Poemas, frases e mensagens de Xavier_Zarco

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Xavier_Zarco

Sete Poemas em Mirandês

 
1.

aquel oulhar miraba para todo
nacieu-le ua bida nuoba

apuntou adreito
al coraçon

l lhugar antre sierras

*

aquele olhar olhava para tudo
nasceu-lhe uma vida nova

apontou direito
ao coração

o lugar entre serra

2.

las augas de las fuontes
bálen todo l que hai
antre la mano i la bóç

*

as águas das fontes
valem tudo o que há
entre a mão e a voz

3.

naqueilhes uolhos
l fin de mundo

*

naqueles olhos
o fim do mundo

4.

la nina mirou pa la puorta
oube l ribeiro a celhuçar
eilhi
delantre l milagre
de haber nacido

*

a menina olhou para a porta
ouve o ribeiro a soluçar
ali
defronte o milagre
de ter nascido

5.

nun fura la strada
i la biaige era you

*

não fora a estrada
e a viagem era eu

6.

la bielha fai-se
alegre pulas rues

anquanto
l’eidade drúme

*

a velha faz-se
alegre pelas ruas

enquanto
a idade dorme

7.

al fin de la rue desierta
l cuorpo
que la mano
yá nun mangina

*

no fim da rua deserta
o corpo
que a mão
já não imagina

Xavier Zarco
 
Sete Poemas em Mirandês

[trago a casa agarrada à minha pele]

 
trago a casa agarrada à minha pele
entre palavras presa
a pele
às paredes aos móveis aos retratos
e uma voz que suspensa
entre pó
bailando ao som da luz
que lentamente cruza a memória

Xavier Zarco
 
[trago a casa agarrada à minha pele]

SOB EPÍGRAFE DE FERNANDO NAMORA

 
SOB EPÍGRAFE DE FERNANDO NAMORA

“Tanto ou mais que as pessoas, os lugares vivem e morrem. Com uma diferença: mesmo se já mortos, os lugares retêm a vida que os animou.”

Fernando Namora

1.

aqui todo o silêncio é habitado
como se fosse cinza
que ciosa
guarda a memória da madeira

2.

ainda escuto a linguagem
do fogo

as pedras enegrecidas
acordam-a

rente ao olhar do poema

3.

todo o poema nasce
e sabe
do silêncio

quando em silêncio
dorme
nas páginas de um livro

4.

poema
esse lugar onde a vida
permanece

como álbum de família
sempre pronto

para ser
a janela da memória

Xavier Zarco

1.º lugar no V Concurso “Poesia na Biblioteca” (Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova) - 2015
 
SOB EPÍGRAFE DE FERNANDO NAMORA

[Vou foder o dia inteiro]

 
Vou foder o dia inteiro
Não levo enxada mas pila
Mais um colhão com dinheiro
Para ir aos copos à vila

Inda dizem bela vida
Esta de ser lavrador
Mas só quem com esta lida
Lhe sabe dar o valor

Que foder o dia inteiro
Para qualquer um não é
É preciso ser guerreiro
Mas dos que morrem de pé

Xavier Zarco

NOTAS:
COLHÃO (do latim: coleo) - bolsa de couro;
FODER (do latim: futuere) - penetrar ou escavar;
PILA (do latim: pilum) - lança comprida com ponta de ferro e cabo de madeira.
 
[Vou foder o dia inteiro]

Leituras 3 - Henrique Pedro

 
Henrique Pedro é um dos pensadores do poema. Cada trabalho é elaborado muito sob uma matriz de razão ou de fé.

Apresenta-nos poemas com um pródigo conteúdo, onde predominam temáticas telúricas, religiosas e, também, filosóficas, estas quase sempre sob vertente existencialista, e daí ter despertado o meu interesse no trabalho deste autor, dado que me surgem em diversas ocasiões quer numa visão kierkegaardiana quer sartreana.

Tal dimensão de escrita, coisa rara, não só aqui, mas nos mais diversos locais onde me movimento, sobretudo ao nível da internet, dá-nos uma visão do Homem no seu Tempo, não só contemplativo, mas, também, em acção, intervindo com o que o rodeia, como se através do verso se se cumprisse como Homem do seu Tempo.

Se tivesse de apresentar a frieza estatística, diria que em três poemas lidos deste autor, dois vírgula cinco se enquadram em trabalhos que considero de excelente nível. E estou a referir um autor que partilha connosco quase (se não for mesmo) diariamente o fruto do seu ofício.

