Poemas, frases e mensagens de RicardoC

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de RicardoC

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

CALOROSA

 
CALOROSA

Abraça-me! Abre os braços aos abraços
Há tanto que esperando te envolver.
Deixa-me, ao te tocar, enternecer
Porquanto me reténs os olhos baços.

Para o bem ou não, toma-me em teus braços,
Sob pena de jamais acontecer...
E, entregues à alegria, ousemos ser
Apenas dois ladeando breves passos.

Sigamos o caminho à nossa frente
Antes que se me torne indiferente,
Que houvesse sol ou chuva por onde ando.

E esqueça n’um instante o mal passado,
Quando em teus braços eu, aconchegado,
Cuide senão de ti cá me abraçando.

Betim - 26 01 2015
 
CALOROSA

À MEIA LUZ

 
À MEIA LUZ

Cheirava a almiscarado e cigarrilha.
Interessante, mas... Assim-assim...
Não sei que se dirá ela de mim
Ou d’esse luar que em cheio nos maravilha.

Vê-la tagarelar bem peralvilha,
Convenceu-me não ser de todo ruim
Deixar-me elanguescer, ainda e enfim,
Se, a despeito de nós, a lua brilha.

Fosse como fosse, era noite clara.
Pude notar-lhe ao rosto uma luz rara,
Enquanto o seu perfume me instigava.

Então, tudo era mais belo do que era...
Nem soube diferir n’esta quimera
Quem, de facto, a mulher que ali estava.

Betim - 29 01 2015

Pura fantasia. Relato antes o sonho de um encontro que qualquer outra coisa. Fica aqui pelo enlevo que me deixou.
 
À MEIA LUZ

A NINFA - soneto primeiro

 
A NINFA - soneto primeiro

Fala para esquecer o amor e ser
Amante pelo instante vão d'um gozo.
Conta-me o quanto amar é perigoso
E nos meus braços quer só se aquecer.

Aconteceu d'eu vir-lhe a bel-prazer.
Conquanto fosse um pouco embaraçoso,
Pois, nem namorado e nem esposo
D'essa extremamente ávida mulher.

Porém, abandonada nada estranha.
Tem p'ra si que ciúmes e ilusões
Só têm entorpecido os corações.

Certa que em seu jogo ela é quem ganha,
Já parte para a próxima conquista
Ainda que o amor seja algo que exista.

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A NINFA - soneto primeiro

IDAS E VINDAS

 
IDAS E VINDAS

Se quiseres que eu fique, não me mandes
Ir embora assim como quase nada
Tivesses feito p’ra eu seguir a estrada
Para após anos; para além dos Andes!...

Se fores me deixar, já não andes
Como quem não quer sair do lugar,
Na esperança vã d’eu ir te encontrar
N'uma distância que há tempos expandes.

Se não sabes que queres, não me queiras
À sombra de improváveis castanheiras
Defronte à tua casa te esperando.

Senão, tudo o que tens é tão-só ira...
Esta que tantas vezes me ferira
E que me faz partir de quando em quando.

Betim - 05 02 2015

Escrevi ontem numa sentada. Tenta expressar a falta de clareza das palavras das pessoas quando os sentimentos são contraditórios. De facto, porque romper uma relação que se se quer manter. Ou não?
 
IDAS E VINDAS

LUSCO-FUSCO

 
LUSCO-FUSCO

A partir da duodécima hora, quando
O sol por trás das serras vai se pondo
E ao crepúsculo zoa o marimbondo
Alegre porque o dia se acabando.

Então a passarada vejo em bando
N'uma algazarra vã a que respondo
A rir como se rir um luar redondo
Eu fizesse surgir enquanto ando.

Talvez desencontrasse o extremo, aonde
Eu ia enmimesmado e só ainda,
Certo de que a alegria se me esconde.

Mas -- exacto por isso! -- fosse linda
Essa aura lilás por quanto me sonde,
Porque em melancolia o dia finda...

