Poemas, frases e mensagens de pttuii

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de pttuii

de azuis silêncios

 
fazes-me quer o
sim,
quer o não,
talvez o possível
de entre qualquer
coisa para ser
muito pouco
de assim-assim,...

e ao anoitecer de
dias infindos,
perto longe das
partes metades
do todo
que coça a
noite nos rebordos
do teu sorriso de dia,....

e para o fim rochas
agudas em notas
mudas de discos
opacos de qualquer coisa para afinar portentos,......

de azuis silêncios...
 
de azuis silêncios

Mónico Leu o Whiski

 
Melena cor de chumbo,
pôpa, mulher, pôpa,...
e um pinguinho de condicionante,....

Saia com baínha,
que íman com ladaínha!!!
Nódoa, mulher, nódoa,

Transparente, em azul,...
Nódoa que joga na névoa,
com rimas de mau prestador,...
Serve-o, mulher, serve-o,...

Conselhos:
Pedra-pomes,
Pensos,
Gravilha,....

Joelho de velha,
rima com espírito
de telhado sem telha,...

honra?....

Como tremoços ao pequeno-almoço...
Nunca palmadinhas nas costas.....
 
Mónico Leu o Whiski

Xadrez de agonia

 
De um xadrez impessoal,
suaram sonhos amarrados,
com torres de escárnio colorido,
de ponta a ponta desprezíveis,
Rainha morta, mas puta de mãos duras,
Bispos alienados com rezas
de cicuta para desertar fés
incompreendidas,
Fiz-me cavalo de sussurros
aquáticos,
abraçado pelo sol desnivelado, quente,
que sem mãos faz
mais que um abraço
forte do mais belo sorriso
imberbe,
que já não sei o que criei
para me afirmar como brasa,
sinto-me sal,
de peito cristalino e derreado,
a lonjura de uma alma temperada pode ser,
deve ser,
a meia gente simples que
me falta para nunca
voar pelos limites do bairro
de mim,

acordo a saber a mal,
com o sangue que não corre,
com o cheiro da desfaçatez,
pedir sono de uma paz marcial,
será o que me resta para
voar a menos que
o xadrez em que me
transformei.....
 
Xadrez de agonia

Comoção

 
e eu que me comovo,
só por ver homens bons
de insulto a reconhecerem
impropérios como ajustes,...

como um escuro mais profundo
de se comer na noite em que
a vida desfaz o que se desfez
e desconjunta o que perfaz somas
desnecessárias,...

e eu que me comovo de mais
quando um zangão pousa
no ombro do velho que vive
de repreensões,...

o tal senhor do café que
quando aparenta desmotivação
prende-te com resguardos
de ódio,...

a tal criatura desprezível,
a que nunca primou por
simpáticos redondéis de
criatividade,
e de repente,
bolsa amor....

e eu que me comovo
simplesmente por respirar,
desnatada conferência de
tropismos contrários ao
sentir de solavancos feito,...

e eu que me comovo,
por o que resta do lúpen,
pelo que fica
da chuva práxica....
 
Comoção

Rúcula e jasmim

 
tronco de água iluminada
a minutos
de fluir a chorar
com sorrisos
de preto
de branca
de pessoas
à espera de saturno
com anéis
que com menos
de esperanças mortas
ligam se
dermos de nós....
 
Rúcula e jasmim

Um problema que não chegou a ser

 
Foi o vício. Nem tanto o deboche. Antes o anafado sentimento de ser tudo, quando os outros nos chamam cenário que esteve perto de acontecer. Foi a perfídia de ser inútil. Coisas mal apessoadas, arraçadas de besta. Ornamentos invisíveis a pentear o desleixo. A falta de atavio dos derrotados das 23h59. As pessoas que nem chegam a ver o dia nascer e morrer em meio segundo. Punha-me em desnível de consciência se aceitasse o que se passou como inevitável. Foi mesmo mau. Mas um mau mais ou menos. Das plenas realizações dos empreendedores, quando lhes tiram a certeza de que o mundo são eles sozinhos. E nunca uma soma deles todos juntos. Mas por menos bom, optei pelo seguro do sentir-me mal.
 
