Poemas, frases e mensagens de Carlos Ricardo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Carlos Ricardo

Não me ensines a chorar

 
Tenho um respeito profundo
por quem morre de desgosto
não me ensines a imaginar
como se sobrevive
a tanta tragédia
a solidão tem contornos inimagináveis
nessa parte do mundo
que fica oculta
cá dentro de nós
onde ninguém vê
já me senti perdido
mas a maior tragédia não sei qual é
embora suspeite que seja
a dos outros
dos que morrem
e dos que vivem sós.
 
Não me ensines a chorar

O que fazem mortos

 
Sobre o vale nada
ecoa
uma distância
os horizontes
uma luz
antiga
como a espera
um crepúsculo
de recolher
os gados derradeiros
Camões
é primavera
está a chover
uma chuva que a nós
visita do que era
eternidade que é
agora
sabemos que há mortos
por todo o lado
mais vivos
que a própria saudade
e vivos sem liberdade
mais mortos
do que era de esperar
neste tempo
de venalidade
atroz
que rouba sonhos
como quem rouba ouro
que não derrete
e o que pode acontecer
é o que mais promete.
 
O que fazem mortos

Na febre do amor

 
O remo fende a aquática densidade funda
o teu ventre
balança
à deriva
na sombra
quente
a minha mão
alcança
margens
e afugenta
faunos acoitados
que a paz contempla
alvoroçados
mas a serpente
é somente
a febre do amor.
 
Na febre do amor

Vazio de tudo e cheio de nada

 
Dizer amo-te
É como metal que tine
Um brilho na névoa
Que decalca os braços
De árvore despida
No esplendor matinal
A bravura dos gorjeios
De mil pássaros ao frio
De uma cidade infernal
Os versos que enfio no tempo
São lâmpadas de festa
E pavilhões na gávea
Ao vento
É fácil dizer amo
Mas dizer-to a ti
É difícil como inventar
Um fruto.
 
Vazio de tudo e cheio de nada

Porque o amor deslumbra

 
Qualquer hora
tem eternidade
dentro
do indistinto dia
da noite
indistinta
tem esfinges que admito
serem
da minha idolatria
te sinto
na vastidão do sempre
aonde a memória
se perde
algum mar
começa
naquela lua
das palavras a nos esperar
ou nós a elas
tudo é
sem janelas
e nós o lugar.
 
Porque o amor deslumbra

Dezenas de AUTORES Lusófonos COMENTADOS NESTE LIVRO

 
Por sugestão de alguns amigos, organizei e publiquei em livro centenas de comentários que postei aqui no Luso-poemas e noutros sítios da Net, ao longo de quase três anos, de 2007 a 2010, que versam sobre dezenas de autores lusófonos, dispostos por ordem alfabética, de A a Z.

Os nomes dos autores comentados estão listados no seguinte blogue
http://escritosonline.blogspot.com/
que contém uma hiperligação para a editora que está a comercializá-lo, «Sítio do Livro».

Sem falsas modéstias, parece-me ser um trabalho pioneiro a ser seguido por quem não desfaz e não se desfaz dos escritos na Net, dedicando imensas e boas horas à comunicação e à aprendizagem online.
 
Dezenas de AUTORES Lusófonos COMENTADOS NESTE LIVRO

Escrevo este poema porque

 
Escrevo este poema porque
Estou com um livro na mão

Passei o dia a ler
notícias
e a pensar

Tenho passado
metade da vida a ler
notícias
e outra metade a olhar
para o mundo
que não pára
de me surpreender

Escrevo este poema
porque
o tempo que não sobrou
passei-o
a viver
se é que isso importa
e se não importa
escusado será dizer.
 
Escrevo este poema porque

Vem

 
vem pernoitar no escuro
até onde só eu
te encontre
no silêncio
até onde só tu
me ouças
na doçura
até onde só nós
estejamos
na música
até onde só nada
ouçamos
na loucura
até onde só nós
chegamos.
 
Vem

Foi tanto o prazer

 
Foi tanto o prazer
foi tanta a paz
foi tanta a promessa

e a plenitude
nessa única tarde

as coisas
tinham memória
de sermos mais

que a verdade
à nossa volta

a poesia
do que éramos

tudo sentia
o que não podíamos.
 
Foi tanto o prazer

Versos que não escrevo

 
Declinam as horas
e o relógio insone
às voltas
em círculos fechados
sem horizontes
nos lugares mais altos
colocados
declinam
os ladrões da alegria
os sentidos
o dia
o que sinto
o que existe
a fantasia
e o olhar desce
de cada ausência
do que parece
aguardar
surgir
da sua clausura
como uma prece
com vontade
futura
tempos passados
que já não são
o silêncio
em que julgo ouvir
um coração.
 
