Poemas, frases e mensagens de JPAnunciação

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de JPAnunciação

"PARA CONSAGRAÇÃO DA NOITE ERGUEREI UM VIOLINO, BEIJAREI TUAS MÃOS FECUNDAS, E À MADRUGADA DAREI MINHA VOZ CONFUNDIDA COM A TUA." Herberto Helder

Apontamento

 
Também sobes às árvores para buscar um apontamento
que se revele entre o desfocado do verde das folhas
e aquela roseira despida nesse canteiro do teu jardim

Sobretudo os cheiros de outrora e a fragrância silvestre
de um vento combinado pelas cores com que sonhas
esboçam a visão que procuras na distância do teu olhar

Entretanto observas no entardecer uma despedida lenta
dos rumores dos céus, das aves, das árvores e dos rios
e onde a lua também relembra que além o sol renasce

Sabes que o amanhecer é o lastro com que acordas
e todo o sonho fermenta no pão da madrugada

A vida é esse momento esclarecido que conservas
 
Apontamento

A Noite sobre um Papel

 
Era um papel amachucado sobre a mesa
Ladeado pelos costumes de um noctívago
Que adormece sem preocupações de arrumo
Nem inquietações prévias ao amanhecer

Era um mero papel amassado pelas mãos
Na evidência crítica do custo da noite
E num modo de expiação do despropósito
Da insónia infrutífera das letras gastas

Era agora um papel esmagado nessa manhã
Num claro e manifesto indício de rejeição
Desse insólito papel pelos seus escritos
Apagando a claridade que houvera ter

Não fora a noite que o cobriu de negro
Seria um papel amanhecido sobre a mesa
com o sinal enigmático da vontade humana
Pelo fortuito momento de se escrever

Por vezes rasgamos na noite
Um novo amanhecer
 
A Noite sobre um Papel

Amamos a Vida

 
Amamos a vida no lugar mais recôndito de nós
Amamos a vida no momento mais insólito dos dias
Amamos a vida no inóspito do outro que queremos
Amamos a vida no relento da nossa escuridão

Amamos a vida nos lábios que connosco se deitam
Mesmo sem beijarem os nossos lábios
Amamos a vida nos braços que queremos abraçar
Mesmo sem abraçarem os nossos braços

Amamos a vida dando o nosso amor
Mesmo a quem não sabe receber
 
Amamos a Vida

Um Adeus Adiado

 
Choramos o abandono de quem
vamos sentindo a sua saudade
ninguém nos escuta esta angústia
ninguém nos sente nesta dor
porque é sempre nua e solitária
a noite térrea de quem estamos falhos
timidamente ocultada na voz do nome
que sussurra na sugestiva recordação
partilhada a sós sem outro alguém.

Reservamo-nos na intimidade de um adeus
que ainda não o soubemos deixar partir.
 
Um Adeus Adiado

Palco da natureza

 
Onde haja mar
Eu só, lá estarei
Em dias de tempestade

E onde o mar se revolve
De ondas crispadas
Pelos ventos difusos
Serei naufraga jangada
Ao sabor do mar

Sou instável criatura
Gerada na contrariedade
Dos deuses feitos homens

Sou em mim mesmo
Temperança, mudança, aliança
E tudo o mais que me gerou

Sou mais um palco da natureza
 
Palco da natureza

Vem...

 
Vem ao meu encontro
Nesta hora vadia
Vem…

Secretamente aproxima-te
dos braços que te estendo
do olhar que te aguarda
e por fim dos meus lábios
que s vorazmente receberão os teus

Vem sem pressa alguma
Sem horas de partida
E sem preocupações
Sobre o amanhã

Permite que o corpo ame
O que a alma não esquece
Deixa que a boca se sacie
Do alimento que já lhe demos
E consente às minhas mãos
Deslizar na pele que é tua

Vem ao nosso encontro
Onde regressamos ao nosso lugar
 
Vem...

Far-te-ei

 
Far-te-ei o canto da ave em que desperto
De um sono calmo onde já és sonhada;
Far-te-ei o primeiro rasgo de luz na madrugada
Que traça teu corpo nu e cintilante;
Far-te-ei o sonho sobre o qual caminho
Numa visão do longe em que te alcanço;
Far-te-ei o leito da noite onde me deito
Sem horas certas para te deixar de sonhar;
Far-te-ei meu sonido num silêncio perpétuo
No qual te escuto e te oiço só a ti;
Far-te-ei o meu ocaso e a madrugada
Onde me adormeço e em ti renasço;
Far-te-ei em tudo o que em minha vida acontece
No mais ínfimo sinal desta existência;
Far-te-ei o mar e a areia, a minha praia
Em que permanecerei depois de partir.

