Poemas, frases e mensagens de Edilson José

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Edilson José

O MEU LUSO DO MÊS DE JULHO É NANDA

 
O MEU LUSO DO MÊS DE JULHO É NANDA
 
Maria Fernanda Reis Esteves, nasceu no Hospital de S. Bernardo, em Setúbal, no dia 28 de Fevereiro de 1960. Filha de um casal de pequenos comerciantes, Fernando Ferreira Esteves e Maria Helena da Conceição Reis, frequentou o ensino primário na Academia de Música e Belas Artes Luísa Todi e o ensino secundário no Liceu de Setúbal. A par dos estudos, sempre ajudou os pais no café que estes possuíam no Mercado do Livramento, em Setúbal. O seu gosto e apetência para a área de humanidades, nomeadamente para as línguas estrangeiras e o português, em especial, fomentaram-lhe o gosto pela poesia que precocemente começou a escrever, mas, no entanto, por achar que nunca ninguém se interessaria por seus escritos veio a destruir mais tarde.
Casou aos 22 anos, já a trabalhar como escriturária, profissão que mantém até hoje. Aos 24 anos foi mãe pela primeira vez de uma menina, hoje com 25 anos, Inês Mares, jovem que ingressou no mundo das artes e tirou, em Espinho, o curso profissional de percussão e em Lisboa, na ACT, o curso de atriz. Aos 29 anos a maternidade brindou-a pela segunda vez com outra menina, Sara Mares, hoje com 19 anos, jovem que pretende entrar, no próximo ano letivo na Faculdade de Medicina Tradicional Chinesa, em Lisboa.
Aos 36 anos perdeu uma das pessoas mais importantes da sua vida, o pilar da sua existência, a sua mãe que faleceu vítima de atropelamento. Este acontecimento fatídico viria a ser responsável pela viragem na sua forma de ver a vida. Após uma longa temporada de reclusão pela enorme dor da perda, a pesquisa da leitura que aprofunda a temática da reencarnação devolveu-lhe a serenidade e aumentou a sua enorme fé e confiança em Deus.
Aos 39 anos começou a trabalhar como secretária da Direcção da APPACDM de Setúbal – Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, Instituição de Solidariedade Social e de Utilidade Pública que apóia cerca de 400 cidadãos portadores de deficiência mental, através das suas dez valências e múltiplas atividades e dinâmicas. O contato e interação com estas crianças e jovens encheu de luz a sua vida e deu-lhe um novo sentido de missão. Hoje tem como máxima que “nada é por acaso”.
No ano de 1999 participou no concurso de poesia da APPACDM de Setúbal, subordinado ao tema “Um Olhar Diferente” e obteve uma menção honrosa. A partir daí descobriu que a poesia era uma forma de ascender a uma dimensão superior em busca da liberdade e felicidade.
É elemento do Coral Luísa Todi, um ex-libris da cidade de Setúbal, ao qual deve a realização de outro sonho, o canto que sempre a deslumbrou, desde criança e lhe permite alargar o seu leque de amizades.
- Em 2006 recebeu nova Menção Honrosa no Concurso da APPACDM ;
- 1º Prémio no Concurso de Poesia "Aprender Contigo" da APPACDM de Setúbal - ano de 2007;
- Menção Honrosa no XII Concurso de Poesia "Dar Voz à Poesia" da Escola Secundária Júlio Dinis (Ovar);
- 5º Prémio no XXV Concurso Internacional de Poesia "Casa Lembrada - Casa Perdida" das Edições AG
- Participação na Colectânea "Amar o Próximo" da ANEM - Associação Nacional de Esclerose Múltipla;
- Participação em várias Colectâneas de Poesia das Editora M.J.Real Imo
- 9º Prémio no XXVI Concurso Internacional de Poesia “Travessias” das Edições Ag;
- Prémio Destaque Internacional no Concurso de Poesia da Associação Artística e Literária Alpas XXI e Participação na Colectânea “Deslizes;
2º Prémio e Menção Honrosa no XIII Concurso de Poesia “Aprender Contigo” da APPACDM de Setúbal, ano 2008
Participação nas Antologias Literárias Internacionais “Amor e Paixão” e Eldorado da Editora, Celeiro de Escritores
Participação na 19ª Antologia Literária Internacional da Fundação Del´Secchi
- 6º Lugar no XXVII Concurso Literário Internacional “Rosa dos Ventos” das Edições Ag;
- Participação na Antologia “Poeta Mostra a Tua Cara” do Projecto Cultural Sur/Brasil;
- Prémio Destaque Internacional no III Concurso Literário Internacional Letras Premiadas;
Colaboradora da Luso-Poemas;
http://www.luso-emas.net/modules/news/article.php?storyid=85384
Colaboradora do Recanto das Letras:
http://recantodasletras.uol.com.br/poesias/1619086
O lançamento do seu primeiro livro de poesia “Canteiros de Esperança”, a convite da Editora “Temas Originais” está previsto para 26 de Setembro, pelas 16 horas, na Sociedade Filarmónica Humanitária, em Palmela. “Canteiros da Esperança” é na íntegra a favor da construção do novo lar residencial da APPACDM.
http://www.temas-originais.pt/autores/fernanda_esteves.htm
Livro favorito: “Muitas vidas muitos mestres” de Brian Weiss
Autores favoritos: Brian Weiss, James Van Pragh e Mia Couto
Amuleto: Livro “Como comunicar com o Anjo da Guarda” de Haziel
Filme: “A cidade dos anjos”
Música favorita: “Eu não sei quem te perdeu” – Pedro Abrunhosa