Betim - 03 09 2015
 
LUSCO-FUSCO

FAZER O AMOR

 
FAZER O AMOR

Como fazer sensível algo abstracto
Senão como uma forma de carinho?
O toque em tua pele haja o caminho
Para unir duas carnes por um acto.

Pode ser dando sangue para o pacto
Ou apenas não querer gozar sozinho.
Teus beijos, tão mais doces do que o vinho,
Ao pôr as nossas almas em contacto.

Como é doce fazer o amor amando!
Como é bom, em teus braços, quando em quando,
Eu poder sentir que amo e sou amado.

Enfim o amor se faça encontro humano
Ao ser compartilhado, salvo engano,
Nos prazeres que um ao outro temos dado.

Betim - 15 02 2009
 
FAZER O AMOR

TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

 
TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

introito
I

Tantas quantos dias o ano
Tem-se a cantar essas rimas,
Embora as histórias primas
--‘Pós engano e desengano --
Fossem-me já obras-primas...

II

Sem embargo, se te animas
A saber d'estes rincões,
Vou falar aos corações,
Não por merecer estimas
Ou diversas opiniões.

III

Sim pelas nobres razões
E face aos vários humores,
Onde lágrimas e suores
Compensem os seus senões
Como defeitos menores.

IV

Possam fazer bem melhores
E maiores as nossas vidas!
Possam, porque se perdidas
As idades dos louvores,
Só resta a das despedidas...

V

Se há verdades insabidas
E ignorâncias sem tamanho,
Perdoe-me as glosas d'antanho
Quem -- das querências queridas --
Ler as palavras que apanho.

VI

Conquanto pareça estranho
Narrar épica canção
De nossa crioula nação,
Sobre-eleva-se ao tacanho
Seu extremado brasão!

VII

Possam, precisas ou não,
Fazer-te as horas mais ricas,
Do que devendo me ficas:
A princesa e o sacristão
Tu - lendo a lenda - os imbricas.

VIII

Ora espirituosas dicas;
Ora visões opulentas;
Possam as rimas trezentas
Ser panaceia de boticas
Para as almas turbulentas.

IX

Possam, à guisa de ementas
Dispostas no cabeçalho,
Ter no diário trabalho
O apanágio de horas bentas
Contra todo intento falho.

X

Possam -- as rimas que espalho --
Reunir o meu ser disperso.
Desde os confins do Universo
Sobre os pampas onde orvalho
A aurora crioula que eu verso.

XI

Pois, por entendê-la ao inverso
De qualquer filosofia
Que fiz diária a poesia:
Um dia p’ra cada verso;
Um verso p’ra cada dia.


o encontro com Teiniaguá

XII

Sem embargo e todavia,
Principia a antiga lenda .
Em face de grã contenda,
Um gaúcho indo à porfia
A nada e ninguém se renda!

XIII

Mas, por solitária senda,
Cortava os pampas o andante,
Que há anos se fez viajante
Em busca d'haver emenda
Contra seu fado inconstante.

XIV

De facto, ele andava errante
Quando viu a salamandra,
Que por sobre as brasas meandra:
Ornada em rubi faiscante,
Corria arenosa gandra...

XV

À noite, piando a calhandra,
Não vê senão Teiniaguá:
Uma teiú que Anhangá
Fez da princesa malandra
Com toda magia que há.

o carbúnculo

XVI

Andava aqui e acolá
A cingir sua cabeça
O diadema da promessa
D'haver quanto se lhe dá
Àquele que amor confessa.

XVII

Sua situação era essa:
Vê a moura enfeitiçada
-- Em salamandra mudada!... --
Levá-lo na noite espessa
Até d’uma furna a entrada.

XVIII

Lá, ela mantém vigiada
Arcas e mais arcas de ouro
Do incalculável tesouro,
Que enterrara em debandada
Um antigo sultão mouro.

