Poemas, frases e mensagens de acasado

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de acasado

clamor do vento

 
António Casado__________ 20 Dezembro 1977
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________


Título – PALAVRAS DO AUTOR
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Um dos objectivos é transformar este livro num espaço de reflexão sobre os variados temas e pistas nele apresentados. Uma reflexão independente e despida de todos os conceitos adquiridos, dos preconceitos pré-estabelecidos, das raízes de uma educação viciada e eivada de valores punitivos e formatados segundo padrões tão antigos quanto irrazoáveis.
Para se interpretar um poema não são necessários grandes estudos, aprofundamentos de matérias linguísticas e outros itens apontados como essenciais por uma elite vocacionada para o assassinato do que de mais belo uma língua pode ter: A beleza de um sonho ou de um projecto. O leitor necessita tão-somente sentir. Parece estranho? Ora, tentemos em conjunto interiorizar cada palavra e atribuir a cada uma delas um sentido – o que mais se aproximar de nós. Assim, verso a verso, estrofe a estrofe, construiremos a imagem do que é a nossa mensagem – porque a mensagem de qualquer poema é sempre pessoal. Pouco importa a que conclusão as outras pessoas possam chegar. Certamente chegaram à mensagem delas próprias. No entanto é tão verdadeira como a nossa. Esta é a grandeza da poesia: Transformar o ideal individual num conjunto de ideias colectivas e participativas. O debate sobre a mensagem é uma das mais importantes aulas de português.
É necessário que a poesia chegue onde nunca devia ter partido: Aos leitores. É sabido que entre os poemas mais belos que circulam por esse mundo, os escritos na nossa língua materna ocupam lugar de destaque. A nossa língua tem a graça de se tornar bela, eloquente e maravilhosa, porque é uma língua viva. Quando aplicada ao poema tem o fascínio de nos transportar ao mundo dos sentimentos. Ainda que governantes sem sentido patriótico, apoiados por literatos sem valor, queiram enfermar o valor da palavra transformando o português numa outra língua – como é o caso do triste acordo ortográfico, e nem estou a ser um “Velho do Restelo” – prevalecerá sempre o verdadeiro português e as suas latinas origens.
Outro grande objectivo é chegar aos jovens. É necessário que nas escolas – primeiro contacto real com o poema – não destruam essa primeira abordagem incutindo preceitos e formas e tudo o mais que os enfatiza ao ponto de fugirem da poesia como o diabo da cruz. Mais importante que a métrica de um soneto é a sua estética. A poesia deve ser apresentada com a simplicidade que é e representa. Apenas isto: Uma maravilhosa viagem ao mundo do sonho! Façam os jovens sonhar o poema e certamente mais e melhor poesia surgirá de tantas penas que reflectirão outros tantos sonhos. Se atingirmos este objectivo então ressuscitaremos o poema do estado amorfo e cadavérico a que algumas elites o empurraram. O poema assusta. O poema é uma arma. Compreende-se agora o interesse em minimizá-lo e apresentá-lo como literatura inferior. Que outra forma de fazer o funeral da poesia pode existir que exigir que os professores levem nas pastas toneladas de gramática? Cabe-nos a nós gritar o poema.
Vamos divulgar a poesia!
Este é o meu modesto contributo. Espero que este livro seja do vosso agrado. Como já mencionei, sonhem, como eu sonhei e vivi cada texto, porque sonhar é algo inesquecível.
 
clamor do vento

QUANDO ERGO A ESPADA QUEBRA-SE A MÃO

 
QUANDO ERGO A MÃO QUEBRA-SE A ESPADA

Quando ergo a espada quebra-se a mão!

Uma intensa chuva de pedras
Bombardeia dos céus sem piedade
A marcha triunfal dos derrotados.
A morte invade as ruas e clama desordem…

Quando levanto a voz fico afónico!

A lava em cinza arrasa montanhas!
O odor nauseabundo dos cadáveres é um vale!
A lepra passeia-se de gravata pelas cidades…

Num céu sem cor
Num lago sem água
Manifestam-se os caminhos que não percorri…
Em cada parede pincelada de grafiteis
Leio o nome de um pássaro sem asas
Que aspira alçar voo numa esquina…

Todo o dia é um lençol de retalhos…
Os desejos aludem ao passado
Que se enrola á volta do pescoço
Como forca!
O saber que se sabe é já perjúrio!

Amotinam-se as pedras das casas derrubadas!
A multidão vive numa imensa agonia…
Se falam da esperança é porque não existe.
A esperança não existe!
As palavras são balas de pistola
Disparadas contra a consciência
Da incredulidade.

Abrem-se as comportas da raiva!
Caminham sombras pelo desatino de ruas de lama
Pedras soltas
E lixo.
Todo o horizonte distorcido e nublado é um sol!
Os penachos incentivam às pequenas caridadezinhas
Para se redimirem do fracasso de nada serem.
A fúria e o ódio caminham de mãos dadas pelos jardins
Escrevem o mote de agoniados poemas estéreis
Coleccionam sentimentos vazios de sentir…
A lua decalca a sombra de um abutre no alto da escarpa
Geme o faminto estômago que procura a presa
Com que saciará a fome de viver.
Se por ventura um cadáver lança um apelo
Exigindo o fim de uma existência moribunda e satânica
Logo o lume saído da boca do dragão
Lhe arranca o coração ou o que resta dele
Atracado á necessidade irresistível de ser engrenagem.

Não há morte que resista a tanto abstracto!
A fisionomia turva dos sobreviventes
Acalenta no ócio incrustado nos ossos
Miragens de paraísos suspensos entre as horas…
Nada fazem
Para além de perturbarem as sombras
Projectadas na calçada carente de áureas e de vida.
Não deixam de ser sombras
Inertes e esquálidas
À espera que a misericórdia do pássaro vadio
Lhe venha sugar a réstia de oxigénio
Que ainda se debate nos alvéolos!

Pelos jardins
O futuro marcha no mito das folhas da velha árvore da sabedoria
Recolhe da seiva o veneno com que alimenta
A esterilidade profunda e inglória.
Apenas os vampiros se banqueteiam numa ceia de sangue e almas
Fundidas a laser no abandono do desespero.

As crianças já não dormem…
As crianças já não dormem
Decepadas as veias
Mordem as pedras e nunca choram…
As crianças já não choram!
O futuro é o pesadelo dum sono acordado!
Já urge a noite…
Já falta a lua…
O sorriso existe como pêndulo dentro das artérias cerradas…
A verdade é uma gazua
Sem madeira para furar!

Uma aragem interroga
A lucidez que resta:

Agora que as dores descobriram a felicidade é que as contestais?
Agora que os crucifixos se enfeitaram de pedrarias é que os odiais?
Agora que os espinhos se envaideceram é que os condenais?
Deixai a vigília dos punhais rondar as casas
Porque elas são feitas de culpas e horrores
Nada têm que ver com quem nelas habita…
Quem as domicilia não são pessoas
São nacos de qualquer coisa e violência
Pois por dentro de tudo o que nunca serão
Talvez encontrem uma migalha de vazio
No espaço que nunca foi preenchido por nada!
Deixai a vergonha varrer ruas, praças e avenidas
Porque ela não é mais que a manifestação da inexistência
Propósito alquímico para se subir ao pedestal do status
Tão grandioso quanto imprestável
Só para deleite do olhar daqueles que nada esperam
Só para deleite do vício estático e desocupado
De aguardar que o nevoeiro se transforme em Midas!
Deixai o mundo morrer como pode!
É mais fácil esculpir a morte nos rostos das cabras
Que descobrir uma agulha de sensatez nas palavras dos homens!
É mais fácil encontrar um ícone de aço esculpido num bar
Que desvendar a verdade no puzzle irracional das atitudes dos homens!
Dizei-me – Para que quereis decifrar tais enigmas?

Enquanto rasgo o poema a terra abre as pernas
Para o perpétuo filho do apocalipse da razão.
As sementes clamam por justiça
No alvorecer dos braços da nova civilização…
Se os passos dados foram arcos de triunfo
Foi porque uma luz os iluminou.
Por dentro da desgraça
O sol insiste em incendiar
Os corações de pujança e alegria…
Para que quereis decifrar tais enigmas?

