Poemas, frases e mensagens de Maria Verde

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Maria Verde

"Em certas alturas, somos verdadeiramente levados a acreditar que toda esta vida não é uma exaltação dos sentidos, de uma miragem, de um equívoco da imaginação; mas sim de algo de real, de autêntico, de existente!"
(Dostoievski)

A GRANDE FESTA! (a todos os poetas do luso)

 
A festa começou! Os convidados são todos os poetas do luso. Muita poesia, música e alegria no lugar. Entrem todos, podem chegar! A Vóny é uma das primeiras a entrar: - que bom encontrar todos vocês no mesmo lugar! A Maria veio toda de verde, mas afirma: - verde mas amadurecendo sempre! É isso aí! diz Marlise. A Betha exclama: olha quem veio estar com a gente! O poeta do tempo! Ei Dill! Declama aí um “Eldisiano”! O Gil, poeta do bem, vem entrando... a Karla Bardanza recepciona-o e diz: - bem vindo, “amado!”. Boa noite! Diz Ângela Lugo. A Dolores também veio, com uma garrafa de vinho do porto. O José Silveira chega trazendo a batucada. A Helen com seu livro embaixo do braço, entra animada! a SofiaDuarte também faz parte. Ana Coelho chega com uma lufada de vento leve! A Fhatima levanta a bandeira! – Vamos brincar que a vida é breve. Lilian entra de mãos dadas com Zocha, estava no jardim de Sofia. O GLP, quem diria! Também chega e diz: obrigado pelo convite, gostei bastante! O Garrido, que andava sumido também apareceu. O Rodrigo veio em prol do evento “Coletivo”. Cão poeta adentra a festa, todo de preto. (Re)velata, blackbird e Ghoticun, estão elegantes, também vestem negro. Adelaide tá linda! Toda colorida! Haeremai exclama: - Falta mais azul na decoração! Celiac e Nanda trazem as flores. Renata e Márcia Oliveira acabam de mesclar as cores. Agélica Mattos e Alentejana organizam o sarau. Amora, Cherry e (blue)berry trazem as frutas! O Jaber e o José Torres chegam falando: - Vamos organizar o recinto! Ta faltando o violão! O Antônio M.R Martins responde: - Já chegou com o Paulo Galvão. O Henrique Pedro diz: A festa tá ótima, transcendental! Norberto concorda: É, tá muito legal! Roque Silveira também veio lá de Braga, da Vila verde. A Tânia Mara chegou, trazendo três poemas na mão. A Márcia Oliveira convida: - Já leram meu último poema!? A Vânia diz! Já sim! É uma beleza! O Regis Camargo trouxe os fotógrafos: - é importante registrar o presente para no futuro, rever o passado! A vera Silva, lá de Amadora também veio, chegou rápido, em um pulo. O Carlos carpinteiro, que novidade, veio sem a barba! Olha lá! diz a Ibernisse, aquele lá é o Ulysses? Frederico Salvo exclama! - Na foto é diferente. É ele mesmo, diz o João Marino Delize. A Cléo veio com o rosto pintado de palhacinho! O Paulo Alves com sua tatuagem e a Glória de salto alto. O Abílio Pereira diz: recita um soneto Ledalge! Tá aberto o sarau! Avisa o Amandu, lá do quintal. A Miriade pede ao CarlosTeixeiraLuis: diminui a Luz! O próximo a recitar é o Alberto da Fonseca, que antes, ganha um beijo na bochecha. Valdevinoxis pede silêncio. O trabisdementia elogia: aqui não tem ninguém onipotente! Só alegria. O Alentagus é o próximo. É muito aplaudido ao recitar seu poema. Em seguida o Luis F. e a Carolina. Felicity acende um insenso. O CSantos é aquele do sofá, super à vontade, nada tenso. O Flavio Silver exalta a liberdade de expressão, causando comoção. Muito bem! Diz Julio Saraiva. O José Manoel Brazão é o próximo, recita um poema bem clássico. Massacre sorri com a mão no queixo. Jessé, minha nossa! veio lá da Bahia para recitar poesia! A mim, também ta aqui, aplaudindo com alegria. Em seguida, declama o Marcelo zacarelli. Camões e Veríssimo Também vieram! Mas não confundam com outros poetas!! Avisa o Boxer. Para finalizar, um poema do João Marino Delize! Nesta festa que não tem hora para acabar, todos aplaudem e cantam felizes!

