Poemas, frases e mensagens de bulletproof

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de bulletproof

F(r)ado

 
Cortou uma pequena fatia daquele queijo pentagonal, que estava cheio de pontos verdes. Aquela maldita coisa tinha estado guardada no armário de cima da cozinha, junto ao esquentador. Quando o tirou, seriam umas seis da tarde, o papel de alumínio já escorria humidade. E também um cheiro indefinido a quarto fechado numa tarde de outono. É daqueles odores que não se descreve, prova se. Talvez por isso tirou a chávena mais velha da casa. Fora comprada na rua arbat, em Moscovo. Aí por mil novecentos e setenta e oito, numa excursão que o partido pagava para deixar as pessoas silenciosas de tanta realização pessoal. Encheu até 3/4 de água morna, que abraçou um saquinho moreno de chá de cidreira. Arrastou o banco da mesa da cozinha, e sentou se vagarosamente. Sentia o cóccix a encaixar no quadrado do assento. Estava bem assim. A chávena de chá, já a pedir bebericos suaves, estava à sua frente, a esquerda. Os dois pedacinhos de pão de centeio que esmagavam o queijo, assentes na madeira gasta da mesa.
Será um antônio mal gasto este homem. Assim o parece a falta de melhor desígnio pelo autor. Sozinho na vida, e com uma bronquite que para ele funcionava quase como um programa de rádio de companhia, mastigava vagarosamente. Pensava neste momento em praia. Pelo menos naquele vaguear de rio que gostava de sentir nos pés na juventude, enquanto falava de bola consigo próprio. O chá terá demorado dez minutos a desaparecer, e a sandes pouco mais. Assentou o cotovelo esquerdo na mesa. Apoiou a têmpora na mão como gostava. A meia franja grisalha pendia lhe até meio do indicador e do médio enrugados. O braço direito estava colado à barriga, suportando a mão morta, sem destino, no colo. Parecia que a tarde respirava ao som daquele radio em onda média que serpenteava vindo não se sabe de onde. Era a um fado do marceneiro , que ouvira vezes sem conta, que respondia o seu medo. Pavor tranquilo de qualquer coisa parecida com um fim....
 
F(r)ado

Cinco dias

 
um dia podem ser dois dentes
podres a recuperar,
dois dias são três flores
que perderam cheiro,
três dias mesmo espremidos
não contam para vidas emparelhadas,
quatro dias desconheço
por morrer antes sequer
de me dizer amén,
cinco dias são testamento,
lista de suicídios com molho bechamel,
resisto,
sou só o ourives que luta
por ressuscitar o tempo morto....
 
Cinco dias

Balada de um cobarde funerário...

 
Imberbe de remelas,
Olhos escorrem perdão,...

Sangue fluvial em pasta,
Massa do que pode ser,
Lamentos, tormentos,...

Fingidor de ceroulas,
Malvado a recuperar,
Postura a dobrar,...

Conheço-o a desconhecer,
Roubou a chama,
Devolveu-a no redondel,....

Lei rasgou a obrigação,
Soquei-me na alma,
Para adormecer,...

Torrões a ranger,
Féretro a descer...
 
Balada de um cobarde funerário...

17h41 de pijama

 
E os focos dos pensamentos grávidos? Adoro-os gémeos, a reagir ao minimalismo humano sempre que a noite nasce tempestuosa. Dissolvem-se em medo, concubinado com o tradicionalismo.
Mas não deixam de ser adoráveis aos olhos de quem quer criar obras com asas. Daquelas que voam para Sul, quando o Outono chega.
 
17h41 de pijama

Rios de flauta de Pan

 
Trata de tédio,
História redonda,
Num barco parida,
A voar desaparecida,...

Será um menino,
A falar com um figurante,
Rodou chave desnutrida,
Para abrir porta ao sonho,...

Funil do medo,
Suga a calma,
Deixa o menino,
A calar o que resta,...

Bácoro tédio,
Fumegante rotina,
História octógona,
Menino profetiza,...

Rios de flauta de Pan,
A correr em chiadeira,
Parida uma piroga,
De remos ensaguentados,...

