Poemas, frases e mensagens de FabioVillela

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de FabioVillela

Asas, quem dera

 
Quem dera, Ícaro, tuas asas não
tivessem derretido e o teu voo
nos ensinasse que há algum sentido.

Quem dera, Cartáfilo Errante,
que teus passos
chegassem a algum destino
e que o nosso andar não fosse apenas
o nosso destino.

Quem dera, Cavaleiro Andante,
que a tua sacra insanidade
decretasse o fim de
toda mediocridade.

Quem dera, Santos Loucos,
que as tuas guerras tivessem derrotado
a árida realidade que nos apequena
nesse obscuro canto de cena.

E quem dera, Poeta, teus versos
fossem uma trilha sempre seguida
entre as cores e as dores da vida.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.
 
Asas, quem dera

A Moça de Cima

 
O espelho que não posso ver
(e que tanto me atemoriza),
anuncia-se.

Em quanta angústia ela se exaure
para que necessite que eu a saiba?

Sou a aranha kafkaniana a ser seguida
por teias inexplicáveis.

Estão iniciados os terrores noturnos
em que os invisíveis, mas sabidos,
olhos paranoicos da moça de cima
esquadrinham a minha solidão insone.

Os passos que pisa e a mobília que arrasta
são duros, secos, aflitos.
São gritos.

Rudes gemidos, sem a elegância
dos líricos sofrimentos.

Quão pouca ciência impede-lhe de ver
que a soma de nossos nadas
proíbem uma mera unidade?

Em qual vazio se debate o seu desespero
em busca de uma luz
que já não tenho?

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, inverno de 2015.
 
A Moça de Cima

Antigas Traições

 
Malha a bigorna o coxo Hefesto
enquanto remói
o ciúme e todo o resto.

Maldito Ares (!), vocifera.
Maldita besta-fera que trouxe o gozo para Afrodite,
amante insaciada,
qual fêmea alucinada.

Deuses! É hora da justa vingança
(nela repousa a última esperança).
Expulsemos a febre malsã, de todo amanhã.

Que se exponha à censura, a vergonha do adúlteros.
Que lhes cessem toda mesura,
pois eis que traíram o sonho,
que ao ferreiro permitiram.

Que gemam cativos na rede dos mortos-vivos.
Que peçam clemência pelo estupro da inocência.
E que implorem por um gesto de nobreza,
pela impudica paixão acesa.

Que nada mais se lhes conceda,
pois macularam o Olimpo.
Que morram como os mortais,
e que Hesíodo, para sempre,
oculte os imorais.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, outono de 2015
 
Antigas Traições

Indiferença

 
O homem vestido de cinza rotina
caminha mecânico em seus círculos,
esquecido de sua desimportância.
Ao lado, a folha seca voa
sem perceber
a indiferença do vento.



Lettre la Art et la Culture
 
Indiferença

Voltaire e o Iluminismo francês - Parte V - Cândido (o Otimismo)

 
Devido, então, à proibição de voltar à França Voltaire mudou-se para “Les Delices” e logo depois se transferiu para Ferney, uma localidade limítrofe à Suíça e a França, onde ele se fixou até o fim da vida.
Suas constantes idas e vindas anteriores não se deveram apenas à inquietude de seu espírito, mas, também, às perseguições que sofreu; porém, ali, ele encontrou a paz e a segurança de que necessitava. Um plácido refúgio.
E na nova vivenda permitiu-se viver de forma pacata, porém o mundo culto não podia prescindir de sua erudição e não tardou para que o assédio voltasse a lhe perturbar o sossego.
A exemplo de Cirey, a nova casa se tornou a “capital intelectual da França”, para onde acorriam padres céticos, aristocratas libertinos, cultas senhoras, jovens estudantes e estudiosos não tão jovens.
Não eram raras as visitas de homens ilustres, como, por exemplo, as dos historiadores Gibbon e Boswell, da Grã Bretanha; dos Filósofos franceses d´Alembert (1717-1783) Helvetius (1715-1771) e de vários outros adeptos do Iluminismo.
Um fluxo interminável de admiradores que agradava ao filósofo, mas como ele era sabidamente econômico, logo começou a se ressentir pelos gastos que representavam; e seus protestos, feitos com suas tradicionais e espirituosas tiradas, tornaram-se proverbiais, como as que seguem:

“Voltaire para um hóspede: - qual a diferença de vós para Dom Quixote? Ele confundia estalagens com castelos, e vós confundis este castelo com uma estalagem”.
“Deus me proteja de meus amigos; dos inimigos, eu mesmo cuido”.

E além das visitas pessoais, o assédio também se dava por via postal, tornando-o um contumaz correspondente de importantes figuras da Europa, como o Rei Gustavo III, da Suécia, que se declarava privilegiado e honrado por saber que às vezes Voltaire interessava-se por seu reino, o que constituía o estímulo necessário para que os suecos tentassem ser sempre melhores; o rei Cristiano VII, da Dinamarca, que lhe pedia desculpas por não ter conseguido, ainda, implantar todas as medidas que ele preconizara; a grande soberana russa Catarina II que lhe enviava presentes valiosos e sempre se mostrava preocupada em estar incomodando-o; e vários outros luminares da época. E até mesmo Frederico, o Grande, não resistiu à sua genialidade e pediu humildemente para retornar ao “rebanho”, através de uma missiva em que consignava a sua admiração, dizendo que: “serieis perfeito, se não fosses homem”.
Uma verdadeira torrente de loas, de elogios e, talvez, de afeto e de admiração sinceros. Tudo, em suma, que deveria alimentar a conhecida extroversão de Voltaire; mas, para surpresa geral, aquele anfitrião tão alegre, acabou se transformando em um dos expoentes do Pessimismo filosófico. A imagem daquele farrista que brilhava nos salões de Paris, que havia visto e vivido o melhor lado da vida, apesar da Bastilha, ainda estava presente na lembrança de todos, mas já não era real.
Por baixo de sua imperturbável amabilidade e fineza, crescia-lhe um severo sentimento de contestação contra aquele “Otimismo exagerado” que havia se tornado a última moda nos círculos cultos e sociais, sob o patrocínio de importantes Pensadores, dos quais, o exemplo mais claro era o filósofo Leibniz.
As perseguições que sofrera e os desencantos e as desilusões que experimentara haviam desgastado a sua fé na vida e nos homens. E a sua descrença aumentou quando um terrível terremoto devastou Lisboa, Portugal, em 1755, deixando mais de trinta mil mortos e um sem número de feridos, desabrigados, arruinados e desamparados.
E como se não bastasse a extensão da tragédia, amargurava-lhe profundamente a atitude cínica e sórdida da Igreja que logo se pôs a afirmar que o cataclismo era “castigo de Deus” aos pecados do povo lisboeta, que deveria, então, tornar-se mais submisso ao divino, através de “seus representantes”. Mais que a tragédia, doía-lhe ver a exploração que os maus carateres faziam em cima do sofrimento de tantos. Doía-lhe a maldade do homem.
Ademais, para agravar ainda mais o seu sofrimento, poucos meses após aquele terrível desastre, eclodiu a chamada “Guerra dos Sete Anos”, que para ele era mais outra sandice humana; um mútuo suicídio que a França e Grã Bretanha cometiam em troca de um prêmio constituído por somente “alguns acres de neve no Canadá”.