*O poema homenageia todos os poetas do luso, mas fica impossível citar ou lembrar o nome de todos! Assim, desde já, peço desculpas para quem não foi citado.
Com muito carinho e amor!
Maria verde
 
A GRANDE FESTA! (a todos os poetas do luso)

Parca razão (racionada)

 
Ando racionando tudo. Até a razão. Pois, está findando qual o arroz do mês guardado naquela lata. Vou racionando como o viço de um sorriso em seu primeiro momento, que logo em seguida vai escasseando-se para poupar as rugas. Meu tempo já está pela metade e ainda vou economizando absurdamente a razão! Sustento essa idiotia porque posso deambular dias e dias sem ingerir esse alimento; sobrevivendo da mais pura emoção, que me encorpa, que me faz golfar algo morno, amorfo! Assim me intoxico, com sintomas de uma perturbada exaltação rasa e fluida... Pegajosa!
Tenho cuidado apenas com àquela hora “dos mágicos cansaços”. Àquela hora instável, de prumos sinuosos onde escorre dos dedos o melaço dos poemas doces, seguidos de outros tantos orgulhosos e viçosos, transbordando uma "sapiência" excessiva, muito vista! Sim! Depois agradeço por terem percebido que “eu sou demais"! Ah... São nessas horas (raras vezes) que procuro a razão em generosas colheradas de Drummond, outras tantas de Cony, Veríssimo, Euclides... Cecília, Clarice e até o Rodrigues! Para matar esta fome de “falta de saber”. Desci do ponto um pouco antes e sigo com pernas débeis, apertando um pequeno punhado de razão em minha mão.
 
Parca razão (racionada)

Lascas (no salão de baile)

 
Passos secos em madeira podre. Mãos em punho apertando uma hipótese decepcionante no salão de expiações. Muita vaidade e sapatos gastos. Serpentinas de palavras pelo chão pisoteadas e quanto gesto vão! Em garatujas que imitam polígonos de múltiplos lados e interesses individuais. Quanta ousadia em si mesmo morta e quantas espadas enferrujadas e tortas! E os escudos... Uns cheios de buracos, outros cautelosos e rotundos. A verdadeira voz é muda e segue em desvario gritando no ouvido de todos. Me ouve!! Rouquidão léxica. Só se escuta o que se quer. Não lemos a nós mesmos em voz alta.
 
Lascas (no salão de baile)

Plantio

 
Estava escavando o teu olhar
Quietinha...
Vi ao fundo meus desejos
Sabatinados aos teus.
Terrosos adubos,
Alimentando raízes remotas e fundas.
Infâncias distantes,
Mas unas,
De sangue e sumos,
De mãos e vozes,
Emanando os vapores de nossos destinos
... Mais tarde,
Quando a lua deitar,
Vou terminar de plantar nossa vida.
 
Plantio

Meu Céu branco

 
A terra esturricada
Greta na minha memória
Qual rachadura da terra à pele,
Qual desespero da lama no poço seco.
Escuta, meu céu branco
Dias a fio quando te penso,
No lenço,
Deposito um soluçar rangido.
No papel,
A minha alma desfolhada e seca,
Sedenta do teu sol agreste,
Do vento preguiçoso que passava comprido...
E das miragens que avistava
Naquele horizonte seco,
Mas vivo.
 
Meu Céu branco

Mineral

 
Seixos que rolam
Soltando grânulos
aparando arestas,
moldando-se para serem redondos
Pequenos, monossilábicos.

A pedra chega ao destino
Reduzida, cortada
Sem campos exteriores
Centro. Íntimo!
Alma.
 
Mineral

de calo nos pés

 
Há uma calosidade crescente
Que dói ao pisar descalço
É pedra, não é tablado de palco!
Essa realidade inclemente.

Buscam o sonho...

Qual a certeza desta dualidade?
O sonho, ou a realidade bisonha?
Vale as marcas de sangue no calcanhar
Do que um nada macio para caminhar.
 
de calo nos pés

Cotidiano (outro olhar)