Far-te-ei apenas minha porque te amo.
 
Far-te-ei

À espera de nada

 
Precisamos de fazer o deserto
traçar a areia ínfima aos nossos pés
e a imensidão de um horizonte nos nossos olhos
sem pontos e sem referências e sem caminhos

Precisamos de fazer o deserto
recuperar a proximidade das distâncias da vida
aglomerar toda poeira que divaga sobre a terra
assomar à vida, o sonho, a intensidade e as emoções

Precisamos fazer o deserto
voltar atrás do tempo impaciente pelo amanhã
buscando algo que não se lembra do que perdeu
mas certo da grandeza de um bem esquecido na vida

Precisamos de fazer o deserto
e permanecer à espera de nada
 
À espera de nada

Aqui e agora

 
Permanece na luz do silêncio
Com o espanto da vida no olhar
No lugar situado nesta tua hora

Saboreia o presente sem esperas
No consolo do que acontece

Mais nada que nada mais
E tudo o mais não virá por nada

O caminho é aqui e agora!
 
Aqui e agora

Deixem-me a Paz

 
DEIXEM-ME A PAZ!

Deixem-me a paz!
Que eu saberei o que fazer
Por esses caminhos que avanço
Por esses lugares que alcanço
Por esse horizonte onde descanso
Deixando-me amanhecer.

Eu sou aquele
Que não parte
Desta parte
Que me parte
A alma em mil pedaços
Esquartejada por abraços
De intuitos devassos
Por todos os espaços.

Ordeno uma vez por todas
Mesmo sabendo que não há ordem
Em meus pensamentos e em meus passos
Mesmo reconhecendo a rectilínea desordem
Dos meus vorazes sentimentos sem cansaços
Deixem-me a paz!

Pudesse fulminar o desacerto angular da raiva
O insolente desacato imposto pelos anjos do caos
Que entoam as hossanas do ódio e da maldade
Pudesse eu ceifar a erva rasteira dessa conjura
Que brota nas margens de um pântano disfarçado.

Pudesse ser um mero esquecido pela existência humana
Um louco inimputável que ninguém condena por piedade
Um marginalizado sem queixa alguma de abandono social
Um sem abrigo eternamente agradecido pela sua condição.

Se eu pudesse… ai se eu pudesse…
Mas eu não posso calar meu grito
Quando me sonegam a herança
Milenar da paz de Cristo
Quando me ocultam a imagem
Plácida de um amor crucificado
Quando se mancha de sangue
A toalha do advento sobre o altar.

Deixem-me a paz!
e eu dar-vos-ei a paz do meu silêncio.
 
Deixem-me a Paz

A Nossa Hora

 
É nesta hora de fim de tarde que te sonho
Por entre os raios em que se quebra o dia
E por entre essa aragem que me trás o mar
Desenhando na areia da praia o teu rosto

É nesta hora que amanheces dentro de mim
E te revelas na claridade latejante do meu querer
E te denuncias no olhar que estendo no horizonte
E te guardo nas pálpebras que fecho para te sonhar

É nesta hora em que tanto tardas em chegares
Que mais te tenho num recanto de mim próprio
Onde te concebo e apenas existo só para ti
Permanecendo sem que a noite jamais te oculte

É nesta hora a nossa hora a sós
Onde nos deitamos no fundo de mim
 
A Nossa Hora

Caminhada

 
Nada enfrenta a paz do teu olhar
E não existe confronto nos teus lábios
E nem outra palavra que o silêncio com que amas
E apenas um gesto sereno parte de ti
Como uma ave que esvoaça

Passeias na vida como se planasses no céu
Movido pelo sentido de um vento
Que soubeste conhecer

Pisam teus passos sobre discretas pegadas
Como o perseguidor que descobre no bosque
Os rastos imperceptíveis do seu caminho

Aprendeste a escutar o que não se prenuncia
 
Caminhada

Palavras que nos amam

 
Deixo na tua boca todas as palavras
Todos os verbos com que fazemos amor
Digo-te ao ouvido todas as palavras
Que acordam na cama onde nos deitamos
Chamo pelo teu nome sobre o teu corpo
Já com a voz rouca por tanto te querer

De boca a boca deixamos na saliva
Todas as palavras que transpiram na pele
Dos nossos corpos fundidos sem cessar
De língua a língua dançam as palavras
Que entrelaçamos na dança húmida
Do nosso beijo voraz e demorado
De corpo a corpo a pele arrepiada
Pelas palavras que na noite nos tocam
Com cada sílaba pronunciada pelas mãos

Quero-te ter para além desse silêncio
Nas palavras que soam e ressoam sobre nós
Nessa voz sobre os corpos dos dois num só.
 