Versos que não escrevo

 

podia ser
um laivo
do que nasce

a palavra
como o sol
nascente

a memória
iluminasse
o presente
podia ser
um laivo
de saudade.
 
Só

Perdi-me nas tardes de Verão

 
Desiste de procurar-me
Nem eu sei
Onde me perdi
Nas tardes de Verão
Onde perdi o livro
Que andava a escrever
Sobre as tardes de Verão
Em que me perdi
Antes de te encontrar
Se fosse numa ilha
Era fácil partir do princípio
De que só podia estar lá
Mas foi num continente
Que não existe
E nisto nunca irás acreditar.
 
Perdi-me nas tardes de Verão

Poema adiado

 
A minha vida
tem sido uma tentativa
de poema
que dissipe o que houver
entre o olhar
e a cegueira
não transforme
ao ser
poema seja
inteligência
de quem não sabe
e não mente
seja
audível
para surdos
ao que gera silêncios
por onde o pensamento
se evade
o corpo
alguma vez
triunfe
do inenarrável
das prisões
de palavras
como a aurora
se erga
e ilumine
este vasto cemitério.
 
Poema adiado

Nem tudo pode ser dito por palavras

 
Nem tudo pode ser dito por palavras
quando os teus olhos partem
o meu coração
para dizer-te quanto me agradas
bastasse um poema
bastasse esta canção

de amor
paixão
mas o silêncio às vezes diz
melhor
aquilo que nos vai na alma

nem tudo pode ser dito por palavras
quando o sentimento é mais
que uma ilusão
para dizer-te adeus

tropeço
nas palavras
e caio à espera que me dês a mão

meu amor
meu amor
não estou a dizer nada que não soubesses
e posso dar-te tudo o que mereces.
 
Nem tudo pode ser dito por palavras

O poema

 
Independentemente dos significados, que em poesia pode ser o menos importante ou o menos interessante, o poema toma o leitor por alguém que se vê, inopinadamente, diante de verdades e cenários que se lhe escondiam e que ele, em sonhos, sempre soube que existiam.
 
O poema

Enquanto a morte não chega

 
Enquanto a morte não chega
O vento lá fora
Numa dança de folhas sem fim
Embalo do tempo
Demora
Futuro presente em mim

Crianças jogam à bola
Na relva seca pelo verão
Que deixa em volta da escola
A forma de um coração

Paisagem para uma alma
Que o corpo não libertou
A dor é vindima calma
Do sol que já declinou

Como é belo dar a face
Oh vida como nos demos.
 
Enquanto a morte não chega

Já há muito que não escrevo

 
Há muito que não escrevo
a folgar do longo tempo
em que escrevia para me aventurar
na indomável imensidão
das palavras
que decidem por nós
como estrelas
que iluminam
ácidos corrosivos
que destroem
tijolos de uma parede
ou de uma prisão
não escrevo
palavras que nos deixam sós.
 
Já há muito que não escrevo

Morcões continuaremos

 
Essa ave será
rara
um dia
que ninguém diz
nas estórias
que a fantasia
à mesa da taberna
ou bar
ou como lhe chamam
ave da alegria
de todos os caçadores
da morte
nos sorrirá
e nós
morcões continuaremos.
 
Morcões continuaremos

Palavras de amor

 
Escrevo à viva força
que as palavras não me obedecem
e sem eu querer por vezes
florescem
bem mais do que confio
que frutos dessem

O poema acaba sempre por ser
o que não quero
uma verdade
mas
que não me agrada
uma palavra que
para desespero
se atravessa
e quebra a toada

O poema fica
sempre fora de mim
a fazer-me sentir
prisioneiro
da própria liberdade
o mundo não é
lugar recomendável
para quem sonha

Há inquietação até
na alegria
como se não houvesse
inocência
nem nos sacrifícios
para deixar de ser
atormentado
pelo mundo demónio
e carne

Quando me abandonaram
senti que estava finalmente
livre
mas não supus
nem imaginei
sequer por um momento
que estivesse

com o silêncio dos meus passos
numa visão irreversível
do mundo vazio
sem ti.
 
Palavras de amor

Estrelas da minha noite

 
Olhos de água pura
estrelas da minha noite
onde estais

últimas flores de abril
sentinelas do meu coração
janelas abertas
do meu desejo
de pegar
na tua mão.
 
Estrelas da minha noite