 
Necessito de uma linha. Um risco sem maestria. Que seja um retrato. Me posto a olhar os detalhes deste risco fotográfico que converge para a alma. Vai ficar para a posteridade, quando no futuro eu possa tocar o risco tremido e ver o registro de uma vida. Minhas lembranças futuras me veriam dançando pela mão que me suspende por fios, um dedo a cutucar meu coração. Quem viu vai lembrar pensando que eu dançava por vontade... rodopios perfeitos. Mas as pessoas enxergam o que bem querem! Como querem! Um movimento brusco, um puxão, se revela em momentos fortes de aflição. Errei o passo. Mas não era eu, e sim a mão! Difícil alcançar os fios e cortá-los a dente! Difícil entender que nem tudo é o que nós queremos. Mas existe livre arbítrio, é por ele que escrevo sob as terras mais profundas, úmidas, achando restos, cacos, pedras, algumas coisas orgânicas também... em decomposição. Arqueologia dos porquês. Isso tudo não passa pela metáfora, nem pela imaginação! É real como a mais inventada prosa! Real como a mais descritiva cena romanesca! Antes da continuidade, já sei do próximo capítulo, os seguintes claro que não! Pois tenho esperanças! Os dias seguem... verei se o açougueiro cortou minha carne, se o carteiro deixou alguma carta. É a rotina, mas vou dançando... ando meio farta.
 
Cotidiano (outro olhar)

Na tua partida...

 
Na hora de tua partida eu queria ter seguido com você. A tua mão na minha, até o final da linha que nos separaria... Mas tu sabes que eu te pediria para não ir e que não largaria tua mão! E que faria um alvoroço daqueles! Se preciso fosse. Para você ficar mais um pouco, eu inventaria histórias, atravessaria paredes, quebraria o relógio, extinguiria o calendário, apagaria o sol, embriagaria a lua para ela não levantar... Pararia o tempo!
Mas o “compromisso” era inadiável e te levou abruptamente. Doeu... Doeu muito! Não é fácil suportar uma dor.
Mas eu sei que não te perdi, apenas a vida me deu e te tirou de mim quando concluístes a tua missão aqui na terra. Porque é assim a vida... Eu sei... Pai.

***
 
Na tua partida...

Trindade

 
 
Da balança da gangorra
Às voltas do carrossel,
Abstraio
Da memória marcada
Pelas rodas de madeira
Ou ferro chispando fogo,
O sabor
Do beijo ensaiado
Na polpa da manga rosa,
A partir da lembrança
Da inocente trindade:
Terra, amor e dois...

E sob os efeitos saudáveis
Da dureza e da ternura,
Além de outras tantas
Zonzeiras das terapias
Da infância,
Amparo-me nos braços
Abertos do tempo,
Que ainda não consegue
Abraçar-me.

Mas, desse tempo e do outro,
Retiro os desejos e as lembranças.
A lua de hoje,
O sol da infância...
De onde emergem as vontades
E todo o significado
De duas vidas
Nas doces tardes,
Por entre terras e árvores!
Circunstâncias...
De outra trindade:
Ontem, amanhã e hoje!

Dueto (Maria verde e Edilson José)
Na voz do poeta e amigo, José Silveira.
 
