Poemas, frases e mensagens de HelderOliveira

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de HelderOliveira

Para um perfil mais completo, fotos e links para poemas e contos policiais em Português e Inglês, publicados na Internet, poderá visitar o meu Site pessoal, o "HeldSense", no seguinte endereço:
http://tiny.cc/heldsense

DEFINIÇÃO

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor tendo como pano de fundo o trecho musical "London, London" interpretado por RPM).

(Este poema é dedicado a todos os poetas e a todas as poetisas ao redor do Mundo, em especial aos que escrevem em língua portuguesa.)


DEFINIÇÃO

Ser poeta é fazer nascer,
Emoções em quem o lê;
E com essas emoções tecer,
O universo do seu próprio ser,
E um mundo que só ele vê!

E favorito ele passa a ser,
De quem nele se revê;
E o leitorado sem esmorecer,
Anseia em cada alvorecer,
As emoções que já prevê!
 
DEFINIÇÃO

Prisioneiro do Amor

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor com a música de fundo "Índia" interpretada por alma gémea)

Prisioneiro do Amor

Preso! Vivo preso!
Prendeu-me um coração!
E ao invés de menosprezo,
Dentro de mim represo,
O gosto da punição;

Que ninguém fique surpreso,
Por eu gostar da reclusão;
É que tanto por esse amor me prezo,
Que a liberdade por ele desprezo,
Para feliz viver na prisão!
 
Prisioneiro do Amor

Gosto Dos Teus Olhos

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor tendo como pano de fundo um grande sucesso dos anos "60", a canção "Aline", de Christophe.)

Gosto dos Teus Olhos

Sempre que fito esses teus olhinhos maviosos,
De cujo encanto não me sei desenlaçar,
Sinto ternos desejos sequiosos,
De em mil laços de amor os enlaçar;

Mas quando lanço os laços de os laçar,
Eles lestos desviam caprichosos,
As minhas ânsias de os entrelaçar,
Aos meus ávidos desejos buliçosos;


E quanto mais de mim eles se esquivam,
Mais deles me enamoro e mais se avivam,
Os meus anseios de atrás deles só correr;

E na crença de algum dia os alcançar,
Atrás deles vou correr sem descansar,
Enquanto houver distância a percorrer!
 
Gosto Dos  Teus Olhos

CONFISSÃO

 
A ti eu me confesso, amor da minha vida…

CONFISSÃO


Gosto do teu sorriso divinal,
Para mim o mais lindo afinal,
Que meus olhos já presenciaram;

Gosto dos teus olhinhos tentadores,
Para mim os mais ternos sedutores,
Que meus olhos já contemplaram;

Gosto dos teus lábios sensuais,
Para mim os mais originais,
Que já algum dia desejei beijar;

Gosto da tua voz melodiosa,
Para mim a mais quente e amorosa,
Que já algum dia pretendi escutar;

Gosto do teu andar elegante,
Para mim o mais belo e fascinante,
Onde os meus olhos já se deleitaram;

Gosto das tuas formas sinuosas,
Para mim as mais apetitosas,
Onde os meus olhos já se saciaram;

Gosto dos teus gestos cativantes,
Para mim os mais estimulantes,
Que meus sentidos quiseram adorar;

Gosto da tua candura angelical,
Para mim a mais pura paz celestial,
Que para sempre há-de perdurar;

Gosto do teu jeitinho de gostar,
Para mim o mais puro gesto de amar,
Que algum dia pude perceber;

Gosto da tua presença sempre bela,
Para mim a mais linda aguarela,
Que alguma vez pude conceber;


Gosto de ti e de tudo em ti,
Meu grande amor para quem escrevi,
Este poema do meu coração;

Peço-te que o guardes com ternura,
Para que nos momentos de desventura,
Suavize a tua solidão.


Helder Oliveira
(Helder de Jesus Ferreira de Oliveira)

(Fevereiro de 2014)
 
CONFISSÃO

Desejos Reprimidos

 
Desejos Reprimidos

Os meus íntimos desejos só escuridão conhecem,
Pois só no escuro eles ofuscam a feroz censura;
Assim só podem encontrar ventura,
Quando as claridades desaparecem;

Só quando as vãs vergonhas adormecem,
Eles se soltam na morta noite escura;
E então ávidos saciam com loucura,
As ânsias recalcadas que então se desvanecem;

Assim sinto que nesta vida vivo mascarado,
Sufocando as minhas ânsias num corpo macerado,
E ocultando-me em falsas aparências;

Sofro porque vejo magoado,
Que os meus anseios de um sabor mais refinado,
São rotulados de impúdicas indecências!
 
Desejos Reprimidos

Fazer Poesia

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor, acompanhado da música de fundo "Stand by Me" do consagrado cantor americano Ben E. King.)

Fazer Poesia

Fazer poesia é aliar a inspiração,
Aos imprevisíveis sentimentos;
E consoante a lira dos momentos,
Virão então poemas da Razão,
E virão outros então do coração.

E quem os lê igualmente se ressente,
De tão violentas emoções;
Pois em cada verso bem se sente,
Ser todo o poema uma nascente,
De efervescentes comoções.

Volúvel já e já o inverso,
Ora em paz, ora em convulsão;
E é neste estado de alma tão diverso,
Que se compõe e cria cada verso,
Cada rima, cada estrofe… cada emoção!
 
Fazer Poesia

As Cataratas Vitória

 
Ah, “Cataratas Vitória”!
Tu testemunhas de forma bem repleta,
Que a Natureza é a artista mais completa!

As Cataratas Vitória

Ouve-se um som forte, poético, melodioso...
Que penetra em nós, sem de nós querer mais saír;
Movimenta-se o olhar ávido...ansioso...
A tentar descobrir se é algum dom misterioso,
Ou se é a fértil imaginação a brincar, a traír...

E sem querer se começa lentamente a caminhar,
Como que atraído por aquela maviosa cantoria;
E sente-se mais forte aquele melódico borbotar;
E quere-se logo logo e mais depressa lá chegar,
Para se conhecer a fonte de tão bela melodia;

As “Cataratas Vitória”! Que deslumbramento!
Um lesto lençol de água lança-se gigantesco,
Num grandioso espectáculo de raro encantamento;
É um portentoso jacto em frenético movimento,
A dar vida a um quadro singular e pitoresco;

Uma exótica nuvem de brancura transparente,
Envolve continuamente a paisagem circundante;
E tudo em redor cai em êxtase permanente,
Ao som rítmico e sonoroso da plácida corrente,
Ao transformar-se no intrépido jacto tão possante;

São imensamente belas as “Cataratas Vitória”!
Tão belas que os seus sons são melódicos cantos,
Que se reterão para sempre na memória,
De todos os que puderam ter a glória,
De se render aos seus magnânimos encantos...

Ah, “Cataratas Vitória”!
Tu testemunhas de forma bem repleta,
Que a Natureza é a artista mais completa!


(Feito em Victoria Falls, região do Zimbabwe onde se encontram as famosas “Cataratas Vitória”, em Junho de 1989.)
 
	                As Cataratas Vitória

O Carro Armadilhado

 
O Carro Armadilhado
(Ficção. Com excepção de alguns topónimos, todos os componentes são fictícios.)

“Há vezes em que a morte chega silenciosa;
Há outras em que chega ruidosa…”

