirou-se a Vênus calipígia. O scarpin pisoteou olhares esgazeados.
Na cópia sobre a mesa, a caligrafia ainda firme. Na garganta, o nó górdio da tristeza.
A própria assinatura, na alforria indesejada. Caiu-lhe a ficha, diria a turma jovem. Sair depois de trinta e cinco anos de bunda pregada á cadeira. Lia, comentava e carimbava. Empurrava o caudal burocrático. Tanta vida lhe passara entre as mãos. Escutara súplicas. Rasgara sonhos em papel A4. Demandas impressas ou redigidas á mão, em português capenga.
A gramática errada de tantas vidas corretas, no destino torto de vala comum. Agora, a sua vez. O aposentador aposentava-se. Dali a um mês deixaria seu universo, protocolado e cabisbaixo. De muitos amigos e fraternidade nenhuma. De projetos de vida, sussurrados entre a cerveja e uma lasca de queijo, na calçada do Savoy. A cerveja também mudara. Há muito optara pelo chope e a caninha, no final de expediente
A clara delimitação de espaço, ente os velhos e novos. O distanciamento dos velhos por serem velhos. Um dar as costas despudorado e brusco. A juventude que digitava ofícios e acompanhava o Facebook. Tudo ao mesmo tempo. Os velhos e suas manias. Almeida e sua reclamação do calor da sala, sempre ás quatro da tarde Pontual como um relógio. Como esquecer Almeida, o Pingüim da Antártida, e suas doidices?
Na calçada do Savoy, circulavam aqueles que se diziam jornalistas. Alguns apontados pelos colegas como polêmicos. Outros, rotulados de “vendidos de pena e alma” aos governos, bancos e partidos políticos. A doce e familiar bandalheira.
Os engraxates Onde andariam os engraxates? Ele mesmo polia os seus sapatos com graxa líquida. Não se lembrava desde quando. .Sem o brilho e a conversa mole tão apreciada. Os engraxates filósofos da Guararapes, enciclopédias da banalidade urbana. Testemunhas silentes da procissão de vigaristas, batedores de carteira, do rebolado do mulherio bonito e gostoso a admirar vitrines. Ponto de equilíbrio, no caos cheirando á gasolina, em que se tornara a cidade.
Ganharia um relógio? Que nada, isso era pensamento grisalho. Nostalgia do que se passava por amizade e consideração. Hoje, pelo menos, não se precisa fingir nada. A indiferença dispensa intermediários.
Que fazer nas oitos horas de liberdade? A viuvez suburbana das tardes vazias? As visitas tediosas dos filhos? O aconchego cada vez mais breve dos netos?
A vida lhe passava ao largo. E percebia-se naquilo tudo. O que fora e o que não conseguira ser. A tristeza apenas lhe marcara a alma. Permanecia o discreto ar de distinção melancólica. O olhar vivo. Resignado com a vida e o que lhe deram para viver. Regido pelo acaso ou qualquer outro dos seus nomes, Deus, destino ou apenas o pulsar de ser vivente.
 