Com tudo que foi exposto acima sobre a nossa querida Poeta e por saber de seu talento pelo acompanhado de suas criações literárias no luso, percebemos uma aura brilhante de generosidade, desprendimento e enorme talento que transcende as fronteiras hipertextuais, pairando sobre nossos corações. Sua sabedoria de vida reflete em seus poemas que sempre nos passam força, carinho e amor. Sua poesia procura nunca pairar por sobre umbrais revoltosos da alma, pelo contrário, procura sempre tirar uma lição otimista dos dissabores que a vida nos traz. Seus comentários e interação geral no site supracitado são expansivos e amigáveis. E é por isso, e muito mais, que aqui não caberia se estender, que Maria Fernanda Reis Esteves, ou simplesmente Nanda, é a poeta do mês de julho. Segue abaixo uma entrevista leve, objetivando sobretudo mostrar a essência humana, tão presente na nossa Nanda.

-Você trabalha em uma instituição que apóia pessoas portadoras de necessidades especiais. É muito fácil notar que a APPACDM é oxigênio vital para sua vida! Tem muita experiência nessa área. No geral, como você vê o tratamento que é dado à essas pessoas? São ainda muito discriminadas?

Eu faço o secretariado da Direcção da APPACDM de Setúbal há 10 anos. Desenvolvo o meu trabalho nos Serviços Centrais da Instituição e tive a sorte de estes partilharem o mesmo espaço físico com um CAO – Centro de Actividades Ocupacionais, o que me permite interagir e trocar experiências com jovens portadores de deficiência.
Com cada um dos utentes criei uma empatia especial, uma cumplicidade. Aprendo com eles todos os dias o valor da humildade, das coisas simples da vida, dos afectos e nunca antes me senti tão rica interiormente. Agradeço a Deus o facto de poder conciliar trabalho com uma missão à qual me entrego sem reservas.
A APPACDM tem um papel relevante na aceitação e integração destes cidadãos no seio da comunidade local que começa com a inclusão através dos projectos de parceria nas escolas bem como da promoção de actividades de cariz cultural e desportivas, que envolvem outras instituições congéneres, empresas, Lares de 3ª idade e um abrangente leque da cidadania, sempre com a preocupação de divulgá-las através dos órgãos de comunicação social.
A sociedade já não discrimina o cidadão portador de deficiência como antigamente. No entanto, muito há a fazer para a sua inserção no mundo do trabalho.
A Instituição candidatou-se ao Programa PARES da Segurança Social e dentro de dias terão início as obras de construção de um novo Lar Residencial/Residência Autónoma/Serviço de Apoio Domiciliário e ainda de adaptação para uma creche.

-Certa vez um dos meus professores disse que a poesia “é um pequeno círculo espremido, que nunca chegará ser um grande globo”. Claro, ele fazia referência à linguagem poética, restrita à poucos, afastada do grande público. Você concorda com a citação do meu antigo professor? E se concorda, qual seria a missão do poeta, se é que ele tem, para levar a poesia à horizontes mais amplos?