1. Explosão de uma viatura no Largo do Kinaxixe.
Domingo, 10 horas da manhã. A rotina habitual do Largo do Kinaxixe, em Luanda, bem como das áreas circundantes, foi subitamente interrompida por um estrondo provocado pela explosão de uma viatura, precisamente quando esta passava pelo centro do Largo, em direcção à Mutamba. As pessoas que passavam por perto correram para o local. Nos prédios em redor, dezenas de cabeças assomaram às janelas e as varandas apinharam-se de gente. De um carro de patrulhamento policial que passava pelo local saltaram vários agentes que, prontamente, cercaram a viatura formando uma barreira para que ninguém se aproximasse dela. Passados cerca de 15 minutos, chegou ao local o Inspector Juvenal, da AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes) acompanhado de dois dos seus agentes, nomeadamente o Tobias e o Tibúrcio. Pelas investigações preliminares efectuadas, os referidos investigadores constataram que a viatura (um Mitsubishi) transportava apenas um único ocupante e que a causa da explosão teria sido, provavelmente, uma bomba. A viatura ficou quase totalmente danificada e o ocupante, que teve morte imediata, ficou bastante desfigurado, porém não tanto que não permitisse que fosse identificado por algumas pessoas que o conheciam. Tratava-se de um cidadão que, em vida, se chamava Augusto Prudêncio, funcionário público.
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2. O detective AlfaZero é solicitado para investigar o caso, tendo o mesmo aceite a incumbência.
Como a AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes) tinha, na altura, três casos “quentes” entre mãos e dois dos seus investigadores não se encontravam a trabalhar (um deles encontrava-se doente e o outro de férias fora do país), a Agência decidiu solicitar ao detective AlfaZero (um detective independente bastante experiente) a sua assistência na investigação das causas que estiveram por detrás da explosão do Mitsubishi, naquele fresco e ensolarado domingo, no Largo do Kinaxixe.
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O detective AlfaZero acedeu, prontamente, à solicitação da AngoCrime e, sem perder mais tempo, entrou na sua viatura e dirigiu-se para o Largo do Kinaxixe a fim de dar início às investigações.
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3. O detective AlfaZero encontra, entre os destroços, uma caixinha prateada com duas moedas dentro. Será a mesma útil às investigações?
Ao chegar ao local, AlfaZero dirigiu-se para a viatura (que continuava cercada pelos agentes da polícia) e, depois de se ter identificado, fez uma inspecção minuciosa à mesma, bem como ao cadáver de Augusto Prudêncio. Uma coisa saltou imediatamente à vista do detective AlfaZero. Só uma bomba (accionada por relógio ou por controlo remoto), colocada no interior da viatura, poderia ter produzido aquele resultado. AlfaZero pediu aos agentes da polícia presentes no local que retirassem o cadáver de dentro da viatura. Depois de um breve exame, AlfaZero concluiu que estava, efectivamente, confirmada a sua suposição. Uma bomba, possivelmente accionada por controlo remoto, havia sido colocada por baixo do banco do condutor. Seguidamente, o detective AlfaZero inspeccionou os estilhaços da viatura e da bomba que se espalhavam ao seu redor. Os seus olhos “engoliam” todos aqueles pedaços de ferro e plástico na esperança de encontrar alguma coisa que pudesse proporcionar uma pista para as investigações. Ia já a dar por concluída a tarefa, quando viu, meio escondida debaixo de uma chapa, uma mini caixinha metálica, bonita, cor de prata. AlfaZero apanhou a referida caixinha e abriu-a. Dentro estavam duas moedas antigas (uma macuta (angolana) e um real (português)).
“Estas moedas devem ser de um valor incalculável para os coleccionadores”, pensou AlfaZero, ao mesmo tempo que fechava a caixinha e a punha num dos bolsos das calças.
“Será que o falecido era coleccionador de moedas?” – Interrogou-se, ainda, AlfaZero.
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Entretanto, começaram a chegar ao local alguns familiares da vítima. Entre eles, o irmão, Bernardo Prudêncio, e a viúva, Dona Vitória. AlfaZero chamou-os à parte e informou-lhes que havia sido solicitado pela AngoCrime para investigar o caso e que, para o efeito, iria precisar da cooperação dos familiares mais próximos da vítima. Logo depois do funeral, disse-lhes AlfaZero, iria conversar com eles para se inteirar um pouco da vida familiar do falecido e das suas relações sociais. Depois de anotar as suas moradas (a viúva morava nas Ingombotas e o irmão na Terra Nova), AlfaZero despediu-se deles. Seguidamente, AlfaZero instruiu os agentes da polícia presentes no local no sentido de poderem os familiares remover o corpo do falecido e de poderem as autoridades municipais remover a viatura da via pública. Depois disso, AlfaZero entrou na sua viatura e dirigiu-se para o seu apartamento-escritório, localizado na bela avenida Marginal da buliçosa capital de Angola, a cidade de Luanda. Chegado ali, sentou-se e pegou na caixinha que continha as duas moedas. Abriu-a e observou-as novamente mais detalhadamente. Eram, efectivamente, uma macuta angolana e um real português, já um pouco desgastadas pelo tempo mas ainda com os valores e as datas visíveis. Fechou novamente a caixinha e levantou-se para ir guardá-la no seu quarto, em local seguro.
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4. O detective AlfaZero conversa com o Inspector Juvenal ao telefone.
Ao regressar à sala de estar, depois de ter guardado a caixinha de moedas, o telemóvel de AlfaZero assinalou uma chamada. Era do Inspector Juvenal da AngoCrime.
-- Alô Inspector, como vai indo? – Disse AlfaZero levando o telemóvel ao ouvido ao mesmo tempo que premia o botão de recepção de chamadas.
-- Menos mal, detective AlfaZero. Tenho estado bastante atarefado com os casos que temos em mão, especialmente com o “caso do rapto e do assassinato das irmãs gémeas”.
-- Mas não haviam já identificado o assassino desse caso?! – Perguntou AlfaZero um tanto ou quanto surpreendido.
-- Sim, havía sido identificado um homem de meia-idade, que era, aliás, o principal suspeito, mas acontece que o homem, juntamente com o seu advogado, conseguiram provar “por a mais b” que no dia e na hora em que ocorreu o crime, o homem se encontrava a mais de cem quilómetros de distância do local do crime. De modos que agora estamos novamente na estaca zero. E como vai a investigação do caso “O Carro Armadilhado”, detective AlfaZero?
-- Por enquanto, Inspector, posso-lhe dizer que não tenho ainda qualquer pista digna de nota. Tenho apenas comigo um pequeno objecto que encontrei entre os destroços da viatura mas ainda não sei até que ponto esse objecto poderá ser útil à investigação. Vamos esperar para ver.
-- Pois, desejo-lhe sorte detective AlfaZero. Se precisar de ajuda por parte dos nossos investigadores, o Tobias e o Tibúrcio poderão ser dispensados por algumas horas para o que precisar – disse o Inspector Juvenal.
-- Pois com certeza, se eu vier a precisar deles, telefonar-lhe-ei, Inspector Juvenal.
-- Pronto, detective AlfaZero, continuação de bom trabalho e vá nos informando caso haja desenvolvimentos importantes.
-- Com certeza, Inspector Juvenal, até à próxima.
E os dois homens desligaram os telefones.
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Três dias depois da explosão da viatura, isto é, quarta-feira, AlfaZero decidiu ir conhecer um pouco mais os familiares mais chegados do falecido e igualmente informar-se do modo de vida deste. Teria ele inimigos? Andaria ele metido em negócios escuros? Quem teria motivos para o assassinar? Algum namorado ou marido ciumento? Algum devedor sem possibilidades de pagar a dívida? Ou algum credor cansado de esperar pelo pagamento? O labirinto tinha de começar a ser deslindado...
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5. AlfaZero conversa com Dona Vitória, a viúva do falecido.
AlfaZero deixou o seu apartamento-escritório, na Marginal, desceu para a Mutamba e depois subiu para as Ingombotas. Parou em frente à casa do falecido e dirigiu-se para a porta de entrada. Esta encontrava-se aberta e, dentro, as pessoas continuavam a fazer o óbito. AlfaZero foi recebido pela Dona Vitória (a viúva do falecido) que, sem perder mais tempo o conduziu para uma pequena sala para aí poderem conversar mais à vontade.
Como era de esperar, AlfaZero perguntou à Dona Vitória se esta sabia de algum negócio em que o marido andasse metido, se sabia da existência de inimigos que lhe quisessem fazer mal, se alguma vez o marido havia recebido alguma ameaça de morte, etc. etc. Todas as respostas foram negativas.
-- Sr. AlfaZero – concluiu a Dona Vitória – o meu marido dava-se bem com toda a gente, era um chefe de família exemplar, um funcionário público cumpridor, um homem que vivia do seu trabalho do dia-a-dia…
E a Dona Vitória disse as últimas palavras com lágrimas nos olhos.
-- Pronto Dona Vitória, não a maço mais – disse AlfaZero levantando-se. Obrigado pela sua paciência.
-- Sempre às ordens detective AlfaZero – disse a Dona Vitória a limpar as lágrimas que lhe rolavam nas faces.
-- Ah, Dona Vitória, ia-me esquecendo – disse AlfaZero batendo com a mão na testa. – Sabe se o seu marido coleccionava moedas?
-- Moedas?! Não, não coleccionava. Quem colecciona moedas é o irmão dele, o Bernardo. Esse é maluco por moedas. Quando vê uma moeda antiga fica maluco. Lembro-me que há tempos vendeu um computador que o pai lhe tinha oferecido para com o dinheiro comprar uma moeda, acho que da Holanda ou da Irlanda, não estou bem certa. Diz ele que a moeda valia muito mais do que o computador. O irmão ainda o aconselhou a não vender o computador mas ele o que queria mesmo era a moeda e mais nada. Enfim, paixões de coleccionadores. Mas por que é que pergunta, detective AlfaZero?
-- Ah, depois saberá. E já agora, só mais uma pergunta. O irmão do seu marido, o Bernardo, tem viatura própria, ou costuma utilizar a viatura do falecido?
-- O Bernardo tem viatura própria e nunca o vi a conduzir a viatura do falecido ou mesmo a andar nela.
-- Mais uma vez muito obrigado Dona Vitória pela sua amabilidade. Vou agora à Terra Nova conversar um pouco com o Bernardo já que ele não está aqui.
-- Não, não está. Ele saiu daqui há coisa de uma hora e disse-me que ia para casa levar o pai. O pai passou aqui a noite mas estava a sentir-se um pouco cansado.
-- Ah, espero então encontrá-lo lá – disse, AlfaZero, dirigindo-se para a sua viatura.
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6. AlfaZero dirigi-se à Terra Nova (um bairro de Luanda), para conversar com Bernardo Prudêncio, irmão do falecido.
O detective AlfaZero parou em frente à casa de Bernardo Prudêncio, o irmão do falecido. Há algum tempo que não ia à Terra Nova e já sentia algumas saudades. Desceu do carro e tocou à campainha. Bernardo veio atender.
-- Ah, entre Sr. detective AlfaZero – convidou ele – queira sentar-se. Como tem passado?
-- Menos mal, Sr. Bernardo. O Senhor é que deve estar completamente abatido com a morte do seu irmão.
-- Não imagina, detective AlfaZero. Éramos apenas dois e agora fiquei sozinho. Foi uma tragédia para mim.
-- Compreendo, -- disse AlfaZero com comiseração. – Nestas alturas é importante o conforto da família. Já sei que o seu pai vive aqui. E a sua mãe?
-- A minha mãe já faleceu. Faleceu, faz agora, cinco anos. O meu pai ainda vive mas está já com 86 anos.
-- Uau! – exclamou AlfaZero – isso é que é viver. Gostaria também de conversar um pouco com ele, se não houver inconveniência.
-- Sim, poderá. Ele ainda está bastante lúcido e ainda se recorda de tudo. Ele vive aqui comigo há já três anos. Sabe, eu ainda não me casei, não tenho mulher e talvez seja por isso que o meu pai tenha preferido viver comigo e não com o falecido. Sabe, os velhotes não gostam muito de dar trabalho às noras. Preferem ser tratados por empregadas.
-- E o Bernardo não pensa em casar-se? – perguntou AlfaZero.
-- Oh, sim. Eu já estou noivo e estava para me casar já nas próximas semanas. Agora com a morte do meu irmão, vou ter de adiar o casamento por mais alguns meses. Ah, triste vida! – Concluiu ele, com um suspiro.
-- Esperar não custa tanto quando não se espera em vão – opinou AlfaZero.
-- Sim, tem razão.
E, mudando de conversa, o Bernardo disse: -- o meu pai passa os dias sentado no quintal à sombra da mulembeira. Está muito abatido com a morte do filho. Não imagina. Depois levo-lhe até ele.
-- Agradecia, Sr. Bernardo. Já agora diga-me uma coisa. Sabe se o seu irmão Augusto…
E AlfaZero fez-lhe todas as perguntas que havia feito à sua cunhada, a Dona Vitória, esposa do falecido. E todas as respostas foram, igualmente, negativas.
-- Senhor detective AlfaZero, não é por ser meu irmão mas o Augusto era uma jóia de pessoa.
-- Bem, leve-me então até ao seu pai – pediu AlfaZero.
-- Vamos por aqui – disse Bernardo Prudêncio, ao mesmo tempo que conduzia AlfaZero para o quintal onde se encontrava o pai. Ao passarem por um estreito corredor, AlfaZero viu, em cima de uma prateleira, algumas caixas de plástico transparente, cheias de moedas.
-- É coleccionador de moedas, Sr. Bernardo?
-- Sou, detective AlfaZero. Tenho uma colecção invejável. Não é para me gabar mas a minha colecção deve ser a maior de Angola, para não dizer de África. Quando estiver mais desafogado, passe por aqui que lhe vou mostrar toda a colecção. Tenho moedas de todos os países do Mundo.
-- Deve ser de um valor incalculável!
-- Não faz ideia, Sr. AlfaZero. Eu até há noites que quase não durmo só de pensar que alguém possa vir roubar-me as moedas.
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7. O detective AlfaZero conversa com Aparício Prudêncio, pai do falecido e um novo desenvolvimento surge da redacção de um testamento.
Haviam chegado ao quintal. Bernardo apresentou o detective AlfaZero ao pai, enquanto pedia à empregada que trouxesse uma cadeira e dois refrescos.
-- Pai, este Senhor é o Sr. detective AlfaZero e está a investigar a morte do Augusto.
-- Oh, muito prazer – disse o velhote, estendendo a mão a AlfaZero. Eu chamo-me Aparício Prudêncio. Sou o pai do Augusto (o meu Augusto, que Deus o tenha) e aqui do Bernardo. São os meus dois únicos filhos. Agora fiquei só com um. Oh, a minha dor é muito grande, Sr. detective. Desculpe, como é que disse que se chamava?
-- AlfaZero.
-- Ah, sim, Sr. detective AlfaZero. – Não imagina como é grande a dor de um pai ao perder um filho aos 86 anos de idade.
Entretanto, Bernardo retirara-se, deixando-os sós.
-- Compreendo a sua dor, Sr. Aparício. A única consolação que nos resta agora é levar à justiça a pessoa que o assassinou. Diga-me, Sr. Aparício – prosseguiu AlfaZero, olhando de frente para o seu interlocutor – por acaso sabe se o seu filho Augusto tinha inimigos, se andava em negócios escuros...
E AlfaZero repetiu as mesmas perguntas que já havia feito à Dona Vitória e ao Bernardo. Todas as respostas foram, igualmente, negativas.
-- Não, Senhor detective AlfaZero, que eu saiba, o meu Augusto nunca se meteu em maus caminhos.
O Senhor Aparício Prudêncio gostava de conversar.
-- Sabe, Sr. AlfaZero, -- disse ele – muita gente inveja estes meus 86 anos. Mas olhe que foi graças a muito trabalho e esforço que eu cheguei a esta idade. Muitas vezes me levantei às 4 da manhã para ajudar a minha mãe a amassar pão que depois eu e o meu pai vendíamos, durante o dia, na tasca dele. Tinha eu, nessa altura, 12 anos. E a sorte bateu, de tal forma, à porta do meu pai que, quando ele faleceu, em 1957, deixou quatro grandes armazéns e seis casas grandes com loja, tudo de construção definitiva. Deixou ainda uma grande manada de gado bovino e uma fábrica de lacticínios no Kwanza-Sul.
-- Esses bens perderam-se? – Perguntou AlfaZero.
-- Não, não se perderam. Eu era o único filho e, como tal, herdei tudo. A minha mãe havia já falecido. Ela faleceu dois anos antes do meu pai, isto é, em 1955. Pois eu herdei tudo, Sr. AlfaZero. E sabe o que fiz? Dupliquei, tripliquei, quadrupliquei a minha fortuna. Hoje posso dizer que sou um homem rico, riquíssimo mesmo, em bens materiais. Não aparento ser rico mas sou. A minha esposa faleceu há cinco anos. Eu estou quase a ir embora, também. Mais ano, menos ano, vou-me também embora deste mundo.
-- Não diga isso – disse AlfaZero, que havia começado a simpatizar deveras com Aparício Prudêncio – ainda há-de festejar muitos aniversários.
-- Não, Sr. detective AlfaZero. A morte do Augusto abalou-me muito, isto é o meu fim – disse Aparício Prudêncio, fixando o olhar num ponto distante do infinito. – Olhe – prosseguiu ele em voz mais baixa ao mesmo tempo que se endireitava na cadeira e se inclinava para AlfaZero – vou-lhe confidenciar uma coisa mas não diga nada ao Bernardo que eu quero fazer-lhe uma surpresa. Estou tão certo que a minha morte está próxima que até já fiz o meu testamento, o testamento de todos os meus bens materiais, incluindo as grandes manadas de gado e a fábrica de lacticínios que possuo no Kwanza-Sul. Da mesma forma como o meu pai me deixou toda a sua fortuna, também eu queria deixar toda a minha fortuna para os meus dois filhos e só para eles. Agora, um deles faleceu. Segundo o que diz o meu testamento toda a minha fortuna ficará, agora, apenas para o Bernardo. Logo que eu feche os olhos, o Dr. Advogado José Reis (que é o tutor do meu testamento) accionará os mecanismos no tribunal e o Bernardo tornar-se-á, da noite para o dia, um dos homens mais ricos de Angola ou mesmo de África. Espero que ele saiba dar continuidade à fortuna que lhe deixo, tal como eu soube dar continuidade à fortuna que o meu pai me deixou. E como ele está para se casar, que a esposa dele o ajude a triplicar a sua fortuna, como a minha Rosalinda (que Deus a tenha) me ajudou a mim. Sr. AlfaZero, vou fazer-lhe um pedido e talvez seja o último que faça em vida. Encontre a pessoa que matou o meu filho Augusto, para que ela pague pelo sofrimento que me está a causar – pediu, com lágrimas nos olhos, Aparício Prudêncio.
-- Pode estar descansado, Sr. Aparício, que farei tudo o que estiver ao meu alcance para encontrar essa pessoa.
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8. Na mente de AlfaZero, duas pistas importantes apontam para Bernardo Prudêncio, o irmão do falecido. Terá ele assassinado o irmão?
AlfaZero despediu-se do Sr. Aparício e do Bernardo, entrou na sua viatura e foi direito para o seu apartamento-escritório, na bela e sempre movimentada avenida Marginal da electrizante capital de Angola, a maravilhosa cidade de Luanda. Chegado ali, sentou-se e pôs-se a pensar. Segundo a lógica dos seus pensamentos, duas pistas estavam a conduzi-lo para o Bernardo. Primeiro, a questão da caixinha das moedas encontrada por entre os destroços da viatura. O Bernardo era coleccionador de moedas. Será que, ao colocar a bomba na viatura do irmão teria, inadvertidamente, deixado cair a caixinha das duas moedas que, provavelmente, estaria num dos bolsos da sua camisa?
O raciocínio é ingrato sob o ponto de vista emocional pois é sempre repugnante o assassinato de um irmão. Mas, sob o ponto e vista lógico das suas investigações, as coisas apontavam para aí. A outra pista que começava a formar-se no cérebro de AlfaZero era a questão do testamento de Aparício Prudêncio. Este deixaria toda a sua fortuna apenas aos dois filhos. Isso quer dizer que, caso um deles morresse, o outro herdaria toda a fortuna sozinho…
AlfaZero saltou da cadeira, comeu uma sanduíche e pensou:
“Vou pedir ao Dr. Advogado José Reis que me deixe ver o testamento de Aparício Prudêncio.”

