Poemas, frases e mensagens de sandrafonseca

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de sandrafonseca

NASCENTE

 
Num veio cristalino

Um fio d’agua

Se pronuncia

Rompe o ventre

A vastidão da terra.

E um rio logo corre

Célere, vigoroso

Cavalo de água

No verde dorso da serra.



Seus fios de teia

De renda molhada

Seus passos de fera

No fundo das grotas.

Amansa cantigas

De amores e lendas

De luas-meninas

Planícies e ventres.



Um rio serpenteia

Cá dentro da mente

Um rio de versos

De lendas e lavas

Desceu num galope

Sem rédea

Nem freio.

Um rio

Um poema

Surgiu de um grotão

De um vão

De uma lavra

Rompendo os limites

Os véus do desejo

A língua, o silêncio

E a sina dos medos.



Um rio

Um espelho de águas

Enchentes

Vazantes, e lagos

E mares

Saltando os altares

Profanando as gentes.



Um rio

Um braço

De mar desgarrado

Correndo liberto

No leito das veias.

Descendo as montanhas

Os vales, as serras

Nasceu de repente

Em meu corpo

De terra.



Sandra Fonseca
 
NASCENTE

É AQUI

 
É aqui
Onde toco as palavras
Que sei de mim.
Alguma certeza,
A alma contra a luz
Do dia,
Os ossos, a carnadura.
A leveza do ouvido
Colado à brisa,
A canção que só a mim
Cabe silenciar.
E a boca pausada
Se movimenta
E articula a beleza
Secreta, sedenta,
O mistério da palavra.
Ouvi,
A poesia me canta
Por dentro
Como um pensamento
Como um coisa imorredoura,
Sangramento,
Sem causa,
E sem pausa,
Arrastamento.
É aqui
Que eu encho os meus olhos,
De absurdo
E de espanto,
É aqui que eu fecho os meu ouvidos,
E canto.
 
É AQUI

A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS

 
Não apresso a despedida
Não apresso o rio
Cultivo esse nó
Que se desata, eterno
E lento.

Lentamente cavalgando as luas
Delírio de astronauta
Coisas, gestos mínimos
Canto da boca
De onde recolho gota a gota
O sumo, a essência
Isso que não é lunar
E por ser movediço
E denso
Também não é terreno.

É onda
Quando se alevanta
Arrebatando voraz
A fauna
A flora
A vida marinha
E se arrebenta praia
E se aquieta
Do seu próprio furor
Se se alimenta
Argonauta.

Domínios do mar
Onde resido
Onde a maresia
Chicoteia o vento
E lambe meus pés de areia
Passageiros.

Isso de que falo
Me arrebata
Avassala.
Se estende desmedido
Entre os mapas
Das omoplatas
E faz do ventre
Um ninho de gaivotas
Isso de que falo
É marulhoso, infinito
Tenso.
E eu não desejo
Escapar da sua casa
Senhor das águas
Mar esplêndido.

Sandra Fonseca
 
A CASA DO SENHOR DAS ÁGUAS

O ALVO DA PALAVRA

 
Pulsando em céu da boca feito fera
Num verso, um maldizer que não se fala
Segredo, um bem-querer que não se cala
Um fado, uma cantiga da Severa.

Palavra, a cor da letra, de repente,
Semente a reviver dentro da planta.
A fonte e o alimento e a fome tanta
Que acende o coração, perturba a mente.

Papéis, rotas do mar, a flor de sal
No mel o seu disfarce em grande mal
Escreve a ânsia, um céu que não se alcança.

Disfarça o gosto amargo em outra festa
Destila a poesia que me resta
Aponta a sua seta, então me lança.
 
O ALVO DA PALAVRA

FILHO

 
O que desejo a ti
A todo instante
As horas azuis quando o dia nasce
E acordas como aprendiz
Da vida.
O teu corpo esguio
Experimenta a música por inteiro
Qualquer som que te balance a alma
E te alegras por tão pouco
O que desejo a ti
E a todo instante
E tanto
O galope de um sonho
Que ainda nem sonhaste.
Cuidas de aprender
E ensinar
O amor aos animais
Um respeito à vida
Que não te ensinei assim
Tão feroz
Nem teu felino e feliz
Instinto de sorrir
E nem é à toa
Que admiras o passo
Alucinante dos pumas
E dos guepardos.
O que desejo a ti
A todo instante
Que sejas fiel
Constante
À arte de ser feliz
Que não se aprende
E nem se ensina
Mas que hoje eu te desejo
E a todo instante.

