Poemas, frases e mensagens de jaber

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de jaber

sabe-me a sal o teu porão

 
Deixa-me descer ao teu porão,
Não quero mais ser âncora,
Quero flutuar
Pelo mar bravio do teu corpo
E afundar-me no precipício da tua intimidade.
Rasgar-te o ventre
Como quilha contra a maré,
Enfunar as velas em contra ciclo
Do vento norte.
Tomar tua boca como gomo de citrino
Que refresca e sara as feridas
Da longa viajem,
Saciar em teus seios a sede de água doce
Do teu corpo que ondula a cada vaga do desejo
Que nos assola.
No teu ventre procuro a noite
De águas plácidas em calmaria,
Lua ao largo em reflexos de prata
Que se estendem pelas praias de areia
Quente do meu corpo.
Quando entro no teu porão
Em vagas ondulantes,
Sou pirata do teu mar,
Corsário destemido
Em busca de abrigo da longa jornada
Desse mar sem fim,
Cabo das tormentas
Que vira Boa-Esperança,
No reencontro cálido
Do Atlântico com o Indico,
Do Pacifico quente na dobra da patagónia
Ao encontro do frio do pólo.
Suavizamos as marés nesse encontro,
Celebramos cada reencontro
Em investidas ondulantes
Que bebemos nos lábios,
Regatos de amor que alimentam oceanos.
Sabe-me a oceano o teu porão salgado,
Sabe-me a infinito a quilha da tua vontade.
 
sabe-me a sal o teu porão

Um boneco sem braço

 
Rumo sem destino e sem dono
Sem pai, nem mãe que me aconchegue
Não tive em menino o xaile da avozinha
A fartura nunca é prato que me chegue

Morro em cada olhar de comiseração
Para reviver sem motivo aparente
Em qualquer esquina do descontentamento
Prenha de tráfego e gente que me passa rente

Tenho como amigos caixotes de lixo
Onde busco restos de felicidade,
Às vezes, um carrinho sem rodas
Rouba-me à minha realidade

Um barco sem velas, boneca de trapos,
Caderno velho, um lápis partido
Ou até quem sabe, e se deus quiser
Um hambúrguer meio mordido

Uma bola furada, lego desemparelhado
Rádio sem pilhas, boneco sem braço,
Faço dele o menino que sonho ser
Envolvo-o num terno abraço
 