Um problema que não chegou a ser

Palestra com paleta sem cores

 
Se eu começar a fumar, simplesmente ignorem-me. Luto por ser politicamente incorrecto, e nada melhor que subir a esta tribuna, e sacar de um cigarro. Estou consciente do meu trajecto enquanto ser que respira, e pensa às vezes. Já nasci, talvez seja este o meu apogeu, e não tarda nada começará o meu declínio. O círculo desenha-se lentamente, e fecha-se no dia em que se sente o clique. Segue-se a escuridão, e do lado de fora um lamentado 'desculpe, mas este é o meu dever. aqui estão as chaves'. Ninguém ainda me garantiu que morrerei porque antes deste cigarro, já me passaram milhares pelos lábios secos, e com certeza mais passarão. Quando sentir o ranger das cordas, nas quatro estruturas de pinho em meu redor, com certeza que não me porei a pensar que o meu fim esteve pré-definido no dia em que simplesmente disse que sim ao grupo, e comecei a fumar. Mas apetece-me hoje estar aqui a falar sobre isso com vocês, porque teorizar sobre o acto de fumar, é o mesmo que discorrer sobre o imperativo categórico de Kant. Impõe-se, e nada há a fazer.
Sobre o amor, é que as coisas não são assim tão fáceis. O amor nada tem de filosófico, porque é subjectivo. E se um filósofo um dia teimou com alguém que estava a ser objectivo, com certeza que não o fez pensando em amor. Lamechices são aquelas transpirações que escorrem do amor, quando este se sente acossado. Uma explosão do nada criou o universo, e uma implosão do tudo fará com que ele um dia, desapareça. O amor é precisamente o contrário disto.
Quando o tudo se sente pouco inteligível, difícil de ser percepcionado à maior parte das sensibilidades, então aceita que lhe chamem amor. As partes tornam-se escorregadias, quando um carácter é tomado pelo amor.
Falando em evolução do ser humano, o amor até ajuda. Continuaremos todos aqui, enquanto um homem e uma mulher continuarem a embeiçar-se um pelo outro. Mas e se as coisas, mais uma vez, funcionassem no oposto desta simplicidade. Se perpetuar, fosse apanhar o primeiro gâmeta oposto que nos aparecesse pela frente, e ao fim de nove meses nascesse um fruto dessa animalidade? O mundo nunca foi antropocêntrico, por isso o homem querer pintá-lo consoante os seus apetites 'racionais', não será um pouco abusivo?
O que nos rodeia, o feio que nos repugna, o belo que nos deleita, é evolutivo. O homem será um ser espiritual no dia em que perceber que nada pode fazer para contrariar esta realidade, E a morte é prova disso.
A medicina é um reflexo do 'não quero ver, para não ter de chorar à conta disso' humano. Serve só para adiar o fecho do círculo de que vos falei, e que pelas vossas caras não se encaixou na percepção axiológica do mundo que partilham entre vós.
Agora adeus, e lembrem-se de duas coisas. Primeiro, Deus existe para vos livrar dos vossos falhanços enquanto auto-proclamado mundo antropocêntrico. E segundo, a vida é gira, vista de perfil. Se a virmos de frente, ficaremos repugnados com a verruga que lhe pende do nariz.
Querem saber como se chama essa disformidade? Psicologia. Não olhem muito para ela, porque eu já tentei. E hoje ganho a vida a dizer às pessoas que elas são realidades que, não tarda nada, desaparecerão.
 
Palestra com paleta sem cores

Cardamomo

 
Delapidado,
Desfeito de mim,
Se as tuas mãos que morrem,
a um reflexo das minhas...

Olhos maioritários de sentido,
olhos teus,
a morrerem nos meus,...

O quebranto grita por soltar
o que sempre afrouxou na tua pele,...

E a pensar,
no barbeiro que se dava,
à confissão alheia,....

Nada,
Seremos,
Talvez porque,
Saudade,
Sempre foi,
as ruas que foram...
nossas,...