Só pra não esquecer: Mamãe ama!
 
FILHO

ADÁGIO PARA DEZ VIOLINOS MARINHOS E UMA GUITARRA DE SAL*

 
 
Paisagem de portos em ruínas, a realeza
Da sombra de um navio, um mar imenso,
Sem pontos marcados, sem farol
Que não seja a luz de uma vela acesa.

Um homem ao mar, uma mulher-sereia
O cântico monótono dos cascos nas ondas
O apelo sem rumo das estrelas
Canção inútil de acordar os deuses.

Netuno escondido na trilha dos espelhos
De mapas perdidos, de infinitas águas,
A dor nos espaços cortados em cem luas
E o grito demente das flautas no vento.

Mar e lua e as sombras nuas a se desmanchar
Os corpos como peixes nas espumas
Os olhos imersos em sal e poesia
As costas lanhadas nos beirais de areia.

O amor urgente riscado em outro mapa
Fora dos círculos ideais, fora das órbitas
Dos astros magistrais e dos seus reinos
As almas navegando a mesma rota.

E os olhos do oceano, as vistas grossas
Vertendo águas eternas, o inumerável momento
E as línguas como loucas desejando a fonte
E o barco do desejo desafiando as ondas.

As mãos, escamas, suas asas e caudas
Reconstruindo a arquitetura dos sonhos
Os gestos na tempestade repartidos
Em todos os abraços às portas da loucura.

Cessou a tempestade não tarda a aurora
Em seus cristais de azuis abrindo os céus
Os vultos transparentes se unem à paisagem
O sol invade os espaços como um portento.

Em toda a extensão da praia há poemas de amor
Escritos à dedo, as letras desconexas,
Canções profanas espalhadas entre vestes
De linhos e algas brilhando em arabescos.

Sandra Fonseca
 
ADÁGIO PARA DEZ VIOLINOS MARINHOS E UMA GUITARRA DE SAL*

TRAÇOS

 
Querer o mar ao largo do poente
Um barco a navegar, aberto o pano
Entre os azuis do céu e do oceano
E o vento a sussurrar dentro da mente.

São asas de gaivota na arrancada
Quando se elevam aos céus em mudo espanto
São patas de um corcel na atropelada
E as notas irisadas de um canto.

E o vento , o céu e o mar, a geografia
Desenham em meu papel, muda grafia
A letra da ilusão que eu mesma traço.

A vida é um poema comovido
Palavra por palavra em meu ouvido
E a ânsia de voar me aperta o passo.
 
TRAÇOS

CARTAS À NOITE

 
O espaço cavado em breu
Da melancolia
A vida envolta em nebulosas
E os astros ferozes no encalço.
Altos em sua escalada nos céus
Velozes
Aperto sob a mão
Discreta , essa dor no peito
Nem é desenho de ferida
Nem exala à mel
Como o sangue das estrelas
Apenas arde
Denuncia ao longe
Querer que nunca acabe
Fogueira.

Demasiado tarde
Arrumar o caos
Iluminar o labirinto
Como se bastasse a luz
Que salta em golfadas
Na respiração da palavra.

Aqui me detive
Nesse êxtase e aflição
Eu sinto o cheiro que exala da madeira
Quando a faca mais lhe crava
A carne
E tanto mais brilha
O olho da paixão
Na tez azulada
Da noite alta.

Abraço a escuridão
Nas brancas pontas dos dedos
Cortamos pelo meio as dores
Atravessamos as noites
Nas luas viúvas de sóis postos
Impossível encontro
E no entanto
O gosto esperado no canto
Da boca secreta
Promessa
E da mão entreaberta
A ternura lavra seu caminho
Sem pressa.

Sandra Fonseca
 
CARTAS À NOITE

A SENHORA DO CASTELO

 
 
Senhora do castelo
Vestida do pó do tempo
Nas saias da solidão.

Eu vejo os teus olhos garços
E os teus resquícios de asas
Como restos de ilusão.

Eu sinto o tremor do lábio
A fúria, desejo alado
Numa planície prisão.

Eu conto as estrelas contigo
E a saudade do luar
Irmã Sóror solidão.

Eu leio teu livro de mágoas
Na sina de outras mulheres
Nos rastos de uma paixão.

Senhora do castelo
Ânsia dos cimos, abismos
Nos sinos de sua canção

E o teu canto vai disperso
Em letras, vozes e versos
Num pranto de solidão...

