Poemas, frases e mensagens de London

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de London

Sou um andarilho das estrelas... admirador de Jack London, pela vida que teve e pelo escritor que foi. A minha homenagem a ele ficou em meu pseudônimo, e na frase que trago (em todos os sentidos) comigo: Prefiro ser um cometa, a um planeta adormecido!
J

A Consciência Cria a Realidade

 
Você se vê como um corpo. Delimitado no espaço e no tempo. Mas o mesmo fenômeno de se ver em algum lugar é muito ligado à noção de estar ciente de algo. Estar ciente é estar consciente...
Ser consciente então é apenas saber estar em determinado lugar, em determinado tempo... Tire o lugar e o tempo, e fica apenas o "saber". O saber independe de lugar e tempo. Na verdade, como visto, lugar e tempo é quem dependem do saber.
Então, você sabe. Você é um ser senciente, e usa diversos meios para se "localizar", meios que chama de sentidos. "Aqui", na terra, você acha que tem cinco deles, embora sejam mais, mas vamos deixar por isso.
O que queremos dizer, é que não existem lugares como céu e inferno. Lugares geográficos, quero dizer. Eles estão dentro de você! É a sua consciência que cria o mundo, e em massa, vocês criam todas as situações cotidianas pelo que passa o mundo. Todas as mentes, estão interligadas num lugar profundo, que costumam chamar de inconsciente coletivo. Mas, é esse tal "inconsciente coletivo" que chega mais perto daquilo que chamam divindade. Pois é nessa energia mental atemporal que está concentrada todas as memórias, conhecimentos, experiências e vivencia de cada ser que já passou pela terra, até a menor frase ou ruido já dito por um deles. É a fonte universal, de onde você veio, para onde você vai, e invariavelmente, de onde absorve todas as características que fazem de você quem você é. De um ponto de vista mais distante, este consciente coletivo é um único ser. Assim como você parece ser único em relação a uma única célula de seu corpo. Mas, visto de perto, como eu posso vê-lo agora, você é um número absurdo de células e moléculas, e cada uma delas tem a sua função e mesmo personalidade.
O universo é mental. Pensamento. Uma vontade de sentir com ação própria, criando o seu próprio meio. Diante disso, há universos incontáveis e inimagináveis, se você puder alcançá-los. Vai por mim, essa cadeira onde você se senta, não existe. Ela não existe por si mesma, ela precisa de você para existir, para dar sentido a ela. Sei que, no fundo, sabe do que estamos falando, pois você guarda essa informação no fundo de sua alma, num outro sentido do qual não fala muito, e que costuma chamar de intuição. Aquela voz distante, que fala do fundo de sua alma, e às vezes até grita, na esperança de você ouvi-la.
 
A Consciência Cria a Realidade

Viajamos Entre as Mentes

 
O Ser é que cria a experiência. O espaço, altura, largura, distância, paredes... Nada disso existe! São meros artifícios para a experiência. O que há, na verdade, é uma rede realmente infinita de pensamentos que se entrecruzam, cada um percebendo o seu próprio, e aquele que pode compreender.
Olhe lá fora para o seu mar... Ele foi uma criação mental um dia, de um Ser que achou interessante aquela formação. Outro Ser, então, percebeu a "imagem" criada, achou-a interessante, e a incorporou a si mesmo, passando a compartilhar com o "criador" original, aquela "imagem" marítima. Claro que ele acrescentou algumas coisas pessoais a esta imagem agora compartilhada... como nuances de verdes e azuis.
Uma outra entidade então, vendo o que as outras duas compartilharam, resolveu participar também... acrescentou marés, a sensação do molhado, o som gutural das ondas... Outras vieram, e cada uma acrescentou de si, algo que lhe agradava: peixes, algas, uma praia... E assim, dividiam entre si a experiência sensorial e mental, vibrando na mesma faixa, percebendo uma mente o que a outra percebia. Pois tudo é mental. E você mesmo se divide em dois, ou em três, às vezes, se perceber bem...
Isso foi há muito tempo, em seus termos. Tempos imemoriais demais para relatar. Essas entidades alçaram voos maiores, criaram outras realidades inexprimíveis das quais compartilham agora entre elas. Realidades impossíveis de descrever para vocês.
Mas vocês, enquanto fragmentos mentais dessas entidades ancestrais, percebem o que elas deixaram para trás. Porque vocês mesmos são partes delas. Filhos de um sonho. E aprendendo a criar ainda, um dia vocês mesmo criarão as suas próprias realidades, e encontrão aqueles que desejarão partilha-las com vocês. Até que um dia, fragmentos de seus próprios pensamentos criarão consciência, e experimentarão os sonhos que vocês mesmos deixaram para trás, ao alçarem novos voos.
E assim caminha a eternidade, em ciclos. Criadores e criaturas. Numa onda infinita, onde a única diferença é aquilo que se pode e se quer perceber.
O estado de ser, É. Ele não precisa da matéria para existir. Ele existe por que ele É. Todo o resto é derivado, porque nada existe sem uma vontade, e para ter vontade é preciso Ser.
Só alguém que É pode expressar-se. E a expressão em seu mundo traduz em som, em ondas. E o som, por sua vez, em palavras. E a alma da palavra, aquilo que a ela imprime movimento, chama-se Verbo.
Verbalizar é emitir uma vontade em ondas. E é em ondas (vibrações) que um pensamento atinge o outro. E assim que você se identifica com o outro do lado de cá.
O seu ego é só um artificio, usado pela mente para especializar a experiência. Como quando você fecha um olho para mirar melhor com o outro. Se você visse a verdadeira realidade do que te cerca, ficaria extremamente desorientado. Dia virá em que coisas serão reveladas outra vez. A humanidade partirá de novo para novas percepções. Aqueles que estiverem prontos. Mas o ego de muitos está viciado, não viveriam sem esse mundo de ilusões. Para esses, bastam que as ondas se arrebentem nas pedras, desde que sejam saciados em seus instintos básicos. Eles ficaram aqui ainda, por muito tempo em seus termos. Esse mundo como está basta a eles, chegam mesmo a se regozijarem com a violência, a ganância, a desordem. Vibram na mesma faixa.
Alguns, alçarão seus voos. Levarão daqui a experiência para fazerem coisas melhores, e não repetirem o que viram de pior aqui. Não há como descrever, numa linguagem que possam entender, a luz e a pujança que resplandece em realidades assim...
 
Viajamos Entre as Mentes

A Estrada Infinita... 6 ... Dos Guardiões do Limiar

 
Depois de ter feito os exercícios que mencionamos... de ter concentrado/visualizado aquela energia a entrar por sua testa e invadir o seu corpo... e de ter, claro, começado a vislumbrar o "outro" mundo, acho então que já podemos começar a tratar dos "guardiões" aqui.
Primeiro: guardiões é mais um eufemismo. Eles não são guardiões propriamente ditos. Eles não tem de guardar nada. Na verdade são consciências, assim como você, só que não estão mais focados na realidade física, por assim dizer. Podem ser, de acordo com a sua linguagem, pessoas mortas, pessoas dormindo, ou pessoas explorando o lado de lá, assim como você.
Chamamo-os de guardiões, pois de muitas maneiras, será a primeira coisa diferente que vai perceber do lado de lá, e geralmente eles estarão de pé na sua frente, como se o guardassem ou vigiassem.
Devo acrescentar, que é daí que vocês tiraram todas as lendas e histórias de terror que têm, acerca de seres fantásticos ao longo do seu tempo linear. Como estão fora da matéria rígida, e tem familiaridade com ela, por certo eles podem manipulá-la, e tomar a forma que desejarem. Seis formas são corriqueiras, e cada uma delas tem um propósito. Podem aparecer como crianças, meninos ou meninas. Podem aparecer como sombras de variadas formas, ou até sem forma. Podem vir como mulheres ou homens adultos. Podem mostra-se como animais diversos, de um pequeno cachorro até um grande urso. Podem vir em luzes de variadas cores e formas, ou finalmente, como seres monstruosos, humanoides ou não.
A grande pergunta: eles são maus?
A grande resposta: você se acha uma pessoa má?
Vejamos. Como eu já disse, o seu "mundo" é rodeado por uma crosta densa e pesada de energia que podem chamar de negativa, negra e escura. A terra não é necessariamente um paraíso, como vocês mesmos podem comprovar diariamente. Uma coisa que verão ao sair do corpo, se continuarem na faixa de "frequência" do planeta, é que passarão a ver o céu num tom mais escuro ou avermelhado, ventanias exorbitantes e poderosas, paisagens e construções macabras. Resumindo, os guardiões do limiar são pessoas humanas que vivem ou viveram aqui em tempos passados, assim como você vive agora. Só que lá, eles tem mais poderes e conhecem e manipulam o ambiente em que vivem. O que você faria, se fora do seu corpo, pudesse manipular a mente e a matéria de outra pessoa? Pergunte-se isso, antes de mais nada. Muitos de vocês fazem isso agora, em vida, manipulando a mente e a existência de muitos semelhantes seus... Imagine ocultos nas sombras, em forma de espíritos...
Devo temê-los? Bem, matar você eles não vão, se é que entende a ironia... Eles, se forem mau intencionados, tentarão amedrontá-los com medos ancestrais, medos arquetípicos que acompanham a humanidade há eras. Medo de sombras, insetos, monstros e coisas assim. Encare como um teste. Um teste de nobreza e coragem de alma. No mundo onde os pensamentos governam, se sobrepõe quem é mais firme em suas convicções! Pode encontrar um demônio de cinco metros na sua frente, mas se tiver o coração firme, com apenas um olhar o transformará numa singela borboleta, e o banirá de suas visões.
Mas não os subestime. Tamanho não significa nada aqui, a forma é relativa, o pensamento é a regra, e muitos sabem disso. A pisque é tudo, e se forem experientes eles tentaram atacá-los psicologicamente. Pode encontrar, de repente, uma jovem menina de 15 anos sentada na sua cama, de camisa listrada, cabelos grandes, pele clara, acima de qualquer suspeita. Isso, para uma pessoa que acaba de cruzar o limiar, pode ser de um choque psicológico sem paralelos, maior ainda do que se encontrasse o próprio diabo em pessoa. Isso, porque quebra as suas defesas psíquicas. Te deixa sem reação.
Os maus intencionados vão querer duas coisas de você...
 
A Estrada Infinita... 6 ... Dos Guardiões do Limiar

Reflexos de Uma Outra Vida........