O vento ruge de novo:

Para que quereis decifrar tais enigmas?
A rudez dos instintos manifesta-se na rudez das atitudes
Quando sepultais mistérios e segredos acumulados
A tantas algemas luz do dia de hoje.
As planícies tornam-se vales imensos
Onde o orgulho constrói labirintos e escava túneis
Crente numa continuidade lamacenta e repetitiva
Daquilo que foi sem mudança e que será!
É aqui que é. Nem bom nem mau. Apenas frívolo!
Aconchego das terríveis justificações que vos acobardam
Turbilhão de precárias indecisões
E insensatez!
Agora que os lamentos se elevam como éter acima da lua
(Porque ainda representam um livro aberto
Quando todas as dúvidas renovam de gritos as consciências)
É que a rouquidão fervilha na aspereza de um aflito!
O ácido dos mais instintos recobra de tanta insanidade…
Porque não sois felizes?
Tudo o que aspiraste por mundo não é o que tendes?
Tudo o que construíste não é o que está construído?
Tudo o que destruíste não está destruído?
Tudo o que invejaste não é o que possuís?
Então…?
Será que o mar da vaidade alguma vez subirá a montanha da inveja?
Pois que chegue a vós em forma de esqueleto
O cheiro alucinante desse sonho nómada
Que erra pelo mundo à procura de um ser
Onde possa ganhar forma
Desvendar os mistérios inexplicáveis
Das razões concretas que nunca o serão!

Quando bater à porta do futuro
Vestido de ideais e sorrisos
Enfeitado de plumas e segredos de cristal
Todos os compêndios escondidos dos brilhantes olhos
Farão esvoaçar as páginas pelo deserto dos inconformados
Os poetas definirão com precisão as miragens
Numa ode extensa lírica e real
E o globo terá a dimensão universal de uma solução…
Desvendar-se-ão os grandes mistérios da poesia!

Breve… Breve chegará o dia!
 
QUANDO ERGO A ESPADA QUEBRA-SE A MÃO

ALENTEJO

 
António Casado__________ 14 Setembro 2007
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

ALENTEJO
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Campos verdes que procurais uma definição Pátria
Para a beleza que exalais
Que a vida geminada de vós
Exalte a grandeza desse imenso sonho colectivo
De dividir o trigo pela enxada!

Nas searas verdejantes
Nos montes batidos pelo sol
Da terra constante e vermelha
Como se o caudal da distância
Se derramasse em sangue pelo vosso povo
Ergue-se o grito mudo
Como sinónimo da vida que rebenta em cada ramo
Hino de terra remexida
Alardeando a longevidade do Alentejo.

Aqui
A copa das árvores brinca com as nuvens
As urzes derramam em sombras o deleite
No desaguar perpétuo das espigas maduras

Oh terra!
Abri-vos ao apelo lançado pelas formosas cegonhas
Que planam pelo mais profundo da consciência!
Recordai neste sonolento passar do tempo
A pressa das sementes geradas no pão moído
Nos ancestrais moinhos de vento!
Que estes arrozais acordem
Para que numa opereta de Sado
Guadiana Mira e Atlântico
Ressurjam do mar os guardiões rochedos
Que colonizam a Vicentina costa!
Que os estranhos corcéis do passado
Trespassem com a mesma espada de sangue
A seiva brotada destes pinheiros mansos!

Acordai caótica árida beleza!
A melodia que se liberta dos grãos de areia
São hossanas
Na voz dos homens e mulheres que te bradam
Num conjunto total sonhador e profético!
Acordai oh vento cearense profano e cálido!
Conta as aventuras dos teus filhos em luta
Pelas pedras húmidas das ribeiras claras!

Levanta-te da laje fria Catarina!
Traz no regaço um filho e uma foice
No arado guerrilheiro
No grito de justiça
Na rendição serena das oliveiras negras!
Que Aljustrel produza
Gomas de encanto e fortuna
Com que amamente de sonhos
O suor toupeira dos seus homens!

Cantem os sobreiros a dança da chuva
Na aridez ainda desértica do próprio grito
Que se ergue na gravidez solidária da terra!

Para quando a promessa de um acto de coragem
Que faça rejuvenescer na alma a certeza
Dos costumes de cortiça desta gente?
 
ALENTEJO

CLAMOR DO VENTO V

 
António Casado__________ 11 Dezembro 1990
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

CADA VEZ MAIS SOZINHO
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Negar que te amo
É mentira
Eu sei.

Procuro-te por toda a parte…
Não desejo ver-te.
Mas é a saudade
Que me leva a procurar-te.

Quero amar-te!
Quero ter-te!

É impossível enganar-me…
Não posso viver contigo.

Sinto que o teu olhar me deseja
Para além da penumbra da solidão
Que o teu corpo
Meigo e terno
Me desnuda
Que a tua voz aos gritos
Me segreda:
“Têm-me sempre junto ao coração”.

Sim
É essa saudade que me dói
Este chorar por alguém…
- Quem me responde?

A dor
De tão intensa
No peito explode
Incendeia o corpo de desejos
Inflama a ansiedade
De sentir os teus beijos
Na minha pele
No meu rosto…
Envolve-me na ternura
Do teu carinho
Vem!

Amo-te
Eu sei
- Cada vez mais sozinho…

Para Carlos Calado
 
CLAMOR DO VENTO V

GUARDEI O DIA PARA TI

 
António Casado__________ 29 Maio 2009
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

GUARDEI O DIA PARA TI
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- Guardei o dia para ti.

Arrumei o quarto e decorei-o
Coloquei um defumador e uma vela
No parapeito do desejo
Enfeitei a janela
Com a colcha de linho
Marcada com o nosso último beijo
Depois… Fiquei à tua espera.

- Guardei o dia para ti.

Todas as desculpas serviram
Para justificar a tua ausência.
Remataste que se viesses
Nem seria por mim…

- Guardei, sem saberes, o dia para ti.

Pois bem:
Chegou a hora de dizer basta!
Acreditei que me amavas
Sonhei com os teus beijos
Os teus abraços fortes
O teu corpo macio a envolver-me…
Sonhei que me pertencias
Acreditei que era teu.

Mentira! Tudo mentira!
O passatempo da minha ilusão
Foi apenas um mar de sofrimento…
Nele não cabe nem mais um lamento
Nas palavras de lama que escrevo a giz.
Acreditei que me amavas…
Que tolice… Até fui feliz.

A realidade é um chicote!
Hoje desacredito da minha ilusão…
Tu não me amas
Os nossos caminhos não se cruzam
Não tens lugar cativo na minha cama
Nem do meu corpo teus desejos abusam.
Sei o que sempre soube…
Só que agora acredito.

Vou chorar… Vou ter pena de mim…
Vai doer este inferno de te não ter…
Mas acredita paixão
Vai valer a pena
Vai ser melhor assim.

Cansa-me subir ao poleiro
Onde me puseste
Para ser objecto do teu prazer
Dos teus anseios!
Acaso não merecerei melhor?

Hoje vou pelo mundo
Lavado com as lágrimas da dor
Caído numa desilusão doentia…
Mas vou.

Vou pelo mundo
À procura de quem me saiba amar
E respeite pelo que sou!
 
GUARDEI O DIA PARA TI

ENQUANTO A TUA SOMBRA

 
António Casado__________ 27 Janeiro 2008
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

ENQUANTO A TUA SOMBRA
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Além de todos os focos luz
Acreditava que eras belo e esperava-te
Num banco de jardim
E a ânsia de te ver reflectia-se na pele
Como a prata das marés...
Dizia que te amava de todas as formas
Que o amor pode conceber
Com todas as palavras que a Torre de Babel
Concebeu para que tas dissesse…

Além de todos os focos luz
Quando a tua silhueta era desenhada pelo sol
Na areia fina da praia dos nossos sentidos
Beijava-te… Mordias-me…
Atiravas suspiros ao vento como uma melodia de prazer
Entoada pelas vagas soltas das estrelas
Que me molhavam do teu corpo romã
E partíamos nessa viagem sem fim…

Nos teus braços entregava a minha liberdade!
Sentia-te em mim a desbravares horizontes
Que eu próprio desconhecia
Num deleite meigo e alegre…
Viajava na plenitude dos teus músculos
No barco à vela dos nossos desígnios
Em torno do Universo mais belo e luzente…
Deixava-me ir… Apenas ir
Pelos castelos desse sonho transparente.