Compulsória

Novembro,1963

 
Quando Kennedy morreu, era um dia cinzento num mês de sol. Eu morava no interior e meus pais não tinham televisão em casa. A noticia chegou pelo rádio e causou rebuliço entre vizinhos e amigos. A América mergulhava em depressão. O terceiro presidente a morrer assassinado, transformava em pesadelo o sonho americano.
Para mim, Kennedy era uma figura mítica, como John Wayne e Zorro, o parceiro de Tonto. Lembro da propaganda veiculada pela Aliança para o Progresso, das revistas em quadrinhos distribuídas nos dias da feira livre, narrando a trajetória de Kennedy, sua atuação na Segunda Guerra Mundial, o resgate heróico de dois companheiros, feridos em águas do Pacífico e o prefixo do barco torpedeado, PT 109.
Na escola, preparavam-se refeições com os mantimentos do programa da Aliança. O sabor da papa e da sopa. Os sacos de sessenta quilos, com a figura de um aperto de mãos encimando a bandeira americana. Eu, sete anos de vida, o Grupo Escolar. A persistência na memória.
Então, aquele homem levara um tiro. Só um poder maléfico ou diabólico faria algo tão ruim. Em seguida, o assassino Lee Oswald, preso e morto á tiros por Jack Ruby, dois dias depois, na frente dos policiais. Tudo filmado, fotografado. O Repórter Esso virando Hollywood. Tal um episódio dos Intocáveis. Mais cedo ou mais tarde, Eliot Ness e sua turma, resolveriam tudo e a história terminaria, com a punição dos maus, os culpados.
Os vizinhos mais abastados, que tinham TV em casa, comentavam com meus pais o noticiário. Até hoje tenho dúvidas, se minha mãe chorou a morte do presidente. Kennedy era mais próximo que o prefeito da nossa cidade. Era um gringo sorridente e simpático, morava na América, tinha muito poder e era nosso amigo.
No ano seguinte, um rebuliço na minha vida pessoal, em sincronia com os eventos do golpe militar. Meu pai matou um homem e fugiu para não ser preso. O filho de um dos vizinhos foi preso por ser comunista. Isso me empolgou a imaginação. Diziam que ele pichava Viva Cuba e Morra Kennedy, nas ruas de João Pessoa. Um desnaturado, pensei.
Passaram-se cinqüenta anos. Os fatos continuam frescos na memória. Além de polemica e versões controversas, ficaram as imagens dos coloridos gibis de propaganda, da merenda escolar, das fotos de Lee Oswald e Jack Ruby, estampadas na Cruzeiro e na Manchete. Cinema, puro cinema. A realidade entrando na TV com a cara de Hollywood. As coisas mudando. Comecei a pensar que o presidente assassinado, talvez não fosse um cara tão legal assim. Descobri até que Zorro não era Zorro, era Lone Ranger, o Cavaleiro Solitário e que uma briga de tradutores criara mais um Zorro. Se alguém transformara Lone Ranger em Zorro no Brasil, Kennedy talvez não fosse John Wayne. Aí, a infância já era.
 
Novembro,1963

Ventania

 
E na tarde de agosto,o menino escutou o sibilar de vozes fantasmagóricas ; o macabro insinuara-se entre as brisas familiares da Rua do Carvão : Comadre Fulôsinha , Saci, o Cavaleiro sem Cabeça ? O coração disparado,a dúvida assustadora e paralisante lhe assanhava os cabelos.Os ventos falavam.Talvez Comadre Fulôsinha lhe trançasse os cabelos de susto,ameaçando-o com o Grande Medo, que nunca o abandonaria;o medo primevo e abissal que sabia encolher,até esconder-se nos bolsos das suas calças,saindo aos pouquinhos,ao longo dos anos,crispando faces e encanecendo cabeças.
O espírito zombeteiro entoava a sua cantiga de terror e morte pelas ruas,misturando papéis,areia e cascas de frutas ao medo grande e antigo,anunciado pelas velhas tias;o medo só medo , puro , sem cor ,sem nome ,sem cara nem casa , balançando a placa da barbearia do seu Duarte , distorcendo com insultos de areia a sua já desfocada visão do mundo , açoitando os fícus da Praça do Fundador , chacoalhando o pequeno cajueiro de dona Eunice , soprando diabólico e poderoso seu fino e agourento assovio , abalando as casuarinas da frente da igreja (galhos retorcidos de tão finas folhas,assanhadas como quem leva uma bofetada) , correndo furioso pela rua , até esbarrar exausto nas amendoeiras do mercado público , esvaído em si mesmo , deixando o menino e o seu pavor encostados na porta fechada da barbearia , sujos daquela terra cinzenta que até poderia ser a dos cemitérios.
O recado fora dado,seja lá qual fosse . A rua tornava a respirar a calma original e semi crepuscular . O menino caminhou pela calçada ; subitamente parou , abordado pela dúvida transeunte : porque estava ali?
Então , devagar e com cuidados de dono , puxou debaixo da camisa a pipa colorida e frágil , que empinou rápida , ao sabor da brisa conhecida e boa , que detestava sustos e recados e no silencio eficiente e cúmplice , levitava a pipa vermelha e azul , agora crepitante de alegria , em gloriosa assunção , solitária e bela na sua alísia maneira de ser.
 