E como ele rejeitava a opinião do filósofo Spinoza de que o “Bem” e o “Mal” são apenas conceitos humanos, nem essa janela ele pôde utilizar para amenizar o seu sofrimento. Pôde, apenas, externar a sua consternação através de um poema que compôs sob o mote do velho dilema: ou Deus pode evitar o mal, mas não quer; ou quer evitá-lo, mas não pode.
Todavia, esse mesmo poema, causou-lhe outro aborrecimento, quando o filósofo Jean Jacques Rosseau o repeliu, argumentando que, em verdade, a culpa pelas mortes em Lisboa era exclusivamente de seus habitantes, pois “se os homens não vivessem agrupados nas grandes cidades, uma tragédia como aquela não atingiria a tantos”; além disso, “se os homens vivessem sob o céu aberto, as casas não lhes cairiam na cabeça”. Argumentos, no mínimo, questionáveis, mas que ainda assim seduziram a maioria da população, para assombro e indignação de quem tivesse um pouco de bom senso.
Para Voltaire essa nova comprovação da estupidez humana foi a gota que faltava para transbordar o jarro da paciência. Transtornou-o completamente. Não lhe era possível aceitar que aquela teodiceia pudesse existir entre Seres que se julgam racionais; tampouco, que diante de tantas tragédias ainda houvesse tanta resignação covarde e tanto otimismo infundado.
De onde vinha esse desejo absurdo de ser ludibriado? Essa ingenuidade de crer num Deus infinitamente bom, incapaz de causar qualquer dano? Por que aceitar que a culpa dos infortúnios seja sempre dos homens? Por que acreditar que esses infortúnios são “produzidos” apenas para aumentar-lhes a coragem e a determinação? Ou, que sejam “Castigos Divinos” merecidos?
Não! Não lhe era possível calar-se frente a tamanha insanidade e a sua resposta foi fulminante, pois em apenas três dias ele escreveu uma de suas obras-primas mais conhecidas: Cândido (ou Otimismo).
Usando a “mais terrível de todas as armas intelectuais já brandidas, o escárnio voltariano”, em meados de 1751, ele compôs esse pequeno livro que conta as histórias do epônimo, um rapaz simples, honesto e ingênuo, filho do Barão de Tlunder-Tem-Trockh da Vestfália e discípulo do “filósofo” Pangloss.
O jovem Cândido vive incríveis aventuras tragicômicas no amor, na guerra, nas amizades, nos negócios etc. E em todos os campos a maldade humana e a severidade da natureza estão presentes, ocasionando-lhe uma série de sofrimentos; os quais, no entanto, segundo lhe assegura Pangloss, só existem em seu beneficio, haja vista que o farão tornar-se mais forte, inteligente, rígido de caráter etc. Ademais, ainda prega Pangloss, todos os sofrimentos são benéficos por mostrarem a infinita bondade do Criador (sic)1.
Em termos literários, o livro é uma joia rara, pois apresenta numa linguagem agradabilíssima e com toda a profundidade necessária a infame hipocrisia teológica, a governamental e a social. Um clássico, sem dúvidas, que mereceu de Will Durant (EUA – 1885-1981) e de Anatole France (França 1844-1924), respectivamente, os seguintes comentários:

“Nunca o pessimismo foi demonstrado de forma tão alegre; nunca se fez o homem rir com tanto gosto enquanto ficava sabendo que este mundo é um mundo de desgraças. E raramente uma história foi contada com uma arte tão simples e oculta; é pura narrativa e puro diálogo; nada de descrições para encher linguiça; e a ação é desenfreadamente rápida”.

“Nos dedos de Voltaire, a pena corre e ri”.

Na sequência abordaremos a obra mais conhecida de Voltaire, o celebrado “Dicionário Filosófico”.

Nota do Autor1 – aqui, o leitor (a) já pode vislumbrar uma prévia da crítica de Nietzsche sobre a moral cristã que prega haver virtude no sofrimento.

Produção e divulgação de Pri Guilhen, lettré, l´art et la culture, Assessora de Imprensa e de Comunicação. Rio de Janeiro, inverno de 2014.
 
Voltaire e o Iluminismo francês - Parte V - Cândido (o Otimismo)

Menino de Rua

 
Menino de Rua

Espremi o mundo em busca do sumo,
mas não achei nem o rumo.
Nunca fui na Escola;
meu padrasto, faz-me de esmola.
E a fome me amola até sentir o baque da cola.
Limpo pára-brisas e rezo sem crença.
Sou sujo de nascença e de feia presença.
(No "tecido social" eu sou a doença,
como diz qualquer Dr. Excelência)
Peço ajuda à dona-tia-senhora
(louca para fugir sem demora)
e do seu medo eu lucro um trocado,
que logo gasto na "biqueira" ao lado.
Da boca sem dente, vem a vontade de ser gente.
Da boca banguela vem a vontade de sair da favela.
De ter um "cano" na fivela, arroz na panela
e até o amor da moça donzela
que peregrina em Santiago de Compostela.
Do meu nariz escorre suja coriza,
do macilento rosto despenca raiva e desgosto.
Eu sou o oposto.
Sou menino do Brasil e durmo sob o azul-anil
até que me acorde o cão-pastor do canil.
Levo a vida fugindo de "bala perdida"
e da santa caridosa bandida.
E sempre escuto: mude de vida!
Como se existisse tal saída.
Como se aqui, eu estivesse por escolha
dessa minha vista caolha.
Já lustrei sapatos e calçadas,
tomei todas as burguesas "porradas"
e não quero acreditar que isso ainda vai retornar.
Olham-me como ameaça.
Parido por desgraça de uma barriga cheia de cachaça.
Mas o que eu queria era ser só mais um.
Desses, que não metem medo e a quem se confia um segredo.
Desses, que choram pelo Poeta em degredo
ou das dores do samba-enredo.
É coisa pouca: casa, afeto, comida e roupa.
Poder dispensar a caridosa sopa,
servida pelo moço que quer o troco:
ser um Santo (do pau oco).
Pois nessa vida nada se dá. Só se troca.
É o medo de acabar numa maloca, vendendo tapioca.
Mas agora, SENHOR, licença. O sinal fechou.
O esperto não vacilou,
mas a moça pequena só me olha com pena.
Por isso irá morrer.
Não sei assoprar. Só morder.
Uso o "estoque" como baliza e o sangue não me horroriza.
Sou bicho-fera: se bobear, "já era".
Mas não se preocupe meu "bom burguês".
Da Policia eu sou freguês e Posseiro em qualquer xadrês.
Logo ficarei sob outra tutela, sem velório, coroa e vela.
Não deixarei saudades e nem levarei amizades.
Irei sozinho na morte, como só, eu fui na vida.
Uma rebarba atrevida, dessa sociedade falida.

Dedicado ao Dr. Bruno Baghin, cuja jovem coragem e lucidez renovam a minha esperança.

Procução e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Relações com o Público, Rio de Janeiro, inverno de 2014.
 
Menino de Rua

O Voo de Papillon

 
Porque voa Papillon, sente-se
o delírio dos amores insensatos,
o gozo dos carinhos abstratos,
a metamorfose dos antigos fatos
e as cores dos novos atos.

E porque voa Papillon, sabe-se
que da neve derretida
ressurge o tempo de outra vida.

Produção e divulgação de Vera L. M. Teragosa
 
O Voo de Papillon

Olhares

 
Os olhos que me olham
são olhos de carícia.
Olhos de sonhos refeitos
em leitos desfeitos.
Olhos que contam andanças
e antecipam doces lembranças.
Olhos da mulher amada,
sob a Lua da Enseada.

Para a moça bonita.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettre, l´art et la culture, assessoria de Imprensa e de Relações Publicas, no Rio de Janeiro em Junho de 2014.
 
Olhares

Da Maioridade Penal

 
- E quanto ao tratamento bucal, Excelência?

- Nem pensar. Imagine o custo de se manter um Serviço de Saúde, digno do nome, para toda a população. Igual ao absurdo de se pagar salários justos para que os pais banquem essas despesas, pois, afinal “o que não mata, engorda kkkkk”. É “a lei do mais forte”, meu caro.

- Se, bobearmos, logo, logo, irão exigir que as Escolas daqui tenham o mesmo nível de países riquíssimos como, por exemplo, o Uruguai e a Argentina. Já imaginou? Você sabe como essa gente é...