Trindade

Meu luso do mês de outubro é Frederico Salvo

 
Bom. Como escrevi no comentário sobre a entrevista de Maria Verde, penso não ter tanta coisa interessante a contar, mas passo a fazê-lo aqui no intuito de me dar a conhecer a todos amigos desse sítio, que tem sido para mim um recanto de muito aprendizado.
Nasci no vigésimo terceiro dia do mês de julho do ano de 1964. Sou natural de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais. Sou fruto de uma família simples. Minha mãe, Lina, natural de Nova Lima, cidade próxima à Belo Horizonte, era professora primária e também cabeleireira nas horas vagas e fins de semana. Meu pai, Paulo, natural de Curvelo, município situado exatamente no centro do Estado de Minas Gerais, trabalhava no comércio e era vendedor viajante. Tenho um irmão, Leonardo, que hoje reside em Curitiba no Estado do Paraná. Das lembranças da minha primeira infância as principais imagens são as que me vejo nos ombros do meu pai, passeando pelas ruas ensolaradas do bairro; a cabecinha branca da minha querida e saudosa avó Petrina, que fazia sempre questão de que me recostasse em seu colo, mesmo depois de mais velho; as idas ao estádio de futebol em companhia de minha tia Lúcia, fanática pelo Cruzeiro, time pelo qual tenho grande carinho. Meus primeiros anos de estudo aconteceram no Colégio Municipal de Belo Horizonte, numa época em que o ensino público era o que havia de melhor, realidade que, infelizmente, é hoje exatamente inversa. Aos treze anos ganhei de minha avó Petrina o meu primeiro violão e a possibilidade de começar a aprender o instrumento. Num primeiro momento não gostei da idéia, mas depois tal fato faria muita diferença. Por esse tempo comecei a conviver com alguns amigos que tocavam e também se arriscavam com algumas composições próprias. Passei a me interessar pela atividade e a estudá-la. Foi nessa fase que iniciei um contato maior com a poesia nas composições das minhas primeiras músicas. Formei juntamente com esses amigos o Grupo Morro Velho, nome retirado de uma canção do grande cantor e compositor Milton Nascimento, que exerceu sobre todos nós grande influência. Durante toda a década de oitenta tivemos um intenso convívio, fazendo apresentações, participando de festivais musicais por todo estado de Minas Gerais e também tocando pelos bares e casas noturnas da minha cidade. Foi um tempo inesquecível. Uma grande paixão por tudo isso me levou à Escola de música da Universidade Federal de Minas Gerais, onde estudei por quatro anos. Também fui funcionário da Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais, onde ingressei por concurso público aos dezessete anos de idade. Por lá trabalhei até a extinção da entidade que aconteceu no governo do então presidente Fernando Collor de Melo. Esse fato me levou a abraçar uma oportunidade de emprego na cidade de São Paulo, onde residi por quase uma década. A passagem por lá me rendeu o reencontro com meu pai, que poucas vezes vi na infância e adolescência, e que reside por lá desde os meus sete anos, quando ele e minha mãe se separaram. Em São Paulo também aconteceu o nascimento de meu amado filho Bruno. De volta a Belo Horizonte, numa difícil situação de desemprego, tive a felicidade de conhecer e trabalhar com massoterapia, atividade a que hoje me dedico e que se tornou uma ótima profissão. Ainda estudo a matéria e também acupuntura pelo Instituto Mineiro de Acupuntura e Massagem. – IMAM. Cheguei ao Luso-poemas há quase dois anos e por aqui fiz boas amizades. Minhas poesias saíram da gaveta através do incentivo da minha querida amiga Márcia Oliveira, que eu já conhecia antes de chegar por aqui e que, um dia, ao ler alguns poemas meus, me convenceu a levá-los ao conhecimento de outras pessoas. Passei a fazê-lo e acredito ter valido à pena. Para minha surpresa estou eu aqui hoje, escolhido por uma colega inteligente e capaz, pela boa aceitação dos meus versos. Essa seria a linha mestra da minha trajetória que certamente tem agregada a si tantos outros fatos e emoções diversas.

Frederico Salvo, este mineiro talentoso, surgiu no site luso-poemas em 23 de Janeiro de 2008, dizendo o seguinte sobre si: “No meu sonho mais puro e sincero/Quis ser, inocentemente, eterno./Forte eu era. Inabalável sempre./Ao acordar, optei por ser apenas um homem.” Desde então, com mais de trezentas publicações no luso, tem encantado a todos com sua escrita talentosa e, como costumo dizer, elegante. Elegante pela escrita cuidada, clara e musical, abraçando temas universais diversos, expostos pelo seu olhar particular. Em seus poemas podemos ler algo profundamente sentimental ou saudosista, com textos sobre sua terra, sua infância, amores, amizade, paternidade, entre outros; bem como belíssimas homenagens a artistas das letras e da música como Dorival Caymmi, Drummond, Tom Jobim... A meu ver, o que concede unidade a poesia do Frederico é a busca do eu-lírico a fim de conhecer-se a si mesmo, singrando temas bastante meditativos. O passado é um assunto recorrente em sua poesia, através de reminiscências da sua infância e da sua terra natal, como observado nesses versos “Ainda somos as crianças, querida;/Que outrora fomos num recente passado./Ainda ouvimos as remotas cantigas/Agora em ritmo tropo, sincopado./ Trocamos balas, doces por prazeres/Outros, porém não menos infantis;/Fazemos birra por mortais quereres/Tão sutilmente... (nem percebo que fiz).” Frederico Salvo carrega nas veias todas as características inerentes a um grande poeta de mente criativa e produtiva que se mostra à vontade para manipular a língua e a linguagem, dentro de um suporte ideológico transparente, mas longe de qualquer lugar comum.


- Frederico, ao ler sua biografia, senti a emoção de suas palavras, ao falar da sua querida avó Petrina e mais ainda, do seu pai, com quem durante a infância teve pouca convivência, mas com momentos muitos ricos, como a lembrança que você guarda de passear pelas ruas ensolaradas de sua terra natal, sobre os ombros do seu pai. Quer nos falar dessas duas pessoas tão importantes em sua vida?