 
Assim como dito outras vezes, a humanidade está conectada, no fundo, a uma única consciência universal, por assim dizer. Consciência esta, é claro, fora do tempo, fora de todos os conceitos humanos atuais. Explicar isso é assaz difícil, considerando sempre a noção de tempo, espaço, localização, em que estão engessados agora, por sua cultura, ciência, e mesmo razões universais de escolha.
Uma pista desta profunda ligação é aquilo que todos vocês, independentemente de cultura, fronteiras, fenótipos, e qualquer conceitos falsamente apartadores, trazem em comum e bastante perceptível. São conceitos psíquicos profundos, trazidos de um outro "tempo", manifestados atualmente na sua forma de ver e viver o mundo. Esses conceitos são sempre únicos, carregados de simbologia, interpretados por vocês de uma memória ancestral há muito esquecida, mas não abandonada, e que resume, em última análise, a personalidade de cada um sobre a terra, esteja ele temporariamente alheio a isso ou não. Falamos do que um dos seus psicólogos mais inspirados já falou, e que já foi dito também por outros antes, afinal, como visto, no fundo dividimos a mesma psique, e logo, todas as "informações" são acessíveis a todos, se procuradas devidamente.
Observe que determinadas figuras simbólicas sempre tiveram, e sempre terão lugar em sua sociedade. Seja de forma contada, escrita ou cantada, em todas as civilizações de todas as eras, se procurar por um deles irá encontrá-los, porque são ecos de sua memória ancestral, de coisas que você sabe que sempre existiu e sempre existirá. Estão guardados em memórias além do tempo. Retratos da humanidade enraizados no espírito humano. São aquelas figuras, que sem saber porquê, vocês trazem do fundo de suas almas, e as fazem se manifestar em seu mundo, na forma de símbolos. Dentre os mais conhecidos:
A Árvore da vida. Uma árvore gigante, geradora de tudo o que há. Sempre vertical, buscando o céu, com as suas imensas e grossas raízes retorcidas a lançar-se nos ares. Transmite a ideia da geração da vida enquanto orgânica.
O Herói: a figura da redenção humana sobre todas as dificuldades, aquele que luta pelos outros em nome do que é correto, e sem esperar nada.
O Mártir: o que se sacrifica, o escolhido, o número um que surgirá e expurgará o mal da humanidade.
O Profeta: o portador da verdade e dos segredos divinos, aquele que traz uma novidade aos homens do mundo.
A Grande Mãe: a figura máxima da mulher, geradora dos homens, simbolo da fertilidade.
O Ladrão: o que configura a esperteza frente as dificuldades da vida, o criminoso ingênuo e carismático, que mesmo errando, não faz verdadeiro mal a ninguém.
O Rebelde: o eterno questionador, o insatisfeito, aquele que quebra as regras do sistema e não aceita autoridades fabricadas.
O Explorador: o aventureiro, o destemido, aquele que se entrega ao descobrimento, aquele que não encontra fronteiras.
O Vil: O antagonista, o vilão, que não faz nada a não ser ser contrário aos melhores princípios aceitos.
O Poeta: Aquele cujo encantamento o faz tentar traduzir em palavras e sons os segredos da vida e conceitos mais abstratos da natureza.
O Mago: o manipulador da natureza, o cientista, o bruxo, o poder humano sobre a matéria.
O Gigante: a barreira frente ao homem, a figura que representa os muros intransponíveis, e pela sua dificuldade, a glória de vencê-los.
O Louco: a perda da razão frente as dificuldades da vida, as tolices humanas.
O Cômico: a capacidade de rir de si mesmo, e de rir da própria existência.
O Amante: o que viverá e morrerá por amor, que terá a sua vida guiada por esse sentimento.
O Déspota: a representação da fúria humana por dominação, a capacidade do ser humano em conquistar e destruir em nome do poder.
O Ceifador: a figura encapuçada, aquele que retira a vida, como se ceifa o trigo, o medo da humanidade de ser retirada do seu seio de convivência.
O Sofredor: aquele que suporta todas as agruras da vida, o sem sorte, aquele que é digno da pena humana.
A Mulher sensual: a dominatriz, a que desperta os desejos carnais mais secretos, a beleza tocável e impura.
A Virgem: a inocência feminina, a mãe desejada por todos, a beleza intocável e pura...
Estes são, entre outros, símbolos adormecidos nos seus inconscientes, que um dia emergem sem percebê-los. São significativos para todos os seres humanos, são personagens constantes de seus dramas reais e fictícios, em todas as culturas, raças, países, ideais e estilos, em seus termos. Um exemplo de que o interior humano tem uma única origem e um único papel. O de viver e entender que Tudo é uma coisa só.
 
Reflexos de Uma Outra Vida........

A Professora Querida

 
Stephany Mallord sempre foi um exemplo de carinho e de dedicação. Ninguém, dela jamais poderia emitir uma opinião desabonadora ou ofensiva, assim como, omitir uma única nota de elogio sequer. E ela não era assim apenas em sala de aula, mas também como pessoa e como amiga. Desde criança já ensaiava as suas primeiras aulas, junto às suas bonequinhas de pano, que ela mesma costurava a mão, com esmero.
Jovem, bonita, radiante, de cabelos ruivos médios, e aquelas lindas sardas no rosto alvo… Ainda lembro-me do perfume que ela deixava ao passar, e do vestido de professora que balançava à menor brisa. Olhos grandes e brilhantes, e um sereno sorriso nos lábios.
Morreu de repente em sala de aula! Foi um rompimento vascular repentino na cabeça. Os seus olhos e ouvidos sangraram na hora, e o seu vestido branco ficou com réstias vermelhas, como fitas de carnaval! Como morava numa vila entre as montanhas, de acesso ruim, quase intransponível, o seu corpo ficou três dias em sala de aula, escorado na porta - onde ela se apoiara em seu último alento - como uma simples escora de madeira.
Passaram-se dois anos...
A sala da doce professora não era mais a mesma… Os alunos estavam impossíveis, a nova professora, ríspida e grossa, não os cativava, e nem conseguia impor a disciplina.
Stephany Mallord apareceu, então, na porta! Naquela maldita tarde de sexta-feira, com o seu longo vestido esvoaçante, cheirando a mofo e obstruindo a saída!
Ninguém deu um pio... parecia que algo apertava a garganta de todos… só se viam bocas abertas e suores descendo pelas testinhas inocentes, como se a chuva do dia anterior não tivesse encontrado teto que a contivesse.
Eu me lembro de seu rosto cru, como gelo e cera, não havia mais sardas, e ela insistia em olhar a todos, um por um,com os seus olhos parados e mortos! A iris, antes azul como o firmamento, tornara-se cinza como a lápide fria de um cemitério, e os cabelos, outrora esvoaçantes, empapados de um líquido que os pregavam feito cola.
Ela entrou como se não fosse com ela… vomitou algo extremamente vermelho e mal cheiroso na Senhora Lorna, a nova professora, que derreteu sua carne, deixando-a na forma de um amontoado de ossos e tecidos.
-Agora, vamos continuar a lição… – disse ela. Até hoje a minha espinha congela, só de lembrar...
Ela tirou de sob o vestido agulha e linha. Tinha também alguns botões de roupa…
Cada um de seus alunos tinha uma personalidade, que ela, mesmo morta, fez questão de não esquecer:
Nos mais espevitados, costurou-os nas cadeiras, um a um. Primeiro as pernas… depois os braços… e em alguns, também a cabeça. Era uma linha robusta e negra, quase tão grossa quanto um dedo. Aos mais desatentos, abriu-lhes o crânio e costurou os seus cérebros no forro do teto. E, finalmente, aos mais ceguinhos, que faziam questão de se assentarem mais na frente para verem melhor, costurou-lhes nos olhos botões, como fazia à suas bonecas.
Quando chegou em mim – tentei correr, mas quem disse que saia do lugar? – Ela fez-me um leve carinho nos cabelos e libertou-me! Corri feito uma gazela até a porta, e ainda olhei para trás uma última vez. Ela sorriu-me e acenou.
Sabe, eu a entendi... Sempre lhe escrevi histórias, e ela adorava tanto, acho que de certa forma, ela queria que eu contasse isso a todos. Claro, eu pago um preço por ainda estar vivo. Nada nesta vida é de graça... E toda noite, sai ela de meu guarda-roupa, do amontoado de roupa que eu jamais dobro, senta-se à beira de minha cama, e me acorda tocando em meus cabelos. Tenho de me levantar e lhe contar uma histórias, enquanto sou observado por aqueles olhos enormes e estranhos, que me olham sem me ver.
É... estou ficando sem histórias, sem alguém por ai tiver alguma, me mandem!

PS: Com verdadeira Urgência!
Está anoitecendo...
 
A Professora Querida

Com Plexo

 
Quando você era criança, as suas ideias eram incompatíveis com as que você tem hoje. Isso se você tem mais de trinta anos, e cresceu. Talvez, guarde um pouco da criança que foi dentro de si, mas o fato é que as suas células, cada um de seus cabelos, o branco dos seus olhos, que definiram quem você era na infância, deixaram de existir. De uma certa forma, você deixou de ser quem você foi, e parece que a criança se foi, porque o ego dela, as ideias e sonhos, não é o seu ego de hoje, nem as suas ideias, nem os seus sonhos. Há exceções é claro, mas regra geral...
Mas a criança não morreu! Ela é, e foi parte válida de você, como um irmão mais novo que um dia você pode encontrar por ai, olhar com os olhos cheios de duvidas e ternura, e pensar: aquele foi eu... Não! Aquele sou eu ainda, num canto escondido aqui, dentro de mim. Isso quer dizer, que nada do que você foi ou passou foi em vão. Porque, cada um de você que ficou pelo caminho, é um eu válido e existente por si só. Pois acredite, quando você ia atravessar a rua e desistiu, em algum lugar, num universo paralelo, o seu eu atravessou a rua, e criou toda uma nova perspectiva de “futuro” para aquele eu. É mais ou menos como uma estrela que irradia fachos de luz para várias direções e incomensuráveis distâncias, mas ainda assim, cada facho continuando a ser parte da estrela original. Mas, para quem olhar, quando o brilho do facho chegar, nova estrela vai ver.
É complexo? Não faz ideia! Aqui está resumido por demais, simplificado demais! Tudo é simples e compreensível demais perto de certas coisas... É fato notório que tanto a ciência como a religião se baseiam em conceitos, regras e leis, motivo pelo qual se prendem a um conservadorismo que, embora tolerável, retardam suas evoluções e seus resultados. Quando cientistas ou religiosos ousam acrescentar ideias novas são rapidamente contestados, criticados e alienados. Mais tarde, depois de perceberem que suas ousadas teorias tinham fundamento, são perdoados, aplaudidos e aclamados. Uma é exatamente igual a outra, previsíveis, porque são humanas, entendíveis, porque são humanas. Viu! Todo o comportamento humano segue esse padrão. Dúvida, medo, raiva, reconhecimento (rendição)... Tudo isso porque, na verdade, competimos um com o outro por espaço, reconhecimento, sexo. E achamos que se perder, acabou, pois somos finitos, e só temos uma chance de nos perpetuar.
Então, se algo não é cognoscível, se não o entendemos, se nos escapa... Se é indefinível, então não é humano! E isso é bom. Conceitos além da humana terceira dimensão, não podem ser apreendidos por um cérebro que viva na terceira dimensão. Tente colocar um cubo dentro de uma folha de papel de duas dimensões. Agora tente colocar algo que tenha quatro dimensões dentro de um cubo. Acho que você nem consegue compreender algo que tenha quatro dimensões, não é?
O que chamamos de Deus, tem infinitas dimensões! Dá pra compreendê-lo, defini-lo, reduzi-lo a uma definição humana? Não! Graças a Deus. Senão ele seria humano.
Mas somos a imagem e semelhança de Deus! Isso, porque você tem infinitas dimensões que não pode compreender agora. Uma delas atravessou a rua lá atrás... a outra, é a criança que você foi... que dizer é... ou melhor... vai ser. Ah, esqueça!
E como dito, entender o ser humano é fácil, moleza. Quando ele não quer dividir o conhecimento é simplesmente porque o ego quer manter o controle dos outros. Porque controle é segurança, e quero me sentir seguro num mundo caótico que não compreendo. Quero alguém que me sirva, que me traga água se eu não encontrar. Que me traga comida. Que me dê atenção...
Mas, se você estiver pronto pra servir, ao invés de mandar, como ensinou o Cristo, então terá vencido o seu ego. E isso o levará a dimensões maiores. E é estranho, porque quanto mais entrega da sua individualidade egoística, mas consciência de si mesmo você tem, e mais definido como indivíduo você é. Complexo? Graças a Deus!
Ah... mas o amor é tão simples, então ele deve ser invenção humana!
Simples? Onde está a simplicidade no amor? Defina-o! Porque existe o amor por uma mãe, por um filho, por um irmão, por uma esposa. O amor por um cão, por um gato. Por uma obra de arte, por uma lembrança. E todos eles são terrívelmente diferentes, e espantosamente iguais!
O poeta disse que, como pode causar nos corações humanos amizade, se tão contrário a si mesmo é o mesmo amor? Complexo...

