Poemas, frases e mensagens de chintons

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de chintons

Acho que somos

 
Acho que somos a mecha
de um lampião sempre aceso
pássaros que ficaram presos
num cárcere de reminiscências,
acho que somos uma flecha
a proteger um amor indefeso
um sentimento tão coeso
que nunca aceitou condolências.

Acho que somos uma cidadela
edificada numa impossibilidade
que protegeu a nossa cumplicidade
em tempos de batalhas perdidas,
acho que somos algumas sequelas
que fizeram da nossa saudade
a maior de todas as tempestades
que já enfrentamos na vida.

Acho que somos um segredo
que cansou de ser guardado
como se fosse um pecado
sem nenhuma penitência,
acho que somos um brinquedo
que nunca cansou de ser brincado
que se alegra ao ser usado
não se importando com as aparências.

Acho que somos o diferente e o igual
que se acharam por necessidade
achando assim suas próprias verdades
quando a vida nos questionou,
acho que tudo parece tão paradoxal
mas pode haver felicidade
até mesmo na infelicidade
depois que a vida nos juntou.
 
Acho que somos

O que dilata

 
É certo que a esperança
me foge por um corredor estreito
feito ar entre os dedos,
porém, frustrante é a certeza
de não ter te sugado
pra dentro dos meus poros.

Tu sabes da minha obsessão
pelo amor que eu carrego
tal qual um filho,
com braços que estreitam;
dão segurança,
noção de espaços,
mas não te moves do teu trono,
me deixas em xeque,
rainha em tua saia xadrez.
Tu sabes da minha obsessão.

Diriam os otimistas
que o amor é feito de ciclos
que estou fazendo eu então,
vagando pela minha monocultura?

De qual esfera te trago,
te sugo e te engulo
com essa avidez de menino,
essa loucura obstinada
de olhar pro alto e te buscar,
de qual esfera te trago?

As coisas são como são,
insondáveis assombrações,
amores que dilatam poros,
porões.

Do livro de poemas: O trem dos meus dezoito anos - editora Perse.
 
O que dilata

O mar do amor inútil

 
Quem fomentou a paixão
desconhece que a fome entrou
lá dentro, sem explicação,
e ficou, ficou, roncou, roncou
sibilantes palavras,
sssssssssssssssssssssssssssssss.

Se tudo fosse fácil
a vida seria um saco
contenho minha paixão
com goles secos de nuvens
já bebi tantas lágrimas
e sei que não foram todas.

Quem ignorou a paixão
desconhece a amplitude
se eu pude, não pude,
me ilude, me ilude,
eu suporto, eu corto
os excessos, os abscessos,
a obsessão eu domino
apesar do contrassenso
o senso de limites
ainda perdura
procura
por mim na tua vida pregressa
depressa
antes que eu degele e desapareça
no mar do amor inútil.

Do Livro de poemas: O trem dos meus dezoito anos, editora Perse.
 
O mar do amor inútil

Foi mais ou menos assim

 
Naquele dia chovia, você se lembra?
Choviam desejos e eu quase tive um troço,
eu engoli a vida,
ela estava toda dentro de mim,
tudo que era nervo pulsava e eu tremia,
era como se ventasse uma maré repentina
e eu sentia concomitantemente enjoos e desejos
aspectos ambíguos da ansiedade,
enquanto eu lhe despia
meus joelhos batiam um no outro
se apoiavam mutuamente,
verticalidade sinuosa da vertigem da hora,
então você me beijou,
mordeu avidamente a minha espera
murmurou palavras desconexas nos meus ouvidos
e eu aspirei todo o ar que nos cercava
e lhe peguei no colo, me embrenhei no seu corpo
à caça dos anos passados à sua procura,
ao penetrar sem pressa a sua entrega
sorri novamente pra vida
e aquela minúscula cabine
pareceu-me imensa,
de repente era como se o horizonte
tivesse se afunilado no buraco da fechadura
e estivesse ali, por testemunha,
pois agora eu via esse horizonte
e me sentia grande, grato e homem.
 
Foi mais ou menos assim

Em que outra vida?

 
A vidraça embaçada,
o quarto fechado,
ruas escuras,
o que foi feito de você,
minha lua?

As coisas perderam a graça
talvez seja preciso
que de novo a gente nasça
pra que tudo se refaça,
a graça,
a taça onde bebemos
prazer líquido, sólido, poroso,
gostoso,
a taça que nós erguemos
sem certeza da vitória,
que fora,
que hora foi aquela
em que os nossos relógios
marcaram tempos diferentes
e a gente se perdeu da gente,
nunca mais, de repente,
frente a frente,
dente com dente,
olho com olho,
eu não te escolho,
eu te amo,
eu não te acho,
eu te sei,
em que outra vida
eu já te amei?
 
Em que outra vida?