9. AlfaZero contacta o advogado José Reis e pede-lhe para ver o testamento de Aparício Prudêncio.
O escritório do Dr. José Reis ficava localizado na Mutamba, (baixa de Luanda), no 3º andar de um prédio junto ao prédio da Sonangol. AlfaZero estacionou a sua viatura e galgou as escadas que subiam até ao 3º andar. Uma placa colocada por cima de uma porta, dizia: “Dr. Advogado, José Reis”. AlfaZero tocou à campainha tendo sido recebido pela secretária que, de imediato, o anunciou ao Dr. José Reis. E depois de se ter identificado e de ter posto o Dr. José Reis ao corrente de todos os factos referentes à morte de Augusto Prudêncio, AlfaZero disse:
-- Creia, doutor, que o curso das investigações me diz ser imprescindível que eu veja o testamento de Aparício Prudêncio.
-- Mas olhe, detective AlfaZero, que será absolutamente necessário que guarde sigilo pois o testamento é absolutamente confidencial. Para além do próprio Aparício Prudêncio e de mim, só há mais uma pessoa, que é a Dra. Filomela da Conservatória Notarial 35-b, onde o testamento foi reconhecido, que têm conhecimento do conteúdo do mesmo. Eu vou mostrar-lhe o testamento mas peço-lhe, repito, peço-lhe que não divulgue absolutamente a ninguém nada do que consta no mesmo.
-- Dou-lhe a minha palavra de detective, doutor Reis.
O advogado José Reis afastou-se, foi a um cofre grande de ferro, rodou três rodas com números que se encontravam na porta do mesmo, abriu-a, retirou uma pasta amarela e de dentro da referida pasta retirou o testamento do Sr. Aparício Prudêncio.
-- Aqui está – disse o Doutor José Reis, entregando o testamento a AlfaZero.
O detective AlfaZero percorreu com os olhos o testamento e deteve-se na seguinte passagem, lendo-a com interesse:

TESTAMENTO
“Eu, Aparício Prudêncio (seguia-se toda a sua identificação), possuidor dos seguintes bens: (e seguia-se a especificação detalhada de todos os bens), declaro que, ao ser confirmado o meu falecimento, todos os meus bens acima especificados reverterão, em partes iguais, para os meus dois únicos filhos cujos nomes são Augusto Prudêncio e Bernardo Prudêncio. Caso um destes meus dois filhos morra antes de mim, toda a minha fortuna acima especificada será herdada pelo outro. Caso morram os dois antes de mim, então que os meus bens sejam entregues ao meu neto mais velho, filho de Augusto Prudêncio, quando atingir a maioridade.”

Era tudo o que AlfaZero queria saber. Agradeceu e despediu-se do Dr. José Reis, prometendo, mais uma vez, que não revelaria a ninguém o conteúdo do testamento.
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10. Na mente de AlfaZero três figuras começam agora a formar-se, como prováveis suspeitos da morte de Augusto Prudêncio.
AlfaZero regressou ao seu apartamento-escritório. Sentou-se e pôs-se a pensar. Para ele tudo indicava que Bernardo Prudêncio era o assassino do irmão. Sim, a ambição de herdar, sozinho, toda a fortuna do pai, levá-lo-ia a matar o irmão. E depois aquela caixinha de moedas encontrada junto à viatura armadilhada poderia ter sido deixada cair por ele na altura em que colocava a bomba. Sim, as pistas apontavam para ele. Mas como provar que era ele, efectivamente, o assassino? E como teria ele tido acesso ao conteúdo do testamento de forma a ficar a saber que ele e o irmão eram os únicos herdeiros do pai e que se um deles morresse o outro herdaria tudo, sozinho? A não ser que… e o pensamento de AlfaZero voou para a Dra. Filomela, a terceira pessoa que, segundo o que lhe havia dito o Dr. Reis, conhecia o conteúdo do testamento. A não ser que a Dra. Filomela tenha revelado o conteúdo do testamento ao Bernardo. Ou, por que não o próprio Dr. José Reis? -- Interrogou-se AlfaZero.
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11. AlfaZero contacta a Dra. Filomela da Conservatória Notarial 35-b.
O detective AlfaZero já conhecia pessoalmente o Dr. Advogado José Reis pelo que decidiu conhecer igualmente a Dra. Filomela da Conservatória Notarial 35-b. Foi ao seu apartamento-escritório e tirou uns documentos de uma pasta a fim de servirem de pretexto a uma conversa com a Dra. Filomela.