XIX

Por isso, de mau agouro
Conhecem esse lugar
Onde estava a pernoitar
Co’a jovem cujo desdouro
Tantos fora amedrontar.

XX

Contudo, faiscava o olhar...
Face à terrível imagem
Da salamandra em viragem,
Ele deve atravessar
Sete provas de coragem.

XXI

Abrindo logo passagem
No fundo da furna escura
Enxerga humana criatura:
Outro estranho personagem
De muito triste figura.

o diálogo com o Sacristão

XXII

É o sacristão. Procura
Pôr fim àquele feitiço
Que mantém o compromisso
D’um cristão cuja loucura
Furta ao sagrado serviço:

XXIII

--“De facto, foi pelo viço
Da bela que, prisioneira,
Me aprisionara faceira,
Desgraçando à causa d'isso.
Toda a terra missioneira.”.

XXIV

“Pois, então, de tal maneira
A Teiniaguá me enamora,
Que não a esconjuro, embora
Pela moura feiticeira
Deitasse a salvação fora.”

XXV

“Por fim, insana me implora
Tão ardoroso carinho
Em troca do santo vinho
Que nos altares se adora...
Para meu mor descaminho!”.

XXVI

“Flagrado o crime, sozinho
Fora condenado à morte.
Mas, mudando minha sorte,
Gira o céu em torvelinho;
Toda a terra treme forte.”.

XXVII

“Teiniaguá surge do Norte,
Das margens do rio vinda
Mais horripilante ainda,
Que sanguinolenta coorte:
Avassaladora e linda!”.

XXVIII

“Logo a catástrofe finda:
Toda vila vem abaixo
Co’o chão, em forte rebaixo!
Só o silêncio deslinda
A escuridão lá em baixo...”.

XXIX

“Viemos dar n’esse altibaixo
Que é o Cerro de Jarau.
Qual tenebroso sinal
Onde o extraordinário encaixo
D'um meteoro terminal.”.

XXX

“E hoje, em remoto local,
Há tão-somente essa furna
Onde rasteja noturna
Ela, um brilhante animal
E eu, de face taciturna...”.

XXXI

Co'a mirada mais soturna,
Silencia o homem assim.
Na salamandra, um rubim
Faísca por cima da urna
Oferecendo-a, por fim.

XXXII

Dissera ao outro, ainda e enfim:
-- "Se tens o coração puro
Mais o espírito seguro,
Com coragem porás fim
A esse mal em que perduro."

XXXIII

Após, n'aquele antro escuro,
Diz o herói resposta sua:
-- "Ouvi minha avó charrua
Contar esse causo obscuro,
Há anos em clara lua.".

XXXIV

E, encarando-os, continua:
-- "Eu sei quem sois e quem fostes:
Não mais princesas ou priostes.
Não com gente a luta crua,
Sim contra celestes hostes!".

XXXV

“Vistes erguidos os postes
Dos suplícios assassinos...
-- Calaste clarins e sinos,
Teiniaguá, embora arrostes
O entrelaçar dos destinos!... --”

XXXVI

“Portanto, não são mofinos
Meus intentos junto a vós.
Não sou juiz nem algoz
Tampouco, com dedos finos,
Ambiciono ouros após!”

XXXVII

Dito isso, traz n'uma noz
O homem ao jovem sem medo
Um gole de chá azedo
Cala de vez sua voz
E cerra os olhos mais cedo...

XXXVIII

Desacordado mas ledo,
Enquanto jaz semimorto,
Anda com só desconforto
Súbito em denso arvoredo.
Falando n'um transe absorto:

XXXIX

--”Era alma sem corpo. Em torto
Caminhar por mato adentro
Sete vias desde o centro...
Incerto se vivo ou morto,
Só silencio e concentro.”

as espadas ocultas na sombra

XL

“O primeiro caminho entro:
Pirilampejam centelhas
Do choque de espadas velhas.
Tinem de tremer por dentro,
Olhando senão de esguelhas!”

