Poemas, frases e mensagens de Manu_C.

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Manu_C.

Alguns gostam de poesia (de Wislawa Szymborska)

 
Desejo tudo de bom para todos os Luso-Poetas.
Mas sobretudo desejo o cotidiano milagre da poesia.

O meu presente de Natal é esse poema de Wislawa Szymborska “Alguns gostam de poesia”.

Idealmente abraço e agradeço todos os/as poetas deste site por esse mar de poesia.

Manuela

Alguns gostam de poesia

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

Wislawa Szymborska

(tradução de Regina Przybycien)
 
Alguns gostam de poesia (de Wislawa Szymborska)

PARTIDA (Victor Motta)

 
PARTIDA

E meu trem partiu.
Foi naquele momento,
exatamente,
que ele partiu.

Tremeu, apitou
e, gemendo,
sumiu entre névoa
que ficou na noite,
ao redor de tudo.
Partiu sozinho
como eu,
num trilho infinito,
tremendo, aflito,
já bem longe, deixando
apenas a névoa.
Contornos imprecisos
de uma cor acinzentada,
lentamente se apagando.

Na estação,
dentro da noite,
não ficaram acenos,
nem lágrimas;
talvez uma recordação,
talvez nem isso.
Mas, submisso,
preso ao trilho
de seu destino,
foi que meu trem partiu.
Ninguém viu
nem compreendeu
que ele partia
definitivamente.

Autor: Victor Motta
Blog: http://cariucho.wordpress.com/
 
PARTIDA (Victor Motta)

Sombras (Victor Motta)

 
SOMBRAS

E, FEZ-SE O SILÊNCIO EM MEU QUARTO;
DO FUNDO DA NOITE VIERAM TREVAS.

A MEU LADO, SUAVE PERFUME MARCAVA
TUA PRESENÇA EM MIL PRESENÇAS,
MAS TU NÃO ESTAVAS.

O CALOR TERNO QUE ME ENVOLVIA
NÃO VINHA DE TEU CORPO
TANTAS VEZES MEU.

O HÁLITO QUE ME ACARICIAVA
O PEITO, TÃO PRÓXIMO,
TÃO ÍNTIMO,
NÃO TINHA A AUTENTICIDADE
DO TEU BEIJO.

E, EU PENSAVA NA NOITE.

VINHA ROLANDO DO PASSADO
O CLAMOR DE UMA PRESENÇA
USURPADA.

E, EU PENSAVA NA NOITE.

ATÉ AONDE TUA PRESENÇA
ME ALCANÇARIA?
QUANTOS CORPOS IDENTIFICARIA
AO TEU, SEM TE ENCONTRAR?

E MINHA MÃO DESLIZAVA SUAVE
PELO DORSO NÚ, QUE NÃO ERA
O TEU.

DENTRO DO SILÊNCIO DE MEU QUARTO,
PERDIDO NO FUNDO DA NOITE
QUE ERAM TREVAS.

Autor: Victor Motta
Blog: cariucho.wordpress.com
 
Sombras (Victor Motta)

FIM DE FESTA (Victor Motta)

 
FIM DE FESTA (Victor Motta)
 
Fim de festa

Louca confusão!
É o final da festa.
Pontas de cigarro
pelo chão,
marcam a realidade
do gosto amargo
pelo sarro,
que ficou na boca,
do cigarro.
Um vazio imenso
ao ambiente empresta,
a presença do arrependimento.

Foram risos,
foi música,
foi farsa.
Busca infeliz de um nada,
estampada, agora,
nos olhos cansados,
descrentes e perdidos.
Copos derramados,
paredes marcadas,
por mãos suadas.

Tudo já é passado.
Alegria-mulher que invadiu,
motivadora, minha solidão.
E nada ficou,
nada de profundo,
de definitivo.
Nada que valesse a pena,
apenas um passo
a mais,
na busca do ego
do eu interior,
que não conhecemos.

Século da cibernética,
das máquinas infernais,
computadores,
robôs,
órgãos artificiais.
Homem-mecânico
do século vinte.
Tudo foi pesado,
balanceado,
meticulosamente dosado!
Para que?
Para nada!

Se teu coração vai mal,
nada de anormal,
terás um novo,
a pulsar vigoroso,
injetando sangue
em teus tecidos.
Genial!
E teu sistema nervoso,
teu cérebro,
tua consciência,
tua vivência
anterior?

