Poemas, frases e mensagens de Garrido

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Garrido

Ocio

 
O ócio encurva, o trabalho endireita.

Garrido Carvalho

Maio '10
 
Ocio

Para Ti

 
Para ti, que vives só, comigo,
Para ti, que amo só, contigo.

Enches-me a vida de mil cores,
Ofereces-me o arco-íris,
Delícias delicadas de sabores,
A cidreira, a salsa e o anis.

Um segundo apenas, de magia,
O conhecimento é fecundo,
Nos teus lábios um sorriso, alegria,
É completo o meu mundo.

Garrido Carvalho

Março '08
 
Para Ti

O Desentupidor de Canos e a Frustração

 
Haverá algo mais elementar que o desentupidor de canos?
Há. Mas não é disso que vos quero falar.
Haverá algo mais frustrante que não saber usar tão intuitivo instrumento?
Há. Mas não me lembro agora.

Aparentemente evidentes,
Podem abrir o sorriso a muita gente,
Tão estapafúrdias perguntas.
E é verdade me fazerem corar,
Talvez porque vos imagine
Desprezar tão simplório pensar.

A verdade, Se uma existe,
É a complicação de entender
Quão complexo é o universo,
Mesmo para coisas tão reles,
Impondo-se-nos a cada momento.

Tudo se inicia num problema,
Nem simples, que desses não há,
Nem complexo, pois evidente,
E incómodo até:
Ai a sujidade que se não some!

Num repente, degenera em dois ou três problemazinhos,
Ainda antes de resolvido o padrasto deles!

Com a afamada ventosa na mão:
- Ai que vai disto, e com isto há-de ir!
Mas será que vai? E não é que custa a ir...
Empurra-se, injectando uma golfada de água
no esgoto... Sem efeito... Empurra-se de novo...
Ainda sem efeito... E outra vez... E nada?

Raios!
Também os desentupidores deveriam
ser vendidos com livro de instruções!

Imagine-se o funcionamento da geringonça:
Imagine-se o fluxo da água no cano, forçada
pela sobre-pressão da campânula, acelerando...
Imagine-se o efeito do rápido refluxo. Invertido
O sentido, a depressão... abalando, remexendo;
Imagine-se agora um rápido sacudir (o segredo),
Agitado, quase frenético, quase tremura!

Eis o turbilhão!... Eis o turbilhão!
Arre!... Passou a frustração!
Afirma-se a auto-confiança,
sacudindo a vida e a esperança.

Garrido Carvalho

Junho '09
 
O Desentupidor de Canos e a Frustração

Uma flor!

 
Uma flor!
 
Uma flor!

Reclamo luminoso,
Doce odor.

Porque morre uma flor?
Obstinação das plantas,
E gastou Deus a imaginação.
E num repente...
Esvai-se o seu fulgor.

Sacrificam-se em prol de miríades
De sementes espalhadas à sorte,
Ou se esgotam sem fecundação.
Todas se cansam de nos olhar.

Porque morre uma flor?
Sacrifício de renovado esplendor.

Garrido Carvalho

Junho '09
 
Uma flor!

Silêncio

 
São parcas as palavras do silêncio,
Apenas as estritas e necessárias.

Voam amorfas, palavras hertzianas,
Pairam ao cimo das nossas cabeças.
Ruído trovejado de mar tempestuoso,
Na iminência de naufrágio tenebroso.

Tenta cada um, insuflar o seu balão,
(Enche mais, tanto mais ocas as palavras)
Até rebentar inchado, em mil farrapos,
Como na língua ter uma bola de trapos.

Abdique-se da sobre-razão de si mesma,
Sentindo o pensamento, sem pensar
O que se sente, sendo razão ela própria,
Sem forjá-la, sofrendo a vida sóbria.

Como as crianças, fechar a boca à chave,
Só abrindo para engolir a complexa cifra;
Só abrindo pela força maior do riso;
Para sempre, sem nunca ganhar juízo.

São parcas as palavras da tranquilidade,
Cristalinas, reflectindo apenas verdade.

Garrido Carvalho

Janeiro '09
 
Silêncio

A Loucura da Poesia

 
Todo o poeta é louco,
Pelo menos o sincero,
Vivendo da honestidade.

Também pudera!
Cantar o triste, contente
De ter no peito uma dor refulgente,
De sentir, apertado, o cerco da morte
E o sofrimento da sorte.

Concerteza louco!