Tratou de desespero,
Perecimentos da história,
Destino pastoral,
De um menino de cataclismos,....
 
Rios de flauta de Pan

Dedos gordos

 
Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito, gordos. Massas disformes, que tremelicam a cabeça ao sabor de incompetência quando martelam o teclado do computador.
A tua incompetência.
O que tu não sabes fazer pelo mundo que te cuspiu de um útero que já começa a ficar velho. Criativo, serás quando as sereias dormem. Na altura em que o mundo deixa de ter coisas interessantes para contar, e tu te agarras aos dedos gordos.
Dignos de confiança, serão. Talvez, controlar a cona purguenta de uma puta de esquina. Aí, não te saias mal. Caso te empenhasses.
Há dias em que tens indicadores esquerdo e direito. Anafados, sem esperança de dieta milagrosa. Incompetência, definida à sombra do rodapé da cama onde te escondes, escreve-se com nuvenzinhas de banda desenhada.
Fluência em poderes fantásticos. Rodar o dedo, gordo, e mandar o prédio do presidente da câmara pelo cu do planeta. E tudo porque ele te aumentou a contribuição autárquica.
Peidares uma rosa florida, e com ela casares com a mulher divina. A gaja que fode com um milhão de homens desiludidos ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo come uma mousse de chocolate podre.
Arrebanha o par de pernas que te nasceu em dia de chuva, e anda. Pára só quando perderes esses dedos gordos. Criativo.
 
Dedos gordos

Cancro em torrente de pensamentos

 
O cancro, eu vejo-o como um golfinho azul. Sentado à beira de um rio de constâncias metálicas, observo-o a pular. Escapule-se às ondas entristecidas, e ri. Salta como se procurasse agarrar porções de ar claudicado.
Gases que se cansaram de vida, e querem agora molhar os beiços à morte. Que desejam perscrutar um sentimento flutuante, como a leveza de espírito.
O golfinho azul toca. Desfaz pequenas correntes que ligam quem o observa ao radicalismo de uma vida de balões esvaziados.
Odeio metamorfoses de monstros.
Sei-o, de uma forma conflituosa, que dentro do golfinho azul está....
Está o que nunca quis imaginar.
Assombros de pesadelos magnéticos, que deixam marcas no corpo e na alma quando o sol nasce.
Gemidos de crianças que acordam, e em vez de braços abertos em ondas de amor, são esbofeteadas pela escuridão madrasta.
São quase horas de abdicar de tudo.
Mas antes de um final de encadeamentos, uma tirada de completa clarividência.....
Amo a vida...
Espero que ela se apaixone, sem remissões, também por mim....
 
Cancro em torrente de pensamentos

Solfejo Real

 
luz de mais para
solfejo real que assobia
a golfadas de dor,...

de noite,
a foice,
de mim parado,
mata à lata,
sem luz que explique,
os falhanços da
pré-concebida
desnutrição de um ser,...

maleitas,
coisas que trauteiam
o que o solfejo real,
não descura,
nem desfaz....
 
Solfejo Real

História de amor ao pôr-do-sol

 
Na noite em que me disfarcei de soletrar,
caíram-me as calças,....

fiz-me de tarado,
sorri, meti dois pingos
de solidão nas retinas,
e lá fui eu ao desvario,...

encontrei a vida deprimida a copiar
registos de plena realização da morte,....

abri o casaco e senti-me
gozado no meu sentimento de homem
que espera vícios do
ar que respira,...

ventou,
soprou tanto o bafo do
desprezo que só tentei
mais a criatividade,...

pintava sóis atrás de um
corpo em putrefacção da
criança mais adorável do mundo,....

apaixonámo-nos, e hoje
somos quem manda no mundo,...

eu, o fazer bem a olhar
para o quem cá de dentro,....

ela, gosta de comer
sonhos congelados para sobreviver.....
 