Como posso dar a minha face esquerda, se na direita tomei um tapão?! Complexo...
Como posso considerar alguém diferente de mim?! Complexo...
Como posso gostar de alguém que não gosta de mim?! Complexo...
Parece coisa de outro mundo, de outra dimensão...

Como posso dar crédito a alguém que escreve um monte de asneira?! Complexo...
Como posso ser bom, num mundo que só valoriza o que é mal?! Complexo...
Como posso viver por alguém, se tudo o que se faz é matar e jogar a pá de cal?! Complexo...
É, parece coisa de outra dimensão, não há outra maneira... Complexo.

Como posso ler um poema que procura rimar, se no final de cada estrofe o cara - complexo – me dá?
Complexo... é o que há.
 
Com Plexo

A Estrada Infinita ... 5 ....

 
...Quando, há muito tempo, "conversamos" com a sua gente, ajudando-os a seguirem em frente nesta rude vereda a qual escolheram, precisávamos deixar nossa mensagem de alguma forma para os outros passantes. Naquela época, a escrita estava em sua infância, e era privilégio de poucos. Então, deixamos mensagens de outras formas, formas universais que todos, naqueles dias, podiam entender. Viemos primeiro nos sonhos. Nos sonhos de todos! Mas poucos se lembravam. Depois, deixamos mensagens por aqueles que se recordavam dos sonhos, ou podiam nos ouvir, e assim, na forma de estruturas megalíticas e estátuas, na forma de símbolos e cores, desenhos... muita coisa foi registrada. Foi um aceno nosso, uma forma de dizer..."aguentem firme, não estão sozinhos"...
Então, o "tempo" foi passando. As suas inclinações foram se refinando. A sua intelectualidade, aflorando. Veio a escrita na argila, nos papiros. Registramos assim as nossas ideias, o nosso recado. E cada dia mais a evolução artesanal do homem facilitou a nossa comunicação. Todos aprenderam a escrever, surgiu o papel, o livro, a máquina de escrever... e agora, o computador. A mensagem pode ser disseminada mais rápido, os pensamentos vão se tornando uníssonos, e o homem e a sua espécie, sem se dar conta, vai tornando-se uma só de novo. Uma só mente...
Seguindo a evolução de suas técnicas, nas muitas realidades prováveis, um dia a comunicação que deu um salto no computador, dará outro, ainda maior. Conectarão as mentes biológicas aqui, sonharão acordados. A mensagem será ainda mais disseminada e mais facilmente apreendida.
E um dia, se merecerem... ligarão um aparelho eletrônico, pouco menor que os seus atuais celulares, e dirão:
-Oi?!
-Olá!
-Vovô, é você?
-Sim, sou eu!
-Que bom é lhe ver e lhe ouvir!
-Digo o mesmo!
-E então? Como é ai do outro lado da vida? Como foi morrer?
-Nossa! Você não vai acreditar! Tenho tanto a lhe dizer!...
 
A Estrada Infinita ... 5 ....

A Árvore

 
Existem muitos de mim.
Não estranhe. Vou falar de uma única árvore, que também é muitas.
Um dia passei por ela, eu era um velho numa estrada, o sol estava forte na ocasião. Para mim aquela árvore era um Oasis, e a sua sombra fresca a coisa mais valiosa pra mim, em muito tempo.
Um outro dia eu passei por ela, de novo. Eu era um jovem, e tinha muitas coisas em mente. A primavera da vida me deslumbrava, e as tantas possibilidades que se desenhavam perante mim me deixavam deslumbrado. E eram tantas as coisas que chamavam a minha atenção, que eu não a vi. Ela não significou nada. Não havia nada lá para mim. E ela era nada.
Há muito tempo eu fui um inseto. Aquela árvore era um mundo inteiro! Eu não a via como árvore, porque da dimensão do meu tamanho, eu não conseguia vislumbrá-la como um tronco ramificado coroado de folhas e de flores. Uma única folha pra mim era como uma cidade inteira, então, a árvore era um mundo inteiro. Não existia nada além dela, pra mim.
Como vento eu não a via. Apenas sentia-a resvalando-se em mim. Ela era uma conjugação de sensações, como uma cócega que começa forte, depois se suaviza, até quase desaparecer por completo. Mas ainda assim eu sentia uma ou outra folha balançar em minhas entranhas, mas para mim não eram folhas. Eram pequenas cócegas.
Quando fui uma criança ela foi para mim uma amiga. Ela sempre foi a outra ponta onde eu amarrava o meu elástico. Quando fui um rico industrial, que precisava daquele terreno para multiplicar a minha fortuna, ela foi pra mim uma inimiga. Eu desejei arrancá-la pela raiz e queimá-la, e erguer no lugar dela uma torre de vidro para arranhar o céu, e mostrar a todos o meu poder.
Ela foi a minha casa, um dia, quando fui um pássaro. Até hoje pode se ver, depois do terceiro galho, do lado esquerdo onde bate o sol da manhã no solstício de inverno, o buraco onde morei e construí o meu ninho.
E por último, hoje pra mim ela é uma lembrança. Uma lembrança das infinitas possibilidades, e da infinita ignorância.
 
A Árvore

O Plastificador

 
Ele atendia pelo nome de James F. Stuart, e construiu uma vida de glórias no mundo da moda. Era respeitado, admirado, imitado... Por muitos anos o seu talento não fora reconhecido. Mas um dia a sua estrela brilhou. De aluno insignificante em todo o segundo grau, transformou-se num empresário de sucesso. Os seus manequins eram invejados, não apenas pela realidade que transpassavam em seus olhos vívidos e brilhantes, mas também pela singeleza das formas e poses, e pela realidade de suas cútis, ditas de cera.
Claro, o que ninguém sabia era que James era um profanador de túmulos dos piores que já existiram! E também, um artista recolhido no fundo de su'alma - um Rembrandt, para muitos - mas não para mim...
James lia todas as semanas os obituários da cidade, e às vezes, do Estado, em busca das pessoas mais belas que haviam falecido. A sua única exigência: pessoas jovens, bonitas, e desconhecidas!
Geralmente, quando a madrugada ia alta, James Stuart caminhava sorrateiramente pelos meandros escuros dos cemitérios mais imundos, carregando a tiracolo as suas infames ferramentas de trabalho: pá, enxada, rastelo, martelos, fotos do obituário, etc...
As suas mãos calejadas rompiam o solo que deveria ser sagrado, na busca dos corpos frescos que a sua vil intenção de poder, e a sua índole psicótica, cobiçavam. Às vezes, e não eram raras, abria e violava a sepultura errada, encontrando corpos em adiantado estado de putrefação ou em liquefação, vindo a borrar os seus pés e braços com o chorume escuro e fétido dos cadáveres, quando do abrir dos caixões... Mas nada disso o desanimava.
Por anos, de cidade em cidade, desenterrou as moças mais belas que haviam morrido, e carregando os seus corpos às costas, soterrados em sacos escuros, os levavam até o porão de sua casa, e lá, com a técnica que aprendera enquanto trabalhava numa indústria química, os plastificava!
E assim fora, por anos e anos. Pessoas que frequentavam os seus pavilhões da moda, em busca de vestidos e roupas das mais caras, sequer suspeitavam que aqueles manequins que tanto apalpavam, beijavam, e que os deixavam maravilhados - e dos quais extraiam as roupas que os iriam vestir - nada mais eram que cadáveres, outrora enterrados, embalsamados em PLÁSTICO!
Mas as suas práticas levantavam suspeitas, e todas as polícias do Estado já procuravam o profanador de túmulos. O cerco estava se fechando...
James F. Stuart era inteligente, como bom psicopata, não se deixaria capturar tão facilmente. Logo, as suas práticas de simples violador de sepulturas, o transformariam num assassino cruel e meditabundo. Escolhia as suas vítimas pacientemente, entre as mais belas pessoas que achava em suas andanças traiçoeiras, como uma cobra que se arrasta em busca de um calcanhar. Como era um homem belo, rico e de boas maneiras, atraia com facilidade as suas presas até um lugar afastado e reservado... E lá, extraia com um estilete, o sangue delas por um único orifício atrás das orelhas, pois não podia se imaginar maculando a sua futura obra de arte.
E assim, depois de um tempo não muito longo, fundou uma agência de modelos para captar ainda com mais facilidade, e num ritmo quase industrial, as pessoas mais belas do país.
Migrou para a televisão, num programa de sucesso autointitulado - "garota espetacular" - que busca as meninas mais bonitas e desconhecidas da nação, explorando os sonhos delas de se tornarem mulheres famosas e requisitadas, para depois extrair-lhes o sangue pela carótida, enquanto amarradas, se debatem até se tornarem alvas como uma estátua de mármore. Para logo depois, injetar-lhes plástico pelas veias, boca e orifícios, e expô-las aos olhos do mundo como um objeto inanimado e eterno. Realizando de vez, o sonho de todas elas... de tornarem-se eternos modelos e MANEQUINS!
 