Xavier Zarco
 
Leituras 3 - Henrique Pedro

[a palavra não vale]

 
a palavra não vale
pelo que a palavra é
por aquilo
que radicalmente é

palavra

porque a palavra é um indício
como um sopro suspenso
nos beirais
aguardando um voo
um súbito voo de uma ave

o que vale
se valor algum nela se encontrar
em comparação
não é a gárgula nada em pedra
é a própria pedra feita em gárgula
que guarda os segredos das mãos
que a gárgula fizeram
no seu corpo

é um indício
repito

o início de uma viagem
não exterior a ti
que lês a palavra
palavra
ou outra palavra qualquer
mas o mundo
o próprio mundo
que o tempo em ti contigo esculpiu

Xavier Zarco
www.xavierzarco.blogspot.com
www.xavierzarco.no.sapo.pt
 
[a palavra não vale]

Vendo “Paisagem com a queda de Ícaro”, de Pieter Brueghel

 
Vendo “Paisagem com a queda de Ícaro”, de Pieter Brueghel

william carlos williams já disse
o que havia a dizer
dos trabalhos que o dia a dia pede
até da primavera

o ofício do pão não pede o belo
não se rende à paisagem
cuida-se da terra em busca do sustento
assim como do mar

o destino que coube a ícaro cabe
na íntegra a cada um de nós
seremos queda resumida
ao ponto na distância

Xavier Zarco

2.º Lugar no I Concurso de Poesia Albano Martins (2014)
 
Vendo “Paisagem com a queda de Ícaro”, de Pieter Brueghel

Leituras 1 - Margarete

 
Começo hoje, tal como fiz há uns bons tempos atrás, sobretudo com aquela que considero a melhor Lista que se movimenta através do Yahoo, a Escritas, a deixar, por escrito, pequenas anotações sobre o que penso de alguns autores, melhor: sobre o que escrevem e que tive a fortuna, ou o reverso, de ler.

Bem sei que isto vai dar bronca, mas quem quiser que se queixe neste espaço, mas argumentando, fundamentando a sua opinião.

Começo esta minha série de textos com a Margarete.

Como muitos que aqui, no Luso-Poemas, se movimentam, não conhecia, e não conheço, penso eu!, pessoalmente, sendo por mero acaso ou através de algum comentário que comecei a lê-la.

A sua escrita é uma escritura do corpo, impregnando os seus poemas com signos dessa origem, muito na linha, ao nível dessa aplicação, de um Luís Miguel Nava ou, para referir autores mais recentes e no activo, Alice Macedo Campos ou Vera L. T. Santos.

Os seus trabalhos são de uma riqueza imagética bastante interessante, sobretudo quando os tinge com uma violência, como já afirmei em comentário, plena de candura.

Esta luta interna entre uma espécie de pulsão de Eros e outra de Thanatos, entendendo este Eros pela candura e Thanatos pela violência, transporta-nos para paisagens que só a boa poesia consegue criar.

Xavier Zarco
 
Leituras 1 - Margarete

[as mãos rendem-se ao desejo]

 
as mãos rendem-se ao desejo
de criar de tocar no corpo informe
da palavra e erguer dentro do
seu corpo outra palavra embora a mesma
como um jogo de espelhos onde o rosto
se revê na ilusão dos olhares

Xavier Zarco
 
[as mãos rendem-se ao desejo]

[por que temes a morte]

 
por que temes a morte
se morto és
se morte bebes em cada instante

não a temas
ama-a

e nas horas vagas
vagarosas
emprenha-a de riso
asas soltas
na arquitectura do sonho

e vai por essa estrada fora
entre montras semeando
a lenta extinção da angústia

mas de braço dado
mãos enlaçadas

e quando souberes sentires
que és rio
esquece-a

deixa-a por aí
num qualquer canto
o menos visitado da memória

aprende que se morre
porque ainda
te sobra tempo para morrer

Xavier Zarco
 
[por que temes a morte]

Para martinsns, ao seu poema "Deixa eu chupar ela"

 
ah que já o outro dizia
que ler é uma maçada
mas o que ele não sabia
é que ler não vale nada

mas a malta insiste insiste
e nem o texto começa
e perguntam-me já viste
estou a ver mas sem pressa

cá p'ra mim das duas uma
será ele que não tem jeito
para atear a caruma
ou ela que tem defeito

fecho a página medito
sobre o filme que ali vi
e não é que lanço um grito
porra o poema não li

Xavier Zarco
 
Para martinsns, ao seu poema "Deixa eu chupar ela"

SOB EPÍGRAFE DE AGOSTINHO GOMES

 
SOB EPÍGRAFE DE AGOSTINHO GOMES

Só para vestir a Primavera
E imitar o canto dos pássaros.