Não… Não te amava! Apenas… Não te amava!
Era teu!
Tu o moço mais lindo
Da cordilheira da minha sensibilidade…
Não… Não te amava!
Era metade da tua vida…
Era a verdade…
 
ENQUANTO A TUA SOMBRA

CLAMOR DO VENTO VII

 
António Casado__________ 05 Junho 2004
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

SILÊNCIO DECADENTE
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O silêncio
Cúpula
Na copa mansa das árvores
Alheio à impotência dos gemidos

Um trapo de solidão e tristeza
Veste-se em nós

Nos píncaros do medo
A convicção da inalterável imortalidade
Do tempo
Realça nas rugas plebeias
Recalcados desejos
De liberdade

Onde encontrar nesta guerra
Um limbo de serenidade?

Pelos dedos torturados de presságios
Evadem-se secretos beijos
Rubras paixões
Cânticos suicidados
Emoções

Impregnados de liberdade
Imunizam
Do silêncio
A verdade

Delira o chicote da insanidade
Trespassando de tremores e vícios frívolos
A carne rasgada dos homens
Livres
Que rabiscaram nos muros estagnados
Lágrimas feridas
Fúnebres martírios
Mensagens de um presente
Permanente
Que aos poucos expira

Entorna-se o caldo da espera!

O fanático delírio investe
A soldo do silêncio
Contra os espoliados
Do pão
O ano inteiro

Um altifalante de jarros
Papoilas e nenúfares
Acalenta as ilusões
Possíveis

Impávido e distante
Mergulhado no ácido da luxúria
Sentado num trono de urtigas
Copulando nas árvores
Inventando liberdades agrilhoadas
O silêncio
Ainda teima impor
Mercenárias frustrações
Às cordas vocais
Desta gente
Livre…

Todo o silêncio
É decadente!
 
CLAMOR DO VENTO VII

SABEM LÁ DO PESO

 
António Casado__________ 30 Setembro 1985
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

SABEM LÁ DO PESO
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Sabem lá do peso
De uma gota de água
Na balança das mãos?!

Mede-se a justiça
E a injustiça –
Qual a medida do coração?

Movem-se multidões
- Estranhas de tão anónimas –
Em busca de velhos ideais
Que são marés
Quando vêm bafejar de espuma
A areia
Aos nossos pés.

Seguimos com elas
Perdidos no mesmo anonimato
Aos encontrões com a corrente…

Destino apocalíptico
De uma multidão cansada
E quantas vezes descontente!?
 
SABEM LÁ DO PESO

VOU FALAR COM DEUS

 
Data da crónica – 14 Setembro 2014
Autor – António Casado
Editora –
Data publicação –
Registo IGAC –
Trabalho –

VOU FALAR COM DEUS
1

Pronto! Aqui está o texto há muito esperado. Saiu do forno depois de nada ter para fazer. Decidi falar com Deus através do veículo habitual: A Bíblia. Falaremos deste livro a seu tempo…
Deparei-me com situações insólitas. O apregoado Senhor do mundo, aquele que tudo sabe, afinal não me parece que seja senhor de nada e que, principalmente, não sabe tudo.
No “Génesis”, primeira parte de toda a sabedoria dele, está escrito que em sete dias criou esta trapalhada toda. Um dia falaremos disso. Devemos estar reconhecidos porque, pelo menos, sabia o que era a luz e a escuridão. Não sabemos como, mas sabia. Uma preocupação me assolou. Olhando para a História, uma ciência baseada em factos reais, deparei-me com o absurdo de Deus não saber que a Terra era redonda! Vejam só: Em 1500, quando os portugueses partiram nas caravelas à descoberta do mundo, o clero insistia que quando os barcos chegassem ao limite do horizonte caíam… Que estupidez! Não fossem os portugueses e Deus ainda estaria convencido de que isto era quadrado. Nunca fui um óptimo aluno a matemática, mas podia ensinar-lhe a diferença entre quadrado, círculo, triangulo… Tentei perceber porque não sabia. Naquela altura não havia assim muitos conhecimentos de matemática, deve ter sido por isso. Ou então andou na Universidade do Sócrates e fez o doutoramento ao domingo, o dia que tinha disponível, depois de ter descansado no sábado. É compreensível. Depois de ter feito esta cagada precisava mesmo de repouso. Se estivesse lá aconselharia umas termas lá para a Guarda porque diziam na altura que a água radioactiva curava doenças. Podem pesquisar. Ainda há a hipótese de ter faltado às aulas para beber um bejecas e fumar uns charros.
Quando pensava que o problema estava resolvido eis que me deparo com outra situação insólita. Deus desconhecia completamente que a Terra andava à volta do sol, assim como os outros planetas! Talvez fosse a ressaca da má vida… Concluí que Deus fez isto por acaso. O problema é que o pobre Galileu lá teve que negar a evidência junto – “sabem de quem?” – dos seguidores de Deus e do Filho. Tema a abordar noutra altura. O estranho é andarem por aí a dizer que Deus é o Senhor de todo o conhecimento… Não é nada! Realmente para quem criou isto, anda um bocado arredado dos conhecimentos… Concluí que não comeu a maça do paraíso. Mesmo com bicho (assunto que abordaremos oportunamente), devia comê-la. Ela continha toda a sabedoria. Agora compreendo toda a ignorância.
O mais vergonhoso é apresentarem Deus como o Senhor de tudo quando, na verdade, nem Ele próprio tem a consciência da matemática ou da física. Como podemos acreditar em alguém que nem tem a certeza do que fez? Ou se fez…
Quando falarem na Sabedoria Divina não esqueçam; Deus tem falhas de memória. Deve ser Alzheimer…
Boa tarde e divirtam-se.
 
VOU FALAR COM DEUS

OS RIDOS E OS POBRES

 
Data do Poema – 31 Julho 2010
Autor – António Casado
Editora –
Data publicação –
Registo IGAC –
Trabalho –

OS RICOS E OS POBRES
-

No cimo das amendoeiras
Sob o branco das nuvens
Uma ave agita as penas
Promete ser vontade
Amortalha a fé paranóica
Arrasta pelas ruas a ilusão
De todos os paraísos

Futuros desacreditados
Presentes sem sentido
Ideias soltas sem conexão
Atrelados ao pescoço de repressores
Ditadores e outros mandadores
Rostos gravados nas moedas de ouro
Para perpetuarem a excomunhão ideológica
Dos jet-set televisivos e apalhaçados
Cannabis
Pagos para esfriar a fervura da urgência
De mudar

As batinas amofinam as almas conformadas
Falam de amor e medo, de medo e amor, de medo
E alardeiam que as fortunas se dividirão pelos pobres
Como os peixes de um Cristo inventado
Para manterem o medo fanático da fé, da intolerância
Da violência
Fazerem da liberdade uma prostituta
Uma verdade esquecida como a juventude
Que foi verdade
Antes do álcool, do futebol, da novela
Antes do medo do purgatório ser acreditado
E a necessidade da salvação dos pecados
Ditar a condenação das mãos atadas
Dos projectos adiados
Das hóstias amargas
Engolidas depois de vomitado o desejo de felicidade

Direitos e oportunidade iguais…
É possível
Quando a fé cega for o combate
O fanatismo a força orientada
O conformismo a rede ou a enxada
Então pobres e ricos deixarão de o ser
Deus estará do lado de fora de lado nenhum
E sem ódio, sem guerras, sem sangue derramado
Construir-se-á um mundo melhor

A riqueza será dividida
Pela força do braço
 
OS RIDOS E OS POBRES

TU NEM SABES

 
António Casado__________ 15 Maio 2009
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

TU NEM SABES
-

Tu nem sabes
Do peso das longas noites a sós
Quando a insónia se deita comigo
E todas as dúvidas me doem…

Tu nem sabes
Do medo das sombras… da luz…
Quando não sei se durmo se acordo
E tudo me parece confuso e distante…

Tu nem sabes
Do tempo que pára a cada segundo
Quando a solidão se senta ao meu colo
Para falar de ti…

Numa estrela candente
Enviei uma mensagem aos céus
Em forma de segredo
Em forma de auxílio
Depois cruzei os dedos
E implorei que se realizasse.
Era amor… Amor somente
O que pedia na mensagem enviada
Àquela estrela que consigo guardava
Os nossos mais íntimos sonhos.
Fiquei à espera de um milagre…
Deus virou-me as costas!

