Poemas, frases e mensagens de Tomásio

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Tomásio

NÃO TE ESQUEÇAS DE VOLTAR

 
"Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia." (William shakespear)

Levantas-te da cama e vás até á janela, ficas a olhar as casas, o céu e o mar. Depois voltas a deitar-te silencioso e eu a precisar que tu digas alguma coisa, mesmo que seja um disparate, uma asneira contudo tu continuas de costas voltadas para mim quieto e sereno. Mas o amor não pára quieto, encosto-me a ti, abraço-te como se tivesse medo que desaparecesses a qualquer instante, como se nunca tivesses existido, aperto-te as mãos frias como se quisesse aquecer-te a alma e o corpo, enquanto tu repetes:
“É tarde, tenho que ir.O táxi já está lá em baixo, á espera. “
Dispo-te pedaço a pedaço com o olhar, e tu desprotegido e nu sob o meu olhar, enrocas-te nos meus braços, preso na teia do amor, enrolado na aranha que a teceu:
“Gosto tanto de ti!”
O que podes fazer? Não precisas de ir já, assim tão depressa. Do que mais precisas agora é de adormecer e descansar ao meu lado mais uns minutos. O teu corpo é a minha paisagem favorita. Olho-te e estremeço. Tento aquietar-me qualquer barulho pode quebrar este milagre. Dorme meu anjo , mais tarde hás-de partir, e eu espero que voltes amanhã. Não quero que te lembres de tudo, mas o importante é que te lembres de mim. Tudo é muito e acaba por não caber. Não penses, pelo menos tenta não pensar em coisas impensáveis. O amor é também difícil. Só isso.
A pele que cobre os meus olhos, a saliva que nasce na minha boca deixaram de ser minhas e pertencem-te por inteiro. Não há outra maneira de dizer isto. Todas as outras palavras que te possa escrever serão apenas material de poemas. Deixa que te diga que se não houve um começo também não vai haver um fim para o nosso amor, por isso não se deve fazer nada, dizer nada, mexer em nada. Vamos ficar completamente parados e nada fazer, durante muito tempo o mais que pudermos aguentar. Vamos ficar só a olhar um para o outro. Eu ensino-te se tu quiseres. Vás ver que é tão bom. É o melhor de tudo. Uma forma de oração. Não há maravilha igual. Comer a realidade com os olhos e sentir o prazer a desfazer-se na boca são os meus únicos vícios.
Espero que voltes amanhã. Vai e volta depois. Mas amanhã é sábado. Talvez na próxima segunda-feira, é melhor assim. Perguntas-me se eu te posso esperar? Sim, claro que te posso esperar, mesmo que não saiba muito bem o que espero. E esse o verdadeiro esperar. Ninguém pode saber o que traz o amor. O amor é tudo o que se deve esperar. Os amantes regressam sempre quando a luz é pouca e o egoísmo é muito.Vai, não apanhes frio e depois volta.
O amor é silencioso como as plantas, não tem palavras. Nós apenas nos tocamos e nos misturamos, cada um quer o outro para si, enquanto o vento entra pela janela aberta, soprando levemente sobre os nossos corpos desencontrados e depois de novo encontrados com gestos de surpresa e gratidão como se fosse a primeira vez, e os gritos a saírem pela janela aberta por onde entra o vento, fazendo ricochete nas paredes, batendo uns nos outros como se fosse palavras sussurradas umas sobre as outras fazendo eco. Os corpos dobrados desarrumados num vai e vem enviando charcos de água para junto da cara. Abraçamo-nos com toda a força que temos como se os corpos tivessem a mais no meio do que queremos juntar, como se os corpos tivessem mortos e não pudessem desfazer o abraço que lhes tira a respiração, como se os corpos tivessem a mais e tivéssemos fartos dos corpos e da culpa dos corpos. Na verdade eles nunca existem senão nestes momentos que acabam sempre depressa.
Na segunda-feira podes vir se quiseres, mas no sábado não nem no domingo sequer. Está decidido. Na segunda ao fim da tarde, pode ser? Sinto-me enlouquecer com as tuas idas e voltas. Não há nada que eu possa fazer. Tudo é a mesma coisa que nada, e nada me apetece, senão estar assim contigo. Tens uns olhos cor de água e as tuas mãos são terra húmida, tens uns lábios doces como morangos silvestres e o teu sorriso é a melhor parte da minha vida. Gostas muito de te atrasar aos nossos encontros, demorar, mas nunca terminar. Não és nada romântico. És um bicho, uma alma perdida sem saber o que procura.E eu gosto tanto dos teus pecados! Não há nada que eu mais gosto em ti, meu querido. Gosto quanto me calas e me abraças e me fazes desaparecer. Somos ambos pecadores e é precisamente por o reconhecermos que somos humanos. Só por isso.
Não dês cabo de mim, amo-te muito, sabes. Se não fosses tu, meu querido seria outro qualquer. Tanto se me dava desde que fosses outra vez tu. Sempre tu. É esse o mistério, seres tu e poderes ser um outro qualquer, seres um qualquer para puderes ser meu. Só tu fazes eu ser quem sou. Sem ti nem saberia de mim. Podias ser outro, mas és tu porque és tu, não penses que podias ser outro noutro lugar, noutra cidade, onde o vento soprasse sem desgosto. É impossível, agora é impossível, devias saber, essa é a tua única desculpa, a tua mentira, porque tu sabes.