É sempre uma grande emoção falar a respeito da minha querida e saudosa avó Petrina. Mulher de coração e docilidade imensuráveis. Foi ela quem enxergou em mim a sensibilidade para a música e me deu a oportunidade de desenvolvê-la. Mesmo com sua pouca instrução era capaz de dizer grandes verdades como quando, por exemplo, bem no meio de sua oração diária, vendo algum deslize na minha imaturidade, soltava : “ Um homem mentiroso se perde em si mesmo”. Pequenos toques que acredito terem contribuído na construção de meu caráter. Em síntese era ela o centro gravitacional de toda a família. Um sol que brilhou intensamente e que mesmo depois de se pôr, ainda faz sentir a dádiva do seu calor. Quanto a meu pai, guardo muitas lembranças boas. Acontecimentos da infância, alguns poucos encontros na adoloscência, o convívio maior quando estive em São Paulo. Há entre nós atualmente uma grande amizade. Por muito tempo alimentei uma certa mágoa, por ele ter se afastado tanto, mas hoje sei que teve seus motivos. Perdoamo-nos e isso para mim representou o fim de um grande descontentamento. Registrei essa passagem há algum tempo no soneto “O cisco e a trave”.

Tive dúvidas sim. Não as escondo.
Por ter ferido à mágoa o peito ardente.
O orgulho a me prender sob os escombros
E o não, feito parede à minha frente.
Por todos esses anos, ressentido,
A esperar de ti algo que fosse
De encontro a todo tempo ora perdido,
Ao âmago da dor que a vida trouxe.
Cansado de esperar corri o risco
E fui estar contigo resignado,
Disposto a acabar com esse entrave.
E foi assim então, meu pai amado,
Que do teu olho eu tirei o cisco
E tu do meu, enfim, tiraste a trave.[/color]

- A música para você é uma grande paixão, que como vimos, o levou a fazer “apresentações, participando de festivais musicais por todo estado de Minas Gerais e também tocando pelos bares e casas noturnas da minha cidade... Uma grande paixão...”. Sendo assim, há alguma influência desse amor à música ao mundo da poesia?

Na verdade se não houvesse a música, não haveria também a poesia. Meus primeiros versos nasceram da necessidade de aplicar imagens às melodias que fui criando no violão. Desde o primeiro momento em que aprendi a tocar alguma coisa, tive um grande impulso no sentido de compor. Ainda hoje quando me assento a burilar as cordas do instrumento me vêm melodias novas que passo então a desenvolver. Muitas jamais tiveram letra, mas outras tantas foram preenchidas pela palavra. A poesia hoje tem papel principal e faz parte do meu dia-a-dia, mas acredito mesmo que se não fosse através do viés da música não a teria desenvolvido.

- Frederico Salvo, uma das características que me sinto à vontade de atribuir a você é a escrita elegante e bem cuidada, de olhar amplo sobre a vida e os homens, sendo o soneto uma das formas mais usuais de sua poesia. Podia nos falar um pouco disso?

Gosto particularmente do soneto, pois, além de uma bela forma estética de se fazer poesia é também, para mim, uma grande brincadeira. Um desafio. Quando alguma situação desperta meus sentidos, passo a desenvolvê-los em versos, visando satisfazer as rimas e à métrica. Além de uma boa forma de me expressar é também um grande passatempo. O conteúdo é sempre aquele que mexe profundamente com a maioria, mas que vão transcorrendo pela vida como se fossem naturais. A desigualdade entre os homens, a hipocrisia, o desamor à natureza e a nossa insistência ocidental de nos vermos à parte dela, a incoerência do ser humano frente às necessidades impostas pela vida real. Há também, como não poderia deixar de ser, o tema maior de quase todos nós poetas: o amor. Gosto também de me aventurar pelo erotismo às vezes. Esse aqui descreve bem o exercício da composição dos sonetos. Deixo como complemento à minha resposta.
OS QUATORZE VERSOS

Bem aqui nessa caixa hermética
Cabem sonhos, idéias e amores.
Cá dentro dessa forma estética
Avizinham-se risos e dores.
No ígneo cadinho da vida
Liquefaz-se a verdade que somos
E aqui a matéria escolhida
Se reparte em pedaços ou gomos.
Apesar de restrito o espaço
Trago sempre atada num laço
Toda a trama a que me comprometo.
Cabe assim esse mundo inteirinho,
(Como um odre a conter todo o vinho)
Nos quatorze versos do soneto.

- Frederico, do que se alimenta a sua escrita? Ou seja, sua poesia se inspira em algum poeta que você admira? Também pode nos dizer em que ponto sua vida e sua obra se confundem?

