Poemas, frases e mensagens de NathanSSousa

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de NathanSSousa

A abelha de Salvador Dalí

 
Por inóspitos caminhos deslizou
suas pernas cansadas
sob o sol de estio.

Entre relvas e ervas descansou,
no torpor envolvente a imaginar,
que da ampla seara ao se deitar,
desgastada das regras da razão,
voariam os deuses da imagem
numa nesga de errônea devoção,
onde tigres ferozes não mordiam
ante a dança profana surreal,
já que a abelha,
(rainha magistral)
sem saber que do mel tudo podia,
realçava a beleza e a poesia
de Dalí em sua tela genial.
 
A abelha de Salvador Dalí

Combate

 
Escrever poemas
é como rasgar a camisa,
mostrar o peito,
se armar com uma faca cega,
olhar no olho do mundo
e autorizar:
pode vir.
 
Combate

esperandança

 
só espero de mim
tudo aquilo que posso
e ainda não tenho
mas se tudo isso
trouxer somente remorso
acalanto meus desejos
para não ser tão ferrenho
 
esperandança

Persianas de prata

 
Do lado de fora da casa
os muitos passos da mulher com receios
caminham na rua.

Um único efeito é lançado
em seu âmago
a consumir-lhe as solas dos sapatos,
e cada passo a mais
representa um medo a menos.

Na rua vizinha,
vislumbra um sinal distante de seu homem
a matar-lhe o perigo.
 
Persianas de prata

Incerteza

 
Hesitei em mandar aquela mensagem
e o laptop paralisou em frente à tela
quando pintei a óleo
o embelezamento da dúvida.

Era uma mensagem quente, caliente,
que hesitei em mandar
e meu sentimento ficou off-line
a queimar como gelo.

A mão sobre o mouse,
o dedo lesionado
e o olho ressecado,
atentos ficaram
à espera de uma ordem para
deletar a timidez,
antes que eu decidisse em ser resetado.
 
Incerteza

Arma branca

 
São quatro os símbolos cortantes
que gravam o teu nome no meu corpo
ardente;
são facas afiadas que reluzem o brilho do amor;
do amor que me mata
sem que haja tempo
de matar a fome.

Ataca-me como uma arma branca
deslizando,
perfurando,
cortando com contundência,
fazendo jorrar o rubro deste sentimento que não estanca.

Desarmado,
sinto as últimas linhas
de sangue que escorrem traçando
as quatro letras que me acalmam
nos instantes finais,
mas ainda vivo.

Em quatro tempos me matas
e, ferido,
sinto lacerar a certeza de que esta dor
(por mais que queiram)
não fere mais do que a falta
das facas.
 
Arma branca

Planta do pé

 
Munido de força e escuridão
arrasto-me pelo calçamento pedregoso
rumo à lida educativa
a professar palavras
incompreendidas.

Penoso trajeto
que realizo
sentindo quente o pé direito
a tocar a solidez do chão,
quando o salário
não dá para comprar um novo
sapato.

Sem salário,
estouram-se os calos de sangue
que se formam em meu pé,
aumentando minha coleção de calos
como bem previ em minhas palavras
proferidas sem compreensão.
 
Planta do pé

Luminária

 
Da tarde nublada
sobrou a mordaça entediada
e os frios ventos da distância
sabatinavam minha modorra televisiva.

Não tinha sono, nem mesmo insônia.
Fui vitimado por uma lucidez irritante,
inebriado por uma coerência
que me impedia o descanso,
a fuga.

Eu desejava dormir
profundamente.
Eu desejava sonhar,
certamente.
Eu não conseguia acordar,
com razão.
 
Luminária

Prato principal

 
Deixe-me passar com esta dor e amor
Não bata em seu rebento, faça-me o favor
E não pise na grama do canteiro em flor
A vida é dar ou desce e mesmo assim não dou.

Atravesse a rua e a Ponte Wall Ferraz
Resolva seus problemas, vá com todo gás
Prove da buchada, bote um pouco mais
Morreu Maria Preá e agora o que se faz?

Serve a tua carne seca e vem
Saber que teu dinheiro não vale um vintém
Serve a tua carne seca e vem
Saber que nem é teu aquilo que tu tens.
 
Prato principal

O comum das coisas

 
Nas casas desertas
vegeta o comum das coisas incomuns
e a rua parte os laços para que nem tudo
se perca entre os quartos,
e para que ainda haja o gosto
de se encontrar palavras.
 