Um boneco sem braço

Ensaio sobre a condição feminina

 
O Sr. José era velho, tão velho que na aldeia ninguém se lembrava dele novo, como seria o seu falar ainda de rapaz ou a voz grossa de homem feito. Na tasca da aldeia onde os homens rompiam as falanges nos balcões de mármore no tamborilar impaciente da chegada de mais uma pinga dizia-se que ele devia ter mais de cem anos mas ninguém lhe dava mais de 50 e picos, 60 e coisa, 70 e tal. Uma indefinição que a jorna da terra lhe sulcava no corpo alquebrado, nos pés de galinha profundos em volta dos olhos, os rasgos no canto da boca que lhe afilavam os lábios já de si finos, e uma testa que parecia percorrida por um arado.
O Sr. José ia casar finalmente com a Zulmira, mulher recatada e trabalhadeira, filha mais nova de um grupo de 15 irmãos e que tinha ficado na casa materna até que o Senhor chamara a mãe para a última morada cumprindo assim a tradição de cuidar dos velhos pais até ao último suspiro. A Zulmira fizera também ela essa dobra na idade em que já não se consegue definir os anos que lhe passaram nas vértebras doidas da espinha dobrada no manejo da enxada. Com a morte da mãe a sua única fortuna era a vaca galega cuja afeição a tinha impedido de a mandar para o matadouro quando os úberes secaram e as forças lhe faltaram para aguentar com o cabresto e puxar o arado e ficou assim a modos que o animal de estimação da Zulmira.
O casamento foi motivo de galhofa e enriqueceu o anedotário da taberna, com piadas que punham em dúvida a virilidade do Sr. José e a capacidade que teria em meter dentro os tampos tão antigos da Zulmira, que todos juravam ceguinhos ela ainda teria por via da sua feiura que afugentara sempre os mais corajosos e afoitos. Por sua vez o Sr. José gozava da fama de mulherengo apesar da idade e contava-se à boca pequena as suas viagens à cidade grande onde gastaria o pequeno pecúlio arrecadado nos negócios fortuitos da venda de gado.
O Sr. José era homem à antiga, que se fazia respeitar e a Zulmira mesmo casada com ele continuava a tratá-lo por Sr. José e dedicava-lhe o mesmo esmero e atenção que dedicou á mãe até à hora da morte. O Sr. José no fim do almoço ia para baixo da vinha no fundo do quintal gozando a sombra prazenteira com uma vasilha de tremoços e azeitonas, um pedaço de broa e uma enfusa de vinho, a qual quando acabava o fazia dar altos berros à Zulmira
- Ó mulher enche-me a enfusa…- e lá vinha a Zulmira quintal abaixo buscar a enfusa vazia, subia o quintal, ia à adega enchia a enfusa, descia novamente o quintal deixava a enfusa ao Sr. José e subia de novo o quintal para continuar os afazeres. O Sr. José era cioso do aprumo do quintal:
- Ó mulher, é preciso podar a pereira.
- Ó mulher, é preciso capar os tomates
- Ó mulher, a alface precisa de ser colhida para ir para a feira.
E a Zulmira lá ia no seu vagar sem nunca reclamar acedendo às ordens do Sr. José.
Um dia na volta de uma das suas misteriosas viagens o Sr. José trazia no alvo colarinho uma mancha suspeita. A Zulmira indagou-o da proveniência de tão indigna nódoa.
- É sabão da barba…- respondeu o Sr. José.
- Não pode ser Sr. José, isso parece aqueles “pozes” que as mulheres finas usam – respondeu a Zulmira numa voz segura e firme que surpreendeu até ao Sr. josé.
- É sabão da barba, é sabão da barba e não se fala mais nisso. – Vociferou o Sr. José num tom de voz que não permitia réplicas. A Zulmira calou-se numa fúria que nunca tinha sentido, a vaca galega afinou a longa orelha percebendo os humores da dona. O Sr José tirou o laço, pegou na enfusa e dirigiu-se para o fundo da vinha seguido pela vaca galega. A Zulmira tinha feito á força de enxada um rego para conduzir as águas da fossa para o batatal enquanto o Sr. José estava fora, este não contando com o fundo rego caiu de frente no rego afundando o corpo em meio metro de águas pútridas e fedidas ricas em húmus para s terras, a vaca Zulmira inadvertidamente colocou-lhe a pata por cima da cabeça parando o andar lento e o olhar no fundo do quintal, abanando a cauda sobre o lombo para enxotar a mosca. A Zulmira estranhando a duração da enfusa que já devia ter esgotado foi quintal abaixo e encontrou o Sr. José afundado na merda e no mijo, já sem respirar, molhado e inerte, a vaca galega mugiu a finados…
Os anos passaram-se e a Zulmira ficou dona das extensas terras do sr. José, as estradas já estavam alcatroadas, o lar de idosos da aldeia já tinha sido fundado.
Ia pela estrada até ao cemitério decorar a campa dos seus pais e do seu Sr. José, à vinda perguntavam-lhe:
- Ó Zulmira, porque não vais para o lar, ao menos lá tinhas companhia, alguém cuidava de ti…
- Eu cá “num” preciso disso, tenho a minha galega que já me faz companhia que chegue – e continuava o seu passo quebradiço apoiado já por um cajado na berma da estrada com a galega a ladeá-la protegendo-a dos incautos motoqueiros e motoristas que aproveitavam o asfalto da estrada para se finarem nas bermas. A galega era a rocha em que contra tudo se desfazia.
 
Ensaio sobre a condição feminina

Porra, a hipérbole.