Palavras que nos amam

Palavras Nossas

 
Amo as palavras
Que começam nos lábios
E findam num beijo

Amo as palavras
Que se cruzam num olhar
E se repetem mais tarde

Amo as palavras
Que estendem os braços
Aos braços estendidos

Amo as palavras
Que dão voz ao silêncio
De um desejo guardado

Amo as palavras
Que sempre em ti escuto
Sem nunca me as dizeres

Amo as palavras
Que hoje aqui escrevo
Porque falam de nós.
 
Palavras Nossas

A Intimidade do Silêncio

 
Na naturalidade dos nossos silêncios de companhia
Descobrimos a amadurecimento dos frutos do verbo
E o à-vontade de estar a dois sem palavra alguma

Como é fácil o silêncio na intimidade que privamos
E na cumplicidade no trajecto do nosso caminho
Desbravado apenas com a intuição dos sentidos
Que ambos sem o prevermos sabemos comum

No nosso calar sereno sem o esforço das palavras
Revela-se o segredo onde a dois se sente um só
Sem a sensação dos momentos mortos do silêncio
E com a intenção de trazer as palavras só no olhar

Apenas estarmos sem esforço de remar com as letras
Num propósito verbal de desaguarem pensamentos
Apenas estar neste mar tão nosso e tão profundo
Onde serenamente mergulham nossas almas entre si

Estar connosco em silêncio como o modo mais íntimo
De nos sentirmos a dois espelhados face a face.
 
A Intimidade do Silêncio

Um Retrato que fala de Amor

 
Um amor maior sai dos teus lábios silenciosos
Um amor maior reflecte o teu olhar revelador
E nas tuas mãos, atento à sensualidade dos gestos
Desvenda-se a permanência dessa força de amar

Apenas uma rosa substituiria a imagem que guardo
De quem tenho a sua voz escrita a abreviar a distância
Por ser esse decerto o sabor tão intenso dos seus lábios
E ser essa a fragância que envolve a nudez do seu corpo

A verdade é que nunca a possuí nos meus braços
E as minhas mãos jamais acariciaram seu corpo nu

Apenas um retrato me faz pronunciar o seu nome…

Dedicatória: O face a face das palavras
 
Um Retrato que fala de Amor

As ... do poema na ! da Vida (IV Eventos Luso)

 
Às vezes parece que desistimos de vez
Mas sempre erguemos da queda a persistência

Nem sempre o caminho se encontra luminoso
E nem sempre o silêncio é a luz do nosso chão

Somos precários em cada quotidiano do nosso diário
Na fragilidade indefesa de uma folha de papel
Susceptível e predisposta à inscrição da sua história
Em cada página com que o mistério do amanhã
Sem o prever nem o temer se faz presente

Nem sempre a vida espelha a face que julgamos
Neste olhar estático e estanque sobre a sua hora
Sem galgarmos o muro lamentável de um momento
Buscando na distância do tempo o fundamento de cada dia

Cada dia é uma vela acesa nas margens do nosso caminho
Circunscrevendo-se entre si o sentido da nossa existência.

A vida é este contínuo propósito de a escrevermos
No parapeito de uma janela aberta ao fortuito dos dias
 
As ... do poema na ! da Vida  (IV Eventos Luso)

Se a Poesia

 
Se a poesia

Me deixasse

Voar

Sem tempo nem espaço;

Se a poesia

Me deixasse

Sonhar

Sem realidade esperada;

Se a poesia

Me deixasse

Encontrar

As pegadas esbatidas

No espelho do céu;

Se a poesia

Me deixasse

Ser simples versos

Deixados em meus gestos;

Se a poesia

Me deixasse

Ser qualquer coisa de poeta

Num recital da vida

Antecipando-me

Pequena réstia,

Que fosse,

Da poesia da eternidade.
 
Se a Poesia

Às vezes...

 
Às vezes choramos os dias
Como se chovesse em nós
Às vezes a noite longa e fria
Invade como se fossemos rua
Às vezes somos só o silêncio
Das folhas de Outono caídas
Às vezes a solidão no lugar
É apenas o nosso deserto

Às vezes seria tão fácil
Termos ficado no jardim..
 
Às vezes...

Fecundação

 
Beijávamo-nos em horas vadias
Em nossas noites vagabundas
Entre os estilhaços de lua
Quebrados sobre o mar.

No espelho d’ água desse olhar
Cruzado a dois sem haver palavra
Vibrava a certeza de nos termos
E de nos querermos sem nada mais.

Apenas o sonido de uma carícia
Sobre a pele de um corpo despido
No deslizar serpenteado de afectos
Seduzidos ao desejo de entrega a par.

Um leito nosso reservado à madrugada
Fecundada na nudez de cada beijo.
 
Fecundação