Ventania

Um natal em 68

 
Chegou o Natal. Esse ano, as coisas estão fraquinhas aqui em casa; quase ninguém mandou cartão pra gente, Papai Noel deve estar bem magrinho. Pela primeira vez é Natal sem papai em casa, tomando cerveja, falando mais alto que a radiola de tampa levantada, conversando com seu Amaro por cima do muro. O copo de cerveja quase caindo. Eu, doido para experimentar. Dizem que amarga, mas é bom. Como é que pode? Só provando para acreditar , essa bebida que é mas não é .
Ninguém fala mais em papai. Virou uma coisa feita aquela doença que a gente desenha um caranguejo, mas não diz o nome .
Só lembro a noite em que chegou aquele jipe verde com os soldados e levou ele pro quartel. Ora, papai não tem mais idade para ser recruta. Perguntei pra mamãe, ela disse que não era pra ser recruta e começou a chorar de fazer dó. Nunca pensei que no olho da gente coubesse tanta água . Fiquei com raiva de mim mesmo,mas se não era pra ser recruta, quê que meu pai ia fazer lá ? Ele só sabe consertar fio trepado em poste e encher a cara com meu tio Jorge, o irmão dele, lá na praia do Pina .
Começou a me ensinar a nadar, mas parou, quando apareceram aquelas pranchas com um nome engraçado: isopor. Disse que com aquilo ninguém se afogaria mais e me deu uma .Acho que pra passar mais tempo na barraca, discutindo futebol com tio Jorge .
Um dia, pela manhã, ajudei minha mãe a enterrar no quintal ,um montão de papel. Falava mal do governo e em greve. Era escrito em letras bem grandonas e vermelhas .Mamãe falou que enterrava aquilo tudo pra ficar em paz.Evitar o exército não voltar mais lá em casa.Eles não gostavam nada de ver papel falando em greve . Mas meu pai saiu de casa em janeiro, logo depois do meu aniversário de oito anos. Cansei de perguntar por ele á mamãe, porque se chorar já é uma merda, de tristeza, pior ainda
Bom, papai foi fazer alguma coisa importante no quartel. O serviço já faz quase um ano que começou. Deve ser muito importante. Quem sabe meu pai não tem uma identidade secreta? Feito Batman e Superman. E se a turma do mal descobriu e pegou ele?
Nem vi nem falei com meu pai, nesses onze meses. Meus amigos lá da escola, disseram ter escutado em casa, que meu pai pode ter sido preso porque falava do governo e das greves. Se greve é ficar sem trabalhar, como é que nós íamos comer? E meu cinema , meus gibis ? Logo agora que arrumei o Tio Patinhas número um. Troquei pelos meus dois piões com o Zelão, o meu vizinho magro, da cara de lagartixa. Fica puto com quem chamar ele de caveira elétrica .
Fui pra Missa do Galo com minha mãe e parece que nossos vizinhos estão evitando falar com a gente. Nem sei por que. Estou de banho tomado, limpo, roupa nova. Feio foi o Júnior, filho do seu Mário. Ano passado, cagou-se todo na hora da missa e ainda vomitou no sapato de dona Lourdes . Êita cabra desmantelado. Mas não foi por gosto. Caganeira ás vezes não dá aviso. E foi logo no Domingo de Ramos.
Que Natal mais sem graça. Vou dormir. Na televisão não tem nada que preste. Até o Perdidos no Espaço foi ruim, hoje.
Olho na sala, a mesinha do centro. A foto de papai não está mais lá. Vou reclamar amanhã com mamãe. Ele não morreu e nem com morto se faz isso. Seu Gabriel, da mercearia, morreu, mas dona Eliza nunca tirou a foto dele da parede. Botou até um vaso com flores. Troca de flor quase todo dia. Achei um pouco demais. Depois, lembrei que a flor é dela e seu Gabriel também era, né?
Depois de ler dois almanaques Batman, deu uma baita fome. Vou pedir a mamãe pra fazer um chocolate.
Chego na sala e encontro ela e o tio Jorge na janela, olhando a rua .Ele, passa de leve a mão nas costas e na bunda de minha mãe, que sopra devagarzinho a fumaça do cigarro, de janela afora . Melhor preparar o meu chocolate sozinho .
 