 
É quase impossível não sentir,
ignorar, alhear-me.
Envolver-me
no conforto da insensibilidade
e travestir em catarse a tempestade que me enleva.
Espreitar
por mim e descobrir a agulha
afanosamente escondida
no palheiro das antíteses
sem pressa,
palha a palha,
antítese a antítese.
Separar o trigo do teu querer
do joio da minha fingida indiferença,
assim aninhado
como me queres à tua presença.
Porra,
hiperbolizas-me os sentidos…
 
Porra, a hipérbole.

A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)

 
Na rua escura, frio estava
A neve não párava de cair,
O vento sempre a fluir,
Tão forte que a roupa furava.

-Quem quer fósforos baratos?
Assim a menina apregoa,
Antes que a alma lhe doa,
Aos transeuntes ingratos

De pobres chinelos calçados
Entretanto por ali perdidos
Algures na neve escondidos
Lindos cabelos encaracolados

Sua pele de frio roxa
Emprestava-lhe mais beleza
Lábios carmins, olhar de pureza,
Vestido que não lhe tapa a coxa

Mas o dia corria-lhe mal
Cheia de fome abandono e frio
Em longo e triste delírio,
Aconchegou-se num beiral

Para casa assim não iria
Sem os fósforos vender,
O pai irado ia-lhe bater
Ainda mais dor padeceria.

Moravam em água-furtada
Frio e chuva por todo o lado.
A mãe, tinha-se libertado
Pela lei da morte arrancada

Precisava a menina de calor
Tremente de frio e tristeza
Vivendo na triste certeza
De uma vida em constante dor

Decidiu um fósforo acender
Uma chama acesa e acolhedora,
Olhada assim em ar de sonhadora
Naquela luz conseguiu ver

Uma linda lareira refulgente
Onde ardia uma linda chama
Ia sair pelo calor daquele drama
Aquecer-se na luz incandescente

Mas o fósforo logo apagou
Voltou a menina a tiritar
Daquele frio de rachar,
De outro fósforo se lembrou

Logo uma mesa lhe apareceu,
Em toalha alva contra a luz
Uma mesa de comida que reluz,
Que belo manjar lhe apeteceu

Quando ia para comer
E a longa fome matar,
A barriga da miséria tirar,
O fósforo deixou de arder

Rápido, a menina outro acendeu
Apareceu a avó em aura de felicidade
Com seu olhar perene de caridade
-vem! - Disse, e o braço lhe estendeu

A menina deu-lhe logo a mão
Antes que o fósforo apagasse
E a sua avó também levasse
A felicidade do seu coração

Tomou a neta em seus braços
E levantando da terra os pés
Assim sem mais demoras nem revés
Fizeram das nuvens doces enlaços

Voaram num rasto de luz e cor
Assim de repente sem mais dor
As duas abraçadas em puro ardor
O céu curvou-se ao seu esplendor

Nasceu o dia o cadáver ignorando
Da menina que ainda sorria
Da morte que já não padecia
E merecido descanso gozando

(adaptado do conto de Hans Christian Andersen)
 
A menina dos fósforos (ou um grito á indiferença)

Eu queria fazer-te um poema

 
Eu queria fazer-te um poema
Que nunca ninguém tivesse feito
Queria escolher palavras que nunca tivesses lido
Formular-te desejos que nunca sentiste
Desenhar-te em traços intermitentes
Colorir-te em cores surreais

Apanhar-te na simbiose cálida
De um fado com uma morna,
Descobrir-te na combinação
De um Dali com um Monet,
Encontrar-te na esquina
Da saudade com o agora.

E agora… e agora roubar-te
Da realidade para o sonho
Da calma para a tormenta
De uma tormenta de lençóis
Em cama revolta e enfim
Fazer-te o poema…
Escrito com os nossos corpos,
Declamado nos nossos sussurros
 
Eu queria fazer-te um poema

Não encontro o poema que te fiz

 
Sabes? Fiz-te um poema…
Ainda sem saber ler nem escrever
Mas já te adivinhava algures
Nas penumbras do meu ser

Nesse poema falo da promessa
Cálida em teus olhos de mar
Falo do abismo da tua boca,
Morango silvestre para eu ferrar.

