Poemas, frases e mensagens de outonal_idade(s)

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de outonal_idade(s)

Caem silêncios dos teus olhos

 
Dói-me a tarde
nos teus olhos.

A desenharem setembro
a apagarem agosto

quase deserto

[ quase memória ]

E o teu sorriso
trémulo
a contornar as sílabas
mal traçadas

[ ou do tempo a mágoa ]

Caem silêncios sobre a água
voo breve das palavras.

Sinais do sol

[ ou recomeço ]

Caem silêncios dos teus olhos.

Linguagem indecifrável
de um muro por onde corres

corres

ilusoriamente só.

maria
 
Caem silêncios dos teus olhos

Sob luas e silêncio

 
Para te explicares as palavras inquietas
voltas a olhar o horizonte
e a viver o silêncio que o outono descobre.

Do tempo verás nascer
lentamente o infinito

e é provável que te abeires de um refúgio
onde a lágrima atravesse a inocência
da primeira luz da manhã

e se deixe morrer sem nome.

maria
 
Sob luas e silêncio

Moinhos de vento

 
Deslizávamos por um fio de palavras irreversíveis.
A morte
diziam uns.
Renegação
gritou aquele

que procurou refúgio no interior
do silêncio.

Levámos connosco a chuva de um tempo
que permaneceu
ausente
dentro de nós.

Vivemos mil vidas e

longe de um fio de palavras irreversíveis
desfiámos as frases que ficaram por dentro dos olhos
paradas
a olharem para trás.

O acaso e os afetos a moldarem-nos lugares
em barro de encantamento.

Desenrolámos as veias do tempo

e o verde de uma teia de luz a entrançar dedos indefiníveis
em folhas de impressões digitais

e moinhos de vento.

maria
 
Moinhos de vento

A minha pele submersa em silêncios

 
Não tenho como soltar dos meus olhos
as amarras de um tempo
pendurado em horas encharcadas de pássaros
e de mar
e de movimento.

Sigo o trilho das gaivotas
que transportam a luz nas nuvens da manhã
mas a noite continua a arder
e o tempo recusa-se a nascer
disperso em esquecimento.

E a minha pele submersa em silêncios
e as palavras desfeitas em infinitos grãos de areia
levados pelo vento
e os dias estilhaçados na mesmice dos espelhos
dormentes
a escorrerem pelo verso
lentamente
em gotinhas de solidão.

maria
 
A minha pele submersa em silêncios

Dentro dos meus olhos o teu reflexo

 
Hei-de encontrar-te um dia
como se tivesse fugido o tempo
e dentro dos meus olhos o teu reflexo
e um mundo de mil luas
na plenitude em que, não te encontrando,
te invento.

E nesse dia
os pássaros acender-nos-ão o sol
e um chão de hortelã será a madrugada,
a tua,
e ao pôr do sol dos barcos
escreverei naquela nuvem duas lágrimas,
as minhas,
e nelas guardarei a folha em branco
do meu crepúsculo.

maria
 
Dentro dos meus olhos o teu reflexo

Às vezes, queres chorar...

 
Dentro dos teus olhos há um abrigo
onde o silêncio se desarruma

e nomes, nomes antigos
em busca do prolongamento
das tuas mãos.

Ainda não sabes enumerar
os horizontes onde resistes
à erosão do vento seco.

E resistes. Aos braços inteiros
onde o sangue estremece

ao lugar à mesa em que o domingo
cresce e abre a janela

e deixa rolar o verão
ou respirarem as borboletas.

Assim vives. Assim escolhes
essa luz vagarosa

voltada para dentro das pálpebras.
Às vezes queres chorar
mas os lábios não deixam

esquecidos das texturas invisíveis
e inexplicáveis

de onde irrompem os lugares
e as memórias a que pertencemos.

E por onde silenciosamente caminhamos.

maria
 
Às vezes, queres chorar...

O lado errado das palavras

 
A distância a cair do teu olhar. Atravesso-a
sem rede
com o apelo de antes pendurado nos lábios.

Bastava-me decifrar o gemido da luz
no lado errado das palavras.