Agostinho Gomes

1.

trago palavras na algibeira
palavras
que buscam um sentido outro ao que as veste

quando a noite cai
embalado nos braços da insónia
deito-as sobre a mesa

e sonho a primavera do poema

2.

lá fora o vento acorda as árvores
enquanto as palavras
essas
alinhadas em verso em si descobrem
o próprio cântico dos pássaros

Xavier Zarco

1.º Lugar no XVI Concurso de Poesia Agostinho Gomes (C.M. Oliveira de Azeméis) - 2015
 
SOB EPÍGRAFE DE AGOSTINHO GOMES

[sei]

 
sei
devia aprender
mais
sobre o outono

por exemplo
desenhar folhas de árvore
em pleno voo
ou beber
o vento na palma da mão

sei
devia aprender

mas dizem que o outono é signo
da morte
e essa anda comigo
de mão dada
a toda a hora e todo o instante

minha bela e leal companheira

todos os dias
mesmo que não o diga
diz

mesmo que a vida cesse irá comigo

Xavier Zarco
 
[sei]

[a estrada vive dentro do homem]

 
a estrada vive dentro do homem
alimenta-se do homem
começa a comer-lhe os pés
até comer-lhe a alma

a estrada
que dizes ser tua
papa-te
com suas falinhas mansas

mesmo que seja pedra no sapato
mesmo que seja espinho na carne
fala mansamente
e diz ser tua criação

e tu vais mimá-la
enquanto ela te mama enquanto suga
tudo
tudo o que vale a pena possuíres

Xavier Zarco
 
[a estrada vive dentro do homem]

[como te escorrem as palavras]

 
como te escorrem as palavras
por entre os lábios
iluminados de um poema

como se o mundo fosse uma estria
na pele
aquela que dizes ser
a tua própria pele

mas o poema onde os lábios
se iluminam
é qual seio onde olhos repousam
na sedução de um néctar
pródigo em signos

e no entanto as palavras
as palavras escorrem
escravas e libertas
presas ao ritmo e soltas
ao significado

sementes de outros lábios
iluminados
em outros poemas

Xavier Zarco
 
[como te escorrem as palavras]

SONETO AO INSULTO, EM DECASSÍLABO HERÓICO E, PORQUE RAPAZ DE BONS COSTUMES, INGLÊS, PORQUE RIMA COM TRÊS.

 
digo insulto é de gente ajuntamento
diz-se assim pelas bandas do alentejo
ah palavra que és linda como o vento
tratada com carinho como um beijo

digo insulto que diz estardalhaço
do outro lado do atlântico ah palavra
que às vezes mais pareces como um chaço
ou como terra só que ninguém lavra

digo insulto à portuga e o que procuro
a agressão violenta o vitupério
mas se procuro e nada encontro é duro
e ninguém mas ninguém me leva a sério

porra para a palavra sorrateira
esta língua é mesmo traiçoeira

Xavier Zarco
 
SONETO AO INSULTO, EM DECASSÍLABO HERÓICO E, PORQUE RAPAZ DE BONS COSTUMES, INGLÊS, PORQUE RIMA COM TRÊS.

DÉDALO DE DÉDALO

 
1.

a obra
nasce

quando a criança
surge

entre os escombros
do caos

2.

silhueta
na distância

o olhar
a indaga
e mesura

enquanto a luz
a coroa
de sombra

3.

sobre
a terra

o respirar
do gesto

4.

acorda
o cântico
da semente

na coroação
do gesto

5.

minotauro
acorda
no medo
dos homens

e adormece
rente ao regaço
dos seus sonhos

6.

talham-se
as pedras

alinham-se
para a construção
do dédalo

como flores
silvestres

que a primavera
eclodiu

7.

eis o caos

a ordem
do caos

sob as mãos
de dédalo

8.

o evérgeta
vigia

os dorsos
curvados

sob o peso
da mandrágora
do destino

9.