À Florbela Espanca

"Flor de Florbela" de Marcos Assumpção (Vídeo)

Publicado em:
http://www.blocosonline.com.br/litera ... 07/sfonseca04.php#castelo
 
A SENHORA DO CASTELO

SACRIFÍCIO

 
Entrar nesse jogo
Desarmada
Nua, a alma delirante
Um corpo febril
A mercê da poesia.

Não pede
Não deixa nada
Ou talvez um amargo
Na boca
Um gozo moribundo
Final
Um soco no olho
Do mundo
Imoral.

Um verso
Escrito na lousa
Invisível
Corpo indivisível
De um verbo
Como oferenda máxima
Destituída de toda graça
Ser imaterial
Que sacrifico
Em mim
Posta
Exposta em vísceras
A todo olhar
À vista
Sobre a vida
Esse meu altar
Abismal.
 
SACRIFÍCIO

BÁRBARA, MEU AMOR

 
Só você pode
Medir a força
Do medo
E soletrar a dor
E a solidão
Teu passo à beira
Do pranto
E ao teu redor
O desconforto de um vão.

Eu e os outros
Podemos te alcançar
Na leveza de um abraço
Na ponte indestrutível
Desse amor
No peito
Bem ao centro
Um regaço
Onde pousa
Teu fardo,teu cansaço.

Eu e os outros
Teus amores mais caros
Estamos fechados
Na mesma luta
A vida continua árdua
Mas, a vida...
A vida, meu amor
É Bárbara!
 
BÁRBARA, MEU AMOR

COLADA À TUA LUZ

 
Como se fosses morrer
Me calo em sua boca
Sôfrega, te respiro
Vida
E te desenhas
Rictus, sorrisos
Nas maças do meu rosto

Vasculho de novo
Sôfrega, repito
Teu fundo poço
O lamaçal, o fosso
Onde me guardas
Das palavras

Colada a tua luz
Sou frágil
Inseto transparente
Quase abjecta
Insisto
Persigo os teus desertos
Faço do teu dorso
O meu atalho incerto
E atravesso a noite
Deslumbrada de medo

A noite eterna e um sonho
meu precioso diamante
Colada à luz do dia
Espero amanhecer

Sandra Fonseca
 
COLADA  À TUA LUZ

SEMBLANT

 
Como quem parte
Permaneço,
Como quem esquece
Adormeço.
Escrevo delicadezas
Enquanto mordo
A raiva e o gozo
Da palavra.

Amanheço insone
Enquanto dorme
O meu sonho.
A minha alegria
É essa fantasia bizarra.

Como quem sabe
Desconheço,
Como quem erra
Tropeço.
Eu trago uma cicatriz
Risonha.

Anoiteço a vigília,
Faço das tripas, coração,
Eu danço um tango
No arame das minhas ilusões.

Vou partejando
O meu cortejo de desejos
Mal disfarçados de mágoas,
Enquanto a noite dorme,
Eu sou a lua
Cavalgando o ouro
De um cometa.
 
SEMBLANT

POR ANAÏS NIN

 
POR ANAÏS NIN
 
Escrevo,
Respiro.
Escrevo tal a necessidade vital
Que a experiência traduz
Escrevo,
Preciso,
Tal como o mar precisa
Da tempestade
E o escuro
Da luz.
Reluz
O ouro da palavra
Na busca incessante
Do maravilhoso
Do infinito que toca
O espaço,
As coisas.
Dão-me febre
As palavras,
Iluminação,
Graça.´
E quando essa música
Para na minha cabeça,
Então remendo meias,
Colho frutos,
Mas, sinto
Que não vivo.

Sandra Fonseca

Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris - 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anais Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida na França, filha do compositor Joaquin Nin, cubano criado na Espanha e Rosa Culmell y Vigaraud,de origens cubana, francesa e dinamarquesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler.

Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e européia.

Foi realizado no cinema um filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, que falava do período que Anaïs Nin conheceu Henry Miller. Anaïs Nin foi interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros.

pt.wikipedia.org
 
POR ANAÏS NIN

PEDRA VERMELHA

 
O coração
Esse meu estranho eco
É uma rosa entranhada
No peito
Invasor sem jeito
Flor de cactus
E seda
Pedra vermelha.

Carvão
Cascalho
Telha
O meu coração
É uma teia
Cela de uma só
Solidão.

Meu pássaro
Em seu voo quebrado
Sonho atravessado
Entre as asas
Arremedo
Falsa arribação.