Mas existem gestos desmesurados
e absolutos

soluços do tempo
no acerto das vozes à hegemonia da noite.

Pouco a pouco
apercebo-me da vertigem da pedra.

Ao nível do chão
cega-me a visão do sol. Deixas-me tocar
os teus olhos breves. De neblina.

O teu corpo
transitório
povoado de incertezas. Recolhido na distância.

maria
 
O lado errado das palavras

Mariposa

 
Aquela é a mulher

que tem medo da sombra.

Insinua-se na parede caiada de branco

pelo incêndio da tarde

cinge ao peito o fogo mais aceso da luz.

E voa

casulo e vendaval

ao silêncio prometido

dos pássaros.

maria
 
Mariposa

No meu olhar de chuva

 
Na passagem do poema,
junto-me
às janelas abertas,
perto da harmonia das árvores
que, lá fora, olham o bulício dos pássaros
ou a claridade do céu.

Escrevo apenas as palavras da tarde,
lentas, quase paradas,
como o vento.

Por dentro da simplicidade
do silêncio,
penso em ti
como luz em fuga
e sei o teu rosto refletido
em espelhos
que nunca entenderei.

Porque, soube-o sempre,
inventei-te no meu olhar de chuva,
enquanto procurava o nascer do sol.

maria
 
No meu olhar de chuva

Nomes cercados de águas e de tempo

 
Explicar lentamente
o longo caminho de um pequeno corpo maior que o mundo
onde a vida é princípio
e o poema um sismo a romper as veias.
Sonhar a inocência de abril
em nomes cercados de águas e de tempo
e neles celebrar o amor e o sol que se agiganta.
Fechar os olhos e atravessar a luz profunda
a abrir-nos o peito
para que se cumpram todas as certezas.

maria
 
Nomes cercados de águas e de tempo

Convergências

 
Sei que é tangível
a cumplicidade da palavra.
Clamo-a
agora mais do que nunca
para que nada mais se cumpra entre mim
e esta solidão cinza-violácea
que desce pelo anoitecer e respira
por dentro das paredes.
A saudade, tu sabes.
A casa embebida de longes.
A lentidão dos dias que passam.
A luz das pequenas coisas
simples e inadiáveis
suspensas nas intermitências da voz.
Espaços em branco
em redor do meu corpo. A fragmentarem
o movimento de um tempo que vem de fora
e demora a chegar.

maria
 
Convergências

Na inclinação do tempo

 
A pedra a decair
na inclinação do tempo.
Ao fundo da solidão uma neblina espessa
chamamento de silêncios e memórias.
Da lonjura de nomes incertos
uma rua a crescer
serena e branda
como se sonhasse margens improváveis.
Há trevos de quatro folhas
e pétalas de sílabas brancas
sobre os ponteiros do crepúsculo.
Deixo-me tocar pela ilusão da árvore de passos inquietos.
Sabe de um lugar
onde a pedra sobrevive
na soleira do esquecimento.

Tudo o resto é monólogo
é deserto
no que fica por dizer.

maria
 
Na inclinação do tempo

Poema em branco

 
Espero-te no limite

da brevidade. Porque “em breve”

é um espaço vago e os olhos

resvalam para o tempo húmido

que se projeta da raiz das nuvens.

Breve foi a vertigem que atravessou

o mistério da luz.

Saboreei a profundidade do vento

a cadência da manhã por dentro das árvores

[ os frutos ainda por amadurar ]

Tombaram as folhas

arrastadas pelas águas que correram

ao invés. Esboços de todas as ilusões.

Traços rasurados na penumbra

da pedra. A deslizar rente à parede

em branco

à procura de uma porta

que a viesse buscar.

maria
 
Poema em branco

No coração de um pássaro

 
A imobilidade de um vulto
por dentro da imagem.
Um horizonte
feito de nomes e nomes construídos
sobre a quieta aceitação do silêncio.

Um vulto resignado.

A fechar palavras
vagarosas na luz tardia
de um quase improvável
esquecimento.

