Poemas, frases e mensagens de amacsequeira

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de amacsequeira

António Sequeira é filho e mero escrivão de serviço, editor dos poemas de Maria Helena Amaro neste espaço virtual.

Para ser lido amanhã

 
Para ser lido amanhã

Desde o dia distante em que nasci
a minha alma só, abandonada
A vida pouco ama ou quase nada
e a morte em vão busca por ti...

Ela é uma sombra que vagueia
por entre multidões sem nada ver
é uma vida que deseja morrer
é luz dum sonho que ninguém anseia

É a fogueira ardente crepitando
É o calor de fogo permanente
É luz difusa duma estrela cadente
É a brandura clara esvoaçando...

Maria Helena Amaro
Braga, 11/02/1953

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2 ... para-ser-lido-amanha.html
 
Para ser lido amanhã

Fantasmas

 
Fantasmas

Erguem-se os fantasmas lá na rua
com suas vestes brancas a adejar...
Deslizam mudas à ténue luz da lua
como chamas de vela a tremular...

Maria Helena Amaro
1956

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2015/01/fantasmas.html
 
Fantasmas

Alzheimer

 
Alzheimer

Olhar perdido tu vês passar o mundo,
triste e corajosa vês o tempo passar,
há no teu rosto desalento profundo,
sonho perdido, no teu perdido olhar.

Por onde vais não sabes, nem interessa,
que há na vida o que te possa interessar?
Tudo se faz sem alegria ou pressa,
até que a morte te venha procurar.

Quem és não sabes, nem te interessa saber.
As portas se fecharam lentamente
O sol não veio, nem irá chegar...

Irmã da desventura e do sofrer,
vives na noite submissa, pendente,
da luz de Deus que te há de iluminar.

Maria Helena Amaro
(Dedicado aos doentes com Alzheimer)
21/09/2010

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2016/01/alzheimer.html
 
Alzheimer

Mar

 
Mar

Gosto do mar... Oh, se gosto!
Sempre achei o mar perfeito.
Enche de sal o meu rosto,
sem pudor e sem respeito.

Oh mar da minha verdade!
Oh mar da minha afeição!
Oh mar da minha saudade!
Oh mar do meu coração!

Quando te ouço cantar
ou gemer na baixa-mar
à procura de sereia...

Quero contigo embarcar
no mar alto naufragar
no casco de uma traineira.

ou... então...

ir prender-me mar adentro,
de velas, soltas ao vento;
no rasto de um batelão! ...

Maria Helena Amaro
Esposende, agosto 2010

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2012/07/mar.html
 
Mar

Pobreza

 
Pobreza

Eu quero um manto escuro de pobreza
para cobrir meu frio coração
Um manto sem cor e sem beleza
sem as ardências de qualquer ilusão

O manto rico que outrora usou
tecido de rubis e pedrarias
o amor o vestiu, a dor o esfarrapou
e com ele a ventura, as alegrias!

E meu coração estremecendo
na friagem do cavalgar da vida
pouco a pouco se vai esmorecendo...

Ele que outrora foi todo valor
É hoje um mendigo de erguida
buscando na vida uma escola de Amor!

Maria Helena Amaro
13/12/2015

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2015/04/pobreza.html
 
Pobreza

A história do linho

 
A história do linho

O linho planta bela
tem a flor azulada...
(doba doba, dobadeira, doba,
não m' erices a meada...)

O linho foi semeado
de manhã, de madrugada...
Veio a chuva, deu-lhe beijos,
ficou a terra molhada...

Quando o linho é arrancado
fazem dele uma molhada...
O linho vai ser batido
com a minha mão pesada...

A água do rio há de
pô-lo da cor da nevada...
A luz do sol vai secá-lo,
enchê-lo de luz doirada...

O meu fuso vai fiá-lo,
fazer dele uma meada...
Tecedeira vai tecê-lo
no seu tear assentada...

Minha agulha vai bordá-lo
com linha toda asseada...
Olhai o linho bendito
feito toalha bordada!

(doba, doba dobadeira, doba,
não m' erices a meada)

Maria Helena Amaro
(letra de uma música sobre o linho)
1970

http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/2 ... /a-historia-do-linho.html
 
A história do linho

Quando eu era criança

 
Quando eu era criança,
De alma toda pura
Pensava que o orvalho das manhãs
Era pranto de fadas sem ventura...
As pedras do caminho tinham nomes,
As silvas eram belas
E quantas noites eu ficava ao relento
A contar as estrelas!...
Lançava nas poças, lá da rua,
Barquinhos de papel:
Iam cheios de bolas de sabão
Azuis ou cor de mel...
E as bonecas de trapos tinham alma
E sabiam chorar...
Quantas vezes, corria campos fora
Alegre, a saltitar!...