Já na Conservatória Notarial 35-b, o detective AlfaZero foi de imediato conduzido ao Gabinete da Dra. Filomela, conforme seu pedido. Ela estava só. AlfaZero contemplou-a por uns momentos. Era extremamente bela. Tinha uns olhos grandes e brilhantes e uma boca onde sobressaíam uns lábios carnudos e simétricos. Quando se levantou para cumprimentá-lo, AlfaZero notou que era alta, de corpo esguio e sinuoso, de gestos elegantes e de voz suave e melodiosa. Vestia roupas caras. No seu olhar, AlfaZero detectou um misto de autoritarismo e ternura, de resignação e coragem… “É o tipo de mulher a que os homens se costumam referir quando dizem, “é uma verdadeira peça” – pensou AlfaZero.
AlfaZero pediu-lhe algumas informações relacionadas com procurações e foi tudo. A conversa não resvalou para outros assuntos, tendo AlfaZero ficado apenas a saber que ela havia feito os seus estudos superiores nos EUA e que se havia especializado em gestão administrativa, com alguns outros cursos pelo meio. Chegada ao país, preferiu ingressar num organismo estatal pois, segundo ela, sentia-se mais protegida como funcionária do Estado do que como trabalhadora de uma empresa privada. AlfaZero estava, pois, satisfeito pois o seu único objectivo, nessa sua primeira visita à Dra. Filomela era apenas conhecê-la. Assim, despediu-se dela e regressou para o seu apartamento-escritório, na Marginal.

12. O detective AlfaZero selecciona três suspeitos do caso “O carro armadilhado”.
AlfaZero estava bastante estafado. Eram agora quase 18 horas e estava cheio de fome. Preparou qualquer coisa rápida para comer, ouviu o noticiário das 20h30m na televisão e depois foi-se deitar. Queria dormir mas não conseguia. A sua cabeça rodava à volta das investigações. Neste momento ele tinha três suspeitos e que eram, por ordem de probabilidade:
• Bernardo Prudêncio
• Dra. Filomela Assis
• Dr. Advogado José Reis
Duas destas três pessoas (a Dra. Filomela e o Dr. José Reis) tinham conhecimento do conteúdo do testamento e, por conseguinte, qualquer delas poderia ter algum interesse velado em matar Augusto Prudêncio. Quanto a Bernardo Prudêncio, este poderia ter tido acesso ao conteúdo do testamento através de um dos outros dois e, então, ter interesse em assassinar o irmão para, assim, herdar sozinho, toda a fortuna do pai. Por outro lado, poder-se-ia dar o caso de nenhum dos três ter sido o assassino de Augusto Prudêncio. Contudo, essa seria uma probabilidade a ser considerada mais tarde, apenas depois de ficar provado que os três suspeitos referidos nada tinham a ver com o assassinato. AlfaZero pensava e repensava. Como avançar nas investigações? Bem, o melhor seria conhecer um pouco melhor o Dr. Advogado José Reis, considerou ele por fim. Seria ele uma pessoa idónea? Teria ele motivos para assassinar Augusto Prudêncio?
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13. O detective AlfaZero visita o Dr. Advogado José Reis
AlfaZero estava agora no Escritório do Dr. José Reis. Depois de se ter sentado na poltrona que o advogado lhe indicara, o detective AlfaZero disse, olhando-o directamente nos olhos:
-- Pois, Dr. José Reis, pedi-lhe para falar consigo em privado porque o Sr. é um dos suspeitos de ter assassinado Augusto Prudêncio.
-- Eu?! Suspeito? Em que bases é que assenta essa sua afirmação?! – Exclamou o advogado José Reis, endireitando-se na cadeira.
-- Dr. José Reis, é simples. Você conhece o conteúdo do testamento de Aparício Prudêncio. Isso quer dizer que poderia ter assassinado Augusto Prudêncio para que a fortuna do pai, em vez de ser dividida pelos dois irmãos, ficasse apenas para um deles.
-- E que ganharia eu com isso?! – Perguntou, meio a sorrir, o advogado José Reis.
-- É precisamente isso o que eu quero saber. Vou-lhe ser franco, Sr. José Reis. Só três pessoas conhecem o conteúdo do testamento de Aparício Prudêncio, como você próprio disse. E essas três pessoas são o próprio Aparício Prudêncio, que o redigiu, a Dra Filomela Assis, qiue o reconheceu, e você, que o tem em sua custódia. Isso quer dizer que, excluindo o próprio Aparício Prudêncio, que é o dono do testamento, só a Dra. Filomela Assis e você é que conhecem o seu conteúdo.
-- E por que razão pensa que a pessoa que assassinou Augusto Prudêncio teria, forçosamente, de conhecer o conteúdo do testamento de Aparício Prudêncio? – Perguntou, com ar triunfante, o advogado José Reis.
-- Olhe, Dr. José Reis, eu sempre disse que no mundo do crime nada acontece por acaso. E a minha experiência de detective diz-me que o motivo do assassinato de Augusto Prudêncio é o testamento do pai, Aparício Prudêncio.
-- Então, nesse caso -- argumentou o advogado -- o Bernardo Prudêncio também tem de ser considerado suspeito já que, com a morte do irmão, ele passou a ser o único herdeiro de toda a fortuna do pai.
-- Claro, o Bernardo Prudêncio também é um dos suspeitos da morte do irmão. Só que o Bernardo, em princípio, não conhece o conteúdo do testamento. A não ser que você, ou a Dra. Filomela, lhe tenham revelado. Compreende agora por que é que você é considerado suspeito?
-- Senhor detective AlfaZero, eu sempre pautei a minha conduta profissional por o máximo de honestidade. Nunca eu revelei a quem quer que fosse um ponto ou uma vírgula desse testamento, ou de qualquer outro testamento à minha guarda. Tenho a minha consciência absolutamente tranquila – disse o advogado olhando directamente para os olhos de AlfaZero. Este, por fim, disse:
-- Espero que me esteja a dizer a verdade, Sr. advogado José Reis. O assassino de Augusto Prudêncio vai ser identificado. Custe o que custar. Eu vou levar este caso até ao fim, sejam quais forem as consequências. Por conseguinte, se não me está a dizer a verdade, ainda tem tempo de reconsiderar a sua posição.
-- Sr. detective AlfaZero, dou-lhe a minha palavra que o que lhe estou a dizer é verdade.
-- Diga-me ainda mais uma coisa, Dr. Reis, você tem algum tipo de relacionamento com a Dra. Filomela Assis?
-- Não, detective AlfaZero, absolutamente nenhum. Só a conheço pelo nome.
-- Agradeço-lhe, então, o tempo que me concedeu e até uma próxima oportunidade.
AlfaZero despediu-se do advogado José Reis e saiu do seu Escritório.
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14. AlfaZero volta a contactar a Dra. Filomela da Conservatória Notarial 35-b.
Ao sair do escritório do advogado José Reis, o detective AlfaZero decidiu que deveria voltar a contactar a Dra. Filomela Assis, da Conservatória Notarial 35-b, já que ela era uma das suspeitas do caso. Dirigiu, pois, a sua viatura para a Conservatória 35-b e, ao chegar, foi logo conduzido ao Gabinete da Dra. Filomela.
-- Queira desculpar por lhe vir roubar um pouco do seu tempo, Dra. Filomela. Eu sou o detective AlfaZero, e estou encarregue do caso “O Carro Armadilhado”. Gostaria de falar consigo sobe o referido caso – disse o detective AlfaZero depois de a ter cumprimentado.
-- Ah, o Senhor é detective?
-- Sim, sou detective -- respondeu AlfaZero. E acrescentou: -- já conversei uma vez consigo quando precisei de cá vir tratar de uns papéis, penso que se recorda.
-- Sim, perfeitamente, mas não sabia que era detective. Então disse que está a investigar o caso…
-- O “Caso do Carro Armadilhado”.
-- Será que se está a referir ao carro que explodiu no Largo do Quinaxixe a semana passada?
-- Precisamente, Dra. Filomela. E lamento ter de lhe dizer já, que a Senhora é um dos suspeitos desse caso – disse AlfaZero olhando a Dra. Filomela nos olhos.
-- Eu, suspeita? Suspeita de quê? De ter armadilhado o carro?
-- Sim, Dra. Filomela, de ter armadilhadoo carro, ou, por outras palavras, de ter colocado a bomba por baixo do assento do condutor – disse, calmamente, AlfaZero.
-- Mas, o que é que lhe leva a pensar assim? Que motivos teria eu, uma pobre funcionária, de fazer explodir aquela viatura?
-- Dra. Filomela Assis, vou ser claro. A minha intuição de detective diz-me, a todo o momento, que a explosão dessa viatura e a consequente morte do seu ocupante, o cidadão Augusto Prudêncio, está ligada ao testamento do pai do falecido, o Sr. Aparício Prudêncio. Ora, só havia, neste mundo, até ao dia do assassinato, três pessoas que conheciam o teor desse testamento. E essas três pessoas eram o próprio Aparício Prudêncio, que o elaborou, você, Dra Filomela Assis, que o reconheceu, e o Dr. Advogado José Reis, que o tem à sua guarda. Por conseguinte, excluindo o Sr. Aparício Prudêncio, só você e o Dr. José Reis é que conheciam o testamento. Porém, há mais uma pessoa que poderia igualmente ter cometido o assassinato e essa pessoa é o próprio irmão do falecido, o Bernardo Prudêncio. Acontece, porém, que o Bernardo Prudêncio não conhecia o teor do testamento a não ser que… ou o Dr. José Reis ou você própria, Dra. Filomela, lhe tenham revelado o seu conteúdo.
-- Não estou a compreender muito bem onde quer chegar, Sr. detective AlfaZero… -- disse a Dra. Filomela.
-- Dra. Filomela, é simples como dois e dois serem quatro. No testamento é claramente expresso que a fortuna, a imensa fortuna, do Sr. Aparício Prudêncio seria dividida, em partes iguais, entre os dois filhos dele, o Augusto e o Bernardo. E o testamento também diz claramente que, caso um dos dois filhos falecesse antes do Sr. Aparício Prudêncio, então quando este falecesse toda a sua fortuna seria herdada apenas pelo filho que estivesse vivo. Compreende agora, Dra. Filomela, por que razão, alguém, com conhecimento do testamento, poderia ter algum interesse em assassinar Augusto Prudêncio, para que o Bernardo Prudêncio herdasse, sozinho, toda a fortuna do pai?
-- Sr. Detective AlfaZero, o seu pensamento não deixa de ter a sua lógica. Mas que interesse teria eu em que apenas um dos filhos desse tal Senhor herdasse, sozinho, a sua fortuna?
-- Dra. Filomela Assis, auponhamos que, por qualquer motivo, você tenha revelado o conteúdo do testamento ao Bernardo e que o Bernardo, por ambição, tenha assassinado o irmão.
-- Olhem, meu Deus! Mas quem é esse tal Bernardo? Não, detective AlfaZero, nunca revelei o conteúdo do testamento nem a esse tal Bernardo, nem a ninguém – disse a Dra. Filomela, com firmeza.
-- Então, nesse caso, você própria poderá ter armadilhado a viatura e assassinado Augusto Prudêncio!
-- Mas que interesse teria eu em fazer isso, Detective AlfaZero? Por amor de Deus, eu nunca faria uma coisa dessas! Nunca conheci esse tal Augusto Prudêncio. Não sei de quem se trata.
-- Dra. Filomela, diga-me uma coisa, a Senhora tem algum tipo de relacionamento com Bernardo Prudêncio, o irmão de Augusto Prudêncio, a vítima do carro armadilhado? – Perguntou AlfaZero sem desviar os olhos da sua interlocutora.
-- Nenhum, detective AlfaZero. Nem o conheço.
-- Dra. Filomela, eu vou levar este caso até ao fim, custe o que custar, e dôa a quem doer. O assassino vai ser identificado e vai ter de pagar pelo crime que cometeu. Se não me está a dizer a verdade, ainda tem tempo de se retractar.
-- Detective AlfaZero, juro-lhe…