A loucura de estudar mais precisamente que o cientista,
Enumerando, uma a uma, todas as dores;
De melhor cuidar os humores que o psiquiatra,
Revelando os estados da alma e os dissabores;
De lutar por um mundo mais justo que o bom juiz,
Julgando no bico dos pés, como um petiz;
E ensinar o professor a aprender,
aprendendo às custas do ouvir, chorar e ver;
E ainda, ambicionar mais paz que o santo,
Às vezes, sem ela no coração, nem a um canto.

Não há Homem assim douto,
A não ser um louco!
E maior loucura, é viver sem poesia.

Garrido Carvalho

Maio '09
 
A Loucura da Poesia

Inquérito aos Pés

 
Movem-se os pés,
Um após outro.
Rápidos!
Ronceiros...

- Para onde ides pés?
Sabeis vós qual o caminho?

Quererão seguir os pés,
O mesmo carreirinho
Que a ideia quer trilhar?
Seguirão o rebanho,
Tocados pelo cajado do pastor;
Ou irão livres e despassarados,
Ou libertinos desarvorados?

- Sentis o equilíbrio pés?
Conheceis vós tão fina linha?

Haverá maior firmeza
No instinto, alma minha,
Que o vínculo animal?
Selvageria frenética,
Furiosa antropofagia;
Ou consciência pessoal,
Ou positivismo social?

Sei bem que não!
Não sois assim conhecedores.
Sois apenas pés,
Pés com os pés no chão.

Garrido Carvalho

Setembro '09
 
Inquérito aos Pés

As Voltas das Serpentinas (I)

 
Três dias. Três dias de festa. Ano após ano, reina a folia, mesmo para personagens menos prováveis. Aliás, o caso do Anselmo. Trezentos e sessenta e dois dias fazendo pela vida. Três para jogar ao Carnaval. Anselmo é homem pacato e esmerado. Para sua glória, disse-lhe um dia a Rita: - «Ai que original!» A exclamação soava a falso. Ir no corso com a associação cultural, dava-lhe uma pincelada de cor, ainda longe do arco-íris. A imagem do homem, alguns anos de trabalho em comum e muita conversa de circunstância desenganavam quase todos. Chegava a ser irritante, o anúncio do próximo aparelhinho de brincar, quando cantarolava as músicas da rádio mais ouvida, ainda sem alguém as ter notado, ou quando divulgava, pomposamente, o lugar mais badalado para beber um copo, uma reminiscência dos tempos juvenis. Um gosto popular, sem o ser ele próprio, pelo menos tal como gostaria.

Garrido Carvalho

Carnaval '10
 
As Voltas das Serpentinas (I)

Da Minha Janela

 
Vejo o mundo da minha janela,
Como o melrro na gaiola,
A cantar o seu enfado.
Da minha janela,
Vejo apenas a minha rua,
Ouço passos de gente,
Aqueço-me ao sol e à lua.
À minha janela,
Provo o doce e o amargo,
E meço a bondade pela altura,
Se é franca, e o que dura.
Me parece, da minha janela,
Que minha mão não auxilia,
Suficientemente,
Quem dela precisa um dia.
Que minhas palavras não reforçam,
Sufucientemente,
O juízo que os inocentes clamam.
Entra-me o mundo pela minha janela,
E o cheiro da minha rua: sofrimento e alegria.
E o que mais admiro nela,
É poder fechá-la ao fim do dia,
Quando estou cansado,
Desligar o botão, aliviado,
E ler então,
Ler o mundo devagar.

Garrido Carvalho

Janeiro '09
 
Da Minha Janela

Um Sopro de Vida

 
 
Ando nervoso. Há já uma semana, o meu pai perguntou-me se podia ajudar. No imediato surgiu inquietude, que se estenderá longo tempo em mim. Disse sim de pronto, apesar de tudo, sabendo que nestas alturas toda a ajuda é pouca. A idade pesa-lhe, mesmo que a lida do campo o mantenha bastante desempenado. Este ano, também ele me parece preocupado, incerto na empresa a que nos propomos. Certo é o tempo, o Inverno avança, traz o frio necessário.