- Mas, você, não! Você já está bem crescido para acreditar em “Papai Noel” ou em cidadania, não?

- É certo que nós teríamos recursos para bancar essas despesas, mas, então, eu te pergunto: como iríamos bancar os custos de milhões de Vereadores, Vices e Prefeitos, hein? De milhares de Deputados Estaduais, Vices e Governadores, hein? De centenas de Deputados Federais, Senadores, Ministros, Vice, Presidente e da legião de desocupados, digo, de abnegados Assessores dessa pobre gente? Como, hein? Como iríamos bancar as (os) pobres prostitutas de luxo que os servem para que eles se esqueçam de suas rotinas estafantes? Como iríamos pagar os jatos, os jetons, as práticas corruptas, digo, as lutas abruptas dos nobres edis e governantes? Como, hein? Vamos, responda?

- Com que verba, nossos ilustres gigolôs, digo, representantes, poderiam bancar suas viagens, seus carros, as suas e os seus amantes? E as pequenas mordomias e falcatruazinhas (você sabe, ninguém é de ferro) que todo mundo comete, não é?

- Ora, você não imagina que esses nobres representantes concordariam em abrir mão de suas verbas, jetons, salários, passagens, apartamentos, carros etc. para que o maldito sistema educacional e de saúde fosse melhorado, não é? Ora...

- Esses nobres representantes estão sendo eleitos há décadas e continuarão a ser por mais algum tempo. Você dúvida disso?

- E é graças ao brio e a coragem dessa nobre gente que o Povo obteve a estrondosa vitória que, hoje, eu comemoro, pois sei que esses extorquidos, digo, engrandecidos, cidadãos, continuarão a nos honrar com o voto (é certo que eu tenha que lhes estender a mão e depois desinfetá-la), já que lhes basta algumas medidas paliativas. Isso lhes dá a sensação de serem “agentes políticos kkkk”. Dá-lhes a sensação de que exercem “o Poder”, sacia-lhes o primitivo “instinto de vingança” e lhes oferta a falsa sensação de segurança. Eles adoram essas bravatas.

- Portanto, tolo ingênuo, esqueça essa história de “tratamento bucal”, pois se o dente doer, nós o arrancamos e o atiramos no lixo. Digo, na penitenciária.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, inverno de 2015.
 
Da Maioridade Penal

OS FINS

 
Tão escura ficou a noite
que o próprio tempo
tornou-se, apenas, uma silhueta
dos momentos passados.
E o que antes era presença
transmutou-se em hiatos
inesperados.

Reina, agora, apenas o espanto
e a soberana incerteza sobre
qual erro foi cometido,
para que o sonho,
que se pensou definitivo,
acordasse tão de repente.
 
OS FINS

O Fim

 
No fim, a cor deixou-lhe a face
e o crepúsculo aconteceu em seu olhar.
Então, findaram-se os poemas,
pois os versos
já não podiam traduzi-la.

Para Beth. Saudades.

Produção e divulgação de Vera L. M. Teragosa.
 
O Fim

Os Fins

 
Agora, as partilhas findaram-se,
pois o tédio das exatidões
formata os dias e os poemas iguais.

Findaram-se as vigílias, pois o tédio
dos corpos e dos enigmas decifrados,
formata as noites de desejos apagados.

A nota única que um piano repete
insiste que o azul,
que a noite preserva,
um dia voltará.

Mas a fadiga interrompe as mãos
e o piano é silenciado.

Todos os dados já foram lançados.


Lettre la Art et la Culture
 
Os Fins

A Ave de Arribação

 
Dizem os crédulos, que é obra dos deuses.
Dizem os incrédulos, que é obra do instinto...

Soberana, a ave de arribação
voa os caminhos que conhece
sem se importar
com o autor de seus rumos.

Importa-lhe ir. Sempre ir...

Talvez, saiba mais que nós outros,
que além da autoria e do próprio rumo,
está no voo que se faz,
a mágica,
que chamamos de vida.