Concordo, na medida em que dentro dos géneros literários a poesia é o que menos vende, já que é uma obra de arte delicada, intimista e direccionada a pessoas sensíveis e que gostam de interpretar mensagens, de reflectir e aprender com elas.
Penso que pior do que não ter livros de poesia é adquiri-los e não os ler, porque são, sem dúvida, uma extraordinária fonte de enriquecimento cultural e humano.
A APPACDM de Setúbal é um bom exemplo de como se pode tornar a poesia mais abrangente. Anualmente promove um concurso de poesia que visa estimular a actividade criadora e sensibilizar a comunidade para a problemática da deficiência mental. O evento tem sido bem sucedido, conta com um crescente e interessado número de participantes, e neste momento é já de âmbito Nacional.

-Um dos seus autores preferidos é Mia Couto. Também é dos meus. Penso que aqueles que nunca o leram, poderiam ler, já, que é um escritor que mergulha nas raízes da natureza humana, de forma profunda e única. Até que ponto Mia Couto, tem influência neste seu lado humano tão estimado?

Mia Couto é um escritor que encanta pela leveza das palavras, algumas delas fruto do seu inesgotável imaginário, extraídas da constante e incansável observação e fascínio pela alma humana. Assim me revejo, sem capacidade para separar o lado humano da minha postura de contemplação e aceitação perante a vida, elegendo na minha escrita a expressão singela dos sentimentos que em mim afloram a cada momento.

-Uma filha atriz e outra pretendendo ser médica. Uma encantará pessoas praticando arte e a outra salvará vidas. O perfume humano da Nanda cobre as filhas! O que você poderia nos dizer sobre a maravilhosa escolha profissional das duas?

Às minhas filhas dei amor e liberdade, ensinando e transmitindo os inquestionáveis valores do amor e do respeito, enquanto vectores de equilíbrio e estabilidade do ser humano. A escolha da mais velha, Inês, de 25 anos, signo de gémeos, amante da liberdade de expressão, recaiu nas artes, tendo tirado um curso de percussão em Espinho e cinema, teatro e televisão na ACT, em Lisboa. Actualmente lecciona música e incorporou a “Companhia de Teatro do Elefante”, de Setúbal. Tem, ainda, a seu cargo o Grupo Cénico da Sociedade Filarmónica Humanitária de Palmela.
A mais nova, Sara, de 19 anos, signo de Capricórnio, entrou este ano na Faculdade de Ciências da Comunicação, em Lisboa, tendo desistido do curso, preterindo-o a favor da Licenciatura em Medicina Tradicional Chinesa.
Sou a maior fã da carreira artística da minha filha Inês e aprovo a escolha da Sara não só por ser uma das profissões do futuro mas também pela riqueza do conhecimento ancestral das ciências orientais que procuram o bem-estar através do equilíbrio entre o corpo e a mente.

-Nanda, é notório que o mundo caminha cada vez mais para o individualismo e para a violência, em todos os sentidos. Além disso, os preconceitos se parecem mais com tentáculos imbatíveis! Diga-nos, o mundo ainda tem jeito? Espalhe para nós aqui, algumas diretrizes a partir deste seu enorme coração.

Quando o homem se consciencializar de que os bens materiais não chegam para o fazer feliz e se voltar mais para o seu interior, na busca do seu Eu Superior, onde finalmente encontrará a paz na sua própria essência.
Ao escolher viver na luz da sua centelha divina sentir-se-á pleno e feliz e aí deixará de viver de forma egoísta e adoptará o altruísmo como forma de se realizar e sentir útil a todos os seres da criação.

-Qual o grau de importância que você atribui ao luso-poemas para o seu crescimento como escritora?

O Luso é para mim um veículo de partilha da arte escrita que me permite crescer como pessoa valorizando e fomentando amizades e uma fonte de aprendizagem diária e a possibilidade de divulgar a minha poesia.
Agradeço à Luso Poemas os momentos mágicos que me tem proporcionado e a ti Edilson por te teres lembrado da minha humilde pessoa.

-Quem é o seu luso do mês de Agosto?

O meu luso do mês de Agosto é António Paiva.
 
O MEU LUSO DO MÊS DE JULHO É NANDA

Duo

 
E no tear do acaso

tua linha

sobre a minha.

Minhas mãos nas suas...

Suor gentil:
o poema gozou!
 
Duo

POEMA SOBRE A SIMPLICIDADE DE UMA VIDA VIVA

 
No armário de cedro-branco
Sua coleção de camisas
De mangas compridas
Gastas, descoloridas,
Engomadas a favor do sol,
Impecavelmente penduradas.

No rodapé do quarto
Pequeno por terminar,
Suas botinas de couro
Amareladas pela ferrugem,
Pisam com o solado do calcanhar
O chão gelado de vermelhão.