Tu gostas de ser diferente mas no fundo és como os outros e é escusado teres vergonha, não vale a pena, és assim e é assim que eu gosto de ti. És tu que me fazes falar assim, só tu e mais ninguém, juro. As palavras que te digo são mais tuas que minhas. Já nada me pertence nem corpo. És um mentiroso. Não acredito em nada do que dizes, mas gosto que sejas mentiroso porque preciso das tuas palavras. As tuas mentiras são verdades. E eu preciso das tuas mãos e da tua língua.Olha para mim, não tenhas medo. Sossega que ninguém nos ouve e ninguém nos vê. O mundo ficou lá fora. Repousa neste momento. Eu quero-te. O nosso amor não passará. Viverá fora do tempo.
Agarro-te primeiro com as mãos, depois levanto os olhos para te encontrar perdendo-me nos teus, os nossos olhos ao mesmo tempo a se verem nus, sem qualquer pudor como se tudo fosse possível mais uma vez. E eu transformo-me de concha inviolável a flor aberta ao vento que sopra da tua boca e me acaricia, muito agarrados começamos a beijar-nos por não haver mais nada que dissolva o tempo. Entretemo-nos com as bocas, a saliva, os dentes tocando-se com as línguas por dentro da boca,um buraco escuro, com os olhos ora fechados ora muito abertos incrédulos tudo isto durante mais algum tempo, antes que chegue a luz do dia, que chega para sempre sem pedir para chegar, sem avisar sequer e te leva para longe de mim.
O táxi já está lá em baixo, se quiseres podemos passear, pela cidade, depois eu vou mas juro que volto. Não, não quero passear. Hoje não é noite de passear! As noites de passear são as outras todas. Qualquer outra mas não hoje. Hoje não. Hoje é noite de me deitar sobre as pedras da estrada por cima do asfalto, abrir as pernas e gozar, pensando em frágeis pétalas de magnólias sopradas pelo vento ou em súbitas cataratas caindo do céu, pensando em poemas perfeitos como o refúgio de almas como as nossas. Pensando em ti e na tua graça de menino. Trago o teu nome no céu da minha boca e quero-te como a terra anseia a água que bebe.
Ressureição! Que palavra mais estranha que me fui lembrar, talvez seja porque eu ressuscito nos teus braços. Segunda-feira á noite volto a ser o chão que tu pisas, o ar que respiras, a beleza que recusa qualquer enredo. Voltaremos a procurar o divino que não tem rosto, porque é ele que procuramos um no outro ignorando se de facto o encontramos, só assim vale a pena. Se soubessemos o desfecho nunca começaríamos, procuraríamos quem somos e nada encontraríamos.
Penso em ti porque pensar chama-me para mais perto de ti. Penso que daqui a pouco partirás, mas voltaremos a nos encontrarmos e acabaremos sempre por nos perdermos no vazio que é nosso. Está-se aqui bem por isso apetece-me sempre que fiques, sem precisares de mais nada ou de mais ninguém. O tempo encobre a eternidade. E se ficasses uns dias seguidos, talvez uma semana ou um mês. Quem sabe, fosse a melhor maneira de te conhecer mais e melhor. Há outras maneiras, eu sei. Aliás há muitas maneiras de aprender a conhecer alguém mas nenhuma é perfeita. Gosto de te conhecer de uma maneira e de outra. Nem por completo presente nem inteiramente ausente por isso é que vás e voltas sempre. Como se fizesses um intervalo que vai daqui a além e volta. Desapareces e apareces sempre, uma espécie de qualquer coisa sem nome assim como se fosse entre a vida e a morte.
Mas o que me assusta mesmo, fico quase aterrorizada é não poderes voltar. Depois de começar a gostar de ti como gosto já não consigo me desfazer disso. Disso? Sim, eu sei lá o quê, daquilo que nos une até hoje, seja lá, o que tu quiseres que seja. Deixar de gostar de ti é outra coisa que não é o mesmo que se afastar. Começa-se a gostar sem saber realmente o que vamos encontrar e só se começa a gostar precisamente antes de saber. Só depois vamos sabendo aos poucos mas nunca chegamos a conhecer inteiramente. Ninguém conhece ninguém para sempre. Impossível. O amor é uma forma de conhecimento cheio de surpresas e súbitas duvidas. Umas vezes atraiçoado e outras não, sem nunca sabermos ao certo quanto engano o mistura. Depende muito do que vamos encontrando, no que vamos tropeçando, no que nos acontece sem querer. Eu amo o teu engano. O amor não tem cor. Vens quando queres e vais quando menos espero. Ninguém tem mão no amor. Então ele não acaba nem começa. Não há maneira de parar o coração. Sinto-me cheia de medo de amar. Mete medo o amor! Acaba com este medo que eu não aguento mais. Abraça-me e cala-me com a tua boca na minha.
A noite caminha apressada como se fosse uma pessoa, a noite caminha como se fosses tu que tens que partir e já estás atrasado. Vais a correr mas não te esqueças de voltar. Já há luz e eu tenho medo que mesmo assim não possas regressar por te perderes no caminho de volta. Sem qualquer maldade, simples por desconhecimento, porque eu posso acreditar que lá fora encontres o que quiseres e te esqueças de voltar.
A vida que nos deram não é nossa, apenas passa por nós, emprestada por algum tempo. Deixa passar o que tem que passar por mim por ti por nós. Se não for pedir demais, abre os olhos e vê o que está á tua frente. Desconhecida de mim própria á luz velada da lua bebo o veneno da tua imagem que me entontece. No meu coração só existes tu. Já é tarde, tem que ser assim,não apanhes frio, e não te esqueças de voltar.