O Plastificador

A Torre Assombrada do Relógio

 
Naqueles dias de outono, as árvores semeavam gentilmente as suas folhas secas, de cores férreas, nos pés soturnos da grande torre de vigia, que delimitava a pequena vila. Era o grande orgulho daquela cidade de camponeses, e como beirava um grande precipício a beira do mar, também já havia sido um importante farol, e outrora, uma construção destinada a execução de bruxas e congêneres da mesma extirpe, sem fazer disso uma redundância.
O governador da pequena vila, vinte anos antes, havia mandado colocar um imponente, belo, e reluzente relógio no alto da torre. Era o capitalismo chegando, juntamente com as fábricas, para escravizar de vez os moradores da pequena cidade, domando-lhes o tempo. Agora, tinham hora de acordar, comer, dormir, ir ao banheiro e outras coisas congêneres, sendo agora, redundante.
Pois bem. Nos últimos sete anos, o relógio permaneceu estragado. Parou exatamente às 3 horas da tarde, numa sexta-feira de agosto, e não houve cristão, e nem pagão, que fizessem o relógio voltar a funcionar. E não havia mecânico nos últimos mil quilômetros, que pudessem dar um jeito em tão intrincado mecanismo.
Buscaram Léo Oto, o melhor relojoeiro do país. Quiçá, do mundo! Andava sempre com as suas complicadas ferramentas ao lado do corpo, como se estivesse armado, seu sinistro óculos de aro fino, como se se orgulhasse deles, e o seu ar de superioridade, que congelaria um fidalgo da corte de Luiz XIV, o tal rei sol, ou Luizinho, para os íntimos.
Léo encarou a velha torre contra o sol, como se ela fosse um gigante a ser vencido, e ele, Don Quixote, o da Mancha, no seu mais alto delírio cavalheiresco. Empunhou a sua chave de fenda suíça, como se desembainhasse a própria Excalibur, e galgou os cento e quarenta e quatro degraus que levavam até o relógio no alto do campanário.
Lá em cima, encontrou toda a parafernália mecânica que dava vida ao relógio. Mexeu, remexeu, fuçou, escarafunchou; e nada! Jogou óleo nas juntas. Nada. Trocou engrenagens; Niente. Trocou a mola, nothing. Bateu com um pedaço de pau, nichts! Moirão de cerca, pia da cozinha, granada... Nada fazia o relógio voltar a funcionar!
Ferido então, que estava em seu orgulho, vendeu a sua alma ao capeta. Por que o espanto? Fazemos isso o tempo todo... Lembrem-se: " Não se pode servir a Deus e a Mamon". Sendo dessa forma, "aquilo" chegou, atendendo ao seu apelo.
-Pontual como sempre - disse o espírito da escuridão.
Léo olhou em seu relógio de bolso, eram exatamente 14 horas e 59 minutos.
-Estive esperando por você, por todo esse tempo. Antes do oceano lá embaixo existir - disse outra vez a sombra.
Foi então que Léo entendeu, que o relógio da torre marcava 3 horas, o que forma, na verdade, com os ponteiros, a letra L, de seu nome. O três, é a letra E, invertida. E o 12, a zero hora do mundo. Ou também, a letra O.
Como num soluço, e de repente, o relógio bateu as três horas da tarde, e voltou a funcionar!
A alma de Léo Oto se despedaçou, e em mil partes, vaga pela sala do relógio, e de lá não poderá mais sair. Ele aparece, às vezes, como um rosto assustado, desenhado na janela, depois que o sereno assenta no vidro. Ou como uma mão esquelética, que arranha as costas das pessoas que se aventuram por lá.
Dez anos depois, o relógio parou novamente. Era 26 de abril, e marcava 16 horas e 23 minutos...
 
A Torre Assombrada do Relógio

A Estrada Infinita...7... Dos diferentes propósitos dos guardiões do limiar

 
Como dito linhas atrás, propósitos diferentes animam cada forma tomada pela consciência não centrada na matéria, quando ela percebe uma outra consciência ainda inexperiente.
Quando você adentra o mundo dos pensamentos, o mundo astral ou mundo dos espíritos... nomes não importam... você não é percebido, como uma imagem que de repente surge do nada num mundo pré-existente. O que acontece, na verdade, é que você passa a perceber as atividades ao seu redor, e isso, por sua vez, reverbera em todas as consciências presentes lá. Você sempre esteve "lá", mas agora eles vão saber que você percebe. É mais ou menos como uma gota d'água que encontra a superfície de um lago e a agita. Tudo no lago passa a te sentir. Enquanto você era cego para essas coisas eles não tinham interesse em você, mas agora, sabendo que você pode ver, eles virão.
Primeiro, como já dito... esqueça conceitos encrustados em sua cultura sobre o bem e o mal. Claro, o mal existe em seu mundo, isso é fato, mas ele foi criado por você. Lá também o será! Se uma criatura se aproxima de você, ela esta querendo interação, e usará a sua psique para conseguir isso. Se você é uma pessoa que está, por assim dizer, muito envolvida com esse mundo, atrairá seres como você, envolvidos nesse mundo. Em outras palavras, seres ainda apegados a coisas materiais e terrenas, e eles usarão linguagens bem familiares para com você, como medo, dúvida, tristeza, desejos...
Uma imagem bem corriqueira pelos lados de lá, é a figura da criança. Nada evoca mais a inocência, a fragilidade e ainda, a questão do inexplorado, do que a figura ancestral da criança. Menino ou menina, o ser que usará dessa imagem procurará desarmá-lo psiquicamente. Ou ainda, despertar-lhe um profundo pavor, dependendo das intenções dele. A psique humana na terra, está presa a valores culturais de que a criança é imaculada, e macular essa imagem causa profundo terror no inconsciente humano. Ver uma menina desfigurada ao pé de sua cama evocará medos ancestrais que a sua mente racional não vai saber processar... pronto, estará a mercê da consciência que quer lhe abusar.
A segunda forma é a sombra. O mistério, o desconhecido, o inacessível... A sombra evoca o medo da raça humana, a supressão do sentido da visão. O recado ao homem antigo de se afastar, temer. A entidade em forma de sombra quer te manter longe do mundo dos pensamentos, ou mundo dos espíritos. Ela não quer que você vá lá. Ela pode ser até mesmo alguém que gosta de você, mas não deseja que você tome conhecimento do mundo astral. E porque? Ora, algumas pessoas simplesmente não voltam desse passeio por vontade própria. Muitos humanos que caminham no mundo astral conscientes, não desejam voltar para a vida material, muito simplesmente porque lá é a sua casa verdadeira. Mas ao não voltar, você morre, e tem de recomeçar toda uma história de vida e conhecimentos novos. Pois o que não se termina hoje, terminar-se-á amanhã. Por isso, e não raramente, a sombra virá na figura arquetípica da morte. Sim, a tradicional foice e o tradicional capuz preto. Poucos são os que a encaram de frente...
Muitos virão em formas humanas. Homens, mulheres adultas. São os que no passado se chamavam de incubus e sucubus. São seres ainda muito ligados a matéria, e por isso, ligados a energias sexuais corporais humanas. Não são demônios ou malignos, isso não existe. São apenas pessoas, embora não mais focadas na realidade física, mas mesmo assim, carentes. Eles procuraram despertar energias sexuais, e se encontrarem receptividade, farão o que querem fazer.
As formas animais, monstruosas e medonhas, é a "fantasia" escolhida pela consciência que deseja confrontar você! Um inimigo de outros tempos, por assim dizer, que deseja parecer mais forte que você para enfrentá-lo numa luta "física". E como aqui o pensamento é tudo, se você pensar que é mais fraco, o será. Já vi um grande urso peludo "destruindo" o quarto de uma pessoa, usando a própria pessoa para isso. Arremessando-a contra a parede, quebrando o guarda-roupa todo, só para a pessoa despertar depois e ver tudo inteiro, e perceber que tudo não passou de um episódio no plano astral. Mas também já vi uma alma corajosa enfrentar um polvo de quarenta metros de altura,lutando entre seus tentáculos! Essa é só uma pequena demonstração do universo dentro de você.
Já ouviu falar em duendes, gnomos, fadas? Pois muitos espíritos virão dessa forma pra você. Essa é uma forma lúdica de se apresentarem, e muitas vezes assim eles chegam para as crianças. A figura desses seres desperta desprendimento, brincadeiras, sonhos... Assim eles te pegarão pelas mãos e te levarão a lugares incríveis. Você tem que perder essa visão rígida de mundo que você tem, e entender que tudo, inclusive o que você pensa de si mesmo, é apenas isso mesmo, pensamento! Eles virão com essa intenção, libertar os seus conceitos rígidos. Mas por que eles farão isso? Oras, porque você pediu. Só não se lembra... Não se esqueça, você não é apenas este ego que por hora carregas, que faz você ser quem você é aqui na terra, das oitos da manhã às dez da noite, quando vais dormir. A consciência que você verdadeiramente é te escapa de uma forma inexprimível, e você sendo quem você é beira a inocência. O seu ego é uma ínfima parte do seu Eu verdadeiro. Vou te dar um exemplo bem terreno para que possas entender: Hoje você tem 40 anos... Esqueceu-se que um dia foi uma criança, que gostou de brincar de bonecos, que gostava de circo, que acreditava nas pessoas... Hoje você é amargo, mas já foi um jovem que acreditava no mundo... Esta personalidade jovem ainda existe dentro de você, ela ainda é parte de seu ego, embora não o use muito desperto. Mas ela existe ainda dentro de você, é parte válida sua... e quando sonha que estais a brincar de boneco, quando sonhas que ainda está na escola... e essa parte sua se manifestando...
A personalidade humana é só a ponta pequena de um imenso iceberg. Assim como toda a sua história e realidade, como jamais fora sonhada por nenhum cientista da matéria ou da alma...
 