História de amor ao pôr-do-sol

A Setúbal (Manuel Cristal)

 
Manuel Cristal sangrava das gengivas. Aliás, boca diminuída, com dentes gastos até ao tutano. Mas nunca, nunca desdenhava um sorriso, de orelha a orelha, mal a manhã rasgava.
O Verão tinha nascido há dias. O sol dava mostras hercúleas disso, levantando-se no horizonte em fios de aço. Coisa dura, levar no coiro com um calor que fazia borbulhar as águas pasmaceiras do Sado. Manel desdenhava os dias em que não conseguia banhar as ideias limitadas nesse fenómeno.
Entre as seis, e mais uns piquitos, desmontava da bicicleta.
Tinha um recanto, na Doca das Fontaínhas, onde guardava a pasteleira. Ficava acorrentada a uma cabine telefónica que se acinzentava de abandono. Velha, mas que mesmo assim fincava pé no chão que gangrenava com raízes de árvores centenárias.
Que se volte ao sorriso de Manuel Cristal. O primeiro que conhecia a luz do dia, saltava por nada. Simplesmente porque viver numa terra em que o ar cheira a arrotos de deuses, tranquilizava-o. O segundo, tinha como receptor o tal sol de aço. Manuel nunca se apercebeu de como quem cria, o que aquece, gosta de quem se conforma como foi criado.
Prova disso:
era uma pasta avermelhada o que lhe gotejava da boca. Ao terceiro, quarto sorriso, quem o conhecesse de novo, virava a cara. Os que andavam com Manel na algibeira, habituaram-se. Gostavam de quem agradecia ao rio pai, e à serra mãe por estar vivo. Sebastião da Gama chamou a pessoas como Manel “os indiferentes da vida”, e amava-os de coração.
O sorriso de Manuel Cristal valeu-lhe até a morte. Um dia estava sentado a olhar o Sado. Nossa Senhora do Bonfim fitava-lhe as costas, e a Arrábida admirava-lhe o sorriso. Manel agradecia à vida, sorrindo. O coração simplesmente parou, e um corpo amolgado das danças embaladas pela voz cansada do Chico da Cana abandonou-se ao descanso eterno.
O Sado engoliu-o, simplesmente porque o escritor assim o quer.
Não faria sentido bajular uma cidade, e esquecer que as coisas que valem a pena, são até para valorizar quando se descreve um fim. Um ponto final.
 
A Setúbal (Manuel Cristal)

Glup, glup, glup, chuaaaaaaaaa

 
Quem sabe seria propósito raro atear
o fogo certo,
queimava-te fadiga,
deixava-me parado,
e achava-me a escutar,
fazer, parado com
cometas a cinzelar o escalpe,

para o silêncio fica
o melhor de quem
claudica menos face à dor,....

para o eventual,
fico-me,
nem tanto a pessoa
certa a cantar no silêncio do real,...

mais a pessoa errada
com juízos errados,
sobre factos certos.....
 
Glup, glup, glup, chuaaaaaaaaa

O burocrata

 
o burocrata deixou tudo,
largou mentiras,
sobreviveu ao vento ácido,
subiu até a raíz de um embondeiro do Huambo,...

as folhas ampararam a
queda de um corpo
amorfo e sem cheiro,

a terra mãe áfrica cuspiu-o,
mais espantoso ainda
disse querer mulher
gorda,....

mãe de família,
de perna desossada,
só carne que o sol
queima na labuta de
querer bem,....

o burocrata ficou triste,
entardecia,
as almas dos pretos
debaixo da chibata
chamaram-lhe triste,
riram-se dele,....

o burocrata aninhou-se na teta do mabeco e seus filhotes,

morreu indiferente à chuva invisível que a nuvem cagava nele....
 
O burocrata

Anónimo, por ser mau

 
Não há água feita de sorrisos,
Há vento que escorre lamentos,
E há esquinas com mel azedo,
Existo eu a trigonometrizar um caminho,
Para te ver sentada num trovão,
Denso,
com forro de lambrim,
Já acabei o desnorte,
Agora ouve-me,
Tenho um dia para contar-te...
 
Anónimo, por ser mau

Foi o baile

 
Rata de frontispício,
Solstício de branco,...