O grande compositor Antônio Carlos Jobim dizia ouvir pouca música para que sua inspiração não sofresse demasiada influência e pudesse, dessa maneira, chegar-lhe clara e com naturalidade; para que realmente tivesse a sua “cara”.Sei que bebeu na fonte de Heitor Villa-Lobos, principalmente, além de outros grandes da música popular brasileira. Mas, sem sombra de dúvidas, a música do Tom tem sua assinatura. Quem ouve uma melodia composta por ele, quase que de imediato sabe tratar-se de uma obra sua. De certa forma tento fazer assim também. Apesar de admirar sobremaneira poetas como Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Vinícius de Moraes, Mário Quintana, dentre outros, quase nunca me inspiro em um deles para fazer meus trabalhos. Deixo vir espontaneamente e acredito que consiga dar aos meus poemas um traço pessoal que os caracterizam. Sobre a segunda parte da pergunta, posso afirmar que é tão tênue a linha que separa o cidadão do poeta que nem sei qual deles está a lhe responder agora.

- Uma questão que acho de suma importância, e sendo assim, não poderia deixar de fazê-la, diz respeito ao seu olhar sobre a sociedade. O que você tem a nos dizer sobre o mundo e as pessoas?

Acho sinceramente que a maioria de nós se distancia de si mesmo para viver em sociedade.A luta pela dignidade, a necessidade imediata de provir o amanhã, muitas vezes nos leva por caminhos tortuosos que, ao serem trilhados, passam distante daquilo que verdadeiramente gostaríamos de ser e viver. Ao tentarmos “voltar” para perto de nós mesmos, nos vestimos de egoísmo na busca do acúmulo, dos bens materiais, para que, num hipotético dia, possamos enfim, resguardados por tudo isso, estar na pele daquele que sonhamos outrora e que, de certa forma, se perdeu no turbilhão que o mundo faz. E acho que por sermos assim o mundo é o que todos sabemos que é. Pelo menos para mim a poesia significa um passo na busca desse reencontro. Meu trabalho hoje também me leva nessa direção. Levo uma vida muito mais simples de que alguns anos atrás. Tenho me sentido melhor assim.

- O que o espaço-luso poemas é para você, qual a importância ou contribuição que esse espaço literário tem em sua escrita?

Tirei meus poemas da gaveta e os trouxe para cá, descobrindo que, a despeito de minhas dúvidas sobre a qualidade deles, muitos gostaram e ainda hoje me elogiam. Fico muito feliz por isso e tendo então a querer dar continuidade a essa atividade. Escrever é uma forma de trazer à luz o que me vai no íntimo, o que proporciona grande satisfação. Portanto o Luso tem sido muito importante, visto que aqui, sob olhar de pessoas que como eu gostam e vivem poesia, tenho a oportunidade de dar continuidade a esse exercício. Também não posso deixar de dizer a respeito das boas amizades que fiz. Pessoas que mesmo de maneira virtual, passaram a ter grande importância na minha vida. Ressalto ainda o fato de que nosso contato com as pessoas segue por um caminho inverso ao convencional, mas muito saudável e interessante. Nesse espaço nossa alma é que se dá a conhecer primeiro e isso a meu ver, é razão que minimiza em boa parte certos tipos de preconceitos.

- Como é de praxe. Qual o livro ou autor preferido? Filme preferido? E música preferida?

Puxando a memória me vêm os seguintes livros: Vida secas de Graciliano Ramos; Médico de homens e almas de Taylor Caldwell; Dom Casmurro de Machado de Assis; Sagarana de Guimarães Rosa; O grande mentecapto de Fernando Sabino; Budapeste de Chico Buarque de Holanda; ... são os que me vieram no momento.

Com relação aos filmes, posso citar: Um sonho de liberdade, do diretor Frank Darabont, onde os atores Tim Robbins e Morgan Freeman, dão um show de interpretação. Outro que marcou muito foi Papillon com os grandes Steve MacQueen e Dustin Hoffman; Outro ainda: A lista de Schindler de Steven Spiellberg.

Vou citar duas canções preferidas. Uma onde há apenas melodia, aliás um dos temas mais bonitos que já ouvi e que se chama Day dream. Faz parte do repertório do álbum Togethering, onde tocam juntos o guitarrista Kenny Burrell e o saxofonista Grover Washington Jr. A outra, uma gravação antológica do meu compositor preferido, Tom Jobim, onde ele canta com a saudosa “Pimentinha”, Elis Regina: Águas de março.

- Frederico, quais suas ambições e sonhos para o futuro?