Lettre la Art et la Culture
 
A Ave de Arribação

Ida Partida

 
Há uma tristeza tão grande
nas estantes vazias,
que se pensa que as idéias
sumiram no mundo.
Resta apenas a desolação
em mogno preto
e esse cheiro de abandono
que percorre os corredores
como um fantasma
descrente da própria morte.
E ainda que todos
os adjetivos, verbos e advérbios
tenham impregnado as paredes,
sabe-se que a poesia acabou.
A enseada de Botafogo,
que um Naif em vão tenta recriar,
perde a cor aos poucos
e tudo, agora,
é só a branca ausência.
 
Ida Partida

A Cena

 
As sombras que vagam no palco vazio
ainda murmuram solenes
os últimos trechos da grega tragédia
de tanto antes e de tanto agora.

Homens indefinidos buscam mulheres indefinidas,
mas o tempo já não os permite,
pois as cortinas há muito foram abaixadas
e apenas o silêncio ocupa as poltronas
que um dia os assistiram.

E, ainda assim, nalgum canto,
alguma máscara recita o que sentimos
e não sabemos dizer.


Lettre la Art et la Culture
 
A Cena

Idas e Vindas

 
Serenaram os ventos, moça,
e toda a Enseada fez-se remanso.
Aquiete a tua alma e deixe que a dor
siga a lágrima caída.

Veja, eis a Lua chegada.
E, veja, ainda que tão pálida
a sua luz afasta a escuridão.
É a vida, moça, que se recusa ao não.

Amores se vão, passam, terminam.
Veja, aquela onda nunca mais se repetirá.
Mas, amores chegam, arrebatam-nos.
Outras ondas nos levarão.

Lettré, l´art et la Culture, Rio de Janeiro, verão de 2015
 
Idas e Vindas

Si hay un gobierno, jo soy contra

 
- O senhor concorda com o "Fora Temer"?
- Sim. Claro que sim.
- Por quê?
- Um indivíduo que se aliou ao PT - Partido dos Trabalhadores (cujos próceres e tesoureiros foram condenados e presos por corrupção) - nas últimas eleições, não merece o meu respeito, tampouco a minha confiança.

O Anarquismo

Por economia de espaço, tempo e paciência dos amáveis leitores (as), o autor não historiará a gênese desse Movimento Político, situando seu inicio, para efeito desse artigo, em Pierre Josheph Proudhon (França, final do século XIX e inicio do século XX), que lhe deu a estrutura dogmática que vigora ainda hoje.
Isto colocado, teceremos breves considerações sobre o mesmo.

O ideário anarquista
Para a maioria dos estudiosos, o Anarquismo escora-se em três pilares básicos. A saber:

1) Censura ou critica: à exploração do trabalho pelo Capital; à dominação cultural e ideológica exercida pela religião, escola, imprensa, sociedade familiar e civil; à dominação burocrática, legisladora e militar (ou paramilitar) exercida pelo Estado.

2) Apologia à autogestão, que redundaria em uma Sociedade solidária e justa.

3) Concretização e aprimoramento dos meios, métodos e táticas para a realização dos dois itens anteriores.