15. AlfaZero volta a contactar Bernardo Prudêncio, o irmão de Augusto Prudêncio.
AlfaZero despediu-se da Dra. Filomela Assis e dirigiu-se para o seu apartamento-escritório na buliçosa Avenida Marginal da bela capital de Angola. Estava ele já, porém, a poucos metros do seu apartamento-escritório, quando decidiu que deveria ir contactar Bernardo Prudêncio, o irmão do falecido. Assim, deu meia volta e dirigiu-se para a Terra Nova, o bairro onde residia Bernardo Prudêncio. Ao chegar à casa deste e depois de ter sido conduzido pelo próprio para a sala de estar, AlfaZero disse, indo direito ao assunto:
-- Sr. Bernardo, você é um dos suspeitos pela morte do seu irmâo.
-- Mas o que é que está a dizer, detective AlfaZero?! Eu suspeito de ter morto o meu querido irmão? O meu ùnico irmão? Mas o que é que lhe passou pela cabeça detective AlfaZero, para me fazer uma acusação dessas!? – E Bernardo, ao pronunciar estas palavras, colocou a cabeça entre as mãos e abanou-a de um lado para o outro em sinal de protesto.
-- Sr. Bernardo, no mundo do crime nada acontece por acaso. Olhe para mim e diga-me com toda a sinceridade: quem lhe revelou o conteúdo do testamento do seu pai?
-- O conteúdo do testamento do meu pai? O meu pai fez algum testamento? – Perguntou, com ar surpreso, Bernardo Prudêncio.
-- Sim, fez. O Senhor não tem conhecimento disso?
-- Senhor AlfaZero, é a primeira vez que estou a ouvir tal coisa. Mas... vou perguntar ao meu pai por que é que não me disse nada – disse Bernardo Prudêncio começando a afastar-se, em direcção ao local onde se encontrava o pai.
AlfaZero seguia todas as reacções do seu interlocutor. Estaria ele a dizer a verdade? Tudo indicava que sim... Se sim, então restavam apenas dois suspeitos, José Reis e Filomela Assis.
-- Sr. Bernardo, escusa de incomodar o seu pai. Ele sabe porque é que não lhe disse que elaborou um testamento.
-- Mas, Sr. Detective AlfaZero, o que é que diz esse testamento? E por que é que perguntou se eu conhecia o seu conteúdo?
--Depois saberá, Sr. Bernardo.
AlfaZero despediu-se de Bernardo Prudêncio e dirigiu-se, então, para a Avenida Marginal onde se localizava o seu apartamento-escritório.

Enquanto conduzia a sua viatura para a Avenida Marginal, o pensamento de AlfaZero virou-se para a caixinha metálica que havia encontrado entre os destroços do “Mitsubishi” armadilhado. A caixinha metálica com duas moedas dentro poderia ser útil à investigação. Sim, as duas moedas eram de um valor elevadíssimo, uma tentação irresistível para qualquer coleccionador e, a pessoa que, inadvertidamente, a havia deixado naquele local, sem saber que a havia deixado ali e, provavelmente a pensar que a havia deixado num outro local qualquer, deveria estar desesperada à sua procura, sem saber onde encontrá-la.

16. O detective AlfaZero decide colocar um anúncio no “Jornal de Angola” com a ajuda da sua amiga Briana.
Por fim, AlfaZero decidiu que, no dia seguinte, logo pela manhã, iria telefonar à sua amiga Briana para traçar, com ela, o seguinte plano: “a Briana iria colocar um anúncio no “Jornal de Angola” do seguinte teor: “Vende-se duas moedas, uma macuta angolana e um real português. Os interessados deverão contactar a Dona Briana, no apartamento nº XX, na Rua Y, das 8h às 12h.”
Ele iria alugar um apartamento, propositadamente para aquele anúncio. AlfaZero mal dormiu. No dia seguinte, logo de manhã, telefonou à Briana e deu-lhe todas as instruções referentes ao anúncio. Briana seguiu as instruções à risca pelo que, no dia seguinte, o anúncio saiu no “Jornal de Angola” tal e qual fora solicitado.
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17. AlfaZero telefona ao Inspector Juvenal da AngoCrime.
-- Inspector Juvenal preciso da sua ajuda – disse o detective AlfaZero depois de o Inspector Juvenal ter atendido a sua chamada.
-- Pois com certeza, detective AlfaZero, do que é que se trata?
-- Preciso que me dispense o Tobias e o Tibúrcio por algumas horas.
-- Com certeza, eles irão já ter consigo – rematou o Inspector Juvenal.
Passados cerca de 45 minutos, os dois investigadores da AngoCrime estavam já no apartamento-escritório do detective AlfaZero. Este, depois de lhes ter posto ao corrente do plano que havia traçado com a Briana, concluiu:
-- Vocês ficarão escondidos num dos quartos à espera dos acontecimentos. Estejam atentos pois poderá ser necessária a vossa intervenção.

18. A duas moedas são reclamadas por alguém que diz pertencerem-lhe.
AlfaZero, Briana e os dois investigadores da Ango-Crime, ou seja, o Tobias e o Tibúrcio, estavam agora no apartamento indicado no anúncio. Briana esperava na sala enquanto AlfaZero e os dois investigadores se encontravam escondidos em dois dos quartos do apartamento. Por volta das 10h30m ouviu-se a campainha da porta tocar. Briana foi abrir. Era uma senhora que Briana não conhecia.
-- Bom-dia, – cumprimentou ela. – É a Dona Briana?
-- A própria – respondeu a Briana.
-- Eu vim responder ao anúncio das moedas – disse a senhora.
-- Ah, -- disse a Briana, sorrindo – entre e sente-se. Está então interessada nas moedas?
-- Sim, estou. Eu sou uma grande coleccionadora de moedas. Tenho moedas de todo o mundo e gostaria de ver as que tem aí.
Briana levantou-se e foi a um outro quarto buscar a caixinha metálica que continha as duas moedas. Quando a colocou por cima da mesa em frente à senhora, esta disse, com voz firme:
-- Dona Briana, diga-me onde tirou esta caixinha.
-- Por que pergunta?
-- É que esta caixinha é minha. Eu perdi-a nalgum lugar mas não sei onde. Tenho estado a procurá-la por todos os lados. Mas garanto-lhe que é minha.
-- Vai ter de provar que é sua – disse a Briana olhando-a nos olhos.
-- Posso provar. Em letras muito pequeninas o meu nome está gravado por baixo da tampa da caixinha. Eu tenho aqui uma lupa e vou mostrar-lhe.
A mulher tirou uma lupa de dentro da pasta que trazia, focalizou-a nas letras em miniatura que se encontravam debaixo da tampa da caixinha e o nome dela surgiu, claro e legível: “Filomela Assis”.
-- Veja! Agora vou mostrar-lhe o meu BI (Bilhete de Identidade) para ter a certeza de que sou eu própria. Aqui está – disse ela mostrando o seu Bilhete de Identidade à Briana. – Eu perdi a caixinha num lado qualquer – continuou ela olhando directamente para Briana – não sei onde. Procurei-a desesperadamente por todos os lados, sem resultado. Essas moedas são de um valor incalculável e eu não posso perdê-las. Foram-me oferecidas por uma pessoa muito especial no “Dia dos Namorados”. Por conseguinte, Dona Briana, devolva-me as minhas moedas. Não me importa saber como as obteve. Dê-mas, por favor.
-- E se eu disser que não as entrego? – perguntou a Briana em tom desafiador.
-- Nesse caso vou levá-las à força. Pense bem, Dona Briana. As moedas são minhas e eu não vou deixá-las consigo. Vou ter de as levar, custe o que custar.
-- Se quer que eu lhe entregue as moedas terá de me pagar uma quantia elevada – disse a Briana, sempre provocadora.
-- Pois se não me as entrega a bem, há-de me entregá-las a mal – disse a Dra. Filomela Assis com raiva, puxando de uma pistola de dentro da sua pasta e apontando-a a Briana.
-- Dê-me as minhas moedas, e já – prosseguiu a Dra. Filomela, sempre com a arma apontada para Briana e em tom ameaçador.
Nesta altura, o detective AlfaZero saltou do seu “esconderijo” e avançou, ligeiro, para a Dra. Filomela. Esta apercebeu-se de que alguém avançava para ela por trás e virou-se rapidamente disparando a pistola em direcção a AlfaZero que, entretanto, se havia já lançado ao solo, esquivando-de, assim, de uma morte certa. Depois do disparo a Dra. Filomela virou-se novamente para a Briana que, entretanto já se havia refugiado num dos quartos. Por seu lado, o Tobias e o Tibúrcio numa velocidade incrível, correram para a Dra. Filomela imobilizando-a por trás e tirando-lhe a pistola da mão. O detecitive AlfaZero aproximou-se então dela, olhando-a de frente. Ao vê-lo, a Dra. Filomela, colhida de surpresa e muito nervosa, disse:

-- O Senhor… que faz aqui?!
-- Depois saberá, Dra. Filomela Assis. Agora, vai ter de ir à AngoCrime (Agência de Investigação e Notificação de Crimes) para responder a umas perguntas. A sua pistola vai comigo.
-- Ir à AngoCrime responder a umas perguntas?! Que mal é que eu fiz?
-- Que mal é que fez? Ainda pergunta? Posse ilegal de armas de fogo e outras questões – respondeu AlfaZero, ao mesmo tempo que descarregava a pistola da Dra. Filomela. – Levante-se e vamos andando – ordenou ele com voz autoritária – o tempo urge.
-- Posso, ao menos, fazer um telefonema?
-- Faça o telefonema quando estivermos fora do apartamento. Vamos! – Disse AlfaZero com voz firme.
Desceram todos para a rua.
-- Faça agora o seu telefonema mas não se demore – disse AlfaZero à Dra. Filomela, enquanto entrava na sua viatura.
Depois de ter terminado o telefonema, a Dra. Filomela colocou o seu telemóvel na pasta, entrou na viatura de AlfaZero e, juntamente com o Tobias e o Tibúrcio, partiram para a AngoCrime. Chegados à AngoCrime, AlfaZero apresentou a Dra. Filomela ao Inspector Juvenal e pôs-lhe ao corrente dos últimos acontecimentos.