Quando eu era criança.
De saias rendilhadas,
A Primavera durava a vida toda
E a tristeza vestia-se de branco...
Erguia os braços atrás das borboletas,
Falava aos passarinhos...
E lavava as minhas mãos sedosas
Na lama dos caminhos...

Quando eu era criança
E as manhãs saudava a sorrir...
........................................................
........................................................
Depois...
Porque cresci, Senhor?
Os Homens ensinaram-me a mentir!!!...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

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Quando eu era criança

E tu não vens...

 
E tu não vens…

Prometeste que voltavas, disseste que virias
na luz clara de certa madrugada...
Mas nascem e morrem, em sucessão os dias
e eu espero a tua vinda alada! ...

Quando nascem as manhãs de primavera
e as mãos ponho em pala sobre os olhos
julgo ver-te surgir entre quimera
mas no além vejo um mundo de abrolhos!

Já basta de mentira, de ilusão...
Quero ver-te junto a mim de verdade
para afagar-te com todo o meu carinho...

Espero... sonho... arquitecto em função
mil fantasias tecidas de saudade
e tu não vens... Eu sei... Eu adivinho...

Maria Helena Amaro
19/05/1955

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E tu não vens...

Será loucura?

 
Será loucura?

Irmão: será loucura ser poeta
viver assim um longo sonho louco
ter a vida de certa borboleta
voar, voar, morrendo pouco a pouco?

Irmão: será loucura ser cantora
dum sonho que a alma acalentou
recordar o tempo que passou
quando o tempo foge vida fora?

Irmão: será loucura eu cantar
sentindo o mundo já a bocejar
destas maleitas que não têm fim?

Irmão: será loucura querer venturas
será loucura chorar só amarguras
vivendo a dor pela vida, por mim?

Maria Helena Amaro
Braga, 8/02/1954

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Será loucura?

...E o pó é nada!

 
… E o pó é nada!

Lábios sorrindo em doce comunhão
Rostos erguidos voltados para a vida
Peitos ardendo na chama decidida
Bocas unidas em rubra combustão!

Mãos agarradas em cruel crispação
Promessas loucas e ilusões perdidas
Vultos envoltos em dores muito garridas
como em lavas ardentes de vulcão!

Olho... Sorrio... Observo indiferente
Consumo tudo num ciciar baixinho
com minha alma triste, amargurada...

Quadro obsceno de fundo quase ardente...
- Homem que crês, retoma o teu caminho
olha que tudo é pó... e o pó é nada!

Maria Helena Amaro
13/05/1955

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...E o pó é nada!

A Velha Senhora 16

 
- Comer? Não quero nada.
A Idalina era boa mulher. Viúva, com um filho no Brasil, vivia da terra e para a terra. Semeava e colhia. Fora a primeira pessoa que conhecera, quando chegara à aldeia meses antes.

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A Velha Senhora 16

O Pôr do sol no mar

 
O Pôr do Sol no mar

Um dia fui ao pôr do sol ao mar
chorar as penas do meu peito dorido...
Eu quis contá-las, de manso, sem ruído
mas ele esquivo não me quis escutar...
Então sentei-me na areia macia
olhando o mar, azul, esverdeado
e chorei... e sofri...
Ao mar então pedi
um pouco de alegria!
Ele alegre, estouvado,
quis falar-me de amor
num tom quase encantado...
As águas verdes, claras, cor do prado
em mil rendas se quiseram tornar
para tecer um vestido de noivado
porque Sua Alteza, o Rei, ia casar!
Não aceitei, não quis
porque era amor sem lei
Não faças ninguém feliz...
Então
ele humilhado estendido no chão
ventou, sorriu e disse,
com tristeza e meiguice:
"Quem me fizera homem!"
E ao mar respondi:
"Eu gosto assim de ti,
azul, verde, cinzento
tecido de brancura
na paz ou no tormento
na luz na noite escura!"
E o mar poeta, sonhador
cantou-me um hino todo feito de Amor!
A noite tinha vindo luarenta
era a praia uma estrada cinzenta
debaixo de cristais...
Então eu disse adeus ao mar
e de novo senti no seu cantar
todas as minhas penas...
E ele meigo, um ciciar sem nome
cantou só para mim
como quem dá amor
em troca de renúncia:
"Hei de trazer nas minhas falsas ondas
um banho alegre de amorosas pombas
e um marujo alegre, sedutor...
E tu virás a visitar-me um dia
e em mim todo encontrarás amor.
Amor humano, ardente, feiticeiro
puro e transparente
tal como tu sonhaste
em tempos de menina...
E nele tu hás de encontrar a paz
e nos olhos do marujo mensageiro
verdes como o meu seio
tu hás de espelhar-te
como a alma se espelha
no meu manto de rendas
em noites de luar..."
Adeus, ó mar!