Carne ferve em sol,
Lua a rir,
Terra a parir,...

Quisera eu enegrecer,
A apessoada sensação,
Em latada estudantil,....

Jovem a ganir,
Ula sem sentir,
Em morte a balir,...

Foi o baile,
Sobra a música,
E o moribundo de xaile...
 
Foi o baile

Pisa a pisar

 
Criança que pisou,
Grão único de vida,
Pé chato,
Pegada em chuva,...

Chão a molhar em cheia,
Cheia de medos infundados,...

Riso,
Choro mudo,
A correr em seara de fugas,....

Criança afasta,
A menina dos olhos cegos,

Pisa aqui,
Pisa ali,
Menino matou vida de searas...
 
Pisa a pisar

Ressuscitei-te Maria

 
Ressuscitei-te Maria. Regurgitavas numa poça de água fétida, em tarde de balanços metafísicos de existência.
Com o dedo do amor.
A extensão concreta da vontade do poder criador em fazer de mim um entrave à felicidade cozinhada. Foste tocada na alma, e abriste suavemente os olhos.
Lembro-me que te banhou uma gota de chuva ácida. Nem de meias medidas te deixaste assoberbar por uma tarde eléctrica. Um final de dia com a banda sonora do vento zangado, e o enredo de irritação divina.
Ainda de joelhos, reparei que a minha vida iria mudar. Tinhas deixado de ser um espírito de compromissos.
Cheiravas com o apêndice de um alma revigorado. Ouvias o que eu nunca pensei que a natureza pudesse albergar.
Já em bicos de pés, amaldiçoaste o que tremeu o mundo.
Sim, pensei ter sido Deus.
Senti-o da forma mais errada possível. E tu pediste de novo para morrer.
Desta vez com um penso rápido na alma. Para evitar pronunciamentos de personalidades como a minha, que extravasam competências que nunca poderão vir, de facto, a ter.
 
Ressuscitei-te Maria

Ata turk

 
flor de bloco
cimento que aspira
a secura da alma-terra,
a lágrima do defecado
interno que chia,

que urgia

de outros tempos,
a florir promessas vãs,
enquanto o vento assassina,
alívios em que desatina
a fome
com a nua condição,
de amar perto
do esmaiado coração
 
Ata turk

Constipação

 
na noite em que acordei
com um anão no olho,
espirrei,
sorvi duas pestanas da criatura,
e chovia fininho para
descontentamento excelso de mim,...
 
Constipação

Palavra (vida e obra)

 
E a palavra com a chinela no pé,
Divorciada de princípios,
Atrevida até ao sol posto,
Fez-se de menos,...

Ainda menos, por que de mais,
Já seria ditado popular,
Com uma montanha por escalar,
E um povo que lhe sopra água de rosas,...

Porque a palavra tem friso,
Não tem estudos,
Lançou-se ao trabalho nova,
E quer gladíolos na sepultura,
Com uma encomendação de alma pagã,....

Banda de covers a tocar ao anoitecer,....

E filhos aos centos,
Porque sim, foi promíscua,
Mas desavergonhada com uma razão,...

Palavra é filha de puta,
Com pai presente,
Avós pobres, mas honrados,
E serenatas como cantigas de ninar,
E virgindade perdida por acidente
no recreio do jardim-escola,....

Mas palavra é soma,
De diminuições multiplicadas pelo infinito....
 
Palavra (vida e obra)

Fosfata-me a tua alma...

 
Fosfata-me a tua alma,
Despe-la sem trejeitos,...

Dois baques, três miaus,
O gato isquemizou,
Deu-me para aspirar o chão,
Decapante de espírito,....

Bebo o chá venenoso,
Para depois cagar-te,...

Concavar o pescoço,
E ranger, esticar, tilintar,
Cravar molares agastados,...

E voltar à tona,
Sorriso cor de merda,...

Faço-o porque te leio,
Sei os teus salmos,
Não me fedem os teus versículos,...

Encantam-me rimas de olhos,
Maluco, doido a varrer,
O pó do fosfato,
Da tua alma....
 
Fosfata-me a tua alma...