XLI

“Sombras se medem parelhas.
Pelejam d’alfange à palma
Sem que se veja viv’alma...
Roçando-me o aço às orelhas,
Só a promessa me acalma.”.

XLII

“Sigo em frente: Fronte calma
Face ao furor sarraceno.
Nunca jamais me apequeno,
Pois que venha o que vier: ‘Alma
Forte e coração sereno!’”.

a arremetida de jaguares e pumas furiosos

XLIII

“Finda a picada em ameno
Campo sobre amplas coxilhas.
Ciente que só maravilhas
Tudo -- mesmo sob sol pleno! --
Seguindo as seguintes trilhas.”.

XLIV

“Vêm feras feito matilhas
Assomando a mim esconsas:
Pintadas e pardas onças
Igual cercassem novilhas
Ou vacas velhas e sonsas.”.

XLV

“Porém, por razões absconsas
Os jaguaretês em roda
Tão-só balançam a coda
E eriçam pelo às responsas...
Passando, nada incomoda.”.

a dança dos esqueletos

XLVI

“Mudando a paisagem toda
N'um só lampejo instantâneo
Através do subterrâneo
Ando a ver lúgubre moda:
Dança o esqueleto sem crânio!”.

XLVII

“Era um ossário coetâneo
Dos Césares! Catacumba...
Tocam tambor e zabumba
Como se algum sucedâneo
De despachos de macumba.”.

XLVIII

“Antes que também sucumba,
Passo ossadas dançarinas
À luz de vãs lamparinas.
Incólume, deixo a tumba
Vagueando em meio a neblinas.”.


o jogo das línguas de fogo e das águas ferventes

XLIX

“Galgo, após, alvas colinas
E chego a perfeito inferno:
Onde um fogo sempiterno
Em labaredas ferinas
Jorra nas neves do inverno.”.

L

“E frio e calor alterno
Na travessia terrível...
É tremor irreprimível
Em face do horror superno
D’uma dor d’aquele nível!”.

LI

“Murmurava-me inaudível:
‘Alma forte...’ Ou urro cansaço?...
Vapor esguicha no espaço
Junto ao fogo inextinguível,
Enquanto vou passo a passo.”.

a ameaça da boicininga amaldiçoada

LII

“Nova paragem eu passo.
Esta, um deserto sequioso!
Mas aonde ando andrajoso
É semelhante a um regaço
Quando há repouso gostoso.”.

LIII

“Cerca, entretanto, do gozo
Escuto o chocalho cruel:
Boicininga, a cascavel
Me arma um bote perigoso
Com seu sibilado infiel.”

LIV

“Encaro a língua revel
Mais as presas e a peçonha
D’essa criatura bisonha,
Buscando de déu em déu
Outra ventura risonha.”

o convite das donzelas cativas

LV

“Quando me vêm sem-vergonha
Uma após outra as donzelas
Cativas, malgrado belas,
N’um rir que nunca enfadonha
Por prazer tão-só em vê-las.”

LVI

“Tão enternecido d’elas
Junto à sanga de olho d’água
Quis que deixasse de mágoa
Para melhor conhecê-las,
Onde a cachoeira deságua.”.

LVII

“Conquanto me ardesse em frágua,
Mais me contive, perplexo,
Da imaginação sem nexo
Que adivinha a renda à anágua
Cobrindo virginal sexo...”.

o cerco dos anões

LVIII

“Indo para um bosque anexo,
Cercaram-me anões em malta
N’uma valentia incauta
Com tal falar desconexo
Entre animoso e peralta.”.

LIX

“Tentam deter-me na falta
De meios de facto violentos
Com caprichosos aumentos:
Quer volatim; quer pernalta
Vêm, acrobatas, aos centos!”.

LX

“Mas certo de seus intentos
Repito o mote contrito.
Porque já estava escrito
Que mesmo com passos lentos,
Atravessa-se o infinito.”.

o prêmio

LXI

Tudo isso é muito bonito,
Mas aonde irá com tanto?
Sim, fora quebrado o encanto
D'aquele casal maldito
Por um guasca puro e santo.