A fixidez do olhar
a vislumbrar o tronco ressequido
da árvore abatida.
A diluir a dor
da metáfora proibida.

Um vulto resignado.

E tudo a mover-se
ao invés
no coração de um pássaro.

maria
 
No coração de um pássaro

pegadas

 
e aqui voltei
mergulhada numa luz de longe

entre mim
e o que de mim deixei

réstia transparente
de um tempo de estio

âmago da vida
entre o vento e o rio

silêncio e searas maduras
um quase sossego do verso

labirinto de cores
no ventre da terra

viagem metamórfica
à mais funda raiz do poema.

maria
 
pegadas

Poema de domingo à tarde

 
Nomeio os caminhos
debruçados num cais de abril
quando na pele havia
rumores de manhãs primeiras
ou da luz a melodia inteira que em mim guardava.
E eu chamava-te instante
sonho
rosto
e a tua voz era o tempo verdadeiro a ensinar-me
o sol de maio a descer as ruas.
E num fio de versos soltos
ou na memória de uma página lenta
nomeio os lugares do silêncio
onde
sobre as mãos
baixam palavras nuas.

maria
 
Poema de domingo à tarde

Por entre nomes eternos

 
Por entre nomes eternos
 
O rumor das palavras a subsistir
nos pedaços do meu corpo circunscrito
à fala da terra. E o silêncio.
Tão fluido o silêncio desarrumado
entre elas
_as palavras_
sem que eu consiga ancorar uma réstia
de luz em fuga.

Por entre nomes eternos
escorrem texturas de ausência
um vento incandescente a soprar cheiros
e afetos
a linguagem do lume a esgotar-se
na lareira.

O rumor das palavras a reconstruir
o gesto
o recorte dos ramos nas memórias
roubadas ao tempo
como se o olhar fosse um sussurro breve
a deslizar por entre os dedos
na urgência de fazer ressoar em mim
a fragmentação dos cardos indecifráveis.

maria
 
Por entre nomes eternos

Intermitências

 
Anoitece
a folha onde escrevo,
sustentáculo de dias de água
e primaveras dissimuladas,
vazios ambíguos, preenchidos
por hipóteses
ou intuição.
Talvez um espaço,
num tempo de permeio,
antes do agasalho da memória. Quando a voz,
ainda rouca,
oscila entre a aproximação
do olhar
e o silêncio do gesto entrelaçado
da palavra.
Indistinta, no voo indecifrável
das imagens,
demoro o corpo na ramagem
liquefeita
e fico à espera. Hei de recolher a manhã
nas minhas mãos.

maria
 
Intermitências

Transcendência

 
O céu como temporal
sobre o atrito da rua lenta
enquanto escondo o frio
nas mãos
e aqueço as aves
nas palavras.

Todos os dias o sol
a nascer
e eu, ao canto da sombra,

[viagem adiada]

mudez estranha retraída na obscuridade
dos olhos.

Talvez me aguarde o tempo
de transcender numa metáfora
a trajetória
de um corpo quebrado, ofegante
depurado na dimensão triangular
da claridade

e aceitar como um incêndio as águas que caem
por dentro do silêncio espesso
de vozes mutiladas.

Hei de, quem sabe, regressar à memória de Deus
lugar e tempo
que me dói, e que me dói, na chama
que se apaga na sala
e, secretamente insubmissa, me reclama
árvore, pássaro, alma, apenas

seja na ilusão de urgentes nuvens incandescentes
ou na espera incerta da projeção da luz
no corpo da pedra a ousar o sol.

maria
 
Transcendência

Silhuetas

 
Não nos consentimos
no que imperfeitamente somos
nem deitamos fora
os rostos sem voz.

Soletramo-nos em silhuetas mergulhadas num tempo
escuro e inabalável.

Em cada fio de palavras
teço a luz
que arrefece
e me arrasta à boca do silêncio.

Ausência indecifrável. Árvore a adormecer
no tremor dos ramos.

Cinge-me um vazio no horizonte
uma solidão pesada
que antecipa a densa noite
ou os nomes adiados
em que as coisas sobrevivem.

maria
 
Silhuetas