Aprendizado

 
Para ter você
não sei se tive que fazer
uma sutura, uma costura,
uma mistura das duas,
tive que fazer uma lua
para me representar
iluminar o que eu lhe traria
pois algo lhe puxava
para o conhecido
para o bom que é ruim,
para o que enfim
só lhe escurecia,
mas eu lhe via
com minha chama interna
com a minha perna que tremia
como vara verde
como um varal ao vento
naquele momento
que antecedeu a mágica,
a comunhão.

Para ter você
eu tive que aprender
o que era o amor
e eu estudei tanto
cada lágrima do meu pranto
cada dúvida do entretanto
cada refúgio nos seus cantos
cada gesto tímido
dos seus encantos.
 
Aprendizado

A minha árvore

 
Ressurgirei
desse amontoado de passado
desse meu ego desorganizado
dessa minha redoma de isopor
das entrelinhas desse amor
e entre as linhas do que nos une
eu rasgarei o que nos pune
e lhe convidarei para a reestréia
para caminhar entre as aléias
para organizar o desconexo
me enviar o seu anexo
abrir-se em mim esparramada
no meu peito encimada
deixando-me tomar o vinho,
o tinto, o doce,
o agridoce sabor do resoluto
seu fruto
minha vinha
arvorezinha
árvore minha.
 
A minha árvore

Julgamento

 
Estou nu.
Nu e vazio.
Não há mangas pra arregaçar.
Frases chaves
já não abrem portas emperradas.
Estou falido.
A um passo do paraíso (na liberdade),
não sei se pego o metrô
ando meio retrô
perdido de saudade (na cidade)
sou a antítese da felicidade
minha própria chibata
cujas marcas uma radiografia qualquer
um dia apontará (são viscerais).

Visto-me com a ignóbil mortalha
dessa espera vazia.
Não sou Adão, mas descendente direto dos seus erros
e qualquer pano resolve,
e qualquer pena me absolve.

Liberdade e Paraíso são bairros vizinhos na cidade de São Paulo.
 
Julgamento

Amor na tecla pause

 
O que há em mim do que fui
já não flui
nos pensamentos que divagam,
se eu fui, não sou, não sei,
por vezes quase duvido
de que tenha havido você,
tão irreal parece-me agora
aquela entrega
a que nos propusemos.

O que há de mim em você
é uma história de hábitos noturnos,
que fica morando no seu travesseiro,
e fica lhe avivando a minha memória,
e relembrando do que já não é
e o que poderia...

Sádica insônia,
olhos que não dormem,
coração batendo por obrigação,
desejos que nos punem,
amanhã que não adormece,
distância que nos embota,
delay em atraso definitivo,
amor na tecla pause.
 
Amor na tecla pause

Na noite

 
Na noite

O silêncio predomina.
Uma aranha teceu suas teias
nas paredes dos meus limites.
Sou um novelo de lã emaranhado.
Almas que me espiam
carmas por expiar,
o vento batendo nas telhas
reflete a minha agonia.
Mas ainda há uma vaga lembrança
um teu sorriso que não fugiu
e eu acalento a esperança
com goles quentes de chá.

Do livro: O trem dos meus dezoito anos - editora Perse.
 
Na noite

Folhas ao vento

 
Folhas ao vento

Eu mexi na gaveta
onde você guardou a sua vida,
esparramei as suas convicções
por uma estrada chamada desejo,
fiz você conviver com o impreciso,
mas se não estendesse
a minha corda mesmo que bamba
você nunca cruzaria o rio,
eu levei você para além da fronteira,
para um país cujo idioma era o amor,
e nossas línguas falaram o mesmo beijo
talvez numa lembrança atávica
de suspiros e sussurros.

Amores são folhas ao vento.
Mas quem sabe de onde o vento vem?
De onde ele me soprou até você?
Talvez você tenha me aspirado
enquanto ouvia a madrugada
chegar e partir e não trazer seu sono,
ou no meio de uma tarefa rotineira,
enquanto cortava uma cebola
ou cerzia uma meia rasgada
ou as próprias desesperanças,
enquanto olhava o pôr do sol
e tinha uns minutos consigo mesma.

Ventos e folhas vêm e vão
o que me trouxe me levou
nem nos avisou quando seria,
não deixe que a folha se resseque
deixe que a lembrança a regue
a carregue para perto do rio
pois ele continua no mesmo lugar.
 
Folhas ao vento

Ai como eu te amo

 
Penso nessa paixão absurda
no sentido de grandeza,
de sub-reptícios encontros,
lúbricos, encantados,
às vezes me belisco
e a dor me revela
que tudo foi real
que tudo é real.

Mas quem nos juntou?
Talvez, uma conjunção de planetas,
as cartas de tarô,
um relógio quebrado
que nos colocou
no mesmo minuto,
a mão de algum deus
do imponderável,
uma carta de amor
que selou nossas vidas,
carimbou nossos passaportes
para um tempo de dedicação,
amor quase irmão,
que fala e escuta,
que se emociona e chora,
que se dá e se deita,
que assina e aceita
o compromisso da alma.