Elmina Teresa
 
NÃO TE ESQUEÇAS DE VOLTAR

DO PARAISO AO INFERNO

 
"Não há paraíso sem serpente, nem céu sem demônio." (Goethe)

Outra forma de dizer “destino” é dizer “estava escrito”. Mas que peso traz a palavra destino quando não há outra para se aplicar ou então todas as outras estão desajustadas?
Entre o inferno e o paraíso a distancia é mínima e pode-se saltar de um para outro num abrir e fechar de olhos. Freud escreveu citando Platão, “... O criminoso é o que faz o que o inocente só sonha fazer...”
Tenho uma história para te contar. Não sei porque te quero contar esta história, talvez alimente a esperança que compreendas todo este enredo. É sobre uma mulher que nunca soube sequer que o amor pode nascer sem desejo, mas que ao contrário do desejo o amor não se desfaz com a morte do corpo. É mais uma história de um crime passional igual a milhares de outros. Uma mulher que engana com outro, o enganado descobre-os na cama e não descansa sem executar a sua vingança, e pronto “The end”. Há centenas de histórias assim, um triângulo amoroso, traição, ciúme, morte. Então qual é a novidade? A novidade é que esta passou-se comigo, entendes? Perguntas-me se é segredo? Olha é mais ou menos, é uma história que não ando a espalhar aos quatro ventos, conto-te porque sei que és um amigo verdadeiro, como há poucos. Ora estava eu dizer que te ía contar a tal história da qual me envergonho.
Tudo começou há muitos anos atras era eu ainda jovem. Andava com um grupo de amigos que não primava pelo bom comportamento, no entanto eramos muito unidos. No que diz respeito ás mulheres o grupo partilhava da mesma opinião, eram matreiras, um gajo tinha que se pôr a pau com elas. Todo o cuidado era pouco nessa materia, ao menor descuido, elas passavam-nos a perna, e enfeitavam-nos a cabeça. Com isto, não quero de modo nenhum dizer que nós não gostávamos de mulheres. Isso não. Saíamos até muitas vezes com algumas mas eram encontros sem importância e sem durabilidade. Não valorizávamos muito as mulheres e não confiávamos nelas. Contudo desde que conheci a Leonor que passei a descordar dessas opiniões, achava que não podíamos generalizar. Afinal ninguém é perfeito e existiam grandes mulheres neste mundo, como por exemplo a minha. Assim sempre que o tema de conversa no grupo era mulheres eu limitava-me a ouvi-los falar com desprezo e permanecia em silêncio.
Dizem que o amor não começa quando se quer nem quando se deseja que acabe. Quando é que o meu grande sentimento começou? Como é que me deixei amarrar assim, a tal ponto? Não sei meu amigo, apenas sabia que a amava muito. O mundo podia desabar, o céu mudar de cor e a lua cair de repente nada disso importava, contava apenas o brilho dos olhos dela. Amava-a de dia e de noite e o mundo não precisava de saber de nada. Às vezes pensava no nosso romance como se fossemos os dois personagens inventados de um filme do Woody Allen. A paixão que eu sentia era demasiado forte. Adorava a música do seu riso, mesmo numa época em que eu ainda não sabia ao certo quem era ela realmente. Saber demasiado acerca do outro também atrapalha os sentimentos é uma estupidez como outra qualquer. Foi fácil ser cativado por ela.
Uma noite, combinamos, eu e o meus amigos irmos para os copos. Estávamos já todos muito bem regados, quando um deles justificando-se com a amizade que nos unia, perguntou-me baixinho bem perto do meu ouvido se eu acreditava no amor, e se achava mesmo que era correspondido. Fiquei intrigado e desconfiado com aquela conversa e disse que se deixasse de rodeios, fosse directo e desembuchasse logo tudo de uma vez. Como amigo sincero, aconselhou-me a repensar o meu relacionamento. Muito seriamente disse que a mentalidade dela não assentava em nenhum princípio normal e harmonioso, que a história do abuso que ela dizia ser vítima era apenas uma criação da sua fértil imaginação, que me afastasse dela, porque eu só me iria dar sérios problemas. Toda a gente sabia que ela me enganava,menos eu claro.Pelo visto ela tinha se enrolado com uns poucos! Afinal era uma pessoa problemática inconsequente viciada no toque fácil. O meu amigo alegou que facilmente me poderia provar tudo o que me estava a dizer. Andava já há muito tempo para me falar no assunto e só não falou mais cedo por receio da minha reacção, mas que já não podia ficar calado porque os amigos são para as ocasiões.