19. Uma surpresa esperava por AlfaZero
Quando o detective AlfaZero ia a sair da AngoCrime, encontrou-se com Bernardo Prudêncio, que ia a entrar.
-- Por aqui, Sr. Bernardo?
-- Sim, detective AlfaZero. Recebi há coisa de meia hora um telefonema da minha noiva a dizer que a tinham trazido para cá.
-- Mas… quem é a sua noiva?
-- É a Dra. Filomela Assis, da Conservatória Notarial 35-b.
-- Ah, sim?! – Exclamou AlfaZero deveras surpreendido – ela está lá dentro. Vá ver o que se passa.

20. AlfaZero conversa com Bernardo Prudêncio e Filomela Assis
E AlfaZero, depois desta revelação, deu meia volta e regressou para o interior da AngoCrime. Dirigindo-se ao Inspector Juvenal, disse-lhe:
-- Inspector, preciso de conversar novamente com a Dra. Filomela Assis e com o seu noivo, Bernardo Prudêncio. As coisas agora estão perfeitamente muito mais claras.
-- Sim, com certeza, detective AlfaZero – disse o Inspector Juvenal olhando para AlfaZero com perplexidade.
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Ao entrar no compartimento onde se encontrava a Dra. Filomela Assis, AlfaZero encontrou-a sentada e com aspecto de bastante nervosa. Bernardo, o seu noivo, estava igualmente sentado, ao seu lado.
-- Desculpem interromper-vos – disse AlfaZero olhando para os dois, alternadamente – mas preciso de conversar com vocês. Neste momento vocês são os dois principais suspeitos do assassinato de Augusto Prudêncio. Um de vocês os dois assassinou, ou os dois em conivência assassinaram, Augusto Prudêncio. Esta caixinha metálica com duas moedas dentro – disse AlfaZero, ao mesmo tempo que lhes mostrava a caixinha que segurava na sua mão direita – é a prova inequívoca que um de vocês os dois esteve na viatura de Augusto Prudêncio para armadilhá-la. A Dra. Filomela Assis já confessou que a caixinha lhe pertence mas disse ela que não sabia onde a havia perdido. Você, Bernardo, conhece esta caixinha de moedas? –- Perguntou AlfaZero colocando a caixinha das moedas em frente aos olhos de Bernardo.
-- Sim, conheço, pois fui eu que a ofereci à Filomela, no “Dia dos Namorados” do ano passsado.
-- Diga-me, perguntou ainda o detective AlfaZero, que moedas é que estão dentro desta caixinha?
-- Bem, quando eu a ofereci à Filomela, as moedas que se encontravam na caixinha eram uma “macuta” angolana e um “real” português.
-- Perfeito – disse o detective AlfaZero. E, virando-se para a Dra. Filomela Assis, disse:
-- Dra. Filomela Assis, sabe explicar-me como é que a sua caixinha de moedas se encontrava por entre os destroços da viatura de Augusto Prudêncio?
-- Não, não sei explicar detective AlfaZero. Eu devo tê-la perdido nalgum local e então alguém deve tê-la apanhado aí e...
-- E esse alguém terá então colocado a caixinha dentro da viatura de Augusto Prudêncio? Com que fim? Para a incriminar? Se o objectivo era incriminá-la, Dra. Filomela, só pode ter sido uma pessoa que sabia que a caixinha era sua. Havia muitas pessoas que sabiam que a caixinha das moedas era sua?
-- Não, apenas o Bernardo sabia – respondeu a Dra. Filomela olhando de esguelha para o Bernardo.
-- Filomela – disse o Bernardo olhando de frente para a noiva – estás a insinuar que eu matei o meu irmão?
-- Um de vocês os dois assassinou Augusto Prudêncio – disse AlfaZero com firmeza e olhando alternadamente para os dois. E AlfaZero prosseguiu: -- O Bernardo tinha interesse em assassinar o irmão porque ficaria sozinho para herdar toda a fortuna do pai; A Dra. Filomela tinha interesse em assasinar o futuro cunhado pois, assim, o futuro marido, ou seja, o Bernardo, herdaria sozinho toda a fortuna do pai, passando assim, essa fortuna, a pertencer igualmente à Dra. Filomela.
-- Eu nunca mataria o meu único irmão – disse Bernardo Prudêncio com ar sério.
Pela mente de AlfaZero as ideias sucediam-se vertiginosas. À sua frente estava, sem dúvida nenhuma, a pessoa que armadilhou a viatura de Augusto Prudêncio e que o assassinou. Mas quem seria? Bernardo Prudêncio? Filomela Assis? Ou estariam ambos envolvidos no assassinato? Uma ideia surgiu repentinamente a AlfaZero e, virando-se para Bernardo Prudêncio, perguntou-lhe:
-- Diga-me, Sr. Bernardo, foi você que mandou imprimir, na parte de dentro da tampa da caixinha das moedas, em letras miniaturas, o nome da Dra. Filomela, antes de lhe ter oferecido a mesma?
-- Não, eu quando lhe ofereci a caixinha, ofereci-a sem nome nenhum gravado e nem sabia que o nome dela estava gravado na tampa da caixinha – disse o Bernardo olhando alternadamente para a noiva e para o detective AlfaZero.
--Confirma a resposta do seu noivo, Dra. Filomela? -- Perguntou AlfaZero olhando directamente para a Dra. Filomela.
-- Sim, detective AlfaZero, fui eu própria que mandei imprimir o meu nome na tampa da caixinha.
Era tudo o que o detective AlfaZero queria saber pois tal provava que não tinha sido o Bernardo que tinha colocado a caixinha na viatura de Augusto Prudêncio para incriminar a noiva. Então, a caixinha só poderia ter sido deixada na viatura pela própria Filomela Assis. Provavelmente a caixinha das moedas estaria na pasta dela onde estariam igualmente as ferramentas (alicate, tesoura, fios eléctricos, e a própria bomba) e, ao tirar um desses objectos da pasta, a caixinha das moedas terá caído sem que ela se apercebesse.

21. A estratégia sagaz do detective AlfaZero desvenda o crime.
Perfeito – disse o detective AlfaZero, olhando para a Dra. Filomela. Então, prosseguiu AlfaZero, está desvendado o segredo. Foi você, Dra. Filomela, que armadilhou a viatura do seu futuro cunhado e o assassinou para que o seu futuro marido herdasse toda a fortuna do pai, sozinho.
Bernardo virou-se bruscamente para a noiva e disse, quase em estado de choque:
-- Filomela, diz-me que não foste tu! Diz-me que não foste tu que mataste o meu irmão!
A Dra. Filomela olhava para o Bernardo, com os olhos muito abertos, sem balbuciar palavra.
O detective AlfaZero prosseguiu: -- Na conversa que tive consigo, Dra. Filomela, perguntei-lhe se a Senhora tinha algum relacionamento com o Bernardo. Você respondeu-me redondamente que nem sequer o conhecia.
-- Filomela!!! – Exclamou Bernardo virando-se bruscamente para a noiva – tu disseste isso ao detective AlfaZero? Que nem me conhecias? O que é que estavas a esconder?
-- A Dra. Filomela colocou a cara entre as mãos e irrompeu num choro copioso.

O detective AlfaZero apertou a mão ao Bernardo, e disse:
-- Bernardo, a vida está cheia de surpresas. Não esmoreça. Levante a cabeça, olhe em frente e, estou certo, outra mulher fará vibrar o seu coração. Esta aqui, não o merece!
E, acabando de dizer estas palavras, saiu do compartimento e foi ter com o Inspector Juvenal, pondo-lhe ao corrente dos últimos acontecimentos.
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22. A AngoCrime apresenta o relatório oficial do caso “O Carro Armadilhado”.
Passados alguns dias, o detective AlfaZero estava em posse do relatório oficial da AngoCrime referente ao caso “O Carro Armadilhado”, e que passamos a transcrever:

AngoCrime
(Agência de Investigação e Notificação de Crimes)

RELATÓRIO
das declarações prestadas pela Dra. Filomela Assis,
referentes ao caso “O Carro Armadilhado”.

Em declarações prestadas à esta Agência no dia XX do mês de XXXXXXX, do ano de XXXX, a Dra. Filomela Assis confessou ter armadilhado a viatura de Augusto Prudêncio e ter accionado o remoto controlo da bomba que ela própria colocou na viatura da vítima. Com efeito, com os conhecimentos de electrónica que adquiriu nos EUA, foi-lhe possível construir uma bomba accionada a controlo remoto. Não lhe foi difícil colocar a bomba debaixo do banco do condutor, na viatura de Augusto Prudêncio, numa altura em que, por volta das 21 horas, ele estacionou a viatura numa rua pouco iluminada e pouco movimentada. Depois disso, foi só esperar pela ocasião certa e accionar o controlo remoto.
Motivos do assassinato:
A Dra. Filomela Assis estava noiva de Bernardo Prudêncio, o irmão de Augusto Prudêncio, a pessoa assassinada. Os mesmos conheceram-se numa exposição de numismática realizada há alguns anos, já que ambos são grandes coleccionadores de moedas. Estavam para se casar dentro de alguns meses.
Como a Dra. Filomela sabia que o testamento do Sr. Aparício Prudêncio especificava que os dois irmãos (Augusto Prudêncio e Bernardo Prudêncio) eram os únicos herdeiros (em partes iguais) de toda a fortuna do pai e que, caso um dos irmãos morresse, o outro herdaria, sozinho, toda a fortuna, a ambição levou-a a matar o futuro cunhado para assim o futuro marido herdar, sozinho, toda a fortuna do pai. Com este pensamento sinistro e ambicioso a bailar-lhe no cérebro, executou, então, o seu plano macabro.
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Ao acabar de ler o relatório, AlfaZero comentou, com um suspiro:

“Mais um caso resolvido! Que surpresas nos trará o próximo?” E, pegando no seu telemóvel, telefonou à sua amiga Briana para lhe fazer companhia ao almoço.

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Escrito por
Helder Oliveira
(Helder de Jesus Ferreira de Oliveira)

(Do Livro (não publicado)
“Detective AlfaZero em Acção”)
 
 O Carro Armadilhado

Quando

 
Q U A N D O


Quando já não interiorizares naquele ritmo de outrora

Aquele vigor, aquele ímpeto que tudo arrasa e devora...

Quando a tua voz já não tiver aquele vigoroso urro

E soar desalentada num fraco e débil sussurro...

Quando tudo à tua volta for apenas solidão

Mesmo quando em são convívio com uma leda multidão...

Quando o pungente desespero vier bater à tua porta

E a vontade de lutar tombar vazia e morta...



Não desanimes ainda!

Faz um esforço... e a tua obra finda!



Quando no teu baço horizonte de horas não dormidas

Só achares nuvens densas... grandes... enegrecidas...