Em jejum de dia e meio, o porco aguarda a sorte, estranho à penitência. A pia e barriga vazias são regime desconhecido, pois, nunca lhe faltaram batatinhas, milho, abóbora, e outras iguarias. Duas vezes ao dia, fizeram dele um bicho alentado, se bem que um tudo-nada largo. As pás altas podem complicar a salga, colocando em risco o investimento. Com antecedência de quinze dias, um vizinho está apalavrado para passar cá em casa. O dia começa cedo, com alguns dos preparativos tardios. À chegada do matador tudo está pronto. Conhecidos de longo tempo, todos se cumprimentam, trocando curiosidades, informações meteorológicas captadas nos ossos, e dados da estatística agrícola da aldeia. Enquanto se apura o gume das facas, o bicho ruge no cubículo, lembra a sorte de outros que, libertando-se dos seus castigadores, fugiram a sete pés, encontrando a sorte mais adiante. Definem-se os do ataque, e os do contra-ataque. Um amigo possante, firmará as patas dianteiras. Pela primeira vez, a minha força deve dominar o chispe de trás, que fica solto. Cabe ao meu pai amarrar o pé que fica preso. No alguidar, há-de segurar a minha mãe.

À mesa, no domingo, dois dias depois do fatídico acontecimento, é uma fartura. O almoço começa com umas papas de sarrabulho. - De bota abaixo! Como dizia o meu avô. Seguem-se um arroz seco, com os miúdos e sarrabulho salteado de cebola, alho e salsa, acabados de sair do fogão a lenha. Na hora dos rojões, louros e mimosos, os que dão o nome à festa, já nem apetece mais que, umas rodelas de laranja e uma salada de alface. No sal, bem atafulhadas e cobertas, ficaram na véspera duas pás de respeito. Irão completar a cura no fumeiro quando os salpicões estiverem prontos. No cimo da caixa da salga, dois lombos apanham um laivo de sabor, apurado em breve, em vinho de alhos. Ensacados em tripas, muito bem lavadas, darão ricos lanches no verão. Em equipa, a desmancha do animal foi rápida. Diz o povo, queres conhecer o teu corpo, mata o teu porco! É bem verdade, ambas as palavras até usam as mesmas letras.

Na sexta-feira, o serviço ficou em suspenso, quando erguemos o animal, já lavado. Ficará um dia a arrefecer, na frescura da noite. Foi aberto, a bisturi preciso, e fez-se rolar as entranhas na almofada de carqueja. O pêlo, tinha sido aparado, barba cortada à moda antiga, depois do banho. O único da sua vida! Passado a sabão e escova com afinco, na tentativa de remover bem mais do que a sujidade. Talvez o vermelho do sangue, e o chamusco. Dantes, a queima da pelagem, era feita com moliço de pinheiro. Agora é bem mais simples, com o fogo controlado no maçarico. Ligeiramente crestado, raspado, esvaído em sangue… às golfadas. Na lâmina da faca, surgiu um fio, aquecendo o aço. Rápido, propagou-se, tingiu a vermelho a mão e o braço musculado. A tensão é visível, no movimento definitivo do punhal, rasgando a vida. As golfadas engrossam, a vitalidade esvanece-se, lentamente. A força diminui, os pedidos de clemência sufocam, chega um cansaço mortal. Destinado, vem a última inspiração, e… o último sopro de vida.

Garrido Carvalho

Abril 2008

História que escrevi para o programa "História Devida", da Antena 1, lida na rádio em 23 de Junho.
 
Um Sopro de Vida

Tu...

 
Tu...
 
Um poema deixado ao vento,
Na lonjura de um Oceano,
Te leve em menos de um ano,
Aquilo que diz meu sentimento.

Quem muito ama diz que saudade,
É sempre presente no coração.
No meu, há grande atrás de grades,
Vai muito além do astro Plutão.

Surpresa encontrar em Alcatraz,
Diamante que não conhecia,
E daí, perfume a maré traz…

Construir estradas, uma ponte,
Para quebrar esta distância,
Enfim, olhar-te no horizonte…

Garrido Carvalho
Outono ‘04

O primeiro poema para a mulher que está em primeiro no meu coração
 
Tu...

Pensamento Simples

 
Quando crianças, descobrimos o mundo a partir das coisas simples. Quando adultos, temos oportunidade de descobrir a simplicidade.

Garrido Carvalho

Maio '09
 
Pensamento Simples

Paladares

 
Gosto do gosto,
de gostar de ti.
E como é bom o paladar,
de um beijo amado,
que me vem provar,
o coração escravizado.

Gosto do gosto
da cereja, vermelha,
Que flameja.
E degustar... E degustar...

A fruta mais exótica,
é insossa e banal,
Se te provo ao natural.
E o ácido do ananás,
huefff....
É calafrio gostoso,
frescura gutural
de carinho saboroso.

E um dia... Um dia,
Somente restaria
o amargo tenebroso,
Sem meu doce apetitoso.

Garrido Carvalho

Agosto '09
 
Paladares

O Fiel da Balança

 
Aferido, é metrologia
Testada, registo da balança,
Indica na maior confiança,
O peso exacto, fiel guia.