Custou-me a acreditar que tudo aquilo fosse verdade mas ele falava com uma convicção tão grande que eu senti-me a fazer um papel ridículo. Afinal tinha deixado que ela me fizesse de palhaço. Como é que eu pude ser tão cego!
Não lhe falei a semana toda nem atendi os telefonemas, apenas deixei uma mensagem que me ía ausentar em trabalho por uns dias.No trabalho pedi a semana de ferias que ainda me faltava gozar e deixei-me ficar em casa a remoer toda aquela conversa. No sábado seguinte fiz uns telefonemas e decidi saí das quatro paredes e respirar o oxigenio do lado de fora do meu apartamento. Ouvi uma buzinadela, foi á varanda, o meu amigo dentro do carro acenava-me para descer. Quando acabámos de jantar,fomos ao bar do costume, e foi lá que eu ouvi falar duma discoteca a alguns quilómetros dali. Era um sítio muito “in” e muito bem frequentado. Nunca tinha lá ido e mais-valia que não lá fosse. O recinto não estava demasiado cheio, por isso não levei muito tempo a encontrar a Leonor. Estava no meio da pista, como sempre impecavelmente bem vestida. Os homens olhavam-na e pareciam querer desvendar os mistérios que se adivinhavam debaixo do seu vestido. O decote adivinhava o pecado, e as suas pernas perfeitas, o caminho até ele. Sentia-se dona de si, estava bonita, sem parecer vulgar. Tinha um brilho exterior atractivo e sedutor. Ela era uma mulher forte e muito decidida, ultrapassava qualquer obstáculo e chegava sempre onde queria. Sempre deu uma enorme importância à sua liberdade. Chamava-me retrogrado, porque eu não gostava de mulheres muito independentes, dessas que andam na merda das discotecas com as amigas a se esfregar num e noutro. Mas agora era ela quem estava ali a dançar e a se insinuar para os homens. Só podia dar problemas. Eu sou muito calmo mas acontece que dói tanto sermos prescindíveis, não sermos únicos, sermos trocados do tipo; agora prefiro este e não a ti. É uma defesa plausível recursarmos a acreditar no gelo do outro. E eu nem tive como me preparar. Chorar nem pensar, o meu riso foi o uivo da fera ferida e dentro mim rolaram pedras de gelo. Só que depois dei-me de conta já não podia aguentar por mais tempo aquela farsa. Haverá coisa menos inteligente que o amor? Como enfrentar que o amor que ela dizia sentir por mim não passava de uma reles mentira? Que idiota! Afinal, era só eu o culpado por tudo aquilo ter acontecido. Eu nunca quis enxergar o óbvio e acabei por me deitar na cama que eu próprio fiz. A minha fraqueza estava demasiado exposta. A vergonha! Alegando ao meu amigo vontade de mijar, fugi dali o mais depressa que pôde. Limitei-me a caminhar, que é o que fazem as pessoas que não sabem o que fazer nem para onde ir. O problema, era ter consciência de que não merecia aquilo, afinal eu sempre me tinha dado a ela por inteiro. O amor paga-se com amor, não é o que dizem os entendidos? Então como é que ela podia fazer-me aquilo? Caminhei durante horas sem parar.
O álcool ajuda, sempre em situações de sofrimento como aquela, por isso entrei na primeira tasca que encontrei no caminho e bebi desalmadamente. A paixão tinha sido uma coisa única, trágica, e cómica na minha vida. A frase borboletas na barriga, ironiza bem esse sentimento. Talvez eu nunca a tivesse compreendido, mas sempre a esperei com o coração cheio de amor, sentia-me encadeado pela sua aura de luz, achava inclusive que ela tinha asas em vez de braços. Tinha uma concentração obsessiva nela, nada mais me interessava, podia o mundo desmoronar que eu nem dava por isso. A decepção foi precisamente o terramoto, tudo se desfigurou diante dos meus olhos, uma composição dissonante. As paixões brutais são assim tudo pode suceder num atropelo apenas. Como é que ela tinha sido capaz de me fazer aquilo? Quando é que ela tinha deixado de me amar?