A Estrada Infinita...7... Dos diferentes propósitos dos guardiões do limiar

O Eu que não sou Eu

 
Há muito tempo atrás... quero dizer, quando eu fixava a minha atenção para o "outro lado" do eterno agora, uma parte de mim necessitava se conhecer melhor. É o que os místicos chamam hoje de busca do Eu. A busca de si mesmo. Não estou aqui, reduzindo pessoas a um termo, como se místicos fosse uma classe diferente de seres. Na verdade são apenas pessoas momentaneamente inclinadas a fatores internos transcendentes, tanto quanto materialistas são pessoas momentaneamente inclinadas a fatores externos imediatistas. Um nome não é nada, mas às vezes é preciso usá-los.
Naquela época, eu buscava Eu. Quero dizer... tentava encontrar algo dentro de mim que me definisse para melhor e me orientasse diante de um mundo aparentemente caótico e sem sentido. Ou com tanto sentido, que parece caótico. Vai entender. Seja como for, o Eu naquela época implicava em individualidade. Um Eu significaria um self eterno, imutável e perfeito, que atravessaria as correntezas do tempo, incólume, com a cabeça erguida de orgulho e iluminado, como se não tivesse mais nada para se aprender. Afinal, iluminar-se é descobrir tudo sobre o Universo. E uma vez que se descobre tudo, nada mais há para se fazer.
Assim, estranhamente, depois de muitas idas e vindas, deparei-me comigo mesmo da forma mais fácil que eu jamais imaginara. O Eu do sonho! Por estranho que pareça, o Eu do sonho é diferente do Eu acordado. E estranhamente ainda assim sou Eu! Quem sou Eu?!
No sonho, eu nunca questionava o Eu desperto. E o Eu desperto sempre questiona o Eu do sonho. Eu no sonho costumo ser mais corajoso, inteligente, esperto e feliz, do que o Eu desperto. Mas ainda assim, tenho absoluta certeza de que sou eu. O Eu desperto, por sua vez, questiona-se se é aquele Eu do sonho...
Assim, entendi, que existiam dois Eus! Totalmente independentes, mas completamente ligados e únicos! Então, na busca do meu Eu, primariamente descobri que não era bem assim, um eu.
De forma que, num belo dia, desperto eu... (qual dos Eus?!), de frente para a janela do apartamento, olhando as plantas lá fora, três andares abaixo. Havia um quê de diferente, inexprimível, mas notável, que cercava o meu ambiente e a atmosfera lá fora. Foi quando dei por mim, num piscar de olhos, quase numa iluminação de consciência, de que eu estava sonhando! Lembrei-me claramente de ter acabado de me deitar, talvez uns quarenta minutos antes, logo depois do almoço num domingo, mas estava ali, agora, de pé olhando pela janela, num quarto banhando por uma luz morna, clara, meio embaçada, mas ainda assim, o meu quarto.
Um pensamento estranho, mas absolutamente legal, assaltou-me: Estou lá dentro, deitado na cama, e aqui, de pé, perto da janela! Pensei também, imediatamente, quão legal seria pular pela janela e sair voando em direção às nuvens lá fora! Eu iria subir feito o Super-Homem, a milhão por hora e rasgar as nuvens lá em cima, navegar por entre os picos mais altos das montanhas, e também, quem sabe, flutuar por sobre as ondas do mar.
Ensaiei o pulo pela janela, toquei o beiral e levantei a perna direita. Mas, uma pausa. Era tudo tão real! Ainda me sentia com peso! Olhei pra baixo mais uma vez, tudo real, nos conformes!... E se eu não estivesse sonhando?! E se apenas acordei grogue, depois de um sono pesado, e to aqui na frente da janela, ainda meio dormindo e me julgando sonhando?! Seria uma queda e tanto até lá embaixo!
Voltei pra trás. Queria ter certeza de que estava a dormir na cama, e nessa hora, comecei a ter duas consciências ao mesmo tempo! Sentia-me claramente deitado na cama, e ainda assim, percebia o ambiente em frente à janela na qual eu estava de pé.
E assim, de repente, comecei a sentir uma cócega estranha na face e no nariz, como se um espanador estivesse tentando me fazer espirrar. Era, como percebido depois, os cabelos de minha nuca no corpo do sonho, tocando no nariz do corpo material deitado na cama. Foi um dos instantes mais estranhos que já me lembrei. Nesse exato momento, pude perceber dois corpos: Um deitado, e um outro se assentando devagar por sobre ele!
Agora sim, sonolento, levanto-me. Arrependido é claro, de não ter saltado pela janela e voado... Mas, de certa forma, orgulhoso, de ter pensado duas vezes, vai que eu estivesse certo... a queda não seria agradável.
Conquanto, naqueles dias, permanecera em mim uma incognita: Eu realmente estava acordado? Estou acordado agora, ou tudo é um grande sonho, inclusive aquilo que chamam de realidade?
Fui buscar um Eu, e admiravelmente encontrei vários Nós. Claro, porque, depois daquele dia ainda me vi de diferentes maneiras, em diferentes mundos, tempos e realidades! Tudo de uma só vez!
Mas o estranho, é que até hoje, eu... quero dizer, Nós, não sabemos quem é o observador central, aquele que parecer por ordem no aparente caos onde infinitas personalidades percebem-se a si mesmas num único fluxo de consciência.
 
O Eu que não sou Eu

Uma Looonngaaaa Espera....

 
No fim de uma estrada de chão, tão comprida que atravessa o horizonte visível, jaz um imenso castelo gótico coberto de neve, que de tão branca, ao refletir a luz do sol chega a cegar, temporariamente, um viajante desavisado. Foi erguido há séculos, muitos séculos mesmo, antes dos historiadores nascerem, e da palavra história ainda ter um significado. Dorme, imperturbável, sobre o cume fino de uma montanha esquiva, num dos cantões da Hungria, desde quando toda a Europa não passava de um grande feudo, e o próprio país, sequer existia.
Ele é cercado por desfiladeiros íngremes de centenas de metros de profundidade, e por montanhas tão afiadas, que lembram a boca de uma fera carregada de dentes ameaçadores. O frio sopra com tal ardência e sem piedade, que congela até a alma os peregrinos que atrevem a se aventurar por ali. E isso não foi uma força de expressão! Nessas estranhas paragens, não é raro de se ver figuras humanas congeladas no tempo, em pleno ato de caminhar, como que tomados de repente pelo destino, prolongando-lhes o eterno agora. Já não são nada mais, apenas estátuas centenárias, que jamais descansarão!
E é, pois, no fundo deste palácio sombrio, no qual o próprio mal evita se aproximar, que vive um rapaz de aparência jovial. No entanto, mais velho do que o próprio castelo que habita... e do que, talvez, o próprio tempo.
Há um tesouro no mais afastado dos cômodos, no mais amplo dos quartos, no mais protegido dos lugares da Terra, onde o inverno, semelhante a um velho descabelado e de barba comprida e alva, sopra pessoalmente com o seu hálito frio, o gelo de todas as eras do universo! Um tesouro que o velho rapaz guarda com todo o zelo do mundo. O corpo inerte do primeiro e último amor que teve...
Por causa do frio o corpo jamais irá se decompor. E ali, ele contempla, com o olhar mais triste do mundo, a única coisa que ele nunca cansou de olhar ante as eras do planeta.
Ele está lá, eu posso vê-lo! Sentado junto a uma parede escura e fria, sempre olhando para a razão de sua alma...
Ele não vai morrer nunca! Porque a morte em pessoa não quer se aproximar dali...
E ele nunca se congelou, por que a chama do amor que traz consigo, o mantém vivo, quente e condenado...
 
Uma Looonngaaaa Espera....

A Rosa

 
A guerra devastara tudo, não sobrara nada que valesse a pena. Era o condado de Cottingley, Irlanda, logo após a 1ª guerra mundial. Estávamos todos atônitos com o que descobrimos que os humanos eram capazes de fazer. Mas também estávamos de certa forma, felizes, porque depois de um conflito como aquele, certamente não iríamos querer outro. O retorno para casa houvera sido triste. Não caíram bombas lá, mas a maioria dos jovens foram levados pela guerra. Não se via mais crianças trepadas nas árvores, nem jovens correndo pelas ruas ou namorando nas praças. A inocência havia acabado, ficara lá, nos campos e nas fábricas. As jovens foram forçadas a deixarem a cidade para irem trabalhar nas fábricas de bombas ou de tanques, e por lá morrido de tuberculose, estupradas, ou casadas com homens bem mais velhos, para terem a esperança de saírem da penúria em que se encontravam.
Josh fora um dos poucos rapazes que retornaram inteiros. Pelo menos, por fora. Depois de enterrar pessoalmente dezenas de amigos na guerra, descobrira que sua noiva havia morrido num acidente com uma ogiva, numa das fábricas. Os dias em Cottingley se tornaram como eternos domingos à tarde, quando se senta num banco perto de um bosque, e fica olhando o sol se pôr, esperando a eterna segunda, que nunca vem.
O bosque de musgo era infame em toda a cidade. Lugar a ser evitado. Ainda podiam ser encontradas cordas e esqueletos dos que se enforcavam por lá. Histórias sobre fantasmas, homens estranhos e luzes andantes que arrepiavam até os ossos homens experientes, e os mantinham a uma distância segura de lá...
Mas, Josh se sentiu atraído por seu magnetismo. Era um lugar abandonado pelos homens, mas mesmo assim, lindo. A luz feérica que entrava, dobradas entre as folhas das árvores, espalhava um tom verde-claro sobrenatural, como uma chuva de luz que desce sem pressa e se fixa nas coisas, como gotas de orvalho cintilantes. As aves e os insetos sussurravam uns com os outros, sempre escondidos dos olhos dos homens, como se zombassem deles. Era um ambiente que te abraçava e te sufocava, te convidado à tristeza e à reflexão, e se você não estivesse suficientemente satisfeito consigo mesmo, acabaria pendurado por uma corda, ou pulando no precipício que dava fim ao bosque.
Talvez, Josh quisesse mesmo esse destino... eu não sei. Só sei que ele caminhou por um bom tempo, embrenhando-se na vegetação, respirando aquele ar frio que te refresca por dentro e te esquenta a superfície dos olhos... Até que ele se deparou com uma clareira, onde uma única rosa reinava esplendidamente. Eu poderia dizer que ela era a rainha de todo o bosque! Todo o verde fugidio ao seu lado, contrastava com o vermelho sanguíneo de suas pétalas, magnificamente abertas e frondosas. E a luz que descia das copas das árvores, a iluminavam feito holofotes naturais. Era a coisa mais linda que ele já tinha visto.
Primeiramente, ele sentiu a inclinação de deixá-la ali. Não poderia colher tão bela flor, arrancar de seus ramos uma obra tão sublime da natureza. Mas ela era tão linda que não poderia sair dali sem levá-la consigo, ainda que soubesse que ela não duraria um dia dentro de um jarro d'água. Mas ele quase não teve escolhas.
Procurou com todo o cuidado decepar a rosa sem danificá-la, mas o cuidado que teve para com a flor, não o teve para consigo mesmo... e feriu-se em um dos seus espinhos...
E enquanto uma fina gota de sangue surgiu em seu dedo, sentiu-se tonto, caindo em vertigens, ajoelhando-se em frente à flor.
Num primeiro momento faltou-lhe ar, pensou-se envenenado. Sua pele fria tremia, a sua boca secava. E então, as suas pernas trincaram, num som de madeira seca. Os seus braços enterraram-se no chão, como cipós, e os seus cabelos pendiam para a terra como ramos de uma oliveira. Gradualmente, foi tornando-se branco como um fantasma... e a sua pele e carne tornaram-se finas como um papel... Até tomar a forma de uma flor, para sempre encravada no chão.
A sua consciência era a mesma. Sabia do ocorrido... Sentia tudo... Mas não podia gritar e nem avisar ninguém. Ele não saberia dizer se estaria para sempre naquela situação, ou se o próximo e severo inverno, seria definitivamente o seu algoz.
Ele torcia para que fosse...