Falta o ar,
para recostar,
nos apoiar,
em recantos próprios,...

Lascas ameaçadoras de aldeia,
a contar da curiosidade,
rasgada
de criança,....

Fruí,
Sim olhei o jasmim que te dei,
Odor de saber porque sim,
Porque as flores choram à noite,...
 
Cardamomo

Materialismo dialéctico

 
mordidos os fundamentos da inveja,
restam-te soluços ao sol
e um copo rachado de cola
sem borbulhas,...

dois pombos inchados e
gnósticos cheiram-te o calcanhar,
para depois fugir,....

a tarde morre desiludida,
há-de voltar,
mas fica a noite para te acocorar
em desilusões santificadas,....

continuam dois pombos,
já acomodados,
a cheirar-te o calcanhar,....

lês Vladimir I.,
não percebes as quantificações
de real que te entram pelos olhos,...

não interessa,
o real são dois minutos de pena,
e cinco segundos de heroísmo,
para depois,
morreres,....
 
Materialismo dialéctico

E o sangue?

 
era uma clemência de todas as cores,

um desnível na consideração
humana de fazer os possíveis,
quando os impossíveis são
nódoas numa camisa de anjo,...

quando julgar
deixou de ser
uma criança linda,...

quando proliferar,
são arrogantes a
deitar-se com mulheres
sem espírito,...

quando nomes vazios
passarem a ser moedas a
boiar no amanhecer da praia
do paraíso,....

recomeça o mundo,....

clemências cinzentas passeiam-se
a ouvir o fado em agonia dançante,...

o homem és tu,
sou eu,
mas nunca seremos nós,...

e o sangue?

talvez o sorriso de
inconsolado falhanço
que trazes pendurado
no teu regaço....
 
E o sangue?

Mena

 
Nunca se desdisse a frontalidade com que Mena pousava a alma em cima do mesmo bloco de granito, durante todos os dias que corriam em carreira. Chovia palha, quando a chuva não era mais que o que ela queria que fossem os sentimentos e as desditas. Ventava de menos.
Sim, a alma em cima de um bloco de granito, à beira de uma paragem desactivada de transportes públicos, eram coisas exangues.
E percebia-se que Mena nem sequer existia, porque o vento só reconhece quem tem coração que transpira estatismo eléctrico.
Apostou-se bem, quando ela um dia não apareceu, e o bloco de granito passou o dia nu. Sem a alma de Mena em cima. No dia seguinte voltou, e trovejava. Foram dois vencidos da vida, dois sublinhados pelo lápis invisível da morte, que lhe bateram nas costas para a felicitar. Esse foi o momento que Mena escolheu para se desfazer. Arrancou o único cabelo dourado da cabeça de rodilhas, e o ar foi subtilmente diluindo-se em volta dela.
Acabou por o mundo ver que Mena são dois dias que nunca se encontraram em si próprios, e fizeram denúncias simultâneas de incumprimentos metafísicos. Nasceu a discórdia nesse dia, e o ar concordou quando a matou.
 
Mena

África e o resto de não saber escrever

 
Desfrisei as palavras como cabelos de mãe preta desconsolada. Na tabanca um poema, para rede de lágrimas a cheirar a moamba, e debaixo do embondeiro....são soluços de improviso, quando a tristeza vai e vem nas pilosidades do vento quente. No cúmulo de penas, na falta de uma explicação para o entardecer que parece matar por prazeres descarnados, sentei-me. Torrei um acróstico no fogo-chão, e embriaguei-me com pensamentos kantianos que, nesta terra, são pequenas mordeduras de cobra no calcanhar. Servem para acordar, e servem para dormitar em cima de mosteiros feitos no ar. O Inverno nunca o conheci menos perfeito. Foi sempre Verão como hoje, como ontem, e talvez como no dia da minha morte. Pleonasmos estendidos nesta terra que cheira como perfume de vida recém-chegada ao inferno ardente.
 