Tu nem sabes
Quanto brilho puxo à paixão
Para esconder o embaciado
Dos meus anseios frustrados…

Tu nem sabes
Quantas ondas querem alegrar
As lágrimas derramadas
No lençol branco da solidão…

Meu amor
Ainda guardo a semente
De um sonho antigo
Tão velho como o tempo
Para plantar um dia num chão de confiança…

Com fé
Com esperança
Esperarei o brotar da flor da felicidade
Como um trevo de quatro folhas
Se abrirá à minha liberdade.
 
TU NEM SABES

O NATAL DOS SILÊNCIOS

 
O poema não é novo, mas é actual

O NATAL DOS SILÊNCIOS

No Natal deixo a minha alma vogar com o frio e um arrepio
Estremece de penas e martírios a piedade
Que come a meu lado sentada numa mesa vazia
Que dorme numa cama de plumas e relento
Que vagueia pelas ruas à procura da família fantasma
Que guardou numa caderneta de autocolantes coleccionáveis.

Neste Natal
Um entre os demais natais que já se cruzaram comigo
Nas esquinas do tempo, nos tectos de vento
Nas sombras dos desejos infantis, nas crenças adultas
Aguardo que um sorriso traga no sapatinho a prenda esquecida
Da minha inocente infância pobre e nublada
Como a inocente espera pela meia vazia das outras crianças…
Não sinto mais penas delas que de mim!

Como todos os poetas que já escreveram sobre o Natal
E falaram das largas montras vistosas e iluminadas
Poemas condoídos de um condoimento arrasador e tépido
Também as fito, iluminadas, vivas, consumistas…
Também sigo com o olhar esgazeado de cores
As mãos dadas das crianças que impetuosamente correm para os brinquedos
Convencidas de que o pai natal que as agracia com sorrisos
Descerá pela chaminé dos sonhos e lhes preencherá as fantasias…

Meto minha alma ao rubro num clamor de gritos e digo:
- Deus, ajuda estes pobrezinhos com fome….
Não pode! Também se diverte no natal!
Depois sorrio para mim mesmo ufano de ter revelado ao mundo
O cerne dos meus mais que urgentes anseios e preocupações…

Todos se levantam da bancada da distracção
Viram o rosto para o flash das máquinas remissivas do tempo
E sorriem… aplaudem… aplaudem… sorriem…
Porque aprenderem a viver as minhas dores porque são dores gerais
E lambuzam-se na minha piedade pela generalidade superficial
Enquanto pedem ao pai natal em quem já não acreditam
Paz no mundo para a qual não contribuem…
Idiotas!
Assumo o papel de ficar bem na fotografia…
Faz-me bem ao ego.

“Olhem para as montras! Olhem com olhos de ver!
Ver-me-ão especado por detrás do vidro fitando-os com severidade
Como quem tem o direito de julgar as vossa atitudes
- Para não se julgar a si próprio –
Porque está por detrás da montra e tem um status diferente
E só por isso ganhou o direito de julgar os que o fitam
Com os olhos estáticos e assombrados de quem está do lado de lá do vidro!
Vejam-me! Não choro nem rio. Estou somente ali
Impávido como impávida está a vossa vida paralítica
Arrumada na poeira das estantes vazias dos salões em ruínas
À espera que uma aragem entre pelas frestas das janelas
E sopre o pó da inércia sobre o chão inerte da vontade inerte
De todos os desejos recalcados nos sapatos sem sola
Que puseram na chaminé do desassossego ao longo da vida!
Olhem para mim! Olhem-me!
Esqueçam o mundo que passa por vós que dele já estais mais que esquecidos!
Não calquem os meus pés descalços de tanto caminharem por nada!
Não fardem a minha nudez de obrigações e delírios
Convencidos de que ela representa um delito e eu o compulsivo anónimo
Que dolosamente pica as veias com as agulhas viciadas
De uma droga posta ao dispor da minha alucinação de esquecer o mundo
Que atrofia de razões a paranóia de uma crença em algo melhor
E exige de mim o espalhafato de um comício em forma de poema
- Censurado pela “Opus Dei” como delito gravoso para a alma -~
Onde possa vomitar as minhas penas sobre as vossas penas
Para assim se mostrarem solidários com o que nem se lembram!
Nem quando a miséria lhes bate no casaco e pede uma moeda
Para amealhar no fundo roto do saco que nunca dá para tudo
E há sempre uma história de enriquecimento ilícito nos olhos dos mendicantes
Que dão esmola aos mendigadores porque são profissionais
E como tal têm direito em Dezembro ao décimo terceiro mês.
Nem quando lhes puxo pelas magas do casaco de abafar
Conseguem olhar-me nos olhos com alguma modéstia
Ou descer do périplo da arrogância e da altivez…
Não sou suficientemente romântico nem cristão para acreditar
Que a riqueza condescenderá um dia e ajudará os desvalidos
Porque ainda não determinei o limite da riqueza
Nem sei ao certo quanto preciso não ter para ser pobre!
Inventam então paraísos de mesas fartas e céus azuis quanto bastem
Para que a morte lívida dos miseráveis seja menos penosa
Porque qualquer que seja é sempre melhor que a frustração
De nunca saberem ao certo como será o dia de amanhã
Em que banco de jardim comerão ou em que árvore dormirão
Preocupados com a precipitação e as baixas temperaturas
Como fanáticos doutorados em ciências atmosféricas…

Nem quando estendo a mão à espera da moeda que enriquecerá
A minha farta conta bancária
Consigo transmitir-lhes o mosto de alguma sensibilidade sensitiva
Ou mostrar-lhes a razão da cognição das vontades
Quando elas próprias deviam encrostar-se a mim e eu ser delas
Para que ao pedir-lhe uma estúpida moeda os faça chorar
De tanta piedade por mim que a extrema-unção do natal
Seja mais proveitosa que todos os dízimos assaltados aos crentes
E consumam nas toalhas enfeitadas da ceia de doces bacalhau e peru
A beleza da pureza da virgindade de uma Maria lésbica!

Não quero o filho da puta do vosso Peru na minha boca!
Não quero a merda da vossa moeda na minha mão!
Aliás, pensando bem, de vós não quero nada!
Quero apenas que me vejam na montra onde me plantei
Para vos julgar e sentir dentro de mim o auspício de alguma autoridade
Que ainda não compreendi para que serve nem que farei com ela!

No fundo continuo com pena dos pais que não sabem como sustentar os filhos
Porque os patrões não pagaram os míseros centavos de uma troca desigual
E se esqueceram de compor a mesa daqueles que a suar compuseram as suas.
Ridículo! Tantas montras por assaltar…

Existe excessiva demasia de tudo quanto é demais.
Se é demais porque falta? Quem quer saber do que falta?
Ninguém se interessa pelo que falta!
Eu não quero saber da falta dos que no ano inteiro vivem de faltas
E pedem compulsivamente pelas ruas sem se lembrarem que já estão ricos!
Preciso enriquecer a minha pobreza nas mesmas ruas
Onde outros pedintes enriqueceram as suas!

Está bem… Estamos na porra do natal! Pronto… é um dia…
Ainda bem. Já viram o que era termos essa merda o ano todo?
Quantas Marias não teriam de morrer analmente virgens
Para que pudesse degustar o meu peru assado?
Quantos poemas de natal teria de escrever
Para vos convencer de que escrevo sobre o natal
Que sou mais nataleiro que os cristãos
E que me preocupo com os pedintes friorentos e esfomeados
Que só desejam algum familiar por companhia
Para poderem banquetear-se com a sobra da perna de peru!?
Ainda bem que o natal tem de vida vinte e quatro horas!
Os relógios do mundo deviam adiantar doze horas!
O mundo devia ser obrigado a dormir o restante!
Embrulhem a porcaria do natal e estrangulem o Jesus
Que não chegou a nascer nem se crê tenha morrido!
Enfiem-no na sacola do tipo de vermelho e barrete que nunca dá prendas
Porque nunca recebeu prenda nenhuma nem se confirma que tenha renas!