Maria Helena Amaro
16/03/1955

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O Pôr do sol no mar

Mar

 
Mar

Olho o mar; o mar é meu,
perto do mar eu nasci...
numa terra, aqui, aqui...
sob um pedaço de céu...

A terra que Deus me deu,
deu-me um amor que perdi,
amor que nasceu aqui,
perto do mar que é só meu

A areia sabe de cor
essa historinha de amor,
que o mar quis festejar...!

No tempo que já morreu
tive o amor todo meu,
amor que me deu o mar...

Maria Helena Amaro
Esposende
4 de agosto de 2010

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Mar

A Velha Senhora 64

 
Erga-se de manhã com o propósito firme de ir viver um dia «sim». Os seus meninos vão apreciar os seus fatos decentes, os seus sapatos citadinos, o seu sorriso de menina moderna, as suas falas de pessoa educada.
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A Velha Senhora 64

Canção do cego

 
Canção do cego

Sou o cantor cego à beira do caminho,
faço cantigas de fazer chorar...
Mas, só tu;
Só tu, ó meu amigo,
poderás ouvir o meu cantar...
Deixa que te acompanhe,
deixa que te conforte,
de mão na mão, até à encruzilhada
onde se esconde a dor,
para te ver passar.
Não queiras nunca caminhar sozinho,
pois, no dia em que chegar a dor
cantarei para ti,
somente para ti,
uma canção para que não tenhas medo.
A dor
é uma palavra verdadeira
que se aprende na vida,
a vida inteira,
em segredo.

Maria Helena Amaro
Maio, 2010

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Canção do cego

Encontro

 
Reunião de Curso - 2004

Tão bonita
tão bonita
era aquela primavera
Um vestidinho de chita
e um sorriso catita
pendurado na janela


Era bela a nossa vida
sem revolta e sem maldade
um passeio na Avenida
um sonho de liberdade

Tão distantes
tão distantes
as nossas recordações
nosso tempo de estudantes
nossas gargantas cantantes
mão cheiinha de ilusões...

Agora que já não temos
o fulgor da mocidade
quem fomos já não seremos
mas sempre recordaremos
o que deu felicidade

Vem refazer o percurso
numa romagem/saudade
Um grito... Um riso...Um soluço...
Um abraço de amizade
porque o curso, o nosso curso
é um curso sem idade.

Maria Helena Amaro
Inédito, agosto 2004.

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Encontro

Solidão

 
Solidão III

É nesta solidão que eu me encontro
e ponho nome às coisas e ruídos
pelo cheiro
pelo som
pela forma
e encho os meus sentidos.

É nesta solidão que eu me encontro
que recordo os tempos que passaram
Não lhe chamo Saudade
pois todos os dias estão comigo
e ficam comigo
toda a tarde...

É nesta solidão que eu me encontro
e rezo o meu rosário
e ofereço cada conta
por alguém que partiu e não voltou
Descubro assim quem sou
donde venho, onde estou,
para onde vou
e não vou caminhar
em sentido contrário...

É nesta solidão que eu me encontro
escrevo e sonho
e me sei descobrir...

Solidão tão povoada
tão colorida tão doce tão fagueira
é nela, que me encontro
neste silêncio e luz que não comprei
mas que herdei
e cultivei
que recebi e dei
a vida inteira!

Maria Helena Amaro
Inédito, 2/11/2004

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Solidão

Rosas desfolhadas

 
Rosas desfolhadas

Minhas ilusões são rosas desfolhadas
por mãos inocentes de crianças
pétalas brancas, soltas perfumadas
penas caídas de alvas pombas mansas

Minhas ilusões são rosas recolhidas
em tardes de magia e de calor
são restos de outras quimeras idas
que eu vivo agora neste «bouquet» de amor

Rosas belas que murcham ao sentir
da minha vida a anunciante dor
do meu peito o amor a ressurgir

Pobre de mim que só sinto o sabor
do perfume de rosas a florir
quando não sinto a ilusão do Amor!

Maria Helena Amaro
Esposende, 3/08/1953

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Rosas desfolhadas

Recordando 9

 
Avó, avozinha! Que fizeram de mim? Do passado nada existe; somente no meu olhar parado e indefinido ficou suspenso o encanto das tuas lindas histórias...

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Recordando 9

Prece

 
Prece

Senhor! A minha vida é amargura
É um abismo onde me vou perder
Eu que busquei viver só na altura
onde tu reinas com Divino Poder...

Senhor! Encontrarei ventura
nos caminhos da vida a percorrer?
Se digo "sim" logo a desventura
vem dizer "não" ao meu alvorecer...

Eu sofro Senhor! Mas porventura
um "sim" de vida é para ti um "não"
Um "não" de vida é para ti um "sim"!

Eu quero Luz, Senhor! Quero ternura
quero merecer do Céu o seu perdão
Quero encontrar-te aqui dentro de mim!

Maria Helena Amaro
24/12/1956

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Prece