Um dia encontrei escrito num templo dentro de um bosque, a seguinte inscrição:

Fina flor que os espinhos guarda
Solitária... frágil, sempre isolada
Que a chuva destrói... o vento, a geada
Serás de finas e doces pétalas a sua mortalha.

Mas antes de partir, tem dentro do peito,
Do mais nobre e justo direito,
O sonho de viver um grande amor,
Pois nem uma flor, quer um mundo de solidão, e dor...

Então uma fada enfeitiçou-lhe as cerdas com um pó
Para que assim não mais vivesse a rosa só
Pois um dia alguém se encantará incrivelmente
Quando em seu espinho ferir-se, irremediavelmente

E assim, aquele que tiver o seu dedo a sangrar
Sabe como o futuro para ele virá.
Entende que o desespero e a tentativa serão em vão
Pois em breve, como raiz, terá os seus pés cravados no chão.

E assim, sempre ao lado de tão encantadora rosa
Por quem tão e devastadoramente se apaixonara,
Que ao vê-la colhida numa tola poda.
Como um simples e solitário cravo, agora chora.

O seu destino agora é esperar
Por que um cravo não tem espinhos...
Logo ficará sempre sozinho,
Até que o vento frio e daninho, para sempre venha lhe decepar...
 
A Rosa

Eu Sonho Com a Borboleta, Ou a Borboleta que Sonha Comigo?

 
Eu estava sentado sobre uma pedra, era março de 2004, e uma borboleta grande de asas azul cobalto passou por mim, como se eu não representasse nada, e pousou com pouca monta no meu ombro esquerdo. Eu tinha a estranha impressão de que o dia estava diferente, mas não sabia definir o porquê. Às vezes me sinto assim... Achei aquilo estranho, porque geralmente costumam nos evitar os insetos e os animais mais delicados, coisa que acho inteligente da parte deles, mas aquela borboleta, por algum motivo, resolveu pousar ali.
No início, fiquei admirando aquele belo exemplar de Lepidoptera, cujas asas refletia uma interessante frequência de ondas eletromagnéticas do espectro azul. Lembrei-me que esse tipo de inseto, embora belo, vem daquela repugnante larva que não me agrada muito, e procurei espantá-la... Mas ela ia e voltava... voava e pousava de novo.
Uma moça, muito bonita, passou e elogiou o fato de uma borboleta ter pousado em mim, fato raro e digno de observação, como visto. Fiquei lisonjeado, claro, mas algo me incomodou na hora, embora eu não conseguisse dizer o que exatamente.
Fui vencido pela borboleta, e a deixei ali, enquanto observava o movimento do outro lado da rua. Os carros iam e vinham, as pessoas se acotovelavam com pressa e sem se darem conta da vida passando ao lado delas, uma chuva se ensaiava no horizonte, o barulho sempre insuportável do trânsito...
Então, de repente, me vi acordando com alguém abrindo a porta das dobradiças enferrujadas. Eu estivera dormindo o tempo todo. Mas não me dei conta disso, era tudo tão real e lógico. Na verdade, em meus sonhos, nunca questionei a realidade que vivia, por mais absurda que me parecesse depois de acordado! Ainda deitado na cama, esfregando os olhos, lembrei-me da moça do sonho, e porque ela havia me despertado um estranhamento. Era a minha vizinha que havia morrido há pouco mais de dois meses. Mas no sonho, ela estava viva. Lá, ela existia, e a minha memória de agora estava morta.
Ao olhar para o lado, no parapeito da janela, uma coisa me surpreende. Uma borboleta enorme, de asas azul cobalto, espreitava os arredores do quarto. Acho que ela queria entrar! Assustei-me na hora! Será que eu também veria a minha vizinha? Eu ainda estava sonhando? Eu estava acordado? O que é a realidade? Talvez eu seja apenas um sonho de alguém, ou mesmo o sonho da própria borboleta.
 
Eu Sonho Com a Borboleta, Ou a Borboleta que Sonha Comigo?

Um conto de Natal - By Jeff London

 
Um conto de Natal - By Jeff London
 
Um Conto de Natal - By Jeff London

Ano 3126.

Nave espacial terrestre aporta em Épsilon 4256-9, conhecido como planeta Amazo. Pertencente ao sistema binário de Plêiades, e conhecido há quatrocentos anos.
Análise geografológica iniciada pelo mecanismo ônico cristalino do cérebro quantico positrônico:
-> Tempo/Percurso: 443 anos luz.
-> Dimensão planetária comparada: 256% em relação à Terra. Geografologia:
->Três satélites naturais: Dois dos quais mais distantes em relação ao raio natural e uma lua no formato elíptico.
-> 11 oceanos, 26 mares, e seguimentos fluviais indefinidos em número.
->Temperaturas: min. -78ºc máx. 34ºc - Composição líquida de H2O na atmosfera 80%
-> Ar respirável: 76,89% - aceitável.
-> Radiação nociva a sistemas orgânicos: 0%.
-> Flora e fauna: Baseada na clorofila, ciclos energéticos, evolução normal dos musgos até às plantas superiores clorofiladas - predominância dos espectros solares verde, amarelo e azul nas folhas - Caducifólias - Perenes - Gramídeos - -Estepes - Trundas - Taigas - Coniferas.
-> Mamíferos, aves, répteis e outras espécies não identificáveis/catalogadas.
-> Minerais: cristais raros, metais raríssimos, gemas preciosas, rochas variadas, minerais energéticos em 1012%.
-> Espécie inteligente dominante: Seres bípedes sexuados - padrão humano terrestre - adaptados à gravidade planetária, altura média 1,83 m. - Grau de consciência, inteligência, saber, e experiência empírica evolutiva: 714% ao Quociente de inteligência de maior nível humano registrado. Capacidade de armazenamento cerebral orgânico de 1x10³ TB.
-> Conhecimento do espaço contíguo e além: Dominação completa e abrangente da viagem espacial - conhecimento acerca de 7 000 000 de galáxias - conhecimento e observação de um grupo de 12 000 planetas habitados, 256 000 não habitados, nenhuma colônia.
-> Regime de viagem: três vezes a velocidade da matéria escura - Dobra espacial - Supressão do tempo - Manipulação volumétrica da matéria/energia.
->Temperamento psicossociológico: Extremamente pacífico.
-> Conhecimento ou posse de armas de destruição/ ou meios de dizimação em massa: 0%
-> Desconhecimento ou desprezo pelos conceito de guerra, dominação, destruição.
-> Planeta não apresenta divisões territoriais geográficas, ideológicas ou baseada em fenótipos climáticos temporais.

- Origem! Aqui é Bruma...
- Prossiga nave Bruma!
- Épsilon 4256-9 favorável à colonizção e estadia humana.
- Excelente! Ater-se aos episódios específicos de catalogação.
- Certamente. População pacata... ausência de armamentos.... trazer apenas armas básicas de subjugação e dominação.
- Recebido Bruma!

Um nativo aparece por sobre uma colina gramada, não parece surpreso ao ver a nave espacial flutuando próximo a um morro.
Ele se aproxima e diz:
- Seja bem vindo!
O cosmonauta, experiente, mas, encabulado, responde:...
- Obrigado... Vejo que conhece o meu idioma. E ainda é mais semelhante à minha espécie do que o meu computador pôde supor!
- Por que a surpresa?
- Nos outros planetas não é assim. Existem algumas diferenças...
- Entendo... Sabe, vocês vieram rápido, rápido demais. Nos surpreenderam, não achamos que fossem conseguir, por agora.
- Conseguir?... Do que está falando?
- Digo... a viagem, oras. Romper o espaço, o tempo... O meu povo não achou que conseguiriam tão cedo, mas nos surpreenderam de novo! Passaram habilmente pelo cinturão de asteroides da nebulosa vermelha, e pelo vortéx de energia em Betelgeuse.
- Como sabe essas coisas?
- Por que a surpresa? Sabe que somos inteligentes.
- Sim, eu sei. Mas, nos acompanhar tão de perto...
- Bem mais de perto do que possas imaginar. O cérebro artificial ali dentro de sua nave não lhe contou tudo...
- E o que ele deveria saber?
- Isso não importa mais... A pergunta pertinente seria: Quer mesmo tomar este planeta? Precisa mesmo dele?
- ... É o que fazemos. Mas, não se preocupe com isso. Vamos dividi-lo com vocês. Os seus recursos não serão usados em vão, mas compartilhados! A nossa cultura e a sua serão uma só. A era em que os meus ancestrais invadiam e pilhavam, acabou! Envergonhamo-nos por essa época! Viemos oferecer-lhes o nosso modo de vida, ensinar e aprender como vocês. Temos muito o que dividir.
- Ah sim, o seu modo de vida... Eu entendo, mas, não está realmente me reconhecendo?
- Você?! Eu deveria? - perguntou o cosmonauta.
- Sabe... Sempre achei o seu planeta lindo! Pelo menos, naquela época. Uma linda pérola de vidro azul, quando o vi, pela primeira vez... Havia potencial em vocês! Ah, sim, havia...
- Do que estás a falar?
- Ah menino, é uma longa história... Faz muito tempo, muito tempo mesmo. Cheguei assim como você, na minha pequena nave. Mas naquela época, o seu povo ficou deslumbrado, e era tão inocente, como crianças. Havia potencial, sim havia.
- Eu não estou entendendo!
- Vocês nunca entenderam... E então, Eu voltei depois, num choro de um bebê, porque tudo deve começar numa criança. Como uma semente... Eu, e o meu povo trabalhamos muito por sua gente. Embora vocês nunca tivessem nos entendido bem. Naquela época era preciso guiar-lhes pelas mãos. E veja agora! Aqui está você, longe de casa, através do espaço, e sem precisar de minha ajuda.
- ......
- Três mil anos e não aprenderam nada... É realmente uma pena. Conseguiram chegar aqui, atravessas galáxias sem fim, mas não trouxeram nada de bom.
- Você... Você, disse que voltaria....
- Eu levei-lhes a sabedoria, o amor, e a compreensão. Vocês a usaram para dominar uns aos outros, e ainda usam, não é mesmo? Mas nada está perdido! Veja bem. Começaremos de novo, temos paciência. Sempre tivemos. Voltaremos no tempo, de novo e de novo... Quantas vezes forem necessárias! Até que, um dia, você chegue aqui nos oferecendo amor e irmandade. Até que este passo que você deu, não seja desperdiçado outra vez.
- Você nunca voltou!
- Voltei dezenas de vezes! Mas, como nunca foi o que vocês esperavam, não fui notado. Nunca é o que vocês esperam. Mesmo da primeira vez, não o foi... Mas um dia, irei subir este morro novamente, e aqui estará você...Esperando-me com um abraço. E eu ficarei feliz por você ter atravessado a galáxia inteira apenas para dá-lo a mim. E mesmo eu tendo de voltar no tempo centenas e centenas de vezes, tudo terá então, finalmente valido a pena.
 