Quando as derrotas para ti já não motivarem vitórias

E nem te inspirarem já altos feitos, excelsas glórias...

Quando inexoravelmente se forem naufragando

Os pilares das vontades que ias afagando...

Quando for grande, nobre e justa a causa que defendes

E o mundo inteiro ajuizar que ela é falsa e que tu mentes...



Não desesperes ainda!

Faz mais um esforço... e a tua obra finda!



Quando o teu sono for apenas uma insónia disfarçada

E os teus sonhos pesadelos de uma vida destroçada...

Quando os mais fiéis amigos as costas te oferecerem

E todos os teus sonhos e desejos perecerem...

Quando sentires que a vida só é desenganos e dores

E que a sociedade em que vives é uma negação de valores...



Não sucumbas ainda!

Reúne um último esforço... e a tua obra finda!



E atenção! Nunca dês a luta por perdida;

Pondera; uma MULHER decidida

Ou um verdadeiro HOMEM

Não têm derrotas que os domem;

Eles lutam; e uma nova obra é definida,

Amadurece... toma corpo... ganha vida...

E outra... e mais outra... e outra ainda...

Numa sucessão que só a morte finda.
 
Quando

A Sentença do Feiticeiro

 
A Sentença do Feiticeiro

I
Vencido e manietado por palustres febres furibundas,
Incapaz de se reter nas lassas forças moribundas,
O sucessor do magno rei dos “Vandas”, o intrépido Kafukutiu,
Para sempre deste Mundo se partiu;

E logo o valente soberano agora imerso em vil tristeza,
Ouve dos leais conselheiros que o afirmam com firmeza:
“-- Majestade, vosso filho Kafukutiu foi por feitiço levado,
Feitiço lançado ao Reino por alguém fero e malvado
Que vos quer ver humilhado e a seus pés subjugado!”;

“-- Chame-se, pois, e de imediato, o feiticeiro Sapalão”,
-- ordenou o Soberano -- e que ele nos diga sem hesitação,
De quem vem a temerária ousadia, a vil proeza,
De querer destruir a alma dos “Vandas” com tal crueza;”

“--Que nos diga para que os nossos antepassados,
Com a mesma fúria de áureos tempos passados
Com que frustraram maquinações vis e ardilosas,
Contra o carrasco lancem suas iras tenebrosas;”

II
Alto, de longas barbas brancas e rugas já cansadas,
Sapalão, o feiticeiro, cruzou o recinto em largas passadas,
E em frente à audiência se sentou com austera seriedade;
Em todos os presentes fervilhava o fervor da ansiedade;

E sem perder mais tempo o venerado feiticeiro,
Embalado em sua crença de magno e justiceiro,
Ao pescoço de um galináceo rápido deu um corte,
Deixando-o aos ziguezagues na agonia da morte;

E então a sua voz soou solene e pausada:
“--Majestade, Conselheiros, aquele que com força ousada,
Sobre nós lançou o feitiço do mal e da desgraça,
Não é de nós desconhecido quando passa”.

Todos os presentes franziram inquietos os sobrolhos,
E a ânsia da resposta estampou-se nos seus olhos;

“-- E para que o maléfico feitiço não se espalhe ao Reino inteiro,
-- Prosseguiu o Sapalão –
Para que o gado cresça alegre e prazenteiro,
Para que haja mantimentos e chuva e muito milho a crescer,
E para que o nosso povo não sucumba a padecer…
Vassalo desse infame o nosso rei terá de ser!

E todo aquele que se negar a essa infausta sorte,
Conhecerá desse feitiço a brutalidade e a morte;”


“-- Mas quem será esse monstro de alma tão endiabrada? -
Interrogaram-se várias vozes ansiosas;
E logo do Sapalão veio a resposta, cruel, incontestada:
“-- É o traiçoeiro e sanguinário rei dos “Nozas”.

“-- Nunca!--gritou o Soberano levantando-se aturdido,
Como se um furacão o tivesse sacudido.
“-- Nunca serei vassalo desse ignóbil charlatão!
“-- Nunca esse infame zombará da minha honra já ferida!
E, puxando de uma faca de debaixo do casacão,
Lesto arremessou-a direito ao coração,
Perdendo ali no mesmo instante o alento e a vida…

III
É que ao escutar a palavra “Nozas” o impávido Soberano,
Sentiu que um velho ódio maquiavélico e insano,
Nele já meio adormecido agora despertava,
E de todo o seu ser, sinistro se apossava;

Em sua mente sucederam-se claras e insultuosas,
As imagens que marcaram a treda invasão dos “Nozas”,
Quando ele e o seu povo, após uma derrota humilhante,
Tiveram de pagar ao odioso ocupante,
Forte tributo em gado, terras, escravos, mantimentos,
E mulheres em vistosos ornamentos...

Ah, o rei dos “Nozas”! Odiava-o até ao limite da sua resistência!
E uma obsidiante ideia lhe dizia com insistência,
Que só o grande Kafukutiu merecia a honrosa herança,
De infligir aos nefandos “Nozas” a cruel derrota da vingança...

IV
Caído agora já o seu herdeiro e já do feiticeiro a sentença ouvida,
Sobrepusera-se o orgulho da morte à humilhação da vida…

V
E rendidos ao feitiço da suposta adivinhação,
Os “Vandas” juraram aos “Nozas” a sua submissão…

Helder Oliveira
(Helder Ferreira de Oliveira)

-- Breve Explicação do Poema --


Em “I”, têm lugar três acontecimentos importantes:

a) A morte, por doença, de Kafukutiu, filho e sucessor do rei dos “Vandas”.
“O sucessor do magno rei dos “Vandas”, o intrépido Kafukutiu,
Para sempre deste Mundo se partiu;”

b) Os conselheiros do rei convencem-no de que a morte de seu filho Kafukutiu, foi causada por feitiço.
“-- Majestade, vosso filho Kafukutiu foi por feitiço levado…”

c) O rei ordena que se chame Sapalão, o feiticeiro, para adivinhar quem lançou o feitiço contra o seu filho.
“-- Chame-se, pois, e de imediato, o feiticeiro Sapalão…”

Em “II”, têm lugar dois acontecimentos importantes:

a) Sapalão, o feiticeiro, confirma o que os conselheiros haviam dito ao rei, sublinhando que quem lançou o feitiço não é pessoa desconhecida ao Reino dos Vandas.
“--Majestade, Conselheiros, aquele que com força ousada,
Sobre nós lançou o feitiço do mal e da desgraça,
Não é de nós desconhecido quando passa”.

E Sapalão diz ainda que o feitiço que matou Kafukutiu, o filho do soberano, espalhar-se-á por todo o Reino causando a desgraça e a morte, a não ser que…
… a não ser que o Soberano se torne vassalo dessa pessoa que lançou o feitiço.
“E para que o nosso povo não sucumba a padecer…
Vassalo desse infame o nosso rei terá de ser!”

E Sapalão vai mais longe e diz que quem se opuser a que o o rei dos “Vandas” se torne vassalo do rei dos “Nozas”, cairá fulminado pelo terrível feitiço que já ceifou Kafukutiu…
“E todo aquele que se negar a essa infausta sorte,
Conhecerá desse feitiço a brutalidade e a morte…”

Por fim, Sapalão revela quem foi a pessoa que lançou o feitiço e que, por ironia do destino, era, afinal, um grande inimigo do povo Vanda. Com efeito, essa pessoa era, nem mais nem menos, o rei dos “Nozas”, um povo vizinho, odiado pelos “Vandas”.

“-- Mas quem será esse monstro de alma tão endiabrada? -
E logo do Sapalão veio a resposta, cruel, incontestada:
“-- É o traiçoeiro e sanguinário rei dos “Nozas”. “

Os “Nozas” eram odiados pelos “Vandas” e o rei dos “Vandas” odiava profundamente o rei dos “Nozas”.

b) A morte, por suicídio, do rei dos “Vandas”, que não suportou a ideia de se tornar vassalo do seu odiado inimigo, o rei dos “Nozas”, preferindo, assim, a morte.
“—Nunca esse infame zombará da minha honra já ferida!
E, puxando de uma faca de debaixo do casacão,
Lesto arremessou-a direito ao coração…”

Em “III” e em “IV” apresentam-se as causas do ódio que os “Vandas” nutriam pelos “Nozas” e as razões que levaram o rei dos “Vandas” a cometer suicídio.

Uma invasão traiçoeira que os “Nozas” fizeram aos “Vandas” e em que estes sofreram uma derrota humilhante foi a causa do terrível ódio que os “Vandas” nutriam pelos “Nozas”…
“Em sua mente sucederam-se claras e insultuosas,
As imagens que marcaram a treda invasão dos “Nozas”…”

E o rei dos “Vandas” jurou vingança após essa invasão… mas só a uma pessoa caberia a honra de comandar as forças para a vitória da vingança sobre os “Nosas”… e essa pessoa só podia ser o seu filho Kafukutiu, o valente guerreiro, e só a ele caberia essa honra…
“E uma obsidiante ideia lhe dizia com insistência,
Que só o grande Kafukutiu merecia a honrosa herança,
De infligir aos nefandos “Nozas” a cruel derrota da vingança...”

Agora, porém, Kafukutiu, o seu filho, havia partido para sempre, e a esperança dessa vingança havia-se esfumado…
“Caído agora já o seu herdeiro…”

Para quê continuar a viver sem a possibilidade de ver o seu aguerrido filho Kafukutiu, o herdeiro do seu trono, vingar-se dos “Nozas”? Ah, o suicídio acabaria com esse sofrimento… sim… o suicídio… só faltava um encorajamento final para que fosse cometido… e esse encorajamento chegou, finalmente, da boca de Sapalão, o feiticeiro…
“E logo do Sapalão veio a resposta, cruel, incontestada:
“-- É o traiçoeiro e sanguinário rei dos “Nozas”.