Falo do cheiro do teu cabelo
Do perfume que me inebria,
Tua pele de sabor salgado
Adivinho o prazer que me daria.

Sabes? Fiz-te um poema assim
Mas não o encontro, na tal gaveta
Onde guardo a ternura da alma.
Voou nas asas de uma borboleta.

Procurei-a no verde dos campos
Emparedados nas mimosas dos montes
Procurei-o nos valados em declives
Que alimentam as águas das fontes

Procurei no cantar dos riachos
Debruados de azul em noite de luar
Cerram-se os olhos cala-se a voz
Por o teu poema não encontrar.

Sabes? Nesse poema ainda te não conhecia
Mas sabia que algures me esperavas
Queria agora declamar-te o poema que fiz,
Rendilhar de ternuras da minha voz brotadas.
 
Não encontro o  poema que te fiz

A norte de ti

 
Eu tenho dias em que fico sem bússula.
e em que tu notas....

dias em que pareço distante
e ausente...

dias em que fico
sem norte....

Gostava de ter
a tua certeza.

Gostava de saber que vai ser
para sempre

construir este amor em pontão
de cais

Que não em ilha
Á deriva

Amarar ao convés
Da tua alma

Ancorar em mares
Serenos

Deixar a inquietação
Vagar nas asas de uma gaivota
 
A norte de ti

Porque me tratas por amor...

 
Queria-te fazer o mais lindo poema
Tricotar-te as palavras no mais puro fio
Sentir-te as mãos na suave forma
Do meu bordar desenhado no vazio
Que a tua ausência preenche
Quando a saudade me despe de mim
Num bem-querer que me veste de ti
Nas palavras que me segredas assim
No manso restolhar do linho
De lençóis de puro e doce lavor
Que como os fios do bordado
Se entrelaçam nos corpos em ardor
És a teia do meu mais doce fascínio
Na trama que no meu corpo entrelaças
Abres-te mulher enfim, quando me tratas
Por amor, os desejos que desabafas
Serena e confiante ao meu ouvido
Num sussurro de lamentos e urgência
E eu grito amor, que sim que sou teu
Que sim, és a minha existência
 
Porque me tratas por amor...

rumo ao desconhecido

 
Vem,
Na celebração do encontro
Fundear-me no teu mar
De vagas alterosas
Onde me perco em busca
De ti, das tuas águas mansas
Vem,
Para que lance amarras
No teu leito, enfune as minhas velas
Nas ondas em que te sonho
Lá onde o céu se une ao mar
Lá, onde não me deixas ver.
Vem,
Dá-me o amplexo húmido
Das tuas águas, em cujo sabor
Salgado me quero embriagar
Num leito renovado, senão
Revolto, cálido como te imagino.
Vem…
 