erguem-se
muros

trilhos
entre pedras

como se
se erigisse

o tegumento
de érebo

10.

as mãos
rendem-se

ao riso
das máscaras

11.

em creta
decreta-se
o poente

qual clausura

ao sol
da criação

12.

recordo
a ara

sequiosa
pelo sangue
inderramado

clama
ao mar

que incurso
seja

quem a fez
clamar

13.

recordo

ergue-se
o acroama
no corpo
da mulher

acra
é a carne
e o destino

14.

recordo

ariadne
parte

para o coração
da madrugada

ventre
de todos os caminhos

15.

só o alto
aguarda

o instante
da vela

que se consome
e adormece

na arandela

16.

só o alto
decifra

e prova

o poder
do voo

do que adormece
na arandela

17.

não vás

o teu caminho
é o teu caminho

cada palavra
é a exacta
palavra

para o desvelar
do poema

18.

a queda
do fruto

é a árvore
quem o chora

icaria brota
quando à terra
se entrega

o que esta concede
em mesura
de ampulheta

19.

mas há um caminho

um voo
sobre as sílabas
impronunciáveis

onde a música
se oculta
e se revela

sob o olhar
de quem ousa

20.

chegar
é um corpo
cingido
por outro corpo

uma lágrima
na ânsia
de terra

sicília
onde as asas
repousam
sob o olhar de apolo

Xavier Zarco
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www.euxz.blogspot.com
www.xavierzarco.blogspot.com
 
DÉDALO DE DÉDALO

Leituras 2 - José Ilídio Torres

 
José Ilídio Torres é um autor que só posso definir como um criador para-realista, isto é: traz para dentro do corpo textual um pedaço do real, mas polemicando outro assunto, não o que se desenrola perante o nosso olhar.

Fá-lo como se nos desvendasse o que é um teatro de sombras, dizendo-nos da luz e dos corpos em movimento, mas apresentando-nos somente o que na tela se vislumbra.

Para lê-lo e, de facto, usufruir o que nos oferta, há que estar atento aos sinais, bastantes, aliás, que nos vai dando, como se de um rasgo na tela se tratasse e este deslizasse constantemente.

Esta amostragem denota um olhar atento ao que é criar, visto que é mais relevante o que alude do que o que diz, deixando portanto aberto ao leitor um espaço onde este pode, também, criar.

No entanto, sob a ironia e, por muitas vezes, o sarcasmo com que tece os seus textos, sejam estes poemas ou não, em mim revelam um autor que chora, uma certa tristeza que assim é como que transvestida.

Uma nota à margem: alguns dos textos deste autor têm gerado polémica, no pior sentido desta palavra, que é, talvez, a palavra que melhor pode representar e justificar a nossa presença no Mundo, a nossa acção no Mundo (bom!, mas isto é outra conversa).

Esta polémica denota, sobretudo, impreparação de quem o lê, isto é: quem se movimenta num local de escrita, antes de escrever, tem de descobrir o local de leitura. A leitura é que funda a escrita e não o reverso. Há portanto, antes de se atirar a pedra, saber o que é a pedra e, também, a que alvo se vai atirar.
 
Leituras 2 - José Ilídio Torres

Ensaio - 2

 
escrevi por mil vezes o poema
e em outras mil o descobri
das mil vezes que o li

sendo o mesmo em mil reflexos
é diverso quando o sinto
porque dele
não tomo posse
nunca tomei posse

não me pertence
nunca me pertenceu

mesmo sendo estas mãos
as minhas
que o inventam
e reinventam
lhe dão rosto em papel

e no entanto escrevo-o
reescrevo-o à margem do silêncio
onde sei que habita
a sílaba serena de onde brota
não o poema
a poesia

Xavier Zarco
 
Ensaio - 2

[por entre os dedos morre-me um cigarro]

 
por entre os dedos morre-me um cigarro
na ilusão de o fumar
extingue-se em fumo
e cinza
mas foge foge ao colo de uma brisa
como se a morte fosse mero início
portagem de auto-estrada
paga com a extinção

mas morre-me entre os dedos porque sinto
o derradeiro espasmo seu
próximo
como um sol deitado
no horizonte

e no entanto boca alguma
o beija
contemplo-lhe a morte como quem contempla
da sua apenas a própria espera

Xavier Zarco
 
[por entre os dedos morre-me um cigarro]