Porque nunca houve um rei mago que me trouxesse no natal
Um pote, mesmo pequenino, de ouro, pedrarias e mirra?
Mirra não! Mirrar é diminuir! Acrescento! Eu quero Acrescento!
Tragam-me um pote de Acrescento!
Que lindo será o meu natal com acrescento…

Quem, perante tanta alegria, se lembraria de um José cornudo
A rebocar um burro e a caminhar a pé por falta de carta de condução
Carpinteiro nas horas vagas, fugido de Herodes sem saber porquê
Quando posso ir no meu carro à procura do poder que ninguém me dá
Ou do protagonismo que exijo para mim porque ninguém se interessa?
Lanço-me pela auto-estrada da consolação e badalo a toda a gente
Um natal feliz de paz e amor ou de amor e paz ou de ambas as coisas
Quando sei que qualquer delas é a porcaria de uma utopia
E que os meus votos destinam-se apenas a cumprir uma obrigação
Como quem dá as condolências à viúva e vai para casa masturbar-se a pensar nela.
Assim cumpro solenemente o meu Natal.

Ah! Quero os reis magos na minha algibeira!
Quero o condão dos sonhos das montras nas minhas veias!
Quero a sede dos ladrões… As pilhagens…
A gula dos invejosos… A revolta dos brinquedos…
Os camelos em viagem pelo deserto
E que depois do natal passado ainda não descobriram a minha casa…
Cumpra-se em mim a bossa desse camelo errante
Perdido ao longo dos anos no meu deserto incumprido!

Silêncio… Ouço passos…
Já sei. É meia-noite.

Posso sentar-me num cadeirão e embebedar-me
Para amanhã contar como foi lindo o meu natal…
 
O NATAL DOS SILÊNCIOS

HÁ FOME NO MEU PAÍS

 
António Casado__________ 22 Fevereiro 1985
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

HÁ FOME NO MEU PAÍS
-

Há fome no meu país!

No meu país
Governantes apátridas
Governam-se.

No meu país silencia-se a miséria
Com balas
Com bastões
Com polícias
Com prisões!

A fome no meu país tem o preço da morte!

No meu país
A alegria habita nas casas em ruínas
A fortuna exulta-se nas terras abandonadas
O trabalho escasseia nas embarcações violadas…

No meu país
Homens e cães comem na mesma gamela!

As árvores secam
As flores murcham
No meu país de tristeza…

As crianças famintas
Aprendem a ler
Com fotocópias de pobreza!

No meu país a justiça é um circo!
Há corrupção no meu país
Violado
Ultrajado
De tanto silêncio imposto!

Quem governa
Insulta-o!

Vivem os ricos da miséria
Alheia.

Fazem leis
Fazem-se reis
Tecem à volta do povo do meu país
Uma teia de descrença
Um futuro sem esperança
A agonia de uma partida
Forçada

Há fome no meu país
Cuja alma
Foi penhorada!
 
HÁ FOME NO MEU PAÍS

cLAMOR DO VENTO VI

 
António Casado__________ 05 Junho 2009
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

ESSÊNCIA DE UMA FLOR
-

Apenas isto:
Um pouco do olhar arremessado contra um muro de pedra
Mortifica-me a vontade.
Sinceramente
Já deixei de olhar o sol
Com medo de cegar.

O meu corpo pulula numa ansiedade
Tremenda
Nesta casa pequenina repleta de sombras
E de mim
Onde me perco do sofá à cama
Onde encharco de limos
Os passos que foram nossos
Os beijos que trocámos
Os sorrisos com que nos brindámos…

Perco-me neste estreito labirinto
De desenhos a carvão
Silhuetas, sombras… E não.

O amor solta-se do peito
Para rir de mim a cada passada…
Faz ecoar pelas paredes
Um “dejá vu”:
- Agora já foi.
Chegou a hora de cruzar o Hades
Como aquele vigoroso náufrago
Que se absteve de nadar.

Como um cavalo ávido de ternura fixo o teu olhar
Frio e insensível como nunca soube ser
De cabeça erguida…

Arrojo-me na lama
Para te segredar que atingi o limite da dor…
Por favor… Não me digas mais nada!
Sem querer
Podes ter na voz a lâmina
Duma espada
E quebrares
Mesmo sem querer
O cristal embaciado deste orgulho mesquinho!

Por favor não digas mais nada…
Persegue a miragem desse rio de flores
Deixa-te levar na essência mística
Desse desejo alucinado
Desse barco velho, podre, quebrado!
E se puderes…
Sê feliz.

Quanto a mim
Reservo-me o direito de escolher um caminho
De gargalhar a cada passada
Convencido de que em cada esquina
Alguém me espera
Nessa difusa estrada abandonada.

Se ficar só… Deixa
Valeu a pena ter lutado.

Para Pedro Sousa
 
cLAMOR DO VENTO VI

DENTRO DE MIM NÃO HÁ ESPAÇO

 
António Casado__________ 07 Março 2001
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

DENTRO DE MIM NÃO HÁ ESPAÇO
-

Dentro de mim não há espaço
Que o teu corpo não tenha preenchido
Nem célula
Nem átomo
Que a tua fascinante presença
Não tenha absorvido

Puseste em mim o calor do desejo:
Esse desejo reina
Porque estás comigo.
Nele eu embalo
Um carrossel de carícias…
Só porque te amo
És mais que o meu melhor amigo.

Maior que o sonho
É o sol que se estende
Sobre o horizonte da nossa vontade
A certeza de sabermos
Que por bem
Podemos viver na imaginação o anseio
Que nossos corpos desejam também!
 
DENTRO DE MIM NÃO HÁ ESPAÇO

UMA PALAVRA SEM SENTIDO

 
António Casado__________ 15 Maio 2009
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

