Poemas, frases e mensagens de xibchel

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de xibchel

amor ardente

 
 
podes por-me uma venda
meus olhos vêem através do sonho
meu ser desvenda
no olhar que contraponho
mito ou lenda
um futuro solto e sem amarras

e se me agarras
no vazio já voo livre
faço do mundo as asas
belas em declive
sobre os campos, sobre as casas

mesmo sobre brasas
o amor no sonho para sempre vive
 
amor ardente

entre nós

 
 
o jardim brilha resplandecente
sob um céu em fogo
branco, branco sem fim
porque cresce de raízes incandescentes
e traz em si o mais esplendoroso sorriso límpido
aquele que me ergueu do fundo da escuridão
onde o sangue escorria fatal

foi o desespero que me atirou em lume
sobre as falésias crispadas de vento e ardor
e eu lampejei em mil relâmpagos na noite

cruzei as ondas e dirigi-me ao infinito
assumi como rumo a busca do impossível
e a viagem debruou-se súbita no teu corpo

então compreendi que a fantasia se acendia em cada beijo
e mesmo na ausência os signos reluziam plenos de significado

como no momento de silêncio
em que a vida exigiu penumbra e se diluiu em direção aos céus

para ressurgir no interior do coração
envolta em sonho e oração

assim a alma se adoçou
e aceitou ser
gesto e palavra suspirada
na efusão dos sentimentos
 
entre nós

génese, fotossíntese e revelação

 
 
(génese)

eu estive lá
presenciei o milagre
o momento único e arrepiante
em que a vida cantava o nosso encontro

eras tu a dançar
o ritmo hipnótico a envolver-nos
a árvore mística a descer por nós dentro
as suas raízes a transformar-nos para sempre

desde então está selado o rumo que nos cruza
seus meandros revolvem
são rios de amor

e a fantasia emerge nas suas cascatas
quando a energia se precipita
sobre as pedras de ardor

memória líquida
do que nos toca

cada pingo de suor
que te escorre

a respiração que sobe
com o teu calor

bioquímica entre nós
num entendimento de almas

que o olhar revela
e as palavras estremecem
luzindo no silêncio

um jardim de lágrimas
a navegar
no veleiro dos sonhos

esta prece nos aconchega
na escuridão diante o terror

então reluzes
és mel escorrendo pelo centro do meu ser

nesta seiva incandescente
sentimos a essência

é irrevogável a declaração
aconteceu

e eu chorei
não queria acreditar

o coração irrompeu

e agora flutua
etéreo

(fotossíntese)

desci ao fundo do carvalho
num bosque de framboesas
groselhas e amoras

recolhi-me numa lágrima
e escorri pela face da noite
até tocar os lábios da luz do dia

.

agora podemos respirar
estamos a chegar ao coração
o que muda a forma de ver o mundo

(revelação)

há quanto tempo estamos a dançar...
só agora reparei que amanheceu...
foi um impulso no coração...

a alegria que tomou conta do palpitar
a chama que na noite incandesceu
arrebatou-nos de emoção

tão suave me envolveste
no fundo de tudo revolveste
a mais profunda raíz do meu ser

não paramos porque a cadência se contina a propagar
emerge na pulsação uma visão estelar
a fantasia a florescer

gentilmente voamos
leves aves entre os ramos
chilreando

quando
uma baga vermelha
centelha

reluz e seduz
o coração
encantado

na luz
confessado
em união

imagino a paz
que nos completa
quando repleta

traz
o sorriso
preciso

que me faz
esvanescer
e estremecer

para num sopro renascer
emergindo das águas que dentro correm
e em lágrimas e sonhos nos percorrem

eu acreditei em cada palavra
deixei-a navegar
até nela nos encontrar

revelando brava
a corrente e a margem
que nos estreita em cada imagem

atravessaste o ar com as mãos
desenhando a energia
que a lua lia

eu sei que a música ecoa nos desvãos
acordando uma e outra vez as emoções
fulgindo no pulsar dos corações

guardo o momento com carinho
entrego-me no calor do ninho
à flor da pele em teus braços de seda

fica a pulseira entrelaçada
no abraço da madrugada
até que o sonho enfim ceda
 
génese, fotossíntese e revelação

o cavaleiro da ordem de quercus

 
crescer devagar e alimentar o mundo
persistir milénios e ser berço de gerações
morrer e ser ainda o vaso onde se apuram emoções

tão fundo na terra como elevado no ar
em sombra no inverno, em esplendor no verão
musgo, sonho, ramos e amor entoam sua canção
 
o cavaleiro da ordem de quercus

voo sobre o mar

 
 
vamos nadar ao luar
flutuar e ver o olhar beijado pela lua

levo-te a um recanto único do meu ser
onde se entrelaçam
a raíz de fogo e a raíz de água

era ainda uma criança quando acreditei
poder saber o que era o amor

vieste ensinar-me
que há ainda tanto a aprender

no equilíbrio entre gotas de luz
o orvalho brilha como cálice da noite
onde sonhos e estrelas refluem