rumo ao desconhecido

Lançamento da minha editora

 
Dando corpo a um sonho tido numa noite que adormeci bêbado pendurado pelo pescoço no bordo de uma sanita nojenta numa casa de passe lá para os lados do intendente, decidimos eu e uns sócios de bebedeiras e carrispanas várias, formar uma editora que desse voz ao singelo orgulho que assola o peito dos poetas. Decidimos dar-lhe o nome de “toque rectal, edições e outras merdas”. E “toque rectal” porquê? Perguntareis vós. Simples… O toque rectal é uma coisa incómoda (quem já o fez sabes disso) mas ser enrabado é muito mais (penso eu, outros falarão disso com mais propriedade). E como a ideia é fazê-lo aos poucos e devagarinho embora às vezes e em alguns casos sem vaselina, como pretendemos pôr-vos a pagar as edições e não nos preocuparmos em divulgar nem em distribui-las decidimos pôr esse feliz nome que me lembrei nesse fatídico dia. Sim, porque se vocês já pagaram o livro porque carga de água nos vamos preocupar com coisas chatas como divulgação, publicitação, distribuição e coisas afins? Porque carga de água havemos de nos preocupar em vos fazer apresentações condignas onde não estejamos preocupados em vender livrecos de outros autores mas sim os vossos? Sim, porque é com vocês que queremos ganhar dinheiro, não com os leitores. Os leitores é um problema vosso, andem vocês atrás deles, isso é tão enfadonho, eu fico no tal bar do intendente a beber copos e filar as coxas das gajas que pululam por lá. É que a ideia realmente fantástica é essa, tenho para mim que até devia figurar no quadro de jovens empreendedores. As editoras honestas ganham dinheiro com os leitores, fazendo divulgação, distribuição publicidade, dando relevo ao escritor, nós não, nós sabemos que vocês gostam de escrever e como tal têm o sonho de editar. Então nós a troco de uns míseros tostões mas que chegam para pagar a edição com algum lucro, cumprimos esse vosso sonho embora, pronto seja necessário o tal “toque rectal” que sabemos vos dói mas a vida tem desses sacrifícios.
Por isso já sabem, mandem-me os vossos poemas e escritos…é honesto, escreve só por passatempo e acha que não tem qualidade para ser editado? Deixe lá isso, nós editamos não se preocupe com isso, desde que pague claro. Precisa de uns livros para tentar vender aos amigos? Mas é claro, deixa ficar o respectivo cheque e leva os que quiser. Pois é, que nós não corremos riscos, essa é a sua parte do negócio. Agora diga lá, somos ou não somos uns espertalhões? E além de espertalhões ainda dizemos e escrevemos para quem quiser ouvir e ler que somos intelectuais, pois não seremos? Com ideias destas…!
Por isso já sabe, “toque rectal” é o que precisa…já plantou uma árvore? Já fez um filho? Então agora só lhe falta o “toque rectal”…
 
Lançamento da minha editora

dedicado aos poetas rascas

 
Por vezes digo que escrevo como um mecanismo excretor, e se tal for verdade as linhas que vos dedico são o exemplo último de tal. Andei cerca de um mês e meio afastado do luso por motivos profissionais e na volta dei-me conta de coisas que imbuído (quase) diariamente neste faz e lê não me tinha ainda apercebido verdadeiramente embora já desconfiando. Sempre fui contra o epíteto de “poeta” quando assim se referiam a mim porque não me considero e não o digo por falsa modéstia, não me considero mesmo. Muitas vezes neste site me pus a favor e contra correntes de opinião, com a mesma frontalidade e liberdade de pensar, sentir e me afirmar, mas chego a um ponto que me começa a ser difícil suportar. (eu tinha avisado que era excretor, se leu até agora, por favor acabe…) a mediocridade e a vilania, e o estupor com que assisto até a um comedimento para com essas pessoas que até já começam a querer cercear a livre expressão de que este site sempre foi apanágio, a começar pela regulação de comentários e outras coisas que tais. Querem poder escolher tal como num simples blog as opiniões que hão-de publicar ou não, querem atirar-nos com ramos de rosas plásticas às fuças sempre que lhes aprouver, querem escrever uma coisa que chamam eles(as) poesia onde confundem o porno erótico com escrita. Algumas chegam ao ponto de confundir plágios sem lhes saber o sentido. (Confusos? Eu explico). Por exemplo uma pessoa que começa um poema com o titulo de um livro de um escritor mundialmente conhecido como Milan Kundera, cuja obra deu um filme famosíssimo com o titulo “insustentável leveza do ser”, passa durante o poema por uma imagem descabelada de “espuma” nos olhos ou nas mãos (já não me lembro bem!) e lá pelo meio com uma letra duma canção de Roberto Carlos (ou outro qualquer), “conduz meu corpo na cama e diz que me ama” finalizando a pedir ao objecto dos seus desejos para ser "penetrada à beira mar", será que eu posso olhar para essa pessoa como alguém que está aqui de forma coerente? E que dizer de uma data de pseudo-poetas que tem títulos de seus poemas como: “as palavras que nunca te direi”, “o poema que nunca te farei” e réu-béu-béu pardais ao ninho? Depois vêm-me falar de regulação de