UMA PALAVRA… SEM SENTIDO
-

O dia amanhece porque todos os dias amanhecem. Traz com ele uma alcofa de interrogações e medos. Desdobro os papéis enrolados das rifas do amanhecer e aguardo que alguma coisa mude. Cada uma delas acrescenta um alfinete ao rol dos lamentos. São os prémios obtidos num jogo que não escolhi, nunca entendi, nem quis. Alguns até me fazem rir de tão desonestos… rir é bom. É como nos despirmos do que provoca a sede de ficar e irmos livres e soltos de tudo o que nos rodeia. Nasce nas pontas das unhas um fio de luz transparente que nos trespassa e dentro de nós algo se agita e agiganta como se um infinito véu branco nos apontasse as portas abertas das cadeias de nós. Sinto-me livre. Sou livre! Que o digam as eternas horas às voltas com os lençóis na desesperada tentativa de sentir o teu calor quando ainda neles te rebolavas comigo numa insónia muito perto da loucura; ou a frescura húmida do suor fruto do amor que fazíamos; a roupa amarrotada quando te revolvias num sono agitado e eu beijava a tua testa e segredava-te contos tranquilos e belos. Que o digam elas quando sigo os fios de luz dispersos pela gaiola e tento desvendar as portas que sonhei escancaradas…
É bem possível que nem te apercebas da amargura que se enrola à minha voz e aperta a garganta para que não chore. Sabes porquê? Porque quando estás todo eu sou um sorriso latente na palavra no gesto e no olhar. Entrego ao desígnio das almas desesperadas as angústias que desabam sobre mim, a chuva de choros que afasto como se fossem insectos, a lenha encharcada da fogueira da paixão. Mas tu não vês. Porque tu não vês. Nem quando fico para segundo plano porque sou sempre o depois na tua vida e ainda assim aceito com um sorriso complacente o lugar que me reservas. Abraças-me e repetes como um papagaio que a vida é mesmo assim e as prioridades devem ser levadas em conta. Claro que sim meu bem… As prioridades! As tuas prioridades! Imagina meu querido que quando precisas de mim és a minha única prioridade! Quando te vejo feliz continuas gravado a fogo na minha mente como um único pensamento. Curioso… Reparo agora que ambos temos prioridades diferentes…!? As sombras nunca foram prioridade, são consequência. Talvez por isso passe pela tua vida como o contraste da luz. Como podes ver-me?
Sabes que nada exijo. Exigir o quê? Se o meu amor não fosse o bastante que terrível noite assombraria a nossa relação! Também de mim nada exiges. Dou-te tudo. Porque na minha mente caótica e perversa penso que sou teu e te pertenço como as árvores são parte integrante da floresta. Ao dar algo de mim sinto que preencho algo de nós como se um gesto de carinho fosse a fragrância necessária ao nosso bem-estar. Pedes-me um sorriso e abro-te as mãos, estendo os dedos, arranho as sombras e quando sorrio o coração abre as asas e poisa sobre o teu peito. Esse esvoaçar eleva-me acima das colinas do amor e em mim, no lugar da nascente da água cristalina que sempre brotou das veias, fica um espaço vazio que aguarda a presença do teu coração ardente para se sentar no trono da loucura e inventar o tempo de nós. Talvez apenas e só na minha mente…
Falar de ti excita-me como se estivesses agora a meu lado… Penso no pássaro de fogo que entra pelas frestas da sensibilidade e aquece dentro do meu coração todos os motivos para sonhar contigo. Olho para o lado e o teu corpo franzino dança com a chuva e o vento diante do palco que criei para nós. Acalenta o vazio que ainda não foi preenchido, partido que está meu coração, a labareda de um desejo por incendiar, uma estrela por iluminar, um sol por nascer… A esperança! Agarro a esperança e coloco-a no vazio. Logo o fermento da ilusão vem atrapalhar a saudade do que não tenho e o perfume do pão cosido sacia-me temporariamente a fome provocada pela distância. Aquele braço que não se estende, a ponta daquele dedo que não me toca… Sobra-me o pão.
Digo aos nossos amigos com um sorriso que sou feliz. Feliz por te ter… Infeliz por saber que não és meu. Para já basta a verdade… a minha verdade. Ela é o bastante para me proporcionar todas as fantasias possíveis e reviver todos os delírios da nossa vida em comum… a que não temos. Ainda creio nela quando estás junto de mim e chamo-lhe todos os nomes bonitos que existem no dicionário. Numa folha de farinha escrevo o futuro como um par ou um duelo. Sou um Sancho que acredita nas tuas promessas e uma Alice convencida de que todos os finais são felizes. “Preciso da tua força” – Dizes-me e colhes da subnutrição o alento de quem está moribundo. Eu preciso do quê? Não sei… Talvez de ti.
Se me perguntam por ti digo que virás… porque tu vens sempre! Nunca estás, nunca ficas, nunca vais… Sabem que te amo. Já me confidenciaram que não devo guardar grandes expectativas pois todos os indicadores apontam para um fim. Indicadores? Sim, as prioridades. De novo as eternas prioridades. A minha sombra calcina na demografia da transparência mais um sonho e responde que estão errados. É nesse erro que quero viver. Soubesses tu como têm razão… Nunca sei quando vens despido na pressa habitual de partir ou vestido no ócio de ficar. Irás sim, meu amor… Um dia dir-me-ás: “Gostei muito mas não posso voltar. Não sofras… Espera por mim… Talvez um dia…” Claro que não sofrerei… Já o faço. Que fósforo queimado puseste entre os dedos durante o tempo que estive apaixonado por ti, consumido na imoralidade de acreditar que desta vez estava certo? Acertei sim… no alvo errado.
Estranhas a facilidade com que digo que te amo? Só estranho a dificuldade que tens em repetir-me. Sei que me desejas… nunca duvidei. Já pensaste que por uma estranha leviandade eu até posso querer um pouco mais que o que me dás? Meu amor, modestamente eu quero tudo. O teu sopro, o teu sorriso, a tua voz, a tua lágrima… São pedaços da grande pomba fulminante que voa de um peito para outro. O desejo que disseminas pelos lençóis é insuficiente para preencher o oco de um coração partido. Depois de satisfeito a alegria que exultas traduz-se na imediata frieza da ausência e no lugar que te destinei apenas encontro uma colmeia abandonada a aguardar o regresso da rainha. Entre uma coisa e outra suicido a presença e arremesso contra mim todas as culpas que o querer pode conter. Ainda que a palavra amor se lançasse do abismo da estante da ternura seria impossível acreditar na espontaneidade. Desejares-me não é amares-me. Amando-te, desejo-te. Amor é só trocar a ordem das palavras e tudo parece um relógio suíço. Tão fácil… E tão dolorosamente impossível!
Sei… Conheço as regras do jogo. Não posso queixar-me. No início éramos a perpétua aventura imergida dos sentidos como outra qualquer. Inconsequente e ousada. De livre vontade ocupaste o espaço que te dei e quiseste mais até de mim nada restar que não fosse tua pertença. Acreditei em ti e fui cedendo a minha vida até me perder no nada que restou. Quando olhei para trás só a tua sombra era visível. Tomaste a minha vida nas tuas mãos, dominaste a dignidade, usurpaste a auto-estima, deixaste-me entregue a todas as promessas que segredavas ao ouvido. Em torno de mim criaste uma cerca cor-de-rosa da qual não queria sair. Cada palavra tua representava uma sensação de bem-estar e sorria para mim convencido de que o mundo lá fora sorria comigo. O enigmático fio invisível que me ligava ao gueto era toda a felicidade. Ficava feliz com o que me davas. Pensava que partilhávamos as mesmas células, os mesmos anseios, os mesmos sonhos, o mesmo sexo…Quanta ingenuidade! Pouco a pouco descoloriram-se as cores do gueto. Depois… Tudo serviu de desculpa para te isolares no teu quintal sombrio onde nunca permitiste que entrasse e mentires. Argumentavas que estavas confuso… Que tinha sido o teu primeiro homem… Como podia eu saber? Abriste os braços para que me deixasse abraçar; sorriste para que me deixasse beijar; tocaste-me para que me desse… Sabias quem eu era. Nunca marquei um encontro… deixei que viesses. Vinhas… ficavas… amavas… Ainda me lembro de teres dito que fui a única pessoa com a qual foste sincero e que mantínhamos uma relação de tal forma aberta que não precisavas fingir ou mentir como sempre o fizeste com todos. Acreditei, porque quando se ama em tudo se acredita.
Hoje sou eu quem telefona quando vê o sol raiar. Digo: “Bom dia, amor.” És tu quem anseia pelo meu telefonema. Dizes que precisas ouvir a minha voz. Também sei que te esforças para encontrar tempo para mim. Também sei tanta coisa pequenina, insignificante, banal… Ai amor, que culpa tenho eu se te amo cada vez mais?! Não me acuses de te pedir mais e mais migalhas. Só quero ter uma vida normal como todas as pessoas normais que vivem a mesma loucura em comunhão e regozijam-se da felicidade de serem livres e estarem disponíveis para amar. Estou disponível para amar! Quando a minha imagem se reflecte no espelho transparece uma auréola de paixão fruto de me aceitar como sou. Orgulho-me de te amar e ter a graça enorme de estar apaixonado. Sei que esse caminho me conduzirá à felicidade e é nele que travo as minhas batalhas diárias. Sim, sei, sou gay. Sou-o porque busco o amor em todos os horizontes consciente de que o irei encontrar. Quando terás coragem de fitar os teus olhos no espelho? Amor, tu és igual a mim. Não temo gritar pelas ruas que te amo porque te amo; não me escondo dos teus públicos beijos, porque os desejo; não recuso os teus braços porque suspiro por eles. Orgulho-me de ti. Por isso não entendo esta distância de um passo que me mata, me trucida e que aos poucos me vai fazendo descrer de mim.
Amor, eu estou exausto. Afinal tanta coisa por uma palavra… Uma só que me fizesse sorrir… apenas uma palavra que alegrasse a minha existência. Compreende que não sou a acha que se atira ao lume… sou o fogo que a queima! Uma palavra… Talvez o nosso futuro dependa disso. Uma palavra… ainda que nem faça sentido! Se tu a dissesses e eu a ouvisse…
 