Amanhecia quando parei em frente á porta dela. Indecisivo fiquei algum tempo a pensar se subia ou não. Tinha uma dor do tamanho do mundo e estava enlouquecido pelo ciúme. Subi no elevador, tinha o coração acelerado, mas queria ouvir uma explicação. Meti a chave á porta o apartamento estava sob uma penumbra de luz. Entrei pé ante pé para ela não a despertar assustada. A porta do quarto estava entreaberta. Aproximei-me sem sequer respirar com medo de despertá-la com algum ruído. Depois comecei a prestar atenção ao que se passava lá dentro. Ela estava deitada sobre a cama e ele de joelhos a beijar-lhe entre as pernas. A luz era pouca mas suficiente. Empurrei ligeiramente a porta mas não me aproximei, fiquei ali na penumbra, encostado á parede com muito cuidado para não bater na cadeira vestida com as roupas despidas. E depois sim fixei-me na cara dela e vi o prazer, como se isso fosse coisa que se visse, depois ouvi as palavras sussurradas que eles diziam um ao outro enquanto se agarram. Ele beijava-a o tempo todo e ela arfava de prazer.
O ódio invadiu-me, tomou conta de mim, completamente. Os pensamentos iniciaram com varias versões de violência e horror. Ainda não tinha um plano, mas no meu subconsciente arquitectava varias formas de morte. O meu amor por ela conduzia-me á tragedia. Começou a me agradar muito o terror de ter de a matar para vingar o meu orgulho ferido, mas tinha que ser sem interferências de qualquer espécie e de forma a suprir as provas que me incriminassem. Ainda não era o momento por isso saí da casa dela e esperei pacientemente o dia para pôr o meu plano a funcionar. Nada se desenvolvia na minha cabeça, tudo era repetitivo, como um massacre dentro de mim mesmo. Era incapaz de pensar noutro assunto. Sentia-me atulhado de indecisões, como uma hemorragia descontrolada sem fim á vista. Via-me a entrar lá em casa sem que ela desse por isso, como um intruso de arma na mão a espiolhar todos os cantos á procura da minha vítima. Não tive dificuldade em escolher, entre o dia e a noite. O plano não estava completamente estruturado mas não tinha dúvidas, que seria durante a noite. Simularia um assalto e ía matá-la na cama, onde ela me traiu. Mas como arrombar a porta de modo a parecer um assalto? Melhor seria encarar a fera de frente e confrontá-la com os factos, por isso bati na campainha e esperei que ela viesse abrir a porta. Nem teve o cuidado de olhar no olho mágico mas assim que abriu a porta tentou logo fechá-la de seguida para me impedir de entrar mas eu fui mais rápido, meti o pé e forcei a entrada. Ela foi recuando alguns passos, enquanto me dizia que eu não tinha nada a fazer ali. Conheço a tua historia conheço a história da tua vida. Odeio-te e odeio a vida que levas, não sabes o que é amar, és amada segundo os valores envenenados do amor. Vives no meio de excessos e gemidos de tonta e frívola. Metes estranhos dentro de casa, amantes suspeitos e sentimentalmente obscuros. Confias nesses vigaristas, nesses exploradores sexuais. Sei muito bem quando uma mulher revela um instinto de puta. E sei também que a mentira é um pilar da mentalidade da puta. Mentiste-me, encheste-me a imaginação de mentiras e enganos, sua cabra. Asilas dentro da tua casa cães que mijam no chão sagrado da suposta dona. Defecas em cima dos sentimentos dos outros e em cima do teu próprio destino.
Seguia-a até á cozinha, sempre num despique violento e descontrolado.Ela respondia mas eu já não a ouvia. Eu parecia um animal a metamorfosear-se, um réptil, rastejante, de sangue frio, capaz de viver com a cauda cortada. Vi a faca sobre a mesa a chamar por mim a pedir que a agarrasse e a esfaqueasse nas costas e depois pela frente em silêncio. Foi tudo muito rápido e chocante. Nem os gritos dela ouvia, pelo terror dela me ter fugido, preferia vê-la morta em sossego, livre dos bodes que vagueiam por aí, nas sarjetas. Tinha que salvá-la de toda a confusão que era a vida dela e depois então podia ficar em paz. Uma nuvem de sangue tingiu subitamente o chão. Agora já me podia retirar. Senti uma onda de cansaço e vergonha a subir-me pelo peito e a sufocar-me a garganta. O corpo dela estava no chão estendido, o sangue escorria pelos azulejos. Sentia a face esquerda do meu rosto a latejar de ardência e picadelas de comichão em consequência do pânico que me possuía. A minha mente estava atacada pela perversidade. Corri para a rua. Destruído por dentro, andei horas às voltas, agarrado ao volante com o cigarro a arder entre os dedos. Um autêntico castigo. Por fim estacionei em frente á esquadra e saí. A rua estava deserta, avancei com um ar pesado, cansado, de cabeça baixa evitando o contacto visual com as poucas pessoas que encontrei, os carros avançavam furiosamente como se tivessem razão para tudo. Eu era um sobrevivente dum combate injusto. Deprimido afundado numa tristeza sem precedentes, com uma angústia que apertava sabe-se lá onde, confessei o crime, o assassinato que acabara de cometer.