Um conto de Natal - By Jeff London

Infinita Mente

 
A profundidade de um segredo se compara com a sua importância e com a dificuldade de expressá-lo. São coisas importantes demais para serem traduzidas, pois as palavras as diminuem, transformam o que antes era Ilimitado dentro de você, em coisas normais, quando são ditas. A linguagem humana não fora feita para transcender, assim como um uivo jamais poderá traduzir uma sinfonia. As coisas mais importantes do mundo estão guardadas bem perto do coração, ali, ao lado dos segredos mais valiosos, que os seus inimigos adorariam encontrar e destruir. E quando você fala sobre elas, as suas lágrimas descem, como se uma intermitente chuva de granizo caísse indócil em seus olhos abertos. E as pessoas lhe olham sem entender nada, porque os seus corações habitam lugares outros, que não o seu, e não entendem a importância do que fora dito, que de tão importante era para você, que você até chorou enquanto dizia. Mas não é na dor que está a lágrima que desce, mas no segredo que ficou guardado lá dentro, não por falta de um narrador, mas de alguém que o compreenda...
Transformar a vida numa fábula verdadeira, de forma que ela possa fazer sentido a quem ouvi-la, é como chegar a um deserto e convencer o seu ressequido povo de que do outro lado do mar salgado existe uma terra deslumbrante, onde o chão forra-se de esmeraldas, e um néctar fresco e doce sobe do chão pelas árvores e é oferecido a qualquer um que quiser pegar. É como tentar transformar um adulto em uma criança, e convidá-lo a entender que a noite é sim, uma caixa de joias, e que foi aberta por uma princesa para iluminar a sua tenda escura.
Mas o coração humano está trancado em si mesmo, dentro de uma casca inviolável. Não lhe interessa néctares e nem esmeraldas, que não sejam apenas para ele. Aguarda-se que uma luz cruze os céus e venha libertá-lo do mundo e de si mesmo, e não entende que cabe é a ele libertar-se do eterno naufrágio que ele mesmo cometeu.
Conquanto, a estrada é longa, e ainda que tudo pareça solidão e tudo pareça estar perdido, ele segue, rumo ao horizonte. Não há outro lugar para ir, e ainda que tome outra direção, sempre seguirá rumo à mesma aurora, pois não fizestes do mundo uma esfera por simples acaso, pois que em todas as direções de uma esfera há um horizonte. E pela mesma razão, não fizeste a noite revezar com o dia, em trevas e em claridades, e nem o sol morrer e nascer, cada dia por sua vez, e nem a lua minguar e ressurgir exuberante, em suas fases necessárias, sem um motivo. Há motivo em tudo, nada há de inútil, e todas as coisas nos contam histórias, à sua maneira.
Há símbolos e segredos em todos os lugares, para aqueles que sabem olhar. Então, um dia, uma voz vem carregada pelo vento e sussurra, às vezes no ouvido, às vezes no coração, e diz: Não é o narrador que importa, mas o ouvinte.
 
Infinita Mente

Um Caso Real (4)

 
Quantas histórias são verdadeiras? Pra mim, todas as histórias tem um fundo de verdade, porque acabam expondo um sentimento, uma impressão, uma experiência, que por mais subjetiva que sejam, existiram, e então, se torna verdade por si só.
O homem de chapéu, por exemplo, encaixa-se perfeitamente na veracidade ou não de uma história. Por que, quando alguém lhe diz que viu um homem de pé na porta, negro como a noite, de capa e com um grande chapéu sobre a cabeça, você logo situa essa pessoa no seleto círculo dos doidos de todos os gêneros. Ou loucos de pedra, daqueles que rasgam dinheiro, ou também, louco de amor, esquizofrênico, drogado... e todas as outras qualidades de doidos que o nosso mundo tão bem produziu nos incontáveis anos de loucura da nossa sociedade. Que louco, não?!
Pois bem, mas ainda assim, essa história seria verdadeira, pois mesmo que tenha sido uma alucinação, a historia aconteceu! E do ponto de vista de alguém, ela é real. Veja como a natureza do real é estranha... Aliás, a própria palavra alucinação não explica nada, afinal, se diz o que é, mas não se explica porque é! Não se conhecem os mecanismos reais da alucinação, só que são os mesmos mecanismos que acionam a dor quando você mete o dedão numa pedra, e isso pra mim não tem nada de alucinatório! Ontem mesmo meti o dedo num toco, e ele tem doído pra caramba, desde então. alguém tem de dizer a ele que foi uma alucinação...
Para os psicólogos, eu tive um devaneio ou delírio, ou então, tenho uma necessidade tremenda de atenção. Mas não creio. Na verdade, sou bem acomodado e recluso, e sempre fui satisfeito comigo mesmo. Para os psiquiatras, eu tive uma alucinação. Para os espíritas, eu vi uma aparição, e talvez ela esteja me perseguindo por ai! Para os médicos, eu tenho um possível tumor que me faz ver coisas que não existem, ou sonhar acordado, mesmo quando esse sonho se senta na minha cama, ou joga uma moeda pra cima na cozinha às três da manhã, ou descobre os meus pés à noite! Mas eles nunca se perguntaram a si mesmos sobre a natureza da realidade! Porque para os psicólogos de cem anos atrás, tudo tinha origem em desejos sexuais reprimidos, inclusive uma simples dor de cabeça. Para os psiquiatras, não existia nada que uma boa lobotomia pudesse resolver (ainda hoje pensam assim – os remédios são uma lobotomia química!). E para os médicos, era o cérebro que resfriava o corpo, e pensávamos com o coração! (Confesso, que às vezes eu penso com o coração...). A realidade muda constantemente. Ela muda pra mim o tempo inteiro. Eu amava futebol, hoje eu odeio! Acreditei muito nas pessoas, hoje, ninguém me engana mais! E por ai vai...
Naquele dia, eram onze da noite, e ela mudou completamente pra mim, quando o meu irmão pequeno, na época, pediu para acender a luz por que ele queria ir ao banheiro!
Meu pai estava sendo explorado por uma empresa, e por isso trabalhava a noite toda. A minha mãe, oriunda da roça, e cheia de medos do escuro, colocava todos os filhos para dormirem juntos no mesmo quarto, para fazerem companhia para ela. Eu, já desde cedo, questionador e indiferente frente aos dogmas humanos enraizados, nunca acreditei em fantasmas que apareciam no escuro para assustar criancinhas. Até aquele dia!
-Levanta e acende a luz pro seu irmão ir no banheiro! –Lembro-me até hoje da frase!
O interruptor estava de frente pra cama, ao lado da porta, de maneira que ao me levantar, dava de cara com ele, eu podia vê-lo brilhar no escuro com a sua fosforescência.
Levantei-me num só impulso. Cansado, doido pra voltar e dormir. Mas ao colocar o primeiro pé no chão, e já com a mão esticada em direção ao acendedor, eis que me deparo com uma insólita figura!
Alta, tanto quanto a porta que estava aberta! Escura, mais do que a escuridão que tomava o quarto. De chapéu de abas longas, como um sombreiro mexicano – por muitos anos perguntei-me o porquê de um fantasma precisar de um chapéu – e com uma capa jogada nos ombros!
Na hora endureci todo! E fiquei parado, ali, olhando para aquilo, tentando entender e processar a informação visual que secou a minha garganta e acelerou o meu coração, levando-me às raias do desespero e do pânico! Mas sou homem, e achava que homem não deveria chorar e nem gritar como uma mocinha, e mesmo eu tendo vontade de fazer isso, voltei imediatamente para debaixo das cobertas, cobri a cabeça, e claro, não acendi a luz!
Verdade ou mentira? Bem, pra mim foi verdade! Como um menino bem comportado, nunca bebi nem usei drogas, nunca tomei remédios controlados, não tinha nem dormido pra ter sido resquício de sonho, e nem tinha comido batata estragada ou rabada com agrião.
Minha mãe, como boa representante da parte campal da cidade, e por isso mesmo pouco delicada e mais bruta, por assim dizer, espancava-me com cotoveladas e palavras impronunciáveis, de, porque diabos eu ainda não tinha acendido a luz! Aguentei firme aquela tortura, pois preferia apanhar até de manhã cedo, a encarar de novo a sombra estranha em pé na porta! E assim eu ficaria, até o sol raiar, se o meu tio que dormia no colchão ao lado da cama, não tivesse ele mesmo se levantado por causa da gritaria e acendido a luz, iluminando o quarto e me salvando das pancadas.
Como bom curioso, com a proteção da luz e a segurança subjetiva de todos acordados dentro no quarto, olhei pra porta, procurando explicação para o ocorrido. Nada! Nem sinal de algo que pudesse ter me induzido a ver o que eu vi.
Aquele era o começo de uma longa história em busca da verdade. Alguém está escondendo algo de nós? Que são essas coisas que existem entre o céu e a terra?
Bem... cedo aprendi que o que quer que seja, não se apresenta, apenas se insinua. Das duas, uma: ou não merecemos a verdade, ou não aguentaríamos ouvi-la!
 