UMA PALAVRA SEM SENTIDO

RECADO PARA UMAV

 
Olá

Ainda bem que pouco entendeu da "Inércia". Vou explicar-lhe porquê. Esperava uma definição estrutural política da sua parte e consegui-o. Para além do abstracto vazio que o caracteriza, ainda encontro laivos de desinformação. Acredite, isso é normal, infelizmente. O não sabermos é natural, o não querermos saber é ignorância.
Pois bem, num texto propositadamente grande apegou-se a uma das quatro drogas sociais actuais - a religião. Já estou a ler o argumento de que a minha opinião influi na liberdade religiosa e que o deus dos muçulmanos é diferente do deu dos cristãos e dos judeus e sei lá que mais, patiti patata... pense. Você parece-me inteligente. A cultura africana, donde a raça humana é oriunda, ainda na pré-história, não tinha deus. Adoravam o sol e a lua porque sem eles não existiam nem conseguiam contar o tempo para as colheitas, sementeiras e pescas. A religião surge quando a acumulação de riqueza obriga a que a sociedade vivesse debaixo do medo para que supostos iluminados, reis, imperadores, faraós e o raio que os parta, pudessem exercer sobre os mesmos o domínio e a escravatura. Pesquise o resto que não tenho muito tempo para um tratado histórico-filosófico. Daí a religião - TODAS ELAS - andarem sempre de mãos dadas com o poder caótico instalado.
Vamos então para a parte mais pertinente e menos inteligente do seu comentário: Caro olho-de-gato, que o senhor se curve à complacência geneticamente introduzida nas mentes tacanhas por ferrenhos anticomunistas convencionais que desabaram barbáries a partir dos EUA com a cumplicidade alemã hitleriana, é problema seu. A questão é: Saberá eventualmente do que fala? Sabe por acaso o que é o comunismo? Já ouviu falar de Marx? Sabe o que é socialismo? Tem alguma ideia do que é a democracia ou a liberdade? Sabe o que significa a divisão social? Classes sociais? Sabe como apareceram? Não temo o comunismo. Temo mentes como a sua que por ignorância vivem no medo e por ignorância querem impor o medo. A sua teoria é abjecta e faz parte de um rol malquisto de mentiras que nem você sabe de onde vêm e quer vender-me a banha da cobra que comprou às migalhas num templo qualquer.
Eu falo da religião porque todas são iguais, todas seguem os mesmos princípios, todas são oriundas da mesma flatulência filosófica e todas manifestam o seu papel ridículo, ordinário, prostituído, perante a sociedade. Tanto se me dá se são xiitas, cristãos, maometanos, judeus. Todos iguais na linhagem do medo. Para si que parece-me cristão de meia tigela, já leu a bíblia? Quer que eu a explique para si a partir do génesis até ao armagedão? Nada temo porque sei que a força da palavra irá ser a causa de uma revolução democrática social que nunca contará com mentes como a sua.
Obrigado pelo comentário.

Estamos em lados contrários da barricada. Sou comunista, ideologicamente falando. A publicidade do nazi-fascismo, do capitalismo, da religião barata e da mentira fabricada por necessidade não me assustam porque estou habituado ao anti-comunismo mais reaccionário e evidente na demagogia das suas palavras. Por isso, e como comunista que sou, sem lhe retirar qualquer liberdade de expressão para o que quer que seja, cabe-me apenas informá-lo que:
1º Qualquer comentário nazi, fascista, opressor, ofensivo da luta dos povos de qualquer país do mundo será tomado por mim como um insulto.
2º Qualquer comentário discriminatório, preconceituoso, revestidos de tabus e fobias, serão tomados por mim como ignorância e deleitá-los-ei.
3º Como o seu anti-comunismo não passa de retórica barata porque a nenhuma feita respondeu, ou seja disse o que ouviu alguém dizer, não vejo como continuar um debate interessante sobre a matéria quando você não tem matéria.
4º Sobre as religiões Islâmicas, a soldo dos EUA, Inglaterra e demais países europeus, continuam a ser religiões. Assim como os cristãos matam milhares de pessoas todos os dias, essas religiões matam milhares de pessoas todos os dias. Veja Israel - Faixa de Gaza. O mais pequeno dos meus problemas é o Islamismo. Justificação dos EUA para mais uma guerra. O maior dos meus problemas é o capitalismo. É isto que não entende - o porquê das coisas.

Quando diz que é apolítico…. Deixa-me rir! Um apolítico não escreve. Qualquer texto é político. Volte para a escola.
Cultive-se.
 
RECADO PARA UMAV

O POETA DA LUA - romance e poesia

 
O POETA DA LUA

AGRADECIMENTOS

Apenas uma pessoa me permitiu terminar
este livro com serenidade.
A ele o devo: José Penim.

AMO-TE MUITO, MEU AMOR.

António Casado

DIÁLOGO

A verdade.
O que é a homofobia? Como se manifesta? O que é a homossexualidade? A homoafectividade? É possível dois seres do mesmo sexo amarem-se da mesma forma que duas pessoas de sexos diferentes? São questões pertinentes que estes livros pretendem responder.
Luís e Alex são os personagens principais de uma história de amor. O caminho que ambos traçaram foi longo e doloroso. Tudo começa com um encontro banal numa Avenida da cidade de Setúbal. Por detrás dos sentimentos que os unirão estão todos os conflitos pessoais, diferentes em ambos os casos mas que culminaram com o assumir das suas orientações sexuais. As questões culturais, religiosas, sociais, pedagógicas e familiares, são questionadas pelo seu peso retrógrado, pela dificuldade que a sociedade tem em aceitar a diferença. A ignorância social é representada na sua verdade mais latente. De formas diferentes o medo está representado em ambos os personagens.
Luís vem de um casamento falhado. Um dos problemas é o filho. Como dizer-lhe que é outra pessoa. Ele que sempre o viu como um heterossexual… Como aceitará Mário a homossexualidade do pai?
Alex apesar de se ter assumido desde o início da juventude não quer perder a amizade de Luís que pensa ser heterossexual. Como dizer-lhe quem é? Como esquecer Eduardo, o homem que amou ao longo de vinte anos e que morre de uma forma dramática? Como desejava desculpar Joaquim e Clarisse, os pais do namorado…! Como esquecer tantos anos de um ódio e de uma indiferença presentes no dia-a-dia na vida dos dois?
Tem medo de voltar a amar e desconfia das boas intenções de Luís.
Valter é o grande amigo de Alex. A ele deve a vida por duas razões. A gratidão está presente assim como uma amizade nascida de um encontro casual, quando era explorado sexualmente pelo chefe da empresa onde trabalhava.
“Poeta da Lua” foi o cognome encontrado por Luís para o definir. Não o entende e tem dificuldade em aceitá-lo. Porquê “Poeta da Lua”? A poesia é somente uma forma de desabafo, nunca a tomou muito a sério. Afinal, à vida, pede pouco… Apenas uma oportunidade para ser feliz.
Fica feliz por Paulo se ter desvinculado de uma relação vazia de conteúdo onde Abílio assumiu uma posição homofóbica. Interroga-se sobre a razão por que Abílio recusa assumir a sua orientação sexual já que manteve com Paulo uma longa relação. Será porque é casado? Será porque tem filhos? Felizmente Zé trouxe-lhe num sorriso o que a sua alma dorida tanto procurou.
Sofia apenas precipitou os acontecimentos com a sua maldade. A vingança revelou-se infrutífera apesar dos danos causados. Todos sabem que não desistirá. Dispara ódio por todos os lados. Está convicta de que Alex lhe roubou Luís e não quer entender nem aceitar a orientação sexual do homem que sempre amou.
Uma história recheada de tantas outras histórias, de outras tantas vidas que apesar de fictícias assumem aspectos de uma realidade presente. As questões religiosas, os tabus, os preconceitos, marcam pela negativa vidas que apenas procuravam uma réstia de luz. Criaram a necessidade de um Deus, apresentaram-lhes um Deus e não serve. Descrevem-no como uma concepção paterna de amor e escondem a discriminação; falam da tolerância e Ele manifesta-se pela intolerância como se os homossexuais fossem filhos de uma categoria qualquer merecedores de um eterno castigo apenas e só porque amam pessoas do mesmo sexo; como se em alguma altura tivessem escolhido ser o sempre foram.
A luta pelo amor é uma constante assim como a tentativa da sua preservação. Como eliminar os ciúmes? Como impedi-los de criar barreiras nas vidas comuns? Talvez acreditando… Mas como controlar o desejo?
- Sou homossexual!
Ao invés do estigma da compaixão social (que ainda toma como doentes ou portadores de um defeito estes homens e mulheres) todos procuram ver reconhecida a sua individualidade e especificidade. Orgulham-se de ser homossexuais porque nunca poderão ser outra coisa!