Fui preso acusado de homicídio voluntário e foi isso mesmo que me foi comunicado primeiro pelo comissario da polícia que me recebeu naquele dia e depois pelo juiz da comarca, o qual me fez saber que havia contra mim provas materiais. Eu não estava em mim quando me foi lida a sentença estava de boca aberta com uma ar tão incrédulo, que quando terminou a leitura o magistrado olhou-me e perguntou se havia alguma coisa que eu não tivesse entendido. Respondi-lhe ter percebido perfeitamente ou seja que não tinha nenhuma dúvida sobre o teor da acusação, mas que não era capaz de perceber como tinha sido capaz de cometer aquele terrível acto, visto que a amava sinceramente, que ela era a mulher da minha vida e portanto devia estar possuído por uma força estranha isso podia jurar pela minha palavra e pela minha saúde. O juiz escutou-me meneando a cabeça e quando terminei de falar disse:
«Ou o Sr. é muito parvo ou está a tentar fazer-se de parvo, e a mim não me parece que possa se atrever a tanto, pois o seu caso é grave, é mesmo bastante sério e uma atitude como essa inevitavelmente só agrava ainda mais a situação em que já se encontra.» O juiz parecia uma pessoa muito sensata e tendo em conta os factos presentes decretou logo a minha prisão imediata.Vivi durante uns bons anos num lugar gradeado protegido de mim e do inferno dos outros. Deixei de ter amigos. Soube depois que ela sobreviveu aos golpes e às feridas, o que me pareceu mais um castigo do que propriamente um milagre.
A mulher que eu amava e confiava tinha-me enganado, e eu já não sentia mais falta de nenhuma dela. Fartava-me de repetir isso para mim mesmo, talvez porque me quisesse convencer. No entanto secretamente, á noite quando já todos dormiam eu escrevia-lhe cartas de amor, e falava-lhe do meu enorme sentimento. Apesar de tudo o amor não havia sido desfeito. Escrevia uma por noite. Escorria-me sobre o papel lagrimas de um homem solitário, mas eu continuava a escrever-lhe cartas lindas, que ainda hoje estão atadas e guardadas em lugar seguro longe de olhos estranhos. Os meus dias na prisão eram preenchidos pela recordação dela e as noites eram feitas de palavras escritas. No bolso junto ao coração, guardava a sua foto dobrada com todo o cuidado, e revia-a sempre às escondidas, desfeito pela saudade, enquanto varria vagarosamente o chão. O tédio matava-me. O tédio tirava-me a vontade e tornava tudo muito pior. Ali, atras das grades, eu tinha tempo todo para mim e lembrava-me estava sempre a lembrar-me até do que julgava ter esquecido dela. Incrivelmente queria poder voltar vê-la, queria que ela me visitasse, mas continuava a ter muito medo de mim mesmo. Andava sempre acompanhado pelo fantasma dela. Nem sequer lhe queria pronunciar o nome. Evitava o nome dela. Retalhava-me um nervo qualquer.
Falava muito pouco dentro da cadeia, não adiantava falar, lá ninguém acredita em ninguém. Nem sequer apetecia confessar-me arrependido. Preferi sempre fazê-lo nos traços da caneta que liga o silêncio da morte á vida das palavras. Deixei-me ensopar nas palavras como se flutuasse num céu arrumado. Como vês não é apenas uma história o que te estou a contar. Talvez seja um episódio da minha vida que eu recordo como completamente íntimo e completamente interior. Estou aqui no meio deste relato e não sou eu. Deixei há muito de saber quem sou, parece até que já nem sei como me expressar. Mas insisto em te contar. Que grande cena!