Despetala
Ao toque
Risca o cristal
Secreto poema
O meu coração
Atravessado
Dessa seta
Da sorte
Entre o azul e a morte
Canta
Sua palavra amarga.

E encantado
Sangra.
 
PEDRA VERMELHA

AMANHÃ É PRIMAVERA

 
AMANHÃ É PRIMAVERA
 
Com licença, quase poética, do caríssimo Júlio Saraiva, digo:

Ao
José Silveira, consagro:

Do inverno,
Olhos de píncaros,
Pura neve,
Fizeram adormecer
A terra.
Plantei a emoção
Na semente
Da palavra,
E te guardei junto
No fundo
Da alma fecundada.

Enquanto há
O encontro
De sol e lua,
Meus sonhos não dormem,
Andam soltos,
Correm loucos
Sobre montanhas
E planuras.

De mãos à espera
Acendi os círios
Nos olhos das manhãs,
E beijei a flor
Na boca aberta da quimera.

E de dedos frágeis,
No desejo,
Eu rasgo o ventre
Da terra.
Amanhã, eu sei,
É primavera.

Sandra Fonseca
 
AMANHÃ É PRIMAVERA

IMPRUDÊNCIA

 
Na prudência
Eu só encontrei
O egoísmo de não arriscar
E nos limites
Do que não posso
O meu maior desejo,

Resolvo
Num gesto que desbrava
As loucuras santas
Quebrar as tábuas
Da ponderação
E inventar
Um outro cardápio
Onde posso ler:
Coração ao molho agridoce
Com pétalas de rosa
E asas de esperança.

Quebrei o discurso
De ser devorada
Pelo tempo
No lento banquete
Da memória.

Tenho pressa
De aprender
A língua dos anjos
E de voar sem asas
Em céus de letras
Rebordadas
Sob a grafia
Da caneta.

Avidez de quem
Pensa ter vivido já
E nada aprendeu
E na fogueira
Dos documentos antigos
Reabre os novos livros.
 
IMPRUDÊNCIA

POEMA DA FALTA

 
Citando:"Não quero faca, nem queijo. Eu quero a fome" Adélia Prado



Havia a carne e o osso

Faltava a alma

Havia a fruta e o caroço

Faltava o gosto

Havia a régua e o compasso

Faltava a valsa

Havia a febre e o desejo

Faltava o corpo.



Havia a faca e o queijo

Faltava a fome

Havia a corda e a caçamba

Faltava a água

Havia a janela e o olho

Faltava a vista

Havia o vinho e a taça

Faltava a sede.



Havia a boca e a palavra

Faltava o beijo

Havia o fim e o início

Faltava o meio

Havia a boca e a fome

Faltava o seio

Havia o pé e a estrada

Faltava o sonho

Havia tudo e o nada

Faltava a falta.



Sandra Fonseca

Abril/2012
 
POEMA DA FALTA

ESSA PEDRA

 
Citando:“No Hades, ele (Sísifo) foi condenado, tendo de rolar, por toda a eternidade, uma pedra até o cume de uma montanha, que rolava novamente sobre ele”. Hamilton, E.

Escrevo, às vezes
Com essa mão decepada
Da alegria
É que a poesia
Também é ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.

Fere
E abre ferida
Enche-a de lodo
E sal.

Um mal
Acima do meu desejo
Meu mal
Meu beijo.

Súbito trejeito
Da alma
Coisa impalpável
Essa letra de fel.

Letal
Libido sem freios
Esse poema louco
Acéfalo cavalo de fogo
Correndo nas pautas
Nas patas insubmissas
Do papel.
Canta, sussurra
Grita
Essa ira
Essa belicosa fera
Essa pedra.

Sandra Fonseca
 
ESSA PEDRA

ARQUÉTIPO

 
Já são tantas as luas que passaram
E sem saber de outras que espiam
Grifadas como rotas do infinito
O rosto, o gesto, um resto de memória.

As cenas recortadas em diários
Sequências nunca abertas, nem fechadas
Um sopro, um halo, a luz, a gota d’agua
As dores do universo refletindo.

O peso da bagagem sobre a alma
Espelho repartido em mil janelas
De olhos e de palmas levantadas.
Imagens que percorrem num segundo
Beleza e pavor, o som do medo
O brilho dos cristais, a crista d’agua.

É esse estranhamento, essa leveza
De ser num só mortal
O gen, o grão, o cerne, a natureza
Habita a concretude da rudeza
Milênios de memórias ancestrais.
 
ARQUÉTIPO