África e o resto de não saber escrever

Pessoas que amam pessoas

 
pessoas que amam pessoas,
são as pessoas menos azuladas,
tomam banho, despem piloros,
têm hérnias quando comem tremoços,
e o mundo gira,
sem perdões incongruentes,
porque nem se importa,....

pessoas que desprezam pessoas,
choram com o fado mais brejeiro,
porque se importam,
querem convergências,
pulam com meninos simpáticos,
e depois,
assinam um cheque,
em moeda maldita,
para abater rebentos,....

pessoas que amam pessoas,
são bolas de naprons tricotados,
a balouçar nas patinhas de um gato,
para um fim que pede reflexão,
porque o mundo está pintado a lápis de cera...
 
Pessoas que amam pessoas

Assexuado

 
Desencaixou a carne do sémen. Era um desejo desenxabido que se escondia, que prendia os rebordos soltos da pele apodrecida.
Sentiu-se livre. Frugal, mas liberto para calcorrear a estrada. E se tinha cascalho debaixo dos pés.
Poeira e desejo de decompor um homem inexacto. Miúdo com pessoa madura dentro. Feliz por ter que desbravar. Desamparada a aspiração de retalhar a tristeza que apunhalava o canto esquerdo do coração.
Era uma doçura, que sabia mal.
Viu a mãe, que lhe deu um carolo violento, e prometeu que o queria a trabalhar se não desmanchasse tardes de desejos reprimidos. Abandonou-se, para reencontrar o brilho autonómico que estava perto de lhe tombar dos olhos, e cair na terra assexuada.
Andou, desandou, e o homem sem sair. Pelo meio, umas quantas fémeas que não reportaram nada de importante. Brotaram, em desconsolo, sedes de rios de sangue.
A família já eram raízes de árvores necrófagas, que desencrustavam da terra assexuada, procurando alimentar-se de carnes desavindas.
A madrugada serviu para cantarolar um desejo de eternidade que nunca chegará.
E o rio corre, prometendo enxaquecas.
 
Assexuado

Escrito sim, Vivido não....

 
vi gente a escrever
com polegares,
algarviadas,
assobiadas,
pela celeuma de dias pesados,...

a serem frutos carunchosos,
foram polpa de sangue,
porque vi desnorte,
senti composições fúteis
e de sentido inexpugnavelmente
triste,....

li até os olhos
me doerem mais
que maviosos ses colaterais,....

foram tertúlias que me
mergulharam para não me afogar,...

e no fim sol referente,
dias que laqueavam as
singelas tentativas de
mudar o mundo,....

pus-me de menos
por tentar cingir-me
em posição de feto
desiludido,...

nasceu o sol,
log-off, obra fechada,
e consciência morta,....

menos uma noite para
despedir o mim
feio e corrupto.....
 
Escrito sim, Vivido não....

Rosa e quem a vê

 
Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca.
Sem sal.
Incongruências que não há, quando se observa de perfil.
Salta à vista um golpe.
Não, dois.
Com certeza três.
Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula.
Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta.
E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente.
Observatório de emoções, não contundentes.
E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê.
Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar.
Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem.
A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado.
E Rosa vai voltar logo à noite.
 
Rosa e quem a vê

Até é boa pessoa....

 
Não me importo de esperar uns segundos depois de a lâmina entrar. Dá-me gozo, confesso. É dificil de explicar. Mas acho que se recorrer à minha recém-adquirida capacidade de poeta das emoções, consigo descrever a sensação como um 'flash'. Desde o primeiro milésimo de segundo, até que a última gota de sangue toca no chão, uma pessoa deixa de responder por ela. Não é que não se saiba o que se está a fazer. Sabe-se perfeitamente. Mas quem já me ouviu falar sobre isto, sabe perfeitamente o que eu quero dizer. Não pensem que eu tenho problemas em falar sobre aquilo que faço na vida. Se me tivessem que prender, já me tinham apanhado. Por isso, agora ando descontraído. Restam-me as memórias. Eu lembro-me da primeira vez que 'apaguei' um gajo. Foi para pagar uma dívida de jogo. Disseram-me que teria de ser rápido, mas de preferência com bastante dor. Eu não fazia ideia do que estava a fazer. Dás um punhal de fuzileiro a um miudo de 16 anos, e pedes-lhe para ele cortar o pescoço a um homem feito. As possibilidades de sair asneira são grandes. Mas eu safei-me. Lembro-me foi de ter deixado um rio de sangue atrás de mim. O tipo era gordo, e eu rasguei-lhe as duas carótidas para aí com uns quatro golpes. Ganhei uma pipa de massa. Hoje já não ganho pipas de massa. Digamos antes que ando a fazer o meu plano poupança reformado. A última contribuição depositei-a ontem no banco. Espetei uma lâmina minuscula, mas mortal, nos rins de uma senhora. O marido não suportava o peso que tinha na testa.
 