E eu pratico esse entendimento
de te amar sem medidas
em todos os dias que acordo
e posso rever-te
ou ter uma lembrança,
posso sentir o gosto
mesmo à distância,
posso por fim agradecer
ao deus do imponderável,
posso me beliscar
uma, duas, três, dez vezes
e sentir a dor e ai,
gritar ai, gritar ai, gritar ai,
ai como eu te amo.
 
Ai como eu te amo

Divagações

 
O que fizemos das nossas vidas
foi torná-las uma só.
A amada, virou amante,
de amante, a melhor amiga,
amada, amante, amiga,
trilogia de uma sina.

O fatalista crê no destino,
eu fatalmente creio em ti.
Há fatos evidentes da tua adoração,
há um companheirismo
a me provocar arrepios
a me emocionar até as lágrimas.

Teus olhos me vêem
assim como eu te vejo:
retocando as imperfeições.
Esse amor tem um photoshop exclusivo.

Somos perfeitamente sãos
no nosso insano amor.
Quem é que precisa de Rivotril?

Quem não impõe condições para o desejo
se abre para o descobrimento.
O que não é idealizado
não traz o arfar da ansiedade.

Quero aspirar o ar do teu nariz
para ter um instante da tua vida
circulando dentro de mim.
Somos um híbrido de nós dois.

A eternidade será muito pouco
para um amor que não envelhece.
Ainda que eu fosse um grão de areia
tu terias me achado nesse mundo.
 
Divagações

Por precaução

 
Ata-me
com um fio dos seus cabelos
ao seu destino,
desde menino
estive preso ao seu futuro,
como procuro
por você nas minhas linhas!
as tuas vinhas
embebedaram a minha pressa
então fiz um monte de promessas
aos santos que são
e aos que ainda serão
por precaução,
e todos eles me atenderam.
Ter você foi como aprender andar de bicicleta
ter você foi andar de bicicleta soltando as mãos
ter você foi como ser o alvo e a seta
ter você foi como ter outro coração.

Do livro: O trem dos meus dezoito anos - Editora Perse.
 
Por precaução

Troca

 
Me deita
na extensão do teu corpo
e me aceita
na extensão do teu sexo
receita
todos os teus atalhos
recita
sussurros monossilábicos
me dita
ordens de protelação
bendita
seja a tua explosão,
aflita
seja a tua cavalgada,
infinitas
sejam as tuas contrações
e as minhas gotas de suor
trocando os meus poros pelos teus.
 
Troca

Água de beber

 
Desde que bebi na fonte
que descobri em você
eu vivo a beber
sonhos que se renovam,
que se deliciam com o gosto
com o proposto
sempre acima do propósito,
uma roda gigante
que fica parada no topo
que até gira ao contrário,
pernas para o ar
e cabeça para baixo
e há veias refratárias
para o sangue em fogo
que deseja
além do desejo.

A sua fonte pode ser pura
pode ser impura
clara ou escura
que hei de beber
e sorver na sua boca
a água mais rouca
que eu possa lamber.
 
Água de beber

Fragmentos

 
As vidraças estão
com os vidros trincados
que podem cair para qualquer lado,
para dentro ou para fora,
ferir calçadas onde não pisei,
cortar amores que não amei,
partir-se em mil fragmentos
do que já fui.
Mas o que seria eu
se não fosse eu?
Talvez um clone de mim,
que descendesse
das minhas angústias,
tivesse o gene da minha melancolia,
que confrontasse tabus
e andasse nu, em meio à procissão
dos que ditam regras
e nunca sentiram o cheiro
da flor que nasce no mato,
porque nunca ousaram
além do seu próprio extrato.

As casas em que nunca entrei
escondem vidas que não vivi,
altares onde não orei,
o dia em que eu parti,
fugidias horas em que não te amei,
camadas de sonhos que não dormi,
todos os anos em que ressuscitei
das muitas mortes desde que te perdi.
 
Fragmentos

Uns dias

 
De vez em quando
ardia, doía,
de vez em quando
eu morria,
de melancolia,
de amor
e taquicardia,
de dor
e espera vazia,
de vez em quando,
uns dias.
 
Uns dias

Caso

 
Troca de olhar
também pode ser amor
a gente teve um caso sim,
de dor.
Paro pra pensar
e o tempo já passou
paro pra voltar
mas o tempo já passou,
a gente teve um caso sim,
só que um caso só de dor.
Tem certos dias em que as horas
não passam do portão
tem certas horas em que os dias
não passam de paixão,
você estranha o meu olhar
mas conhece o meu humor
a gente teve um caso sim
só que um caso só de dor.
Tem certos anos em que as chuvas
são chuvas de paixão
tem certas chuvas em que os anos
escorrem pela mão.
 
Caso

Sede de boca

 
Qualquer boca é boca
mas havia a tua boca
e olha, que coisa louca
a boca, que boca,
e olha, que sede louca
de boca, da tua boca.

Do livro de poemas: O trem dos meus dezoito anos - Editora Perse.
 
Sede de boca