Nunca foge da pura verdade,
Física de homem incrédulo,
Ajuda em, com simples pêndulo,
Enfrentar a cruel gravidade.

Ignorante de outra resposta
Ao amor, não à força desleal,
Pura verdade sempre imposta.

Mesmo que respeitado em geral,
Traição pensada, e sem outra,
Balanceado desejo carnal.

Garrido Carvalho
Julho ‘08
 
O Fiel da Balança

As Marés do Marinheiro

 
As Marés do Marinheiro
 
Mar adentro até à praia,
Até à costa do teu sorriso.
De onde, um destroço embarcaria,
Se assim entenderes preciso.

Amo os peixes em cardume,
Que habitam o teu pensamento;
Ai... Se os pescam o ciúme,
Deste namoro ao firmamento.

Ainda me cheiram as algas,
Do mar negro do teu cabelo.
Afogo o amor, se ordenas suspendê-lo.

Se as marés para trás andassem,
Também eu, para trás recuaria,
Agarrar o mar, o que hoje conservaria.

Garrido Carvalho

Janeiro '09
 
As Marés do Marinheiro

Poesia (Definição segundo o Dicionário Enciclopédico de Português)

 
Poesia, nm LITERATURA. As concepções de poesia são muito diversas, segundo as épocas, os países e os autores. Defini-la é para alguns quase sacrilégio e não se pode dar mais do que uma ideia aproximada da sua natureza instintiva e irracional. O encantamento não é susceptível de racionalização: a poesia é fruto de um arrebatamento, de uma paixão, de um delírio que a lógica não consegue apreender. Por vezes, é mesmo aventura mística, que segundo Bremond chega a confundir-se com a oração. Para alguns a poesia é conhecimento. «É preciso chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos» - diz Rimbaud. E os parnasianos exaltam a aliança da ciência e da arte numa poesia erudita cuja finalidade é realizar a beleza. Paul Valéry insiste na palavra grega poiésis, cujo sentido etimológico é fazer, para ele, a poesia é fruto de um trabalho consciente. Enfim, para o surrealismo a poesia deve procurar o insólito. É tanto o instrumento de uma descoberta do inconsciente como o de uma libertação de servidões morais e estéticas. Comprometida, deve reflectir a imagem atormentada do nosso mundo.
Se da prosa é possível dizer que pode ter uma função utilitária (veicula informações, nomeia os objectos), para o poeta as palavras não são instrumentos: isto explica que ele crie uma linguagem específica, com regras próprias. O ritmo, a rima, a musicalidade, a imagem são elementos essenciais dela. O ritmo, ligado à respiração, traduz os sentimentos humanos, desde a brevidade do grito até às sinuosidades da melopeia. Toma a cadência do verso que, disposto tipograficamente numa linha, soma um certo número de sílabas, igual para cada verso, na poesia clássica. O ritmo marca as pausas do poema. Segundo a fantasia da sua inspiração, os poetas utilizaram diversas formas: a estrofe (ou estância), comparável ao parágrafo num texto em prosa, constitui um todo orgânico dentro do poema. Assim, na terça rima, os versos apresentam-se em tercetos (como na Divina Comédia de Dante). A quadra é correntemente utilizada desde a antiguidade (Epigramas de Marcial): estrofe de quatro versos, basta-se a si própria pelo sentido. A sextilha data do século XII: é composta por seis estrofes, todas com seis versos, e por uma meia estrofe de três versos no final; as palavras que rimam encontram-se em cada estrofe, mas numa ordem diferente. Um dos versos mais sonoros é o alexandrino, composto de doze sílabas. Diz-se que um verso é monosilábico quando cada palavra que o constitui tem só uma sílaba. Repetição simétrica de um som no fim de cada verso, a rima era na arte poética tradicional objecto de leis precisas. Além dos versos regulares, distinguem-se os versos livres, que os simbolistas, sobretudo, usaram. A extensão do verso e a estrutura da estrofe não estão submetidas a regras fixas como, por exemplo, no soneto. A emoção ou o devaneio dita o ritmo do poema. A rima atenua-se em assonância ou desaparece mesmo. Mas, para lá da música, as imagens e as metáforas (simples comparações, perífrases, etc.) acrescentam ao encantamento verbal um poder como que mágico. Como os poetas clássicos, Hölderlin considerava que a divisão em géneros era necessária. Distinguia a poesia épica da poesia trágica (ou dramática) e da poesia lírica. A poesia épica celebra um feito heróico. Compreende um argumento e põe em cena personagens fabulosas. A este género pertencem a epopeia e a balada épica, que era na Idade Média uma canção popular dançada. A poesia dramática compreende também uma história em forma de monólogo ou de diálogo. Tem correlação com o teatro (tragádia, comédia ou drama) e a ópera. A poesia lírica sobre os temas do amor, da morte e da fuga do tempo exprime a personalidade e a sensibilidade do autor. A elegia, a ode, o soneto pertencem a este género. A balada compõe-se de três estrofes de seis, oito ou dez versos, de medida e rimas idênticas. O rondel e o rondó são peças breves que compreendem só duas rimas e em que um dos versos é repetido várias vezes. Por último, o lai, criado por Maria de França, confunde-se facilmente com o romance em verso. A estes três géneros poéticos principais pode-se acrescentar a poesia didáctica, que procura instruir (fábulas, sátiras, epístolas), e a poesia bucólica, que descreve a vida campestre: a écloga, muitas vezes dialogada, inspirou os antigos: Teócrito, depois Virgílio, Petrarca e Ronsard. Nos idílios o tema é amoroso e pastoral.
A poesia acompanhou todas as transformações, sobressaltos e movimentos artísticos do século XX, resultando não na abolição dos géneros tradicionais, mas na recusa das suas convenções. O poeta moderno impõe-se as suas próprias regras: vê-se constrangido a inventar uma linguagem nova para lançar um olhar, também novo, sobre um mundo em transformação incessante.