No prego da parede musgada,
Seu chapéu panamá
Meio de lado,
Refrigera a parede
Descascada, parada.

Rindo do próprio corpo
Debilitado,
Seus olhos por onde
Aprendi a olhar,
Vestem-se com a brisa da tarde
E varrem as folhas secas
Calçando os pés inchados.

Na lembrança,
As ferramentas
Do desbravador de tempos:
Caneta,
Machado,
Enxada...

Vida:
Sob a sombra sagrada
Da paineira
Estalando painas,
Réstias de neve tropical
Voam livres pelo ar,
Sobre seus cabelos raros.
 
POEMA SOBRE A SIMPLICIDADE DE UMA VIDA VIVA

Flash de uma noite

 
O que eu queria
era tão simples,
era tão forte,
tão certo...

( Exato )

E, por ser tão simples,
tão certo e tão forte,
coube na maturação dum olhar
e nos esbarrões dos toques das mãos.

Coube
num abraço e num beijo.
Coube num poema mudo,
sussurrado apenas
pelos ais da última noite.

O que eu queria
era tão forte...
E virou antologia.
Flash.
Inspiração repentina.
 
Flash de uma noite

UM POEMA EM DOIS OU PARA DOIS

 
: - Amor,
dê-me
as pontas finas
dos seus cabelos
para que eu possa
dar um nó no indicador
da mão direita,
para que nunca mais
acorde tateando
linhas do tempo
num caco de espelho,
amor, dê-me!

Amiúde
rimo
os pormenores
desta vida
com palavras,
com gestos simples

Para que jamais decore
só,
um só caminho para a plenitude.
 
UM POEMA EM DOIS OU PARA DOIS

A rima

 
Leio o chiado da tua voz
Nas linhas das minhas mãos.
Meço as pegadas dos meus pés
Nos sapatos que agora tem!

Aplico uma finta no tempo
E mergulho de cara barbada
Na face lisa do nosso vento,
Da nossa brisa amornada...
Eternidade de vida sonhada!

Atos de amor repetido?
É...
Pois a rima jamais irá acabar!
Somente de tempo mudar
E de novo:
Te amaria,
Te amaria,
Te amaria,
Até para sempre amar...
 
A rima

O homem que passa

 
O homem que passa
Entre outros homens,
Trazendo na menina
Dos olhos
A relatividade do tempo,
Deve ter sonhado,
Talvez se desencantado.
O homem que traz
O tempo desafiado
Na menina dos olhos,
Deve amar muito.

O homem...
O mesmo que passa
Entre outros homens,
Olha para o único homem
Que o observa escondido
Por detrás das lentes,
Das hastes e do poste
E pergunta com os olhos:
O que está sonhando?

E passa,
Sorrindo com os ombros...
 
O homem que passa

PORTA

 
Sentei-me no meio-fio
lendo a bíblia em miniatura.
Li Jó, Paulo e João
enquanto amassava uma latinha
e mais outra de refrigerante
nas costas da outra mão.
Debrucei-me nos joelhos,
escondi as lágrimas
e não dei boa noite ao homem
que passou sobre minha sombra.

Minha mãe cega e dopada
com um terço entre os dedos
deitou-se num banco gelado.
Não reparei se dormiu.
Minha irmã chamou um táxi
não sei exatamente para que,
enquanto meu irmão em choque
balbuciava uma reza
e o outro, ainda na estrada,
não chegava, nem nunca chegou.

Uma fila de anjos sem cabelos
entrou num prédio grande e azul
e um deles, antes de entrar,
olhou-me e sorriu encantado
ao ver as latinhas amassadas
que eu atirava na árvore
que já começava chorar o orvalho...

A madrugada chegou depressa.
Adormeci nos meus joelhos
e sonhei com a morte dando bom dia à vida.
 
PORTA

Nas painas da inocência

 
O sorriso ou o grunhido de dor
da paineira despida de espinhos,
vestida com casca fina sem puas,
estralava na primavera,
no rachar das painas.

O esboço dos sorrisos,
riscava-se em traços abstratos
no cantar das canelas em carreira
na grama orvalhada,
quando os dedos pequeninos
se encontravam.

Tríade inocente:
duas mãos
amaciadas pelas fibras
brancas das painas...

Que escapavam e flutuavam
no vento calmo até um ponto qualquer,
formando um travesseiro gigante.