António Casado
 
O POETA DA LUA - romance e poesia

O POETA DA LUA 10 A 12

 
O POETA DA LUA
Romance de António Casado
Capítulo primeiro – pág 10 - 12

CAPÍTULO PRIMEIRO

Determinou prioridades temendo uma atitude da mãe. Os antigos amigos assediavam-no, mas recusava-os. Fez novas amizades com as quais partilhava os estudos. O restante tempo dedicava-o a si. Desta vez escutar as matérias nas aulas não era suficiente. Alguns momentos traziam-lhe o desencanto da tristeza como se o fracasso do presente o dominasse e impedisse de ir mais longe impondo barreiras invisíveis e intransponíveis. A vontade de fazer melhor, a certeza de não se sentir motivado, exasperava-o. A luta entre querer e não querer era desgastante!
Leonardo era um aluno mediano e assíduo. Tal como ele tinha poucos amigos. Via-o quase sempre só a deambular pelos corredores. Apesar de os colegas comentarem que era uma pessoa afável, de sorriso nos lábios, terno e sincero, parecia-lhe um árido deserto. Lembrava-lhe uma linda flor plantada no cimo de um prédio de cimento. Ignorava o que o levou a aproximar-se mas sentia-se aconchegado por aquele temperamento vulcânico e delicioso. Era um moço alto, forte, um ano mais velho, de curtos cabelos negros e olhos da mesma cor. As mãos sapudas davam-lhe a impressão de tenazes macias e quentes. Quando havia intervalos entre as aulas saíam da escola e passavam pelo jardim municipal, o Bonfim, o antigo campo do “Anjo da Guarda” como o denominavam; o “ex librís” da cidade de Setúbal assim determinado em 1939. Ao fundo daquele arborizado espaço a Ermida do Senhor Jesus do Bonfim, chamada inicialmente “Ermida do Anjo da Guarda” fundada pelo padre Diogo Mendes em 1669. Passavam depois pelo estádio do Vitória de Setúbal inaugurado a 16 de Setembro de 1962 com a colaboração dos moradores e comerciantes – sempre foi um sonho da população ter um Clube Desportivo representativo da cidade. Dos desentendimentos do primeiro grande clube de futebol “Bonfim Foot-Ball Club” fundado em 1908 e da aliança com o primeiro grupo de destaque o “Setubalense Sporting Club”, que envergava a camisola às riscas verdes e brancas, fundado em 1910, nasceu a 5 de Maio de 1911 o clube “Vitória Foot-Ball Club” que passou a funcionar no Palácio Salema na Rua do Bocage. O estádio estava situado inicialmente no “Campo dos Arcos”. Só em Junho de 1912 é que “Vitória” apresentou ao público pela primeira vez as camisolas que ainda hoje mantém.
Subiram até ao Liceu Nacional de Setúbal e cortavam pelas traseiras. Uma extensa propriedade inculta, recheada de matos e canaviais estendia-se até à Estrada da Baixa de Palmela. Conheciam bem aquele sítio. Esgueiravam-se por uma brecha aberta no canavial e sentavam-se junto ao ribeiro de água doce e transparente que corria por entre as pedras. Era o esconderijo do resto do mundo onde se sentiam libertos de tudo e todos. Viviam a proximidade com a natureza e uma liberdade sem limites. Falavam de tudo o que lhes vinha à cabeça. Riam, choravam, preocupavam-se… tudo ali, junto à serenidade mansa da água. Naquela tarde quente de Abril também. Ainda se fazia sentir um pouco a aragem fria de Março que abandonara o poleiro há três dias. Deitaram-se num pedaço de areia branca junto ao riacho. Alexandre deitou a cabeça sobre os braços cruzados e olhou a pequena nesga de céu por entre as folhas compridas, verdes e viçosas das canas. Leonardo ficou ao lado, virado para ele, apreciando a sua viagem pelo sonho. Um silêncio tranquilo envolveu-os. O mistério daquele recanto transmitia-lhes sensações de placidez e repouso. Leonardo com a mão alisava a areia enquanto Alexandre galopava nas asas de um poema por escrever.
Alexandre despiu o casaco e colocou-o sob a cabeça fazendo de travesseiro. O corpo envolvido pela camisa era atraente. Os traços firmes despertavam em Leonardo sensações de bem-estar.
- Gosto de estar aqui. – Confidenciou Leonardo que continuava a apanhar grãos de areia com a ponta dos dedos e, erguendo o braço, deixava-os cair no chão.
Alexandre não respondeu, nem quando o braço esticou um pouco e alguns grãos secos e frescos lhe agraciaram o peito. Leonardo continuou com os desenhos, agora sobre o ventre do amigo como se de uma mensagem se tratasse.
- Posso chamar-te Alex? – Perguntou-lhe.
Sorriu. Porque não? Era muito mais prático.
- Podes.
A mão sapuda repousou sobre o peito e delicadamente afastou a areia com movimentos tranquilos e suaves. Alex anuía com um sorriso às brincadeiras. Fechava os olhos e lia os movimentos das pontas dos dedos sobre a camisa. Leonardo dobrou-se sobre ele e beijou-o no pescoço. Não se moveu. Soube o que o amigo procurava com aquele gesto quente e gracioso que o deliciou; estava disposto a deixá-lo caminhar, ir até onde quisesse. A inexperiência de qualquer acto sexual impedia-o de tomar uma postura. Sabia que estava prestes a ter uma experiência e isso não o desagradava. A curiosidade de sentir outra pessoa tocá-lo superava qualquer medo ou repulsa. Até aí o único prazer que conhecia era a masturbação que praticava na banheira mergulhado na água quente, ou na cama enrolado nos cobertores. Já se surpreendera nalgumas manhãs quando ao acordar notava que estava molhado. À pressa tentava limpar-se com vergonha que a mãe reparasse nalguma coisa e se enfurecesse. Incomodava-o as erecções matinais principalmente quando Maria dos Anjos o destapava depois de ter inventado mil argumentos para não sair da cama.
Neste momento era a mão de Leonardo que desabotoava a camisa e como esponja a rolava devagarinho sobre a pele palpando os mamilos erectos. Os olhos mantinham-se cerrados à vida que os rodeava e como alguém que passa uma fronteira virtual visualizava as ondas de prazer que cresciam e o estimulavam. Os lábios quentes e rosados do amigo sorviam o calor da pele enquanto a língua acariciava o peito e o externo, de cima para baixo, até se perder no pescoço, subir pelo queixo e deter-se entre os lábios secos de excitação. Era a primeira que o beijavam nos lábios. Estranho, mas não repulsivo.
 
O POETA DA LUA 10 A 12

CLAMOR DO VENTO IV

 
António Casado__________ 07 Março 2009
Publicado__________ Clamor do Vento
Registado __________ Depósito legal 306321/10
Editora__________ WorldArtFriend
Trabalho__________

AQUI
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Aqui
Neste cantinho que criei
Posso chorar por ti

Já não acredito nas tuas promessas
Nos teus beijos
No teu corpo
No teu amar…

Aqui
Posso entregar-me ao delírio
De uma lágrima
Sem ter que justificar ao mundo
A razão do meu penar.

Como te amo…

Porque permitiste que me entregasse?
Porque alimentaste este amor?
Acreditei que era teu…
Fui feliz
Até acordar

Agora
Que a realidade se desnuda
Nesta terça-feira de cinzas
Vejo
Que os nossos caminhos nem se cruzam…
O amor que nós fizemos foi meretriz
De quantos projectos comuns tínhamos.

- A minha casa é nossa.
- Não posso!
- A minha casa é nossa…

Adeus:
Se o propósito foi enfermar a realidade
Nessa enfermidade morri.

Adeus
Prefiro chorar com as ondas do mar
Que acreditar no teu amor
Que me fere e maltrata
Como se eu fosse uma concubina
Uma prostituta barata
Qualquer coisa que se joga fora
Depois de usada

Amarrotaste o meu amor
Adeus
Vou-me embora

Para Pedro Sousa
 
CLAMOR DO VENTO IV