na ponta da língua de sal
onde a lágrima conflúi
estende-se o jardim a perder de vista

no momento intenso a certeza que nos une
cruzarmos o sonho como um oceano
ao encontro das ilhas da utopia

trago o sal sobre a pele
as algas e os seixos a faiscar
diante a intensa luz estelar

a serenidade que invade todo o ser ao lembrar-te
em cada batida do coração
 
voo sobre o mar

cinema - big eyes (Olhos Grandes)

 
a estrada difícil da arte
beijo por beijo

até tocar os lábios
da lágrima

onde o tempo se abre
entre labirintos formidáveis
de complexidade e efeito
no mais íntimo

colo do mundo
águas profundas
de encontros
e fusões

Inspirado pelo mais recente filme do grande cineasta Tim Burton, desta vez debruçando-se sobre a vida de Margaret Keane, pintora com uma história conturbada de luta pela identidade de sua obra.

http://www.imdb.com/title/tt1126590/
 
cinema - big eyes (Olhos Grandes)

pathos

 
 
haverá algo mais insuportável que o sofrimento?
aquele momento
em que toda a cor da vida parece desaparecer
e não sabemos quão mais fundo
pode ainda doer
nem por quanto tempo
pois parece infiltrar-se por dentro
tomar em si o mundo
e levar-nos junto
a um desejo de morte

então ela diz
todos te abandonaram mas eu ainda estou aqui
e eu abraço-a no coração
mas também respondo em silêncio que não
 
pathos

suspiros de amor

 
 
agora que a lua se vai
atrás do sol
(como se pudesse alcançá-lo)
e deixa a noite despida de luz

só nós e as estrelas
o céu por nossa conta
e o tempo expandindo
aos confins do espaço

na música das esferas
compomos a elegia
aos astros rendidos
que se afastam

e ainda brilham e choram
invadindo o nosso olhar
querendo ser lágrimas
a escorrer-nos na face

resta-nos (a eles e a nós)
seguir o grande plano cósmico
sublimar a matéria e vê-la reluzir
animada de espírito divino

nos braços da via láctea
(embalados num sonho sensorial)
 
suspiros de amor

se esta língua te tocar (ensaio sobre a língua portuguesa)

 
 
que vai ela dizer...
quanto amar...
quanto prometer...

.
.
.
esse breve poema é dedicado a todos os poetas do luso

o meu desejo é que gastem muita saliva
e venham sempre aqui vertê-la
para que a sintamos viva
e nos comprazermos ao lê-la
a ela, nossa bela princesa
a língua portuguesa
 
se esta língua te tocar (ensaio sobre a língua portuguesa)

arco procura íris

 
hoje as nuvens vêm de sudoeste
ávidas
como ilhas
com longos espaços entre elas

por isso há também sol
o que me lembra
ser este o tempo
de equilíbrio entre a vida e o mundo

aqui onde se rasga o futuro
se toma flores
e se acalenta a esperança
de haver fruto
para todo o labor dos dias
 
arco procura íris

comunhão

 
 
tomaste a noite nos dedos
e desenhaste o sono sobre os cílios
trouxeste a paz e o encontro no silêncio

evocaste a viagem e desejaste vir comigo

em espirais de sonhos ledos
enlevos, jogos de sombras e delírios
a distância é a nossa última penitência

o contacto a prece, suspiro, sagrado figo

que havemos de abrir quando maduro
inflar no ar seu perfume inebriante
e se desfizer o cerne de veludo puro
entre os lábios de nossa boca expectante
 
comunhão

sinto logo existo

 
 
(sinto)

soube hoje que embarco de imediato
através de mares incógnitos e austeros

o tesouro que buscamos é a sobrevivência
a uma experiência limite do que somos

um depurar do que possa ser amar
sem contar mais que as ondas que passam por nós

(logo)

a intensidade da superfície do mar
começa no reflexo luminoso das águas
e ergue-se na entrega aos dedos do vento

(existo)

arrefeceu e é tão longo o mar...
as mãos geladas persistem no ar

acolho o céu nublado
para o fazer manto de fado

trago-te em espírito num abraço de veludo
para nos embeber do oceano profundo
 
sinto logo existo

além da febre e delírio

 
a.

além da febre e delírio
onde o declive se ensinua
e a montanha vai erguendo o dorso

sobem as árvores aos mantos dos céus
há escadas por entre os ramos
lianas tilintando e copas faiscantes

a cura provém desta planta
da madeira da árvore
destilada

entre o crepitar das agulhas
há o grito surdo
sussurro
a travessia da noite imensa

b.