E, nele,
os sorrisos completavam
a obra única.
Peitos arfantes.
Olhos
olhando para o nada...

Nada?
Ah,
tentando adivinhar,
o mais profundo dos olhos
do outro.

Lembra?

É que a gente brincava
crescendo assim...
 
Nas painas da inocência

Três

 
Na mesma pegada
Que um dia cravei,
Páre.
Ouça...
E escutará a santa mãe
Lhe dizendo de toda
Nossa história,
Sem adulterar
E nem culpar
Nossa polida memória.

No mesmo banco
Que um dia sentei,
Senta.
Olhe...
E verá os olhos tristes
Do menino sonhador
Lhe apontando
Para o caminho sinuoso
Do morro, do céu da paz.

Na mesma escadaria
Que um dia descansei,
Descanse.
Olhe!
E verá a montanha azul
Sendo beijada
Pela nuvem branca...
Lhe mostrando
O contraste,
A infinidade
E a certeza da cumplicidade.
 
Três

DIZER...

 
Do meu cansaço
E da minha dor nas costas
Por andar fazendo força
No telhado da casa que herdei

Das lágrimas que chorei hoje
Depois de ler um poema do Gullar
E por ter usado na construção do telhado
O chapéu que guardei do meu pai

Que ontem cortei os cabelos apavorado
Por ter enxergado dois fios brancos
Na barba do queixo
Que estou evitando cortar

Da vontade de deitar no seu colo
Trazer seu gato pro meu peito
E daquele meu jeito
Cantar nos seus ouvidos
A música que só eu aprendi desafinar

Que hoje e nem amanhã vou sair
Por causa do que vi no espelho
E da goteira no meu forro
Que está terminando as formas
Do coração ocre vermelho
 
DIZER...

Poema de pó e concreto

 
O poeta planta suas pegadas
nas infinitas terras que anda.
O poeta planta devorando
os caminhos
de concreto,
de barro,
que se afunilam nos confins
de um mundo deitado,
conformado.

O poeta planta cascas
na carcaça.
Por isso é cascudo,
acostumado
com as balas de festim...
E com as flores de um dia

que se abrem,
piscam e morrem
nos caminhos dos jardins.

O poeta planta.
Segue...
E traça
linhas imaginárias
que se convergem
nos horizontes deitados.

Ponto de fuga?
Que nada!

O poeta só,
busca um ponto de chegada!
O poeta só,
está um tanto que cansado...
Mas, ainda crê,
na misericórdia dos répteis!
 
Poema de pó e concreto

CENA

 
Eu vi o tormento do homem.
O homem ainda menino
Sem pêlos e marcas no rosto
À procura de uma pegada,
Dum banco sozinho fincado
Ou qualquer coisa do chão.

Eu vi o tormento do homem
Espremendo a gola no pescoço
E as árvores sem brisa
Roubando-lhe o céu.
O vi com os cadarços desamarrados,
Com a calça sem cinto caindo
Soprando os lábios finos partindo...

Eu vi o tormento de todo mundo indo
E o homem ainda menino
Com livros e manifesto,
Arma-panfleto nas mãos.
Não sei mais da cena vista
Pois meus olhos também procuravam
Qualquer coisa do mesmo chão.
 
CENA

Traços tênues

 
Sobre os traços de luz
E sombra
Que esboçam tuas formas
E jeito,
Estreitei minhas linhas
Com versos tênues
Em estância única.

Apaguei as entrelinhas...

Para continuar dormindo
Aninhado sob tua asa-branca,
Sonhando com um esboço
Eterno de mim.
 
Traços tênues

Do porto

 
No porto a mãe abraça
A filha pequena
Magricela, amarelada de susto.
A filha dos cabelos espatifados,
Despejando filetes de fios dourados
Na face melada de terra,
De doces caseiros.
A filha mais amada...
Que chora à partida do irmão,
Ao aceno do paninho de travesseiro.
O mesmo paninho,
Compartilhado em tantas noites de frio,
De guerra de risos, cobertores,
De abraços de proteção.

No porto, junto à mãe e à filha,
Uma noiva sentada no chão
Acende uma vela branca,
Para alumiar as velas que partem
Rangendo cordas, dentes,
Ganhando águas.
E aperta a vela branca nas mãos
Pressionando calor no colo oco!

[A mãe canta os perigos
Do mar, do ar,
As dores de amar]

A vela se apaga derretida.
As velas somem nas distâncias
Escondidas.