Um Caso Real (4)

Silêncio é a linguagem de Deus, todo o resto é má tradução

 
De todos os homens que encontrei nesta estranha frequência de pensamento chamado planeta Terra, o mais sábio de todos foi de fato Sócrates. Não apenas porque ele sabia que nada sabia, mas porque também tinha a consciência de que jamais saberia de algo concreto, a despeito de todos os seus esforços ou meios. Na sua época viva-se bem pouco, e na maior parte do tempo preocupavam-se com o que iriam comer à tarde ou no dia posterior, e na maioria das vezes comiam farinha amassada com algum tipo de fruta, e raramente, carne. Mesmo assim a sua capacidade intelectual fora assombrosa para uma mente humana.
Existe um grupo de pessoas semelhante à Sócrates, e Nós poderíamos dizer, se vocês pudessem entender, que esse grupo tem o espírito de Sócrates imbuído neles. Algo como que, fossem eles mesmos uma parte de Sócrates, e Sócrates uma parte deles, influenciando um ao outro ao longo das realidades. Mas, bem, vocês não entenderiam.
Esse grupo denomina-se agnóstico. Ora, pois que, o agnóstico verdadeiro sabe que a razão humana não pode compreender certas coisas, e diante disso, não se ocupa em conhecer o incognoscível. A espécie humana brada a grandeza de Deus segundo por segundo até o minuto fatal. Mas mesmo assim, reivindica poder conhecê-lo e entende-lo! Ora como? Pode-se apenas se conhecer algo que lhe seja semelhante, ou pelo menos, que esteja ao seu alcance!
Ah... o homem... Sequer imagina a distância que se encontra do Criador dos sonhos. Sequer sonha que está sonhando. Um sonho de muitos... que por sua vez, sequer sabem que também estão sonhando. Mas um sonho não é irreal por ser um sonho. Pois sonho e irreal, são palavras criadas por vocês... E como todas as palavras, não traduzem a realidade, ou sequer a representam.
A palavra Deus vem de um mito pagão conhecido por vocês. Era anteriormente Zeus, deus grego dos raios. E muitos de vocês sequer dão conta disso. O deus de suas religiões modernas foi pego emprestado das religiões pagãs antigas. Vocês sequer sabem ou conhecem o deus que dizem amar e respeitar. Sejamos francos... Vocês sequer conhecem a si mesmos... e nisso eu relembro Sócrates, citado logo atrás.
Vejo vocês amando o seu deus. Ele precisa amar vocês, para vocês amá-lo! Ele precisa ser fiel a vocês, para vocês amá-lo! E ele precisa ser apenas seu, para você amá-lo... mais de ninguém!
O deus de um banqueiro, de um capitalista, será um deus que dará importância e valor ao dinheiro, ao lucro, só esse deus serve pra ele. O deus de um concurseiro, será o deus que o fará passar, em detrimento de um outro concorrente seu. Mesmo ele sabendo, lá no fundo, que deus é deus de todos.
E ninguém, nunca, procurou ser um deus pra si mesmo! Não há absurdo no que dizemos. Você pode mover montanhas. Se quiser. Onde eu existo, eu posso literalmente movê-las. Você também pode, literalmente. E constantemente os fazes, coletivamente. Mas para isso é preciso uma humanidade que vos falta. É preciso entender que o mundo está é dentro, e não fora como supondes. O que vê com os seus olhos é a ilusão que docemente te engana e te aprisiona, ironicamente. É preciso largar tudo e seguir adentro. A ilusão deve ficar pra trás. Os melhores seres de seu mundo lhe contaram isso. Eles agora existem num lugar onde as montanhas levantam e caminham.
Olhe para os homens que o seu mundo criou. Estão trajados de ternos e gravatas para parecerem melhores, mas os destroem, a ti e as suas esperanças. Você mesmo pode ser um deles, e entenderá o que eu estou falando. Túmulos caiados de brancos. O seu mundo vive de imagem, e desde que você tenha uma boa, poderá destruir todo o resto.
Disseram-me um dia que eu era um demônio. Mas saiba, todos que ousarem dizer a verdade neste mundo o será. Mas agora, olhe ao seu redor... saia na janela... ligue a sua televisão. E então me diga, qual de nós vive de fato num inferno?
 
Silêncio é a linguagem de Deus, todo o resto é má tradução

A Segunda Via

 
Fui arrebatado numa manhã de inverno, enquanto o frio uivava no beiral da minha janela como um lobo faminto feito de vento e de gelo. E eis que comecei a cair indefinidamente por um túnel rosáceo feito de algodão que girava como um caleidoscópio a milhão por hora. E eu vi muitas coisas que em breve virão a acontecer!
Eu vi os seres humanos tornando-se mais sábios, mais críticos... e isso os levou a diminuir os nascimentos na Terra. As pessoas já não tinham mais filhos, por causa da violência do mundo, da desumanidade, do progresso que estavam transformando as pessoas em híbridos de animais e de máquinas. Então, os cientistas da situação, em desespero, fabricaram uma substancia que agia nos hormônios do seres, modificando a personalidade e a inclinação das pessoas por meio de nanorobôs e química pesada. Ou seja, faziam as pessoas desejarem ter filhos. Mas isso também não deu certo, por que o organismo da maioria rejeitou o experimento. Havia alguma coisa a mais no cérebro das pessoas, além apenas de humores e de química. As pessoas ainda preferiam não ter filhos. Pouquíssimas eram as que tinham.
Então, tudo ao meu redor adiantou-se, e pude ver a população diminuindo. As cidades foram ficando vazias, fantasmagóricas. A economia começou a entrar em colapso. As empresas faliam, empresários se matavam. As pessoas que ainda restavam, iam vivendo dos excedentes dos antepassados. Havia muita mercadoria, comida e roupa, pois a população caia drasticamente. E ao cair da densidade demográfica, a intensidade de plantas, árvores, e animais silvestres iam aumentando. Prédios de mármore e vidro passavam por mim à toda velocidade, mas eu ainda os via. Estavam repletos de vegetação, pinheiros, sequoias, faias, musgos. E plenos de esquilos, ursos, pássaros. As avenidas de concreto e asfalto iam ficado verdes, e algumas pessoas circulavam por ali, junto a alguns animais...
E, então, adiantou-se mais um pouco. Menos gente ainda. Mais verde. As pessoas agora andavam nuas. Principalmente as mulheres. A evolução que aconteceu na primeira vez em que a mulher mostrara o seu tornozelo, passando para a minissaia, o shortinho, finalmente chegara ao seu fim. Todos estavam nus agora. Mas ainda, mesmo assim, pouquíssimos nascimentos.
A humanidade, inconscientemente, tinha se reprovado a si mesmo. Era uma desistência voluntária de existir.
Passaram-se mais alguns anos, e eu não vi mais nenhum ser humano. Levantaram-me até a camada mais alta da atmosfera, e de lá me desceram até a fossa mais funda do oceano, e eu não vi ninguém lá. O concreto das construções se esfacelavam. Madeira e ferro já haviam se desintegrado. Havia uma paisagem desolada e bucólica cercando tudo. Apenas pássaros, animais silvestres e cães, muitos cães. A humanidade havia se entregado, finalmente.
Senti uma vertigem enorme, e tudo acelerou ao meu lado, e logo eu estava de novo de pé, sobre uma colina verde, e acima de mim uma imagem assombrosa! A Lua estava tão próxima da Terra que cobria três quintos do seu céu. Era monstruosamente desoladora e enorme! Eu podia ver as suas crateras perfeitamente. Podia ver o mar da tranquilidade como uma grande planície branca a passar por sobre a minha cabeça. Parecia ser possível levantar os braços e tocar em sua face prateada. A noite era perfeitamente clara, pois a luz refletida do sol pela lua não deixava escurecer. Muitas e muitas ilhas. Ilhas maravilhosas e exuberantes. Muita água. Agora tudo era um só oceano.
Eu não vi nada ao redor que lembrasse a passagem humana.
Assustei-me, assim que vi no canto do céu onde a Lua não dominava, o riscar de um cometa imenso a explodir como fogos de artifícios. Estranho, porque ele me lembrou a figura de um espermatozoide. Da sua explosão réstia de luzes desciam como estrelas. E eu fui avançado de novo no tempo! E enquanto tudo transcorria em torno de mim, vi o chão embaixo de mim se retorcer. Se misturava às aguas, às ervas, ao próprio fogo e vento. E uma figura ia gradualmente tomando forma. Era como se um corpo se libertasse do solo, aos poucos, e com dificuldades. Pude vê-lo se levantar. Primeiramente como um golem de barro, movimentando-se com dificuldades. Depois, mais ágil. Olhou pra cima. Se maravilhou. Pareceu sorrir. Pulou, brincou, abraçou outros que surgiram. No voltar gradual da Lua ao seu lugar, aqueles seres foram se transformando. Tornando-se mais parecidos com o que um dia havíamos sido.
Agora tudo parou de correr. O céu me era familiar de novo. Mas havia muito ar e muita água. As cores eram mais vivas, o mundo mais alegre. De repete, fui deixado sozinho. Aquela sensação que eu tinha de estar sendo acompanhado e observado, passou. Estava eu próximo a uma praia. Acompanhado agora dessa nova humanidade.
Eu vi um desses seres pegar um pequeno tronco de madeira e cercar um lado da praia. Entendi perfeitamente quando ele pareceu dizer que aquele lado pertencia a ele, e que ninguém poderia se aproximar dali. O meu coração cortou na hora. Rapidamente me dirigi a ele, como um pai vai a um filho muito pequeno dar-lhe conselhos e passar-lhe um pouco de experiência. Abordei-o com um sorriso e paciência, e procurei explicá-lo que aquilo não era correto. Tudo era de todos, por igual. Era um mundo vasto e rico, e todos eram irmãos de uma mesma mãe e um mesmo pai. Ainda que eu não os visse e conhecesse. Ele parou e me fitou profundamente. Depois pegou o tronco e jogou-o no mar.
Nessa hora, antes de ele se voltar pra mim, eu fui puxado novamente com muita força para o espaço. Subi e subi, até quase ficar sem ar. E depois, vim mergulhando de volta para a linda pérola de vidro azul que me encantou desde a primeira vez que a vi.
Estava de novo na Terra. Mas agora tudo estava diferente! Era uma sociedade futurista, com certeza. Mas muito, muito mais bela e cintilante que antes. Multidões iam e vinham em meio a arranha céus de uma beleza esplêndida, debaixo de um céu muito claro e entre muito verde. As pessoas pareciam felizes, todas elas! A Terra parecia feliz, toda ela. Os seres humanos tinham uma aura em torno de si, meio dourada, meio azul. Não percebi velhice entre eles, ou qualquer tipo de deterioração. Veículos voavam sem propulsão evidente. Não havia fábricas, nem indústrias, nem shoppings. Havia muitas cascatas de águas cristalinas, largas avenidas de gramas, construções de cristais e vidros, árvores da largura de três casas! Havia muitas crianças, era como uma cena que se vê num filme de natal, na véspera, antes do anoitecer.
Eu queria falar com eles, mas acordei em casa sob um pranto inconsolável. Era um choro de satisfação, não se enganem. Eu não sei se tudo foi um sonho. Só sei que eles eram felizes. Disso eu tenho certeza!
 
A Segunda Via

j