Em sua origem, o Anarquismo assimilou alguns dogmas do Socialismo. Através do pensamento de Proudhon, seu corpo ideológico constituiu-se como se fosse apenas mais uma variante dentro do espectro comunista e, dessa sorte, não faltaram censuras, por exemplo, "a exploração capitalista sobre os assalariados", a "alienação induzida pela religião", a "coação intelectual, física e cultural promovida pelas elites" etc.
Contudo, à medida que alguns Regimes Comunistas tomaram o Poder e repetiram os usos e os costumes dos Regimes antecessores (com as óbvias diferenças pontuais de cada qual), o Movimento Anarquista não titubeou em mirar as suas baterias para essa outra face da mesma moeda e, com isso, ocupou a posição de "estilingue" para as vidraças da Esquerda e da Direita.
Porém, o fato é que as propostas defendidas pelos Anarquistas reproduzem as intenções apregoadas pelas religiões e pelos Regimes direitistas ou esquerdistas; ou seja, ao cabo e em essência (atenção, eu repito: não estão consideradas as idiossincrasias de cada qual): uma Sociedade igualitária, solidária, justa e feliz.
Ademais, não deixa de ser trágico (embora pareça cômico), o fato de o Anarquismo ser visceralmente estruturado na mais patética (em sentido literal. Não confundir com a estúpida tradução, que faz desse termo um sinônimo para "ridículo") e cândida ingenuidade, cuja "expressão mais visível encontra-se em seus jovens (tanto em termos cronológicos quanto mentais e culturais) adeptos e/ou simpatizantes.
Ingenuidade, talvez inocência, em acreditar em valores como "solidariedade", "sociedade justa", "bem comum" etc.; bem como, na existência de potência, ou de potencial, para modificar comportamentos milenares e, talvez, indissociáveis da psique humana.
Ingenuidade, que se junta à efervescência hormonal dos jovens (tanto os cronológicos quanto os culturais) e se transforma em tentativas violentas (do tipo"blacks blocks") de derrubada do "status quo", com a indefectível contrapartida das forças repressoras, sempre temerosas (sem duplo sentido, ou não?) de que em algum momento, tal inocência amadureça e ganhe objetividade, tomando-lhe as tetas do Poder e as benesses de seus privilégios. Afinal, como disse Bertold Brecheth: a cadela do Fascismo está sempre no cio.
E, por fim, a ingenuidade de em plena manhã de Domingo, escrever um Artigo e acreditar que talvez seja possível uma verdadeira reforma política em seus verdadeiros agentes: os eleitores.
 
Si hay un gobierno, jo soy contra

Canção de Sarajevo

 
Há tanto que a morte
perambula em Sarajevo,
que nuas, tornaram-se as ruas.
O fogo e a metralha
cobriram os risos;
surdos ficaram os cellos
e inúteis os últimos guizos.

Estão findos os amores
e órfãos os poemas.
Vadias, vagam as canções
entre soturnos escombros
e cessam, ante tantos assombros.

A guerra,
sempre a guerra,
entranha-se nas almas
e marcha nos homens zumbis.
Marcha com os súditos de Ares,
imperador das hordas ensandecidas
de assassinos suicidas.

Há tanto se chora em Sarajevo,
que estão secos os olhos de Tanya.
Secos espinhos,
sem rosas que os adornem.

Produção e divulgação de Pat Tavares, lettré, l´art et la culture, assessora de Imprensa e Comunicação. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.
 
Canção de Sarajevo

A Canção de Roma

 
Luas e mulheres contrapõe-se
à vetusta eternidade
a que te condenaram
e, por isso,
gênios e loucos benfazejos
proclamaram-te Aberta.
Liquida e clara, como as águas que jorram
das mil fontes de tuas sete colinas.

Jovens alaridos percorrem as tuas Ápias vias
e puras vestais bendizem as profanas virtudes,
enquanto o silêncio solene do sacro Coliseu
adormece os gládios e as feras
que em vão
tentaram enfeixar-te
em fascistas varas
de certos insanos.

Correm-te, além das águas do Tibre,
as brisas e as vinhas dos santos delírios
e há na efemeridade de tua nudez revelada,
a perenidade do Belo
que um dia nos revestiu.



Produção e divulgação de Vera Lucia M. Teragosa.
Lettre la Art et la Culture
 
A Canção de Roma

As Tulipas

 
Há uma quase insolência
na beleza da tulipas.
Quase uma prepotente negação
das fealdades que a vida nos impõe.

.
Lettre la Art et la Culture
Enviado por Lettre la Art et la Culture em 09/05/2016
 
As Tulipas

Sentir-me-ei honrado com a sua visita em minhas páginas, nos links abaixo:

www.fabiorenatovillela.com

Blog - Versos Reversos