Ela aparece com frequência nos meus sonhos e arrasta-me com os seus inexistentes braços. O sentimento de culpa que carrego não dá mesmo com nada e eu sei muito bem disso. De qualquer forma é tarde demais para lamentações. Ando numa pilha de nervos. A única coisa que sei te dizer é que atentei contra a vida de uma mulher. Melhor é nem pensar nisso. É que não me dá gozo nenhum ter remorsos. Acho mesmo que estou a ficar choné, meu amigo. Não encontro serenidade, por isso agarro-me ao atalho mais rápido que é a autopiedade. Aquela mulher não tinha culpa de não ser dotada de inteligência, e não tinha que arcar com o peso violento da minha raiva, a raiva que a beleza dela me despertou.Eu quis matá-la, entendes isso, meu amigo? Olha que eu não estou a brincar, o remorso come-me até a alma.
Deita isso para trás das costas. Não se pode mudar o passado. Eu não sou nenhum juiz para te julgar. Se me dissesses que querias salvar alguém e foste preso injustamente, eu embora não te pudesse ajudar lamentava, mas tentaste matá-la e pagaste por isso. O que está feito, feito está. Parece até que ainda estás apaixonado por essa gaja.
Ora deixa-te de merdas, já se passaram muitos anos. Esquece.
Deixa-te tu dessas merdas de remorso, ouviste? Ela teve o que merecia, um gajo também não é de ferro. Eu entendo-te muito bem, se fosse comigo também não se ficava a rir.
Sabes agora que me recordo com mais pormenor dos acontecimentos daquela noite, vejo mais claramente os contornos exactos da armadilha em que caí, e nem mesmo tenho certeza sobre o que me aconteceu, e como foi capaz de fazer o que fiz. Durante os anos que passei atras das grades, ansiava apenas que o tempo passasse depressa e que me deixassem ir embora dali e se esquecessem de mim tão definitivamente como eu queria me esquecer do que ficou no passado. Pretendia queimar os livros, destruir os CD, rasgar as fotografias, lançar para longe todos os pedaços do amor que me uniu a semelhante pessoa, e depois finalmente dormir na minha cama três dias seguidos e depois acordar como se renascesse para uma vida tão pacata o quanto pode ser a vida de um homem como eu. Pretendia inclusivamente levar a cabo uma cerimónia qualquer que me permitisse exorcizar tudo o que eu vivi, um gesto simbólico, qualquer coisa, que me permitisse esquecer ou duvidar que tudo aquilo sucedeu realmente, ainda que não houvesse na vida que me esperava alguma coisa que valesse a pena e eu soubesse que iria correr o risco de passar os anos que me restavam conversando como um autista. Depois de tudo o que tinha sido publicado nas noticias nos jornais, quando saísse da cadeia ía me sentir ainda mais prisioneiro, ía manter-me em casa durante a maior parte do dia, a fim de evitar que me apontassem na rua, que escarrassem para o chão quando eu passasse, que me olhassem de um modo ameaçador, como se a minha presença pudesse constituir uma ameaça á paz da comunidade e fosse afrontoso o simples facto de eu estar em liberdade, antecipadamente culpado do crime que cometi.
Talvez eu pudesse pelo menos empreender uma viagem, talvez pudesse viver durante algum tempo disfarçado dentro da minha própria pele e não voltasse a ser triste e soturno. Ainda que para mim fosse bizarro empreender uma viagem por causa duma mulher que tentei matar, que bem vistas as coisas era uma mulher igual a tantas outras, confusa bipolar, incapaz de amar muito tempo a mesma pessoa. Não se pode endireitar quem já nasceu torto, e há pessoas predestinadas ao erro que não podem fugir ao destino e parecem fazer questão de errar de um modo consecutivo. Mas eu não. Eu aprendi a minha lição. Nada disto é particularmente interessante, ainda que tenha realmente acontecido e eu não o tenha inventado. Mas ainda assim queria convencer-me de que lá fora tudo continuava ainda igual ao que sempre foi.
Actualmente os anos e o remorso ensinaram-me a gostar de outro tipo de mulheres, que têm a mais velha profissão do mundo: as putas. Em tempos tinha-lhes nojo mas agora vejo que não são melhores nem piores que as outras que têm outras profissões. Prestam igualmente serviço á comunidade, e em condições bem penosas, porque são penetradas, invadidas, apalpadas, manuseadas por estranhos, muitas vezes tão repulsivos e velhos como eu. Satisfazem os nossos impulsos animalescos em troca de pequenas remunerações e evitam que andemos pelas ruas como cães a farejar com o cio. Confesso que sou um frequentador assíduo, não sei se é pecado ou não e depois também o inferno é coisa que já não me atormenta por aí além, mesmo que me procurem dissuadir a prática de comportamentos desviantes com a ameaça dessa pena, isso já não funciona. Nunca vai funcionar. Para quê sacrificar o prazer á sensatez, quando só vai para a cama com uma mulher que só faz sexo? Já foi do tempo em que as palavras eram necessárias mas agora diz-se tudo o que é desnecessário.