Um natal em 68

Uma morte azul

 
Uma morte azul

... comprimir – lhe o pescoço em meio aquele azul estonteante , o céu como se fixado por um prego, a brisa marinha hesitando sobre um mar que seria até macio em seu azul e poemas,perceber a vida esvaindo-se e a entrega do corpo ao próprio destino , ao fim comum e desejado por nós, por ela principalmente, que não mais desejava a angústia medida do saco plástico e meus polegares a constringir - lhe a traquéia . Transfigurada , consoante ao azul maravilhoso que nos protege e envolve de cima a baixo ; o mar , arremate final da pequena morte ensaiada em tantos quartos de hotel dispersos pelo mundo , luxuriante forma adiada de morrer sucumbindo ao orgasmo convulso, á estripulia de sensualidade (o que é um nome?),a camisola de seda meticulosamente dobrada,creme sobre o corpo perfeito e macio,
- Por que não três gotas de Chanel número cinco ?.
Mesmo não sendo um homicídio (que de certa forma era) , antes suicídio consumado a quatro mãos (duas da bela assassina de si mesmo) nem assim o queria plágio :
- Não sou a Marylin
Gostosas e tépidas mãos do seu mais louco amante, disposto a ir onde os outros recuaram por não compreender que aquele morrer era um supremo gozo , inigualável porque definitivo em seu impacto de vagalhões de prazer a submergirem o seu corpo, azul da cor do mar, entre aquelas tão pequenas ilhas, onde tudo isso poderia ser um filme (nós e apenas o sol por testemunha) mas o sol não era nada, apenas figurava naquele equador , no esvair-se da vida comum para a liquidez que dissolvendo, acrescenta-nos ao todo maior.Então lembrei da primeira vez que me ordenou o suplício,aquela pequena introdução á asfixia, em meio ao gozo, sacudida e inundada por mim , aríete e fonte , a serviço do tesão infinito, multiplicado á cada compressão do pescoço sedoso, luzidio ,untado,perfumado e cheirando a sol , minhas mãos deslizando na mesma cadencia em que lhe percutia o interior, a caminho do prazer oceânico , seguido do largo e profundo sono dos amantes .
Então , que o mar te receba , azul em todo resplendor que um veranico poderia nos oferecer ; agora toda inércia e serenidade, atingiste o teu nirvana ; percebo o sangue nos meus braços lanhados por tuas unhas que apenas eu sei resultado do prazer supremo , não do medo nem do tolo apego á vida que sempre censuraste , pois toda maneira de amor vale a pena ; entre nós, a vida tangenciando a morte anos e anos ,em que te completava e seduzia, pelas mãos mais fortes e precisas já vistas nas tuas andanças pelo mundo . Descobri a proximidade de viver e findar-se , no momento do gozo , onde morremos para nós mesmos e para o mundo na brevidade casual e humana que nunca te satisfez. Escolheste hoje, o gozo supremo , sob este céu sem nuvens e um sol agora meio escorregadio para a curva do horizonte,deslizando,como indo ao teu encontro, no cemitério marinho .
Ligo o barco ,faço- o descrever um adeus em larga e preguiçosa parábola ; sigo sem olhar a esteira do meu caminho , vezo e sina de vida breve .
 
Uma morte azul

Insônia

 
Você está apenas com insônia, “um bocejar da largura dos astros” que parece remetê-lo a outro país. Mas você fica. Permanece aqui, em frente à tela, desnudando conceitos com seus dedos e encobrindo outros. Estimados preconceitos.
Um oscilar doentio entre a treva regeneradora e o alerta inútil. Transito incompleto entre dois mundos. A tela reflete a face cansada, de propósitos exaustos e cambaleantes.
Melhor dormir. Um sono sem ficções nem sonhos. Apenas um limpo e decente sono. Anônimo, sem rebuliços nem megalomanias. Um sono que esvazie a lixeira das retinas exaustas, de um dia que resiste em terminar, enquanto o outro dia, pôe o rosto na janela, dissimulado.
Um sono sem qualidades. Sem personalidade. Comum. Que o resgate de si mesmo e do repouso abortado. Enquanto chega o novo dia, que mais tarde, colocará as garras á mostra. Um dia bestial, na vala comum dos anos e dias. Armazenados na despretensão de álbum de fotos, das velhas polaróides da vida. Fotos em preto e branco que nos parecem ladrilhos vivos e sujos.
Manchados pelo hálito morno do tempo. Olha decepcionado, o dia que insiste em não acabar. Nem deixa o novo penetrar a sala das retinas, com sua mensagem vaga.Cochila um pouco, até perceber algo novo.
Ei-lo.Chegou o dia, molhado de chuva. Aguarda, na sala vazia de insônia. O rugir da vida, lá fora, também espera a sua vez.
 
Insônia

A última sessão de cinema

 
Imaginava um final alternativo para o mundo quando acenderam-se as luzes . A velha senhora levantou furtivamente, deixou o saco de pipoca no chão. Desfilou trôpega, entre as filas,ao sabor do neto,seu pequeno algoz.
Fecho os olhos e as pálpebras lumierescas exibem estilhaços da imagem .The end, no mundo e no amendoim.
 
A última sessão de cinema

Márcio , o escrevinhador

 
Butch Mitchell acertou Arizona Colt entre os olhos . Ele tombou para a direita e caiu cara a cara com o deserto.Ponto final .Uma da matina . Mais tarde , dou uma avançada no Capitão Seven .O adiantamento já acabou . Minha cabeça parece um ringue vazio , sem idéia e sem pique para nada .Já ia esquecendo dos livros para as boyzinhas, “literatura adolescente”, que nem sei a quantas anda : sem registro , igual ao robô do Space Lost ,segundo a contabilidade .
Talvez eu não deva matar Arizona Colt nem tão cedo, o cara vende bem e todo mundo gosta do vilão , da alma sebosa .E eu preciso comer . Carminha já ameaçou me botar em cana , se atraso a pensão dos garotos . Essa mulher pensa que escrever é fácil , feito vender roupa de camelô , camisa chinesa e tudo o mais . Qual nada . È um quebra cabeça dos diabos .
O editor me espinafrando via telefone , feito gigolô :
- Márcio , meu filho, escreva mais rápido, tá ? Até quando acerta você erra,porra!
Às vezes, fico engolindo a raiva .Depois, bate uma tristeza lenta, feito uma torneira pingando.Existe uma arte prostituta ? Sim,estamos aí. Uma cochilada e o telefone me joga no mundo dos vivos : o cara da gráfica . Pedindo para agilizar junto ao Beltrão,o pagamento da segunda parcela do Capitão Seven , Agilizar ? Não sei como é em inglês, mas no meu português deste ano,é erguer-se da cadeira puxando pelos próprios cabelos .
Surpreendo a mim mesmo . Peço um tempo , retorno a ligação , prometo o que não depende de mim e clic . Capitão Seven ataca dois ETs...que merda , como seriam os ETs ? Lembro dum seriado bem antigo da TV , quando apenas a rigidez num dedo das mãos distinguia os invasores das demais pessoas .Qual dos dedos?Sei lá! Coloco ou não ?Dou um tempo, olho ao meu redor: um televisor velho, uma geladeira em petição de miséria, uma bandeira do Vascão na parede, uma cama ameaçada por uma estante meio desconjuntada : os salvados das minhas tempestades conjugais .Tudo uma amargura só . Escrever é uma sina é um pecado é um karma ao contrário . O editor dá - me um soco no peito e cuspo um western , um conto policial , um livro pra adolescente punhetar . Grudada na tela do computador, uma foto da Elaine , tão mal definida quanto o nosso caso , um pega – larga , já dois anos . Levanto da cadeira, abro os armários , olho meus velhos exemplares de Capitão Sete , Águia Negra, Cavaleiro Fantasma ,Cavaleiro Negro, Durango Kid , tudo da época da Rio Gráfica e da Ebal .
Tudo serve de motivação para quem é um capitulo sem livro de Marcial Lafuente Estefânia , Corin Tellado, El Sov , plágio descarado de mim mesmo .O eterno retorno em sua expressão mais chula , as pessoas comprando ávidas para colorir suas vidas , cafungar a coca em letra de forma que ofereço , meu crack de papel , vendido na banca da esquina . Vale tudo, pegar uns parágrafos ,fazer uma página atrás da outra e soltar. Todos gostam no final : os enganadores e os enganados. Ligo o computador e recomeço a digitar .O sono ainda não esqueceu de mim. Vou ler um Buck Jones e tentar tudo de novo, de novo.
 
Márcio , o escrevinhador

Oração matinal a Joaquim Cardozo

 
Joaquim, eu te leio como uma prece matinal, a clarear de dentro o meu dia e lá fora, mantendo a coerência das linhas regulares de meu mundo, decaído e esplendoroso, conforme a direção do sol. No soneto exato, a métrica que me faltou à vida toda, a compreensão do mundo espelhada em vogais, na voragem construtiva do Ser; em consoantes espalhadas ao léu, de repente sonantes como a ondulação dos pequeninos braços de maré e mar de nossa terra estranha, tornados trilha matinal luminosa e mística, tal a luz matinal e vitrificada das antigas igrejas, febrilmente semeadas entre ladeiras e ruas estreitas; nas torres para sempre inacabadas de algumas, cinzentos e ancestrais impasses em pedra e tijolo entre a Fé e o Ter, talvez na indecisão pétrea a esperar tua métrica final e mágica, a completar-lhes o sentido em pedra e concisão espiritual. O rigor lírico, persuasivo e claro, convencendo o rigor exato, maquinal e claro a suspender-se um segundo, tal gota d’água pronta para si mesma, em queda livre, tornar-se chuva ou leve suspiro do céu sobre a Rua Nova, compondo a beleza alem da beleza feia de velhas e abandonadas fachadas, cerradas portas, em sono triste e multicor de pálpebras enferrujadas e corroídas pelo tempo que dói, tal estocada fria e precisa da eternidade do momento. Em 01/01/2013.

A Joaquim Cardozo, (1897-1978), engenheiro-poeta, uma homenagem.

Homenagem ao poeta e engenheiro calculista Joaquim Cardoso, a meu ver, ainda pouco conhecido no seu próprio país.
 
Oração matinal a Joaquim Cardozo

Revelação

 
O sono acabou ás três horas da madrugada , à hora fatídica dos sortilégios, dos demônios particulares , da angústia pontual e familiar . O quarto, santuário obsequioso de silêncio , de uma paz subitamente perturbadora .O corpo sonolento relutou na sua inércia , antes de sentar – se .
Uma curta pausa ,olha na janela a escuridão da noite , repentinamente benfazeja , impondo-se ás pálidas luzes da rua , num sábado chuvoso , relutante em começar . Conhecendo cada centímetro daquele quarto, caminhou lenta e silenciosamente ao longo da cama , preocupado em não perturbar-lhe o dormitar sereno e pacificador. .
Um filete de luz insinuava-se por baixo da porta , até a mesa de cabeceira, iluminando a velha foto de família : seus pais , na praia ,abraçados e sorridentes , a onda quebrando tão branca , tão carícia, a tênue linha de espuma rente aos pés hesitantes de sua mãe,um domingo absoluto, em paz e luminosidade , do distante 1952 .
Contemplou o rosto pacificado e sereno da esposa , os braços cruzados já em pleno sono (como nossos hábitos apegam-se e ficam) , o gris revolto dos cabelos em leque , sobre o travesseiro.
Abriu cuidadosamente a porta do banheiro ,tal as outras portas de sua vida : na surdina educada dos seus gestos de tímido . Fechou a porta , acionou o interruptor da luz,caminhou até a pia e constatou no espelho, ser apenas um velho insone , que despertara de um sonho bom.
 
Revelação

A guerra dos sessenta anos

 
Anjinha no tanque de roupa , a esbravejar ; arma no varal colorido , o ódio multicor . No fogo , a carne queimada de repulsa e raiva , as brasas temperando em fogo bem vivo , a garganta e o tição de uma fúria impotente .Contempla a parede descascada,abrigando fotos do mundo lá fora e de filhos que nunca teve:uma desdita que não renderá herança .
Tomé conserta sapatos na bancada reluzente de velhice ; de madeira centenariamente enrugada , na pobreza artesã de pai para filho ; tachas no canto da boca , em riso sardônico e metálico . O silencio : ensurdecedor , o martelo malha um solado no pé de ferro - bem poderia ser a cabeça da desgraçada, martela- lhe o cérebro na ira cotidiana ; mãos odiadas e hábeis,trazem o projeto em couro até a realidade .
Um polimento em graxa preta e aziaga, lustra uma guerra de sessenta anos de de pequenos ódios e grandes silêncios . Anjinha vive de luto ; por quê ? Ninguém sabe, nem ela nunca disse. T o m é coloca os cadarços no sapato preto , agora devolvido á bancada , alinhado entre os outros em luzidia e caprichosa submissão . Levanta a gola do casaco, a proteger-se do inverno da indiferença : o ódio conjugal inoxidável em sua frieza , aço resfriado de tantos anos ; nem discutem mais , um grita á cada vez de seu canto e o grito paira no ar e sai pela janela ganhando o campo de futebol em frente, sensações grisalhas arremetem contra a grama e as andorinhas.
O balde de cólera que nunca enche ,sempre a receber cada gota de fúria contida ; a comoção virou cebola velha ,dependurada sobre o fogão de pedra .Hoje , a gota d’água:
_ Não tem feijão para o almoço de hoje – resmunga a Anjinha colérica , em riso maroto de ruindade antiga e bem curtida.
Tomé levantou da bancada , tomou da velha mala de madeira de desenho em xis na tampa retangular e pegador enferrujado , de repente acolhendo mudas de roupa e sapatos , despojos da vida de infelicidade medida em dedais , copos e baldes . Olha distraído o fundo ensebado do seu chapéu ; o suor e o nome do fabricante em arabesco amarelo ; coloca-o inclinado sobre a fronte , abre a porta , caminhando em direção a lugar nenhum , cruza o campo de futebol, interrompe a pelada em sua marcha ; a rapaziada estática , em muda indignação ,contempla o velho desempenado em passo acelerado e inédito sorriso , de alma leve e flanante , no ocaso da tarde de domingo .
 
A guerra dos sessenta anos

 
Surpreendia-se vendo aquelas fotos e de não parecer outra coisa que não sua própria e sombria pessoa, vivente ao léu e não um animal qualquer , talvez uma ave : uma gralha,um pombo ou até um cão ,outra forma de vida qualquer sob a qual o sofrimento houvesse transfigurado a si e a sua natureza
.Não inventara a solidão , mas eram bons e velhos parceiros desde há muito, embora não percebesse senão após tantos anos, seu completo abandono á margem de si mesmo e das fronteiras do seu mundo.
Via as fotos , lembrando dos momentos em que foram feitas, a tristeza ,a alegria manca, o ressentimento atroz e engolido,a fúria reduzida a um mero olhar para o horizonte,ou um olhar a perscrutar a lente, docemente inexpressivo e terno,flagrado em seu próprio vazio , afogando a sede de gritar que o tirassem dali ; que tornara - se uma criatura supranumerária no mundo , em meio a tantas outras que nem valia a pena contar .
.Em íntima parceria , trabalhavam lado a lado ; a alma naquele túnel que lhe abrigava o existir; lembrando que antes ,muito antes, tão mal falara da parceira , descendo até o escárnio : solidão era coisa de fracos e debilóides , uma forma branda de estupidez.
Aprendeu a conhecê-la nos outros , percebia sua natureza sufocante , dissimulada no riso falso e alvar , ás vezes evoluindo á gargalhada demente e deslocada .
Surpreendia-o a preservação de suas formas humanas ; seria em pouco tempo um cachorro cabisbaixo ou um desconfiado gato andarilho e magro ou obeso e depressivo tal os enormes e lustrosos gatos dos freqüentados hotéis de beira de estrada?
Tornada uma segunda natureza depois de tantos anos de vida errante e ás vezes até meio folhetinesca , sem nenhum Balzac para narrar-lhe os desvarios ,hoje apenas durava (já dissera alguém) , arrastando-a em sua mala , sob o peso do viver , fazendo – o pela metade,dando-se á vida aos poucos,aos dedais, explorando-a cauteloso com as pontas dos dedos dos pés por puro medo de queimar-se , temendo até quem tinha medo de ter medo ,tentava partilhar sensações difusas , sua versão de amor , trôpega e reticente .
Depois percebia – se incapaz de sentimento algum , pois a cada adeus , assumia-o uma paz misteriosa e reticente , um conforto espiritual e vago , lenitivo a cada ruptura ; ás vezes afloravam -lhe lágrimas aos olhos , apenas como um exercício básico de ser : chorar para sentir -se capaz de fazer sair daqueles olhos grandes , encovados e castanhos , lágrimas ou algo similar á emoção , de alguma forma manifesta pelo corpo , que pudesse ser expressado na frente daqueles todos , que embasbacados , jamais o compreenderiam, por chorar e dar as costas em tão estranha rapidez , sem dissimular o desejo pela distância , sem ânimo sequer de deixar um rastro de humanidade, por mais apagado que fosse , esfriando a si mesmo, desembalando o sentir no calor da angústia, existindo numa vida posta pela metade e vivida ainda menos que isso , em pequenos pacotes de realidade .
As esperas nos aeroportos,nas rodoviárias, nos trens, nas barcas rio acima e abaixo, sozinho,sempre sozinho e sentindo-se bem por estar e sentir-se sozinho, ele e o vasto , indiferente e para sempre incompreensível mundo e sua bagagem, tendo apenas um ao outro, perdidos no burburinho,na multidão dos aeroportos,nos olhares das aeromoças solicitas ,simpáticas, ás vezes bonitas, (e até solitárias, quem sabe ?).
O vasto sorriso de gratidão que ás vezes encantava as pessoas (disseram-lhe certa vez, possuir um sorriso generoso e quente) ; intimamente desprezado , aquela contração muscular ordenada ,o fugaz mostrar-se por dentro apenas sob forma de dentes desalinhados e meio amarelados, que tanto enganara a si mesmo e a todos , agora apenas cacoete e estratégia vital acessória e básica , muletas do ser.
Nunca tivera o menor prazer em sorrir. O viver , mecânica pura, um planar pelo mundo em piloto automático, um singrar rios e avenidas , guiado por um sentido do qual nada sabia até porque aquilo sempre fora pensado como sendo ele mesmo, nada além dele, mas a solidão era o seu motor.Não inventara a solidão. Ela sim , o criara á sua imagem e semelhança
 
Só

A autopista da praia

 
A AUTOPISTA DA PRAIA

Ao meu lado, tão linda , a beleza flagrada em pleno sono ; um corpo

entregue á própria lassidão , neste casulo de ar condicionado e

silencio , a duzentos quilômetros por hora . A pista é agora uma reta

sem fim ,os pneus produzem um som de água correndo,a paisagem

pouco mais que borrões verdes na minha retina . Pequenas cidades

e povoados surgem e desaparecem,no zapear da velocidade ,são

figuras que vão se amontoando lá para trás , comprimidas pelo

vácuo em suas vidas tranqüilas e pacatas . A bela Inês repousa do

mundo bárbaro . O caderno sobre o colo , a caneta presa na espiral

e servindo de marcador , a regularidade dos traços rafaelitas , acima do

bem e do mal , aprisionados num clic de máquina fotográfica . Os

seios de talhe perfeito , maciços, estufando a camiseta no relevo de

mamilos divinos , ainda eriçados pelo frio .Uma deusa pós moderna,

Pégaso no braço , tentando alcançar o sol de hena e raios trêmulos,

na vida sem literaturas.Há dois dias atrás depois da aula ,abracei-a

e beijei-a ; um abraço de náufrago ,um ismael indefeso , agarrado

ao esquife do companheiro , mas tragado para sempre ,para dentro

daqueles olhos castanhos e subitamente inexpressivos ,límpidos.

A calma suprema de quem contempla uma explosão muito longe ,

anos – luz de frio distanciamento emocional e compaixão zero,

impossível de fingir , pois fingir nunca foi o seu forte ; durante

alguns anos ,foi minha fortaleza o fingimento, aturar a mulher que

não me amava mais , um casamento natimorto sem descendentes

a celebrar meu grande vazio. A natureza abomina o vácuo – nem

lembro mais quem falou ; surgiu Inês em minha vida , uma neo –

-realidade suburbana , a sensualidade safadinha , sexo na cabeça

e na alma ; chutei o pau da barraca , fiquei sozinho do jeito que

nasci, segurei pelos longos cabelos , aquela oportunidade de provar

que ainda estava vivo e buliçoso . Nunca moramos juntos , assim

exigiu , assim existimos . Dois anos e uma crônica de amor louco

para sempre inédita , pois nunca escrevi nada a respeito do amor ,

além da sala de aula , dos modernos cânones literários ,o suficiente

para o vestibular de qualquer coisa que termine em contra cheque

regular e aposentadoria decrépita e vazia ,melhor dizendo,até um

ex–namorado ressurgir do reino das sombras e cravar a estaca no

meu peito arfante de quarenta roliúdes por dia . Estrepitosamente ,

ridiculamente, caí de quatro, tomando todas , cafungando, sempre a

chafurdar na própria merda . Não sei quanto tempo fiquei nesse

esgoto , até que resolví metabolizar aquilo tudo ; marcamos um

encontro na praça em frente do cursinho ; esperei – a num tesão

de ansiedade juvenil .Chegou linda ,sorridente, beijou-me de leve,

um beijo de lápide funerária , que me virou pelo avesso . Um abraço

cem por cento angústia , dor de corno em estado de arte .Comemos

um sanduíche na lanchonete em frente,convidei –a para uma volta

de carro ; aceitou constrangida , rodamos um pouco pelo centro ;

do rádio ,Stevie Wonder e Superstition não me deixavam espaço

pras abobrinhas ,a mente funqueava á toa,gaguejava pensamentos

e fragmentos .Na verdade não tinha mais nada a dizer,muito menos

ouvir , percebi ao contemplar- lhe o perfil . Parei e pensei . Olhei -

– a bem nos olhos grandes, acariciei seus cabelos e atirei entre os

seios ; aquele rosto não merecia ser estragado . Ela simplesmente

virou a cabeça para a janela e mergulhou no sono profundo . Dei

partida , peguei a autopista da praia e segui em frente ; há dois

dias viajo com a rainha morta , Inês,que seria de Castro se um rei

traído não fosse eu e fossem as pessoas nas ruas , obrigadas a

beijar- lhe as mãos , tão belas e frias , em muda admiração.
 
A autopista da praia

andrealbuquerque