Em “V” lê-se que os “Vandas”, por terem acreditado que fora um feitiço que matara Kafukutiu e que esse feitiço aniquilaria todos os que se opusessem à sua submissão aos “Nozas”, tornaram-se, efectivamente, “escravos” dos “Nozas”…
“E rendidos ao feitiço da suposta adivinhação,
Os “Vandas” juraram aos “Nozas” a sua submissão…
 
A Sentença do Feiticeiro

Sentado ao Luar

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor, tendo como música de fundo o trecho musical "Sôdade" interpretado em françês por Chris Felix, acompanhado de Armando Cabral, Luís Morais e Cesária Évora)

Sentado ao Luar

Aqui sentado neste vítreo luar de uma lua redonda e cheia,

Medito no trôpego andar desta minha vida vazia e feia;

A minha vida é um luar apagado de uma lua de outra era,

É um vulcão inacabado em profunda cratera;



Assim que este luar tão claro de um brilho tão envolvente,

Não é senão o oposto do meu mundo avaro de uma escuridão ingente;

O meu mundo jaz nas profundezas de um abismo que se abriu fatal,

E aí dorme imerso em cruezas de uma perpetuidade brutal;



A vida não é mais que um breve sorriso que súbito aflora e logo se esvai,

Ou um vago olhar impreciso cuja imagem logo se vai;

O tempo corre e a vida a ele se agarra e corre também,

E o laço que os prende não se olvida de se desprender quando a morte vem;



E a morte sempre a ceifar dia após dia sem punição,

Vive sem nunca se saciar da vida sem norte dos que se vão;

E entretanto a vida vive zombando das pressas inúteis,

Daqueles de quem não se olvida de arrastar para caminhos ínvios e fúteis;



E assim aqui neste luar de uma rara beleza apurada,

Sinto mais forte o vão vegetar desta minha vida parada;

E ansioso espero o vendaval que me há-de arrancar desmascarado,

Das profundezas do abismo fatal onde há muito estou embalsamado!
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Este poema reflecte um profundo estado de desânimo. O está triste e desanimado. O está com saudades de momentos felizes que viveu nalgum período do seu passado. Ao contemplar um luar tão belo, a sua alma extasia-se perante um quadro de tão rara beleza. Mas ao mesmo tempo a sua alma mergulha em sofrimento profundo porque sente que não está a desfrutar dos encantos que a Natureza, que a Vida, lhe proporciona. “… A minha vida é um luar apagado de uma lua de outra era…” . E o chega mesmo a ser mais directo e a confessar que o seu mundo está praticamente destruído. “… O meu mundo jaz nas profundezas de um abismo que se abriu fatal…” e prossegue dizendo que o seu mundo está povoado de inúmeras baixezas, falsidades, injustiças, crueldades… que nunca têm fim… “…E aí dorme imerso em cruezas de uma perpetuidade brutal…” Mas o não é de todo pessimista. E, mais uma vez aqui fica provado que a esperança é sempre a última a morrer. O tem a esperança de que a sua vida voltará a ser o que era nos seus tempos áureos, tem a esperança de que uma viragem da sorte, do destino, lhe trará novos ventos e então lança o grito da esperança, o grito que lhe dará a força de que necessita para se erguer do desespero, levantar a cabeça e desbravar ele próprio, sem máscaras, sem falsas aparências, os novos rumos do seu destino… “… E ansioso espero o vendaval que me há-de arrancar desmascarado // Das profundezas do abismo fatal onde há muito estou embalsamado …”
 
Sentado ao Luar

Quando Parte uma Poetisa ou um Poeta

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor tendo como pano de fundo o grande sucesso musical "Take Five" de Dave Brubeck)

Quando Parte uma Poetisa ou um Poeta

Quando parte uma poetisa ou um poeta,
Os seus poemas ficam no ar…
E formam nuvens densas e largas,
Para que se oiça a chuva a soar,
Chuva que simboliza as lágrimas amargas,
Dos que de imensa dor se curvam a chorar…

Quando parte uma poetisa ou um poeta,
Os seus poemas ficam no ar…
E formam um forte redemoinho de vento,
Para que se oiça o vento a assobiar,
Assobio que é afinal um doloroso lamento,
Dos que choram o seu infinito pesar…

Quando parte uma poetisa ou um poeta,
Os seus poemas ficam no ar…
Para que o sol dentro deles retido,
Apresse a escura noite sem luar,
Noite que é a cor do luto sentido,
Dos que de luto se vestiram a velar…

Quando parte uma poetisa ou um poeta,
Os seus poemas ficam no ar…
E logo se espalham por entre a multidão,
Que delirante os recita em ovação,
Juntando as suas vozes sonorosas,
Que por toda a parte se propagam orgulhosas…

Ah, quando parte uma poetisa ou um poeta,
Os seus poemas ficam no ar!
 
Quando Parte uma Poetisa ou um Poeta

Um Beijo ao Luar

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor com música de fundo de Wanderley Cardoso)

À luz de um luar resplandecente, os impulsos amorosos tornam-se irresistíveis...

Um Beijo ao Luar

E deleitada a noite que nascia,
Despiu o escuro manto torturante,
E vestia agora fulgurante,
Um luar tão claro como o dia.

E logo em nós um férvido desejo,
Forte... ingente...
De um primeiro beijo
Na noite fulgente.

E em redor um silêncio estagnado
Desperta exóticas sensações…
E é apenas perturbado
Pelo bater dos nossos corações.

E em nós se cumpre o desejo,
E tão veementemente,
No nosso lúbrico beijo,
Longo e quente!
 
                              Um Beijo ao Luar

Os Nossos Breves Encontros

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor, tendo como pano de fundo a balada de Coimbra "Amor de Estudante" interpretada pelo inesquecível Zeca Afonso)

Dizem que amor de estudante,
Não dura mais que uma hora;
Ai o meu é tão velhinho,
E ainda se não foi embora!

- Passagem de um belo “Fado de Coimbra“ -

Os Nossos Breves Encontros

Ah! Como eram belos os nossos breves encontros!

Eram de tão curta duração,
Mas tão belos, tão ternos,
Que para mim era como se fossem eternos,
Eternizando a nossa paixão;

Nesses momentos de infinda magia,
O mundo era todo meu,
Tu eras tudo o que eu via,
Eu era todo só teu;

O tempo então para mim parava,
E eu perdia a noção do passado e do futuro;
Todo o meu mundo naquele instante se condensava,
Formando à nossa volta um impenetrável muro;

Então... só tu grande e bela,
Muito bela e doce...

Apesar de nunca nos termos tocado,
Era como se os nossos corpos se entrelaçassem;

Apesar de nunca nos termos beijado,
Era como se os nossos lábios se entrechocassem;

Apesar de nunca termos falado de amor,
Era como se de amor os nossos corações se inflamassem;

A tua voz era um bálsamo para os meus tormentos,
Era a música que a minha alma trinava;
E era naqueles breves, divinos momentos,
Que à nossa volta tudo se diluía... tudo se finava...

Então... só tu grande e bela
Muito bela e doce...

Ah! Como eram belos os nossos breves encontros!
 
          Os Nossos Breves Encontros

Túrbida Paixão

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor tendo como música de fundo o grande sucesso de Cristophe “Je Ne T’aime Plus” (Não te amo mais).)

Túrbida Paixão

Já em meus olhos sorriem novamente,
As alegrias que se haviam dissipado;
Já no meu coração dilacerado,
Saram as feridas docemente;

O amor tão misteriosamente,
Consoante as naturezas do seu estado,
Ou nos dá o prazer tão desejado,
Ou nos faz sofrer penosamente;

Vejo agora quão duro é sofrer desprezo,
De quem nunca desprezo se esperava,
Porque a um grande amor se estava preso;

De falsidades esse amor me enfeitiçava,
Esse amor que feliz agora menosprezo,
E que cruel e sem dó me destroçava!
 
Túrbida Paixão

Para Nunca Mais Me Enamorar

 
Para Nunca Mais Me Enamorar

Para nunca mais me enamorar,
Arranquei de mim o coração;
E para eternizar a separação,
Joguei-o para o fundo do mar;

E sem ele eu agora vou reinar,
No lúbrico mundo das paixões;
Vou enlouquecer corações,
Sem medo de me apaixonar;

Nunca mais arderei na chama,
De um amor não correspondido;
E será sempre bem respondido,
O apelo de quem diz que me ama;

Já das aves oiço melodias,
Que nunca tanto me maravilharam;
E sobre a minha alma pairam,
Deliciosas alegrias;

No mar as ondas batem forte,
Na bela noite de luar;
E no meu coração oiço soar,
Um triste gemido de morte;

Meu coração adeus, partiste,
Do mar já não voltas mais;
Sossegaste, calaste os ais,
Da tua vida amarga e triste!
 
Para Nunca Mais Me Enamorar

PROCURA

 
PROCURA

Procurei-te nas noites de insónia,

Quando na memória,

Vagas,

Apressadas,

Passavam desvairadas,

As imagens;



Procurei-te no silêncio das madrugadas,

Quando derrotadas,

Ôcas,

Destroçadas,

As esperanças sucumbiam,

Às imagens;



Procurei-te no romantismo do sol-poente,

E em trinado dolente,

Minha voz,

Soava,

Clamava,

Sem receber o eco das mensagens;



Procurei-te nos belos da poesia,

E mergulhado em melancolia,

Meus versos,

Rasguei,

Queimei,

Qual algoz em instintos selvagens;



Procurei-te nas noites estreladas,

Belas,

Enluaradas;

E nas paisagens da Lua,

Quis ver a presença tua,

Em tão longínquas paragens;



Procurei-te nos deleites da música,

Suave... rítmica...

E em eufórica mímica,

Apalpei,

Vagueei,

A ver se te via entre as imagens;



Procurei-te na magia das flores,

Multicores,

De mil odores;

E imerso em frustração,

Chorei todo esse esforço vão,

Perdido em inúteis sondagens;



Procuro-te noite e dia em desespero,

E em louca ânsia te espero;

Meus olhos,

Cansados,

Magoados,

Só então rebrilharão,

Libertados,

Das ilusórias miragens!
 
PROCURA

Sonho Desfeito

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor com música de fundo em solo, "A Casa do Sol Nascente).

SONHO DESFEITO

Naquela tarde serena,
Sem dó, sem pena,
Fugiste de mim;

Fiquei magoado,
Com o olhar parado,
Como o de um manequim;

Perguntei-te então,
Se nos jurámos em vão,
E tu disseste que sim;

E assim se desfez,
Este meu sonho que fez,
Mil venturas em mim!

Agora caminho incerto,
Como num deserto,
Longo, sem fim;

E minha vida é triste,
Só dor em mim existe;
Por que será sempre assim?
 
Sonho Desfeito

ATRACÇÃO

 
 
(Oiça o poema recitado pelo próprio autor tendo como música de fundo a canção "Chorona" interpretada por António Calvário)

ATRACÇÃO

Foi enlevado que te olhei quando te vi,
Tão gentil, tão sedutora, tão fascinante;
Olhei-te mais de perto e logo percebi,
Que me tornara teu escravo nesse instante;

Escravo da tua pose cativante,
Dos teus olhos em cujo fogo eu ardi;
Do teu sorriso a dar vida ao teu semblante,
E da tua voz em cujas ondas me perdi;

Desperto agora do torpor do desalento,
Com todas as minhas forças, todo o meu alento,
Lutarei por este amor por ti;

Cruzarei montanhas, desertos, oceanos,
Por ti lutarei até ao resto dos meus anos,
Por ti darei a vida, pois a vida é morte sem ti!
 
ATRACÇÃO

AMAR-TE

 
O POETRIX é um poema composto de título e uma estrofe de três versos (terceto) com um máximo de trinta sílabas métricas.
Goulart Gomes
(Criador do Poetrix)

AMAR-TE,
É namorar-te a vida inteira,
E a vida inteira agradar-te;
Que deliciosa canseira!
 
AMAR-TE

-- Helder Oliveira --
(Helder de Jesus Ferreira de Oliveira)