Envolvi-me de forma muito intensa com a massoterapia. Trabalho nessa atividade já há cinco anos. Descobri que proporcionar bem-estar à outras pessoa através do toque é uma das melhores coisas que já fiz na vida. Por isso pretendo continuar me aprofundando nos estudos a respeito da Medicina Tradicional Chinesa, que é a linha com a qual trabalho, e ser um melhor profissional a cada dia. Também pretendo retomar o caminho da música que ficou um pouco de lado nos últimos anos e que é uma das maiores paixões da minha vida. Tenho sonhado também com a possível publicação de um livro de poesias, já que através dela tenho aprendido a me conhecer melhor. Enfim minha preocupação maior não é exatamente com o futuro, mas sim a de viver um presente com qualidade e fazendo por acrescentar, não só à minha, mas a vida de todos aqueles com quem convivo. Seja no real ou no virtual. Para finalizar quero deixar aqui, já que falei bastante sobre música, a gravação de uma composição minha. Rochedo fica como um presente meu a todos os amigos desse maravilhoso espaço que é o Luso-poemas. Foi um imenso prazer poder abraçar essa oportunidade.

- Quem é o teu luso do mês de novembro?

Meu poeta-luso do mês de novembro, não só pelos textos, mas também pela simpatia, é a amiga Betha M. Costa. Espero que ela aceite e possa nos dar a conhecer um pouquinho mais de si.
 
Meu luso do mês de outubro é Frederico Salvo

Paineira em agosto

 
... Enquanto isso,
Vou caminhando pela casa.
Batendo os braços
Nos objetos da sala,
Queimando a boca no alimento quente.
Já pensei em morrer...
Morrer ao lado de um pequeno braço de rio,
Sobre uma verde grama,
Sob uma paineira exageradamente florida.
Mas, em agosto não há flores!
... Esperarei suas cores
Fitando seu tronco espinhoso,
sem abraço.

As flores sempre caem.
Ornarei meus cabelos
E verei o rio levando as pétalas,
que vão se afastando,
soltando as mãos...
E verei arroxear a grama,
Lábios,
Pontas dos dedos.

É agosto!
E lento, vai passando.
Já não sei de nada fora de ti...
Fora desse mundo em mim.
 
Paineira em agosto

Atilamento

 
Há uma voz sobre a noite
Ecoada em múltiplas falas,
Troando uma ilusão caduca e manca
Sob pés descalços.

Há sentimentos vigiados,
Olhos que não sabem,
Pernas misturadas e viciadas,
Cadeirantes do abraço.

Há unhas cheias de pele,
Sonhos crassos,
Risos presos,
Poetas fartos.
 
Atilamento

Marcas e ciscos

 
De forma mecânica toquei meu antebraço e olhei as marcas roxas. Tremo e sinto a pulseira de pedras gelar e machucar as marcas dos dedos... Abraço-me. E me protejo do gelo da mesquinhez pintada de remorso gentil. É tão fácil ver! Mas não vemos. É como a água que tomamos todos os dias sem olhar para ela, apenas degustando e matando a sede recorrente, até que um dia, ao pousar a vista na água translúcida percebemos um cisco, um germe. Uma hesitação entre beber e não beber... se não beber? Um frouxo arrependimento de incerteza martelará a nossa mente: germe ou apenas cisco? Algo ergue o nosso braço e bebemos a água em grandes goles, limpando os lábios com as costas das mãos. Engasgamos. Tossimos. Mas engolimos... Porque morreremos sem ela(e)?
Furtamos uma alegria vã na falsa saciedade. É como tomar uma laranja linda nas mãos, que ao abrir os gomos, está ressequida, não tem sumo. Se a mentira, a traição, a farsa, o incêndio descoberto na água, não abortam a sede, qual punhalada ainda falta? O amor não se funda em um corpo, nem na cor dos cabelos, nos gestos... Ama-se primeiramente a idéia de amar, a emoção suspensa, qual respiração embaixo d’água. Na incompletude humana, alguns iniciam uma busca eterna onde nenhum “ser” irá satisfazê-los. Andarão em umbrais libertinos, sugando tetas de todas as espécies, com todas as portas e janelas abertas, infestando a casa de anjos e demônios inconexos... As marcas no antebraço estão amarelando, a pele voltará à sua cor natural.
 