Citado de: Dicionário Enciclopédico de Português, Editorial Verbo, S.A., 2006

Ainda não me satisfaz suficientemente esta definição, mas é um início...

Garrido Carvalho
 
Poesia (Definição segundo o Dicionário Enciclopédico de Português)

A Brisa Também É Tempestade

 
É suave a brisa,
- Murmúrio entalado -
A varrer a erva rasteira,
E vigorosos montados.

Abana uma margarida.
Dobra-se. Cai de joelhos,
Oca por dentro. Revoltada!
Parece suave, a brisa
Da insignificante mentira,
Dos pequenos equívocos,
Da intriga miudinha...

Garrido Carvalho

Janeiro '10
 
A Brisa Também É Tempestade

Perdão!

 
Perdão!
Grita o morto, já na tumba.
Estás perdoado!
Faz coro, o cortejo aliviado.

Não há santo sem pecado,
Quem aprende sem errar?
Dívidas todos temos,
Todos temos de as pagar.
A mim não!
A eternidade não desculpa,
O medo não redime,
A consciência não alivia.

O livro dos assentos,
Quero livre de faltas,
Como riscar apontamentos,
Sem a morte fazer contas?
Cada dia que passa,
É uma oportunidade mais,
Findar a hipocrisia que grassa,
Perdoar família e os demais.
Perdão só há um,
Perdoa sem condicionador,
É o amor e mais nenhum!
Mas… quem perdoa o amor.

Garrido Carvalho

Março 08
 
Perdão!

Perspectiva de Marciano

 
Como gostaria de ser marciano!
Com três olhos, longe o bastante,
Para ver com clareza a terra errante,
Recortada no azul do oceano.
E com orelhas grandes, afiadas,
Detrás de cacofonias maradas,
Capaz de distinguir o silêncio.

Como gostaria de ser marciano!
Entender o bicho Homem, a razão,
De tanto afã, tanta movimentação,
A pressa de ir ao fundo pelo cano.
E desesperados, ainda mais apressados,
Sem norte, tontos desbaratados,
Ininteligíveis da doce quietude.

Como gostaria de ser marciano!
Difundir ondas de pensamento,
Não menos que sobre um cento,
Iniciar a procura do eu humano.
E com sinos, do limbo despertar,
Senti-la na mão, a terra amar,
A casa que Deus nos arrendou.

Ai, como gostaria de ser marciano,
Em vez de mísero verme mundano.

Garrido Carvalho

Junho 2008
 
Perspectiva de Marciano

Miserável Felicidade

 
Ser felizes todos queremos,
Com dinheiro e ostentação,
Brilho, Luxo e sexo. Teremos
Muito requinte e afirmação!

Por oposição, algo diferente,
De espantar o pobre e o rico,
Ser feliz de estar contente
Sem sequer ter um penico.

Sou feliz e miserável,
De meu, só tenho isso,
Alegria muito admirável
De pobre excelentíssimo.

Sem nada, era em tempos,
Paupérrimo agora mais!
Cheio de amados momentos,
E vós letras, que me ajudais.

Garrido Carvalho
Julho ‘08
 
Miserável Felicidade

Boa semana!