LXII

Ao despedir-se, entretanto,
Nada aceita para si!
Ruma à vila de Quaraí...
Finda da noz o quebranto
E o sacristão fala ali:

LXIII

-- “Toma a moeda. É para ti.
Lembrança d’essa vitória
Cuja saudosa memória
De quanto vi e vivi
Mereceste em tua glória.”.

LXIV

Ao que responde: -- ”Ilusória
Antes essa vida que segue...
Por mais que isso tudo eu negue,
A Teiniaguá é história!”
Porém guarda a moeda entregue...

LXV

E anos consigo a carregue
Embora amargue miséria!
Como se a nobre matéria
Tivesse azar que persegue
Com força má, deletéria.

o desencantamento

LXVI

Decide gastar qual féria
Em mau negócio de gado.
Esquecendo do passado
Para empreender coisa séria,
Não lembrar atucanado...

LXVII

E aconteceu de ser fado:
A moeda traz outra moeda!
E para si envereda
Todo o rebanho invernado
Em compra rápida e leda.

LXVIII

O outro, contudo, arremeda:
--”Ai-Jesus! É coisa feita!
E não de gente direita..."
Mas o mistério lhe enreda
Fama de vida suspeita.

LXVIX

Diante do caso ele aceita
Volver à só salamanca.
E saúda com voz franca"
O sacristão que lhe aceita,
E bendiz junto a barranca:

LXX

--“A maldição se me arranca
Teu louvado ao Senhor Cristo!”
Tal como fora previsto
-- Ele ameríndio e ela branca --
Formaram um povo misto.

epílogo

LXXI

Ao fim e ao cabo, com isto
Os pais d'essa crioula gente
Um país bem diferente
Lograram-nos por bem-quisto
D’aquele amor transcendente.

LXXII

Resta-nos seguir em frente
Qual soube o guasca fazer
Diante de risco qualquer
Sem temor, ir tão-somente
Pronto p’ro que der e vier...

LXXIII

Assim, se a sorte couber
Todos os desejos teus,
Mesmo perdidos nos breus
Possamos sempre dizer:
--”Mestiços, graças a Deus!”

FOZ DO IGUAÇU - 26 12 2010
 
TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

A NINFA - soneto terceiro

 
A NINFA - soneto terceiro

Por difícil e raro, sempre dista
O luar nascente quando subo um monte:
Chegando ao topo, longe no horizonte
O que supunha perto e tinha em vista!

Ela -- como luar a olho nu – conquista.
Contudo, não importa onde desponte:
Uma hora me parece quase à fronte
E após se distancia algo intimista...

Bem amiúde a toco mais profundo...
Sinto-a desabrochar feito uma flor
E grata me agradar com mais ardor.

Ela tem medo, como todo mundo.
Afasta-se p’ra nunca se perder
De quem ainda espera acontecer.

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A NINFA - soneto terceiro

A NINFA - soneto nono

 
A NINFA - soneto nono

Porque o corpo desnudo bem revela
Exacto quanto d'alma mal se oculta.
Desconhecer-se é típico de estulta
Mentalidade em íntima procela...

Assim, quem o prazer à culpa atrela
Uma alheia alegria já lhe insulta.
Hipócrita, o culpado apôs se indulta
De faltas cometidas junto d'ela!...

E ria às gargalhadas dos coitados
Que a desejando a julgam n'um complexo
Onde se adora amor e se odeia sexo...

Murmura de amargura:--"Recalcados!
É bem mais fácil ter, se se acredita,
Uma verdade um pouco mais bonita".

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A NINFA - soneto nono

LOCOMOTIVA

 
LOCOMOTIVA

Um trem distante apita na noite alta.
Súbito me recorda, simplesmente,
Alguém, algum lugar ou algo à mente,
Que apenas d’eu pensar me sobressalta.