Até é boa pessoa....

Estou chateado, e provo-o

 
Escrever, para menos que viver. Será esse o antídoto certo para quem ilude o acto de criar, com o simples acto de viver? Mas será que resta alguma ilusão por descrever? Menos certo que o amanhã vir adocicado, é o hoje que somos obrigados a consumir amargo. Com todos os requintes de envolvência medricas que sublinham, a negro, os detalhes insignificantes da nossa vida. Aliás vida que, a existir, morre logo no dealbar de uma existência desnorteada.
Para informação coerente, que fique registado a minha opinião pessimista. Nem sequer penso chegar a qualquer das ilusões poéticas que já criei. Não passo de indecisão. Como o próximo, comisero em doses irregulares. Interrogo o que nunca se justificaria interrogar, e no fim ganho o som agudo da flatulência indiscreta de um sonho discriminatório.
Sinto-me perseguido, angustiado, massacrado pela irregular torrente de paranormalidades que nos atacam diariamente. As nossas vontades estão presas ao chão, porque nunca se conseguirão soltar do agrilhoamento efectivo. A escola, tirei-a com a certeza de que no fim ‘orientei’ um mapa para me orientar na displicência que é estar vivo.
O mundo borrifa-se para a plena realização do homem, porque o homem nunca existiu. A felicidade é a prova disso. Estamos felizes, na mesma medida em que o apetite da morte sabe bem a um canceroso em fase terminal. Jesus foi prova disso, porque Cristo é o apelido dos inexistentes. Dos falhos de espírito. Figuras ridículas somos nós, com capa de gordos, magros, pobres, ricos, gays, fodilhões, lésbicas vedetas de televisão, velhas com mini-saias e tatuagens. Tudo são soluções para problemas que recalcitram o nosso viver. A morte poderá ser um acrescento à indecisão. Mas no fim, a emoção deve morrer aconchegada, em noite de chuva ácida.
Só nos resta mesmo um mícron de pedantismo, para que a envolvência do desvanecimento, seja um quadro surreal com assinatura descompassada....
 
Estou chateado, e provo-o

A minha própria ampulheta....

 
o tempo pergunta ao tempo,
se tem tempo para a, destempo,
sobreviver ao que o tempo
deixa em menos tempo que o tempo
demora a passar...

o tempo responde que sem tempo,
nunca terá tempo para considerar o que
o tempo faz quando, com tempo, nem se
lembra que o tempo não são mais que
résteas de um tempo que demora tanto,
mas tanto, a passar....

somando tempos nem fica tempo,
só o tempo a rolar,
e o tempo que para não morrer,
se arrasta para passar.....
 
A minha própria ampulheta....

ainda eu não escrevi o que ela disse

 
ainda eu não escrevi o que ela disse,
chamou-nos díspares,
coisas centrífugas que se
abraçam para não ter de
se desfazer,

roletas de uma cara só,
e ainda o dia começou
para que o jogo não
sirva para açambarcar
mais indolências e
coisas mal definidas,....

ainda eu não escrevi o que ela disse,
só me lembro do lixo
que pendia do olho menos dispendioso,
provava regência,
dispêndio de coisas doces e atabalhoadas,...

se é o recato que me impede,
cá vai,
foram viçosas maneiras
de dizer viva a vida o que ela disse,....

a vergonha impede-me de as descrever.....
 
ainda eu não escrevi o que ela disse