Mãe, filha e noiva vão.
Vão...
Em vão?
Não dormem aos lamentos
Próprios das almas
Rasgadas e suadas de sangue!
Não dormem anestesiadas
Pelas lágrimas salgadas
Que despencam
Em cataratas de aflição!

Mas, o dia sangra!
E sangra novamente
E novamente
Esgotada-mente:
E o pensamento
Há que dormir,
Em águas onde os pés
Caminham descalços.
 
Do porto

SOB OS SAPATOS DOS POETAS

 
Lá vai o poeta
devorando o pó do chão
atrás dos retirantes
de João Cabral de Melo Neto
vendo os girinos girinando
futuros sapos
tataranetos dos sapos
de Manuel Bandeira
no fresco da noite
lá vai o poeta
fulminando estrelas
que cirandam no céu
espremendo da lua
não a magia
mas o sumo ardido
direto para os olhos miópicos

Lá vai o poeta amarrando os cadarços
dos poetas
no limiar do perfume e da carniça.

*Para quem não conhece, sugiro as leituras de "OS SAPOS" ( MANUEL BANDEIRA) e de "MORTE E VIDA SEVERINA" ( JÃO CABRAL DE MELO NETO)
 
SOB OS SAPATOS DOS POETAS

Copo de cristal

 
Na manhã e nos jornais de hoje,
Por entre as paredes de vidro fino,
Nos becos
Ou num copo de cristal de luz
O poeta conduz,
O poeta é conduzido
Até a noite com gosto de choro.

Silêncio...
Vertigem
E inversão:
Preservados os hímens
Dos teus olhos virgens.
 
Copo de cristal

EMBARQUE

 
No terminal rodoviário
ônibus e plataformas,
cheiro de óleo diesel
e o destino anunciado na voz da moça
que muda o sotaque a cada embarque,
escondida em algum ponto no alto.

No terminal

Um ninho de pomba doméstica
no zinco do teto,
um chafariz desativado
e bancos envernizados
estampando os nomes dos doadores
com letras garrafais.
( Doadores conhecidos que lêem jornais,
ministros de igreja.
Conservadores de siglas e santinhos)

O poeta não ouve o destino
em voz alguma,
nunca ouviu!
E permanece na cantina do terminal
tomando uma bebida
(qualquer uma, como o leitor quiser)

E nada lhe parece mais lindo
porém, triste,
do que a menina linda
de cabelos maltratados
e roupas em frangalhos
passando os olhos trincados
nas comidas fritas,

Enquanto parece reinventar seu destino
(e de quem a observa)
sorrindo para as propagandas
das latinhas de refrigerante
que recolhe do chão.
 
 EMBARQUE

Barro

 
Além do olho sem barro
o deus sem milagre,
o deus sem pecado,
sem excessos e acessos,
o deus sem secretarias.

Além do olho sem barro
o deus que abraça o ateu,
o deus despejado do céu,
o deus chovendo do pó.

Além do olho sem barro
o deus falível, visível,
o deus que pula de pára-quedas,
o deus do possível,
o deus da camisa molhada.

Além do olho sem barro
o deus que evita um abraço,
o deus que cai na folia,
e canta com o irmão poeta, Zé!

Além do olho sem barro
o deus curado da insanidade,
o deus que rasga o diploma,
de serviço social.

Além do barro no olho
uma brisa,
um sol,
um mar.
Pedidos.
E o deus em casa enfadadiço,
sonolento,
dando canetadas.

Além do barro no olho,
choro.
Sorriso.
E o deus justo, dormindo.
 
 Barro

Sangrando promessas

 
No meio de tantos mundos,
Dobrando os joelhos no chão
Em carne viva, nesta vida,
São tamanhos os desencantos,
Que o homem não ouve
O despertar do relógio
Aumentando a corrosão do
Seu pulso.
Nem mesmo se lembra
Da estaca imaginária
Que fincou um dia
No tronco do cedro
Para desmarcar qualquer limite.

Esqueceu as serestas benzedeiras
Do tempo,
Que embalavam seus sonhos
Desde menino...
Então, face ao sangue minado
Dos joelhos sangrando no chão,
Derrete uma pastilha de pão na boca,
Dança nu sob o luar em volta do fogo
E fuma uma bomba de haxixe,
Enquanto o sono entorpecido
Traveste-se de estrada...

O homem? Bem...
Peregrina em desespero,
Após invocar um poema ecumênico.
 
Sangrando promessas

Edilson José