Fez ver à minha volta a minha falta,
Enquanto madrugava inconsequente.
Pois, a máquina bruta e semovente
Como cinema por meus olhos salta:

Afinal, o que mesmo me motiva
A essa altura da vida? Que promessas
Têm força face a noites vãs como essas?

Não sei... Ainda assim, locomotiva
Seja minh’alma ao afã só d’avançar;
Atravessando sertão, neblina e luar.

Betim - 10 01 2015

Após uma noite insone, madrugada já, ouvi o apito de um trem. Súbito, passei a imaginar a máquina a atravessar a distância, neblinando ao redor dela, e, solitariamente, correndo seu caminho.

Creio que o cerne do soneto seja essa imagem e as motivações que a mesma suscita.

É isso.
 
LOCOMOTIVA

AZÁFAMA

 
AZÁFAMA

Nada senão cansaços fora o dia,
Perdido em excessivos afazeres.
Não soube hoje d’amores nem prazeres;
Sequer alguma mínima alegria...

Passo apressado p’la rua vazia
Tão alheio à beleza das mulheres,
Quanto de seus mistérios e misteres,
Como não desejasse companhia.

Chegado em casa, nada já percebo.
Abro a garrafa e não sei o que bebo,
N’um gesto maquinal, indiferente.

Restara-me tão-só a noite e as estrelas
Mais um silêncio insólito a envolvê-las
Para o ócio me fazer de novo gente.

Betim - 28 01 2015

Escrevi ontem após um dia corrido e de poucos resultados. Ao fim, dei-me conta de que estava agindo por automatismos, feito máquina. Sair e ver as estrelas me fez voltar à humanidade, penso eu.
 
AZÁFAMA

DE MANHÃ

 
DE MANHÃ

Por que o dia está tão bonito?
Por que tenho assim me alegrado?
Talvez porque estivesse escrito
Que estarias tu do meu lado.

Talvez porque houvesse sonhado
Ou porque me soubesse aflito...
Por que tenho assim me alegrado?
Por que o dia está tão bonito?

Talvez porque alcanço o infinito
Quando amo quem eu tenho amado
Ou em ti simplesmente acredito...
Por que tenho assim me alegrado?
Por que o dia está tão bonito?

Betim - 01 02 2016
 
DE MANHÃ

ENTREVISTA

 
ENTREVISTA

Quantas pétalas tem o girassol?
Quando bate mais forte o coração?
Onde a felicidade está então?
Qual é a cor do céu n'este arrebol?

Como brilha um sorriso mais que o sol?
Quão mais belos os olhos se almas são?
Para onde mesmo os sonhos vão em vão?
E o que ondeia meu cabelo em caracol?

Por que a gente se sente tão sozinho?
Para que haver, no entanto, tanta lida?
Com que pedras ladrilhas teu caminho?

Quanto é uma esperança a ser perdida?
Ademais, que enigma és? Não adivinho...
Que é o homem? Quem é Deus? O que é a vida?

Betim – 21 04 2014
 
ENTREVISTA

ESTRANHAMENTO

 
ESTRANHAMENTO

Já não te reconheço: És uma estranha.
As palavras que saem de ti me soam
Tão inúteis e fúteis que destoam
D’aquela paixão ávida e tamanha.

Nosso amor reduzis ao perde-ganha
Dos jogos de poder que só magoam.
À mente, os pensamentos que a povoam
Tornam-se essa tristeza que me entranha.

Dia após dia, mais e mais distantes...
Parece que nos vimos n'outra vida,
Pois, nada mais será como fora antes.

E a culpa do que somos ao que fomos
É o mal da esperança já perdida.
Não sendo má em si, sim onde a pomos!

Betim - 22 12 2010
 
ESTRANHAMENTO

VOO DE PIPA

 
VOO DE PIPA

Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos:
Já varre o céu a ventania
Cheia de losangos coloridos.