balouçando entre os pratos
oscilando ao vento
todos temos de fazer um esforço

fiel nos cinge
cada beijo um traço de asas nocturnas
percurso de pedras onde sustemos corações

era o tempo em que te conheci
e fostes a um tempo tudo
razão, sentido e fuga última

o arauto anuncia a extinção do lume
abracemo-nos ante o frio
colando as fronteiras entre nós
com saliva e húmus sagrado
 
além da febre e delírio

Poente

 
Poente
 
 
ao encontro do mar
nas falésias etéreas
onde o sol se desfaz
e a lua retumba
entre dourados
prateados
e azuis
celestes

caminho cambaleando
como um barco
se inclina
entre um lado e o outro

a bombordo o passado
a infância de sonho
o erro, a dor
a lágrima

e a estibordo o futuro
a viagem sem rumo
na nave perdida
em busca da utopia
com o coração
nas mãos
e a fé nos lábios
 
Poente

viagem à origem do sonho (através das nuvens)

 
 
entre o castelo, o rio e o pinhal
abrindo ao atlântico

os arbustos de maias refulgem
na beira da estrada por entre as árvores

grandes fiapos de nuvens
em diversas camadas
umas ao alcance da mão
outras no fundo do céu
com o sol a brilhar entre elas

primeiro a cobra envolta numa adaga
depois a face da bruxa, a bruxa a voar
a janela que se abre ao fluxo cósmico
a donzela a cavalo, o cabelo que se enrola
na curva da orelha, o som, a dança
dos amantes, o beijo envolto em véus
o sábio diante da montanha
a criança sonhando
o sopro criador
a mecânica humana
a gargalhada solta no ar
anzóis de fumo
arcadas e silhuetas cínzeas
fiel e devoto ícone de esperança
búzio de comunicação atlante
a dama elegante e nobre
o espanto, o sorriso...
a face angular diante do sol
imaginando a alma-gémea

amar-te é apenas extensão
duma ligação cósmica entre nós
 
viagem à origem do sonho (através das nuvens)

acordar

 
suspiro entre os raios de sol
respiro fundo e sinto o aroma de pinho
a ponte aproxima-se, já brilha o caminho
em breve a cidade me engole

procurar a felicidade
com brio e com arte
exige concentração e energia
ser no todo a parte
que cuida e alivia
toda a dor da realidade

ter piedade
rezar com o olhar
e dirigir súplicas ao infinito

na verdade
regozijar alcançar
a profundidade além do mito
 
acordar

rainha das flores

 
 
pé ante pé, sei que vens e me envolves
o ovo quebrou, sinto húmidos arrepios
frágeis asas, que não sei investir ainda
agitam os primeiros passos que incitas

em teu chamamento meu apelo devolves
já me levanto, como na nascente os rios
brotando da terra sobre nossa sede infinda
por ti cresço além das manhãs desabridas

ao longe a gruta ressoa desde a infância
o olhar traz o sonho, os lábios o encanto
que em meu peito germinam nesta ânsia
florescendo em segredo: desejo-te tanto!

cobre-me rubro no interior de teu manto
as pétalas esvoaçam e elucidam as asas
palpitam no sangue pulsante que abrasas
e por isso se unem nas lágrimas que canto
 
rainha das flores

adormecer e velar (a dádiva)

 
 
onde vai estar o coração quando passar no alto...
onde vai cair seu olhar quando tocar o cume
e de lá se estender a toda a vida em redor...

respira fundo, devagar
num gesto suave e gracioso
acolhe a hora e a luz
como um cristal magnífico

evidenciando a natureza mística do momento
em que o sentimento se declara
e transvaza cada poro

o mundo visita a tua casa
e o sonho faz-se abraço
tão forte e tão terno

o bebé nos braços de sua mãe
desce ao silêncio do sono
e ascende redentor

em suas virgens mãos
a vida já abre novos rumos
 
adormecer e velar (a dádiva)

flor selvagem

 
a menina brinca com dragões
um em cada mão
que levanta e acaricia

como ela sorria
nesse voo d' ilusão
sonhando valentes corações

e os reinos mágicos se abriam
inspirada fantasia
beijo por beijo
leve desejo
era pura magia
os príncipes viam e anuíam

será um dia grande rainha
de quem souber
fazer valer
esse estremecer

se lhe aprouver
amar e não voar sozinha
 
flor selvagem

muladhara

 
 
longo o dia para tão longo sono
o tempo parece perdido entre a dor e o medo

trémulo acudi ao desespero
deixei-me envolver na névoa espessa e fria

não hesitei em cair contigo
frágil e cambaleante mergulhei ao fundo do mar

na água o corpo liberta-se
quebrando a concha e abrindo o tesouro

para ti a oferenda de sal
envolta em desejos das profundezas escarlates

unir-nos no coração da noite que se aperta
e estreita a passagem

focar no encontro e na proximidade
respirando os perfumes

aceleração dos ritmos cardíacos
fruto da emoção

quero oferecer-te jasmim e abraçar-te

o enlace abre portais
seremos fluxo entre sonho e realidade
sopraremos no fundo um do outro

entrego-me às forças da terra
aceito descer pelas raízes
correr o micélio
comunicar com as árvores

procuro-te na floresta
qual o monstro que imaginas
abrindo os véus onde te despes
para reluzir na prece que te guarda
 
muladhara