Não deixei de ser sensível a um corpo bem contornado, a um par de mamas salientes, ou ao sorriso de uma linda mulher. Quando vejo alguém assim imagino-me a mexê-la, mas é uma imaginação curta sem vontade de enredo amoroso. Deixei de ser escravo indiscriminado, o que sem duvida é uma libertação. Bebo uns copos com gente que tal como eu quer afogar as mágoas e de vez em quando dou uma trinca nas putas. Desapareço no fundo delas e faço com que elas desapareçam no fundo de mim. Todos os homens têm as suas fraquezas e os seus maus bocados, eu não sou excepção. Vou às putas provar a mim mesmo que ainda me mantenho vivo no sobressalto morno das carnes delas. Não as desprezo mas no entanto acho que seria incapaz de se casar com uma delas, embora admita que algumas sejam bem bonitas, meigas e doces. Aliás sei muito bem que mulheres como elas não se casam com homens como eu, elas apenas querem sexo sem compromisso. No fundo sonham com príncipes bonitos e jovens que lhes regate da vida que levam e não homens como eu velhos e decadentes, tristes e ridículos, quase só osso, como um fantoche de papel velho, os testículos pendendo nas suas peles murchas e as canelas envoltas por meias de lã grossas e feias. Os meus músculos ainda reagem quando solicitados mas parece que se rompem a cada movimento, as articulações funcionam no limite das minhas capacidades como engrenagens enferrujadas, bolorentas e pouco decrepitas. Os velhos não são bonitos, às vezes até são repulsivos e repugnantes. O tempo é tão raivoso. Quanta diferença! Nesta fase da minha vida herdei uma ossatura subnutrida e uma certa proeminência abdominal, sublinhadas ambas por um romântico par de olheiras que me conferem um toque de fragilidade. Mas sinto-me bem ainda assim. O envelhecimento tem-me tornado um homem mais rijo, efectivamente. Seria muito bom se a medicina pudesse travar este processo, podia até ganhar anos mas acho nunca conseguiria corrigir a minha vida. E como seria a minha vida corrigida? Se me tivessem dado a hipótese de começar de novo agora, o que faria? Mas o que me interessa agora essa coisa da vida corrigida?
A Leonor desapareceu da minha vida há uns tantos anos, e eu pensei que já tivesse ultrapassado toda esta história. Acho que sei muito pouco sobre mim mesmo. Na verdade sou um homem que precisa de exorcizar a culpa para não se afogar nela, por isso é que prefiro antes me afogar no vinho. Ninguém me ensinou a chorar, aprendi sozinho, por isso não se armo em Deus. De madrugada quando as tascas encerram portas, despeço-me em silêncio e caminho pelas ruas estreitas e estranhamente desertas. Sinto por vezes vontade de me matar. O facto de ter agido com vileza agravou este fardo da culpa, da vergonha e da traição de mim mesmo. Tudo somado não sei como suportei até hoje este enorme peso sobre as minhas costas e como ainda não me matei com um tiro na cabeça. Às vezes ocorre-me que podia tê-lo feito há muito tempo atrás, podia ter engolido a mesma lâmina assassina, e o meu corpo ter tombado ensanguentado junto do dela. Mas nunca ninguém me ouviu dizer isto em voz alta. Aliás nunca ninguém perdeu um minuto sequer para me escutar. È tarde, meu amigo tenho de ir andando, agradeço a tua disponibilidade. Até amanhã.

Elmina Teresa
 
DO PARAISO AO INFERNO

MANHAS E MANIAS

 
“Nunca se vai tão longe como quando não se sabe para onde se vai.“ (Cromwell)

Abro um sorriso
Com vontade de ter ver de novo
Espio atras da porta o teu chegar
Abro-me tal qual uma flor
Descubro que não quero viver sem ti
Toco na tua boca
Abusada e atrevida
Perco-me no extase dos teus labios
Faço voos rasantes nessa boca adocicada
Viajo pelas ilhas da tua lingua
Que me conduz ao eterno delirar
A tua presença tem sabor
Desenho madrugadas sem luar
A tua fragancia entorpece-me
Um enorme prazer me enlouquece
Quero ser as tuas ocultas fantasias
Os teus desejos mais secretos
Os teus sonhos mais discretos
Ser as tuas manhas e manias

Elmina Teresa
 
MANHAS E MANIAS