Marcas e ciscos

Intimidade

 
Seguimos tateando os dias.
Procurando pelos olhos,
A curva,
Os lábios...
Delírio onírico que alvoroça o instante
Da alma e da carne.
Marcas. “A cicatriz... o sinal”,
A calma redescoberta!
É cerne dos dias roucos e suspensos.
... Amanhecer que rasga o dia à punhalada

Já temos tudo tocado.
Somos música!
Madrugada,
Janela aberta
Onde pousa a cumplicidade,
Abraço que protege do tempo parado.
Ah! Silábico amor paradoxal,
Liberto e enclausurado.
Vejo-te em todos os meus lados.
... Reconheço o cheiro de pitanga orvalhada.
 
Intimidade

Estéril

 
Vai semeando trigo
Seco,
Natimorto.
No berçário de teus olhos,
Olhos no fundo do horto.
Desce as mãos secas pela pele,
Pele escamada.
Dá um passo com tuas pernas,
Pernas com bernes.
Entre as bernes teu ventre,
Ventre estéril.
Órgão desafinado,
Nunca se ouvirá sua música.
Incapaz de reproduzir um gameta
Funcional.
Passa teus dedos frios nos seios,
Seios cheios... de nada.
Amamenta o vazio,
Esse rebento débil.
Pari a morte ceifada,
Chora lágrimas cansadas,
Tapa o canal vaginal,
Treme a coxa
E morre...
Num espasmo abdominal.
 
Estéril

Tudo parado

 
Céu azul
Portão azul...
Despetalando devagar
O marasmo,
O bem querer
Que mal me quer...
A mão desliza na testa
É hora da sesta
Balaio vazio
Ocre,
Oco.
À espera de cores
Tudo parado,
Parado e morto.
 
Tudo parado

Hoje!

 
Hoje,
nas vinte e quatro horas do dia,
Dedicarei todos os momentos
no esforço de estar junto a ti.
viverei só de ti!
Hoje,
caminharei contigo.
Indo aonde quer que vá,
vendo o que quer que veja,
sentindo o que quer que sinta.
Hoje!
meu dia é teu,
em todos os detalhes,
em qualquer gesto, olhar...
Sem nada, nada esquecer.
 
Hoje!

O homem da minha vida! (Homenagem)

 
 
Chegou do seu passeio matinal de bicicleta... Eu nunca acordo tão cedo, mas, desta vez, ouvi o ranger da magrela adentrando o portão. Então, não sei por que razão pulei apressada da cama e corri ao portão. Você me olhou. Olhos verdes brilhando! – Oi princesa! Caiu da cama? E me sorriu por detrás dos óculos – Oi! Não, só ouvi sua bicicleta.... Que trouxe hoje da feira? -Feijão verde e queijo! - Hum... - Também trouxe outra coisa, mas pra você. - o quê? O quê? - Abra a mão! Me disse sorrindo. E eu estendi logo as duas, receando que com uma só deixasse esse “algo” cair. E ele depositou um cachinho de florzinhas brancas, dizendo: - São as primeiras do seu pé de jasmim! Amanhã deverá amanhecer cheio de buquês... olhe... veja quantos botões virarão flores, assim como você se tornou a mais linda rosa que já vi...! Eu pisquei os olhos. A mesma cor se fitando. Do alto de meus 14 anos, olhei aquele frágil jasminzeiro selvagem, assim como eu e meus olhos ficaram rasos e sem fala. Abracei meu pai como se não fosse soltá-lo nunca mais...

Este foi um dos momentos mais preciosos que tivemos. Infelizmente meu pai soltou do meu abraço e partiu em uma madrugada úmida. Terrível acidente...

O pé de jasmim ainda existe. Sua voz ainda ouço. Seu abraço ainda sinto.
Te amo meu pai! onde quer que esteja.
 
O homem da minha vida! (Homenagem)

Os sapatos que não tive

 
Se eu sair da fina linha
Ou borrar as letras,
Não riscaria o que não tenho.
Arriscaria sim, a palavra extrema
Para dizer do ganho e das perdas...
Dos “dias diferentes”!
Do pisar firme à terra, rente!
Me extinguindo se pudesse ter.
Matando se pudesse fazer acontecer.
Um momento!
Um momento, apenas...

Ah! Diadema que circunda minha fronte!
Minha luz que renasce no horizonte!
Vento morno a me bater o rosto, incomum!
Fotografia “caramelo” do meu álbum!

Tenho saudades todos os dias...
Daquilo que sei, mas não disponho!
Como os sapatos que minha mãe não comprou,
Mas gastei até a sola do meu sonho!
Nunca calcei, mas o querer não mudou.
 
Os sapatos que não tive

o mais importante não se conta, se constrói com o não dito, com o subentendido, a alusão”. (Piglia)[/color][/color]