Ecoam longe os alaridos
Da mais extremada alegria!
Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos...

Tivesse os olhos tão perdidos,
Onde outra pipa rodopia
Fazendo a festa dos sentidos:
Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos...

Belo Horizonte - 12 07 2015
 
VOO DE PIPA

SAUDADE

 
SAUDADE

Não te posso escrever senão a dor,
Que tu me causas por estares longe.
Desde que foste, vivo como um monge
Ensimesmado em dúvidas e ardor.

Mas a falta que sinto fica maior
À companhia só d’um amor longe:
Nua pele que embora há tanto esponje,
Ainda te retém o cheiro e o suor...

Eu fico aqui tão-só a recordar
E, por força de muito imaginar,
É como se sentisse a tua mão.

Logo passa, porém, o doce enlevo...
E ora o único lamento a que me atrevo
São esses versos sós na escuridão.

Betim - 08 05 2011
 
SAUDADE

A EMPAREDADA

 
A EMPAREDADA

Nada podem as mãos contra o concreto
E os gritos que jamais alcançam um.
Resta tão-só, sujeita à lei comum,
Reduzir-se bem rápido a esqueleto.

De parede à parede, chão ao teto,
O espaço não lhe dá conforto algum.
Devora-se, por fim, em vão jejum
Vítima d'algum péssimo projeto...

Estranho é que a razão d’essa clausura
Seja o amor que lhe pôs em solitária
A viver sua noite mais escura.

E a pena que ela cumpre feito pária
Apenas lhe adia a hora da amargura.
De sua morte... A morte, essa arbitrária!

Betim - 30 08 2013
 
A EMPAREDADA

A NINFA - soneto sétimo

 
A NINFA - soneto sétimo

--“Para a noite outra roupa então se vista
Tanto p'ra caçar quanto p'ra ser caça.
Pois dizem haver fogo se há fumaça
E paixão desde à vã primeira vista.”

“Portanto, na impressão do início invista
Aquela que quiser com sua graça
Despertar um desejo que perpassa
Toda a aura reluzindo sensualista.”

“Cuidado, porém: tudo é ilusório!
É preferível ir quando se pode;
Logo antes que a rotina os incomode.”--

Não importa se dândi ou se finório...
A seu lado haverá sempre um qualquer,
No afã de mais e mor se parecer.

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A NINFA - soneto sétimo

A PEDIDO

 
A PEDIDO

Ela me pede qu'eu lhe cante aquela
Cantiga que lhe fiz dos olhos seus.
Eu lhe peço qu'ela olhe os olhos meus
Para que a possa ver 'inda mais bela.

Eu me aproximo assim dos olhos d'ela
E os olhos fundo veem porque, plebeus,
Só no amor da princesa e o semideus
Se permitem amar quem se revela.

Eu lhe recito, enfim, verso por verso,
Enquanto cada frêmito lhe observo
Ouvindo-me o cantar n'alma disperso.

Ela olha p'ra mim, seu humilde servo.
Se Andrômeda e Perseu em trova eu verso
E, ao amor d'eles, o meu eu lhe conservo.

Betim - 10 02 2016
 
A PEDIDO

A NINFA - soneto duodécimo

 
A NINFA - soneto duodécimo

Ela fala e eu a escuto, porque bela
E é tão bom de escutar ela falando!...
Eu chego a devassar, de quando em quando,
O seu olhar que d'alma é qual janela.

Eu fico olhando para dentro d'ela
Enquanto, atento, vou lhe escutando.
Percebo-a contar n'um tom mais brando
Das coisas que n’alcova se revela.

Às vezes, seu olhar uma fagulha
Solta que me atravessa inteiramente
E me faz suspirar à sua frente.

Do que outrem se envergonha, ela se orgulha!
Pois vê a vida -- metade já de nada --
Como mentira muito bem contada.
 
A NINFA - soneto duodécimo

Ubi caritas est vera
Deus ibi est.