O comum das coisas

por aí

 
o medo que tenho da solidão
é o mesmo que me afasta da multidão
e, assim, medroso polar
estreito os laços da vida
expandindo meu jeito de andar
 
por aí

Cavalo selvagem

 
Não sei decorar poemas,
pois os poemas não ficaram
para serem decorados.

Poemas não ficam.
Poemas transitam
em grandes saltos,
galopando em terras selvagens,
decorando minha sala
selada.

Não sei decorar poemas,
nem domar suas pernas aladas,
quando se lançam em disparada,
assustados.

Só sei enfeitar minha mesa de mármore,
que queima e me inferniza
quando leio poemas,
segurando em suas rédeas
desabaladas.
 
Cavalo selvagem

A esfera ofegante

 
Era noite e o vento assobiava
em meus tímpanos aquecidos
pelas brasas do tempo
quando o éter das horas derramou
suas gotas na esfera ofegante de minha cabeça
vadia.

Na passagem das horas
Netuno chacoalha os braços,
ondulando os peixes da desordem
em alto mar de palavras caladas,
paradas,
aladas,
fazendo crescer o silêncio
em seu ímpeto de delfim.
 
A esfera ofegante

Alta estrada

 
Como quem encontra
a saída da cripta,
cresço no fogo e no ar,
forjando o tempo,
no tempo onde o tempo tinha tempo
de esculpir e encarnar
o que antes
cuspia e escarrava,
até que fossem expulsos da garganta
os resquícios mais mundanos.

Respiro fundo e por um instante
sinto fortes pulsações
na fração suspensa do tempo parado.

Meus devaneios são protegidos por uma cortina de pó
no exato instante em que
toda a literatura do mundo
parece um pé na estrada
ou um uivo distante.

Na dúvida, botei um disco de Bob Dylan
para atrair as madalenas do deserto.
 
Alta estrada

Sustentáculo

 
Não vejo mais sentido sem seus afagos
e, sem sentido fiquei, quando sentei no batente
da casa de minha vida,
que antes de tudo era de minha avó.

Minha avó me ensinou a ser exímio
em enfiar linhas em agulhas,
tornando-me vitorioso
no auxílio preciso de sua costura.

Sem seus afagos fiquei como a linha:
sem agulha para entortar o pescoço
e sentado no batente da entrada da casa de minha avó,
subjugado,
sem saber que o sentido são meus olhos que dão.
 
Sustentáculo

Banho de sonhos

 
em meus anos de menino sempre sonhei com o azul
e nestes sonhos me banhei

e todas as manhãs me banharam com a luz
só assim despertei
do sono profundo que me fez pensar
que o peso dos dias
só faz desbotar
todo as conquistas
de um nobre rei

já na mocidade vivi a ilusão
(só assim amei)
e todas as noites eram de aflição
não acreditei
que tudo o que vinha do lado de lá
eram novas formas
de saber sonhar;
eram novas formas
de libertação

chegando aos 40 me tornei assim
impaciente
e já não sei mais o que será de mim
(mundo inclemente)

só sei que um dia
em outra estação
contemplei as coisas
que não voltarão
e todas essas coisas
descolorarão
para que eu possa
banhar novamente
 
Banho de sonhos

Margem de erro

 
A linha reta do asfalto
não afeta os desníveis de um destino
que não conhece o livre-arbítrio.

As facas já não riscam
em desalinho às cegas,
e o asfalto quente,
escuro,
manchado, marcado,
faz o passo preciso, trôpego,
deslizar na luta contra o estático.

Aqui vai um aviso:
não conheço a medida dos doutores
muito menos a dos bestas,
nem desvio o peso das palavras,
mas reconheço minha margem de erro
nos milímetros deste transe.
 
Margem de erro

bon apetit

 
alimente-se com a alma
de quem se delicia com o prato principal
decorado com os sabores de tua carne
oferecida como entrada para beijos
de sobremesa
 
bon apetit

ressurreição

 
da vida morta
refiz os traços
mas quem se importa?
 
ressurreição

Meras palavras

 
Como um faraó desconhecido,
mumifiquei o estado emocional
do homem sem fogo
para que não houvesse
nenhum manifesto pavoroso
com a palavra dada.

Palavra da salvação!
Tomara.
 
Meras palavras