Século da genética,
da potência energética.
Situação patética,
o vazio da alma,
no vazio da sala,
que me embala
em mil pensamentos,
em arrependimentos,
que são angustias.

(1967)

Autor: Victor Motta
Blog: http://cariucho.wordpress.com/
 
FIM DE FESTA (Victor Motta)

REFLEXÕES DE UM ADEUS (Victor Motta)

 
REFLEXÕES DE UM ADEUS

Agora, sentado,
ouvindo apenas o ruído do silêncio,
parado,
eu penso em nós.
Vem vindo do fundo, gritante,
alarmante,
a ansiedade do tempo passado
preenchendo do nada
o vazio de dois mundos.
Somos duas pontas de flexas,
disparadas do infinito,
que não se encontrarão.
Um grito de alarme
cresce na garganta
e espanta
no vôo, a felicidade
que em vão tenta o pouso
em minha alma angustiada.
Somos dois que
marcham ao longo,
sem cruzamentos,
nem encontros.
Tontos,
procuramos nos dar as mãos
através o nevoeiro do tempo.
Ilusão temerária de sermos um,
quando seremos, eternamente
dois.
Pois,
não percebes?
Teu mundo é formado
de outras cores.
Consulto o silêncio,
tal fora o relógio da vida,
e vejo nos ponteiros
que não se tocam
nossa própria tentativa
do ser uno.
Nessa ilusão míope não vemos
que passamos
um pelo outro,
sem nos tocarmos,
como os ponteiros
que marcam a vida,
perdida.

Autor: Victor Motta
Victormotta's Blog
http://cariucho.wordpress.com/
 
REFLEXÕES DE UM ADEUS (Victor Motta)

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS (Wislawa Szymborska)

 
AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Autor: Wislawa Szymborska
Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
 
AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS (Wislawa Szymborska)

Nada acontece duas vezes (Wislawa Szymborska)

 
Nada acontece duas vezes (Nic dwa razy)

Nada acontece duas vezes
e nem acontecerá. Por este motivo
nasceremos sem prática
e morreremos sem rotina.

Mesmo que fossemos os mais estúpidos
alunos do mundo na escola,
não vamos repetir
nenhum inverno, nenhum verão.

Nenhum dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos do mesmo jeito,
duas mesmas trocas de olhar.

Ontem, que alguém pronunciou
teu nome alto perto de mim,
foi como se uma rosa me tivessem
atirado por uma janela aberta.

Hoje, que estamos juntos,
virei o rosto para a parede.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor? Talvez uma pedra?

Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?
Se és – então tens de passar.
Se passarás – então será bela.

Sorridentes, abraçados,
tentaremos buscar um acordo,
mesmo que sejamos diferentes
como dois pingos de água limpa.

Autor: Wisława Szymborska
Trad. Tiago Halewicz
 
Nada acontece duas vezes (Wislawa Szymborska)

A COLHEITA (Victor Motta)

 
A COLHEITA

UM RELÂMPAGO
AZUL DE ILUSÃO
RISCOU, NO NEGRO
DE UM CÉU DE DÚVIDAS,
O BRANCO DE SEU NOME…
AFAGO
DE NUVENS,
CARÍCIAS,
DERRAMADAS
EM GRANDES GOTAS,
QUE CRESCERAM
E INUNDARAM A VIDA.
ONDA DE TERNURA
TÃO PURA
TÃO QUERIDA!
MAS, QUANDO O SOL
BRILHOU NO HORIZONTE
AS ÁGUAS
TINHAM LAVADO A TERRA,
E NÃO MAIS VINHAM
DO ALTO ROLANDO,
OS RISOS DAS MÃOS
QUE PLANTARAM AS SEMENTES
DAS JURAS
DO AMOR-ETERNO.
E A TERRA LAVADA
SECOU AO SOL,
PARTIU-SE,
PEDAÇO-POR-PEDAÇO,
DESFAZENDO-SE
A ILUSÃO-ENGANO,
PASSO-A-PASSO
NO CAMINHO
DE UM OUTRO ANO.

Autor: Victor Motta

Autor: Victor Motta
Blog: cariucho.wordpress.com
 
A COLHEITA (Victor Motta)

Amor à primeira vista (Wislawa Szymborska)

 
Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo ao acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

Autor: Wislawa Szymborska
(tradução de Júlio Sousa Gomes)
 
Amor à primeira vista (Wislawa Szymborska)

NOITE DE UM INVERNO (Victor Motta)

 
NOITE DE UM INVERNO

DE REPENTE, SINTO QUE ESTOU TRISTE.
TRISTE PELO QUE SOU,
TRISTE POR TUDO QUE NÃO FUI.
MAS, NÃO ME ABORRECE
ESSA TRISTEZA, QUE VEM
E QUE FLUI ATRAVÉS
DO CINZA-AZULADO DA FUMAÇA
DO CIGARRO, PROJETADA NO TETO
MAL PINTADO DE MEU QUARTO.
O SILÊNCIO AMIGO QUE HABITA
MEU APARTAMENTO
DIVIDE COMIGO O FRIO DA NOITE,
QUE TAMBÉM SE VAI.
PENSO EM VOLTAR, PENSO EM PARTIR,
EM ESTAR CONTIGO,
EM DIVIDIR ESSA TRISTEZA
A DOIS…
QUE GRITA DENTRO DE MIM,
DENTRO DO QUARTO QUIETO,
FRIO, DE AR VICIADO
DE TETO MAL PINTADO.
VEJO AS MARCAS INCERTAS
DO PINCEL,
COMO A ARRANHAREM
TAMBÉM DENTRO DE MIM
A SAUDADE DO QUE ERA
E A ANSIEDADE DO QUE SERÁ.
FECHO OS OLHOS,
MOLHADOS
E PENSO NUM POEMA QUE FARIA,
SE MEUS OLHOS MOLHADOS
NÃO ESTIVESSEM CANSADOS,
FECHADOS,
TENTANDO ESQUECER
ESSA TRISTEZA….

Autor: Victor Motta
Victormotta's Blog
http://cariucho.wordpress.com/
 
NOITE DE UM INVERNO (Victor Motta)

A Vida na Hora (de Wislawa Szymborska)

 
A vida na hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humihante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

(tradução de Regina Przybycien)

Eu acho que a grande poeta polonesa Wislawa Szymborska,
Nobel de Literatura em 1996,
merece fazer parte dos Classicos no Luso.
O que vocês acham disso?
 
A Vida na Hora (de Wislawa Szymborska)

Auto-retrato (Júlio Saraiva)

 
Faz três anos que o inesquecível poeta Júlio Saraiva nos deixou.
Quero relembrá-lo, postando aqui um poema seu.
Ciao Júlio, onde quer que você esteja,
Manuela

auto-retrato

só por acumular erros antigos
já nem dou conta que a velhice é fato
ao longe avisto amadas e amigos
todos sorrindo no mesmo retrato

não temo a morte nem temo castigos
vou procurando manter-me sensato
planto maçãs onde nasciam figos
se hoje ressuscito amanhã me mato

torto é o meu andar como este soneto
pouco se me dá se é de pé quebrado
a linha reta transformei em arco

não quero regras nem branco no preto
sou absoluto não troco de lado
e sigo só por conta do meu barco
 
Auto-retrato (Júlio Saraiva)

Caminhada (Victor Motta)

 
CAMINHADA

ENTRE PALAVRAS,
MURMÚRIOS,
ENTRE SILÊNCIOS
E MENTIRAS…
ENTRE AMORES, DESILUSÕES
E IRAS…
SEGUE A VIDA-BUSCA
A BUSCAR A VIDA.
NAS RUÍNAS
DE ANTIGOS CASTELOS,
DERRUBADOS
AO LONGO DOS CAMINHOS;
DIA-APÓS-DIA
ANO-APÓS-ANO.
NO CERRAR DO PANO
QUE MARCA O FIM
DE MAIS UM ATO,
SEM APLAUSOS,
SEM CONSAGRAÇÕES,
SEM ESPERANÇAS.
E EU PARTO
MAIS UMA VEZ,
COM UM POUCO MENOS
DE MIM,
COM UM POUCO MENOS
DE TUDO;
MUDO,
NA CORRENTEZA HUMANA,
INSANA!
NA FORÇA
QUE MEU CORPO ARRASTA,
O CORAÇÃO DILACERA,
DEVASTA A MENTE
NA ESPERA
DE UM OUTRO DIA
IGUAL.
CARAVANA INFERNAL
DE SOLITÁRIOS,
HOMENS-MÁQUINAS,
SEM RAZÃO,
SEM FIM,
A CARREGAR MIL CRUZES
SEM NEXO,
SOB AS LUZES
DO GRANDE PALCO.
MAS, EU SIGO,
PERPLEXO,
NO ANDAR
DOS QUE APENAS ANDAM,
SEM DESTINO.
E, ATRÁS DE MIM,
EU SINTO O RANGER
DE UM INFINITO
QUE CAMINHA,
QUE RI
E CHORA.
MAS, EU SEI,
AGORA
QUE JÁ SEM ROSTO
ESSE INFINITO,
COMO A PRÓPRIA VIDA,
TAMBÉM É MORTO.

Autor: Victor Motta
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Caminhada (Victor Motta)

Respostas (Victor Motta)

 
RESPOSTAS

POR QUE BUSCAR A LUCIDEZ
FRIA E LINEAR DO RACIOCÍNIO PURO?
HAVERÁ LUCIDEZ NA BRISA QUE SOPRA
E CASTIGA MEU CORPO CANSADO?
E, POR QUE FOSTE, ASSIM COMO A BRISA,
ME FUSTIGAR, MORNA E TERNA,
A ESPERANÇA DE MEUS SONHOS?
POR QUE SER LÚCIDO SE A LUCIDEZ
ESTÁ EM TUDO QUE NOS CERCA?
NO VENTO,NAS ÁRVORES, NO SOL
QUE DESCE AGORA ATRÁS DA LINHA
DO HORIZONTE QUE NOS SEPARA.
QUERO FICAR ASSIM, EMBRIAGADO
NA SENSAÇÃO DE ESTAR CONTIGO,
NOS CAMINHOS QUE NUNCA PERCORRI.
OLHAR COM TEUS OLHOS E VER DENTRO
DOS MEUS AS MESMAS PAISAGENS
QUE JAMAIS NOTEI OU SENTI.
PERCORRER COM TEUS SENTIDOS
TODA A CERTEZA DA FELICIDADE.
PELA PRIMEIRA VEZ ME RECONHEÇO
TRANQUILO, A OLHAR EM FRENTE
O CAMINHO ABERTO PARA A VIDA.
TODOS OS FANTASMAS QUE CRIEI
E ME ATORMENTAVAM NAS SOMBRAS
NÃO MAIS HABITAM MEUS CASTELOS.
COMO TE DIZER TUDO ISSO?
COMO TE CONDUZIR PELA MÃO
E POR TI SER CONDUZIDO?
COMO REACENDER DAS CINZAS
TUDO O QUE DEIXEI APAGAR?
NESSA BUSCA, AGORA EU SEI,
QUE SÓ EM TI ESTÁ MINHA RESPOSTA.

Autor: Victor Motta

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Respostas (Victor Motta)

Gato em apartamento vazio (Wislawa Szymborska)

 
Gato em apartamento vazio

Morrer - isso não se faz ao gato.
Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio.
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outro são.
E nem se acende a luz pela noitinha.

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha.

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Algo há aqui que não corre
como devia correr.
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis.
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Deixa-o só voltar,
deixa-o lá mostrar-se.
Há-de aprender
que com um gato não se brinca assim.
Há-de um bicho ir-se chegando para perto,
como quem não quer a coisa,
bem devagar,
muito sobre as patinhas ofendidas.
E ao princípio nada de saltar nem de miar.

Autor: Wislawa Szymborska
(traduzão de Júlio Sousa Gomes)
 
Gato em apartamento vazio (Wislawa Szymborska)

LONGA NOITE (Victor Motta)

 
LONGA NOITE

NO ESPELHO DA VIDA
REVI MIL ROSTOS,
VELHOS, CANSADOS, PERDIDOS
EM PASSADOS DISTANTES.
EM MEU ESPANTO,
PERCEBI TAMBÉM
QUEM FUI,
POIS NA LUZ
QUE REFLETIA
FINALMENTE EU VI
O TEMPO QUE PASSARA.
RÁPIDO, IMPLACÁVEL, IRÔNICO.
PEDAÇOS DE MIM
FORMAVAM OUTRAS FISIONOMIAS
QUE NÃO ERAM MAIS
COMO UM DIA FORAM.
E, EM MINHA MENTE
LUTEI POR DESCOBRIR
VESTÍGIOS DE OUTRORA.
EM VÃO!

Autor: Victor Motta
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LONGA NOITE (Victor Motta)

Dúvidas (Victor Motta)

 
[color=000000]DÚVIDAS

QUE VALEMOS NÓS
EM TERMOS DO ABSOLUTO
OU MESMO DO RELATIVO?
QUE VALEMOS NÓS
PARA NÓS MESMOS
E PARA OS OUTROS?
QUE PAPÉIS REPRESENTAMOS
NA VERTIGEM DE ROSTOS,
ANÔNIMOS E FRIOS,
QUE SE CRUZAM
EM PARALELAS
PELAS RUAS
DAS GRANDES CIDADES?
COMO CAMINHAR SOZINHOS
EM MIL ENCONTROS?
COMO ENCONTRAR
SEM NOS CONHECERMOS?
POR QUE MULTIPLICAR TEMORES
SOMANDO MÁGOAS,
SEM DIVIDIR TERNURAS?
QUAL A RESULTANTE
DAS FORÇAS SOLITÁRIAS?
ONDE ESTARÁ O FOCO
DAS LENTES DIVERGENTES
QUE NÃO NOS VÊEM?
COMO MEDIR O CALOR
QUE SE TROCOU EM VÃO?
QUANDO SE ENCHERÁ DE AFETO
O CORAÇÃO QUE SANGRA?
QUANDO SE CRUZARÃO
OS CAMINHOS OPOSTOS?
DÚVIDAS,
DÚVIDAS QUE ME ACOMPANHAM
POR LONGOS ANOS DE PROCURA
SEM RESPOSTAS![/color]

Autor: Victor Motta
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Dúvidas (Victor Motta)

Dia da criança (Victor Motta)

 
Dia da criança (Victor Motta)

Luzes nas ruas, risos, cores,

brilho das vitrines em festa.

Um carro, vestido novo, um trem.

Gente que passa e não presta

atenção nos que ficam à margem

do encanto das luzes,

no espanto do menino

que erra sozinho,

perdido na cidade.

Que fere, maltrata

e destroi com maldade

os sonhos de criança.

Que rouba no berço

o carinho da mãe,

que cedo levanta

e tanto trabalha,

escrava submissa do asfalto
,

alheio e sem dó
de seu filho, tão triste

e tão só.

Com sua vozinha, fraca,

e cansada,

fica nas ruas perdido

a pedir por presente

apenas um dia só seu;

pois não sabe, afinal, distinguir,

como alguém, que com fome

cresceu,

nos anuncios das lojas

que gritam e proclamam

que ele também é criança

e esse dia é o seu.

Autor: Victor Motta
Victormotta's Blog: http://cariucho.wordpress.com/
 
Dia da criança (Victor Motta)

Real maravilhoso (Victor Motta)

 
REAL MARAVILHOSO

Nossa vida flutuando em dois espaços,
um real – outro fantástico imaginário,
e nesse encontro do real maravilhoso
ficamos presos, partidos aos pedaços
estando em um, desejando o outro.
Vivemos então o momento majestoso,
onde tudo é possível na fantasia criada,
e no equilíbrio dessa realidade virtual,
encontramos a felicidade imaginada
para amenizar a solidão do ser
esmagado na realidade do viver
buscando no fantástico irreal
as ilusões passadas e perdidas.

Autor: Victor Motta
Victormotta's Blog
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Real maravilhoso (Victor Motta)

Por que? (Victor Motta)

 
POR QUE?

DE REPENTE O VAZIO
TRAZ O SOM DO NADA,
E NO SILÊNCIO QUE CRIO
VEM A AUSÊNCIA DE TUDO.
PARADO, INCRÉDULO, MUDO
NÃO QUERO SENTIR A FALTA
QUE CRESCE NO CORPO
E NA ALMA, E MALTRATA
O CORAÇÃO VACILANTE
COM AS INCERTEZAS
DE AMANTE,
DE TRISTEZAS.
POR QUE IR ADIANTE
NA ILUSÃO FUGAZ
DO AMOR VIVIDO?
O AMARGOR QUE VEM À BOCA
É A PERDA SENTIDA,
E LÍVIDO
BUSCO COMPRENDER O PARTIR
SEM ADEUS, SEM PORQUE.

Autor: Victor Motta
Victormotta's Blog
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Por que? (Victor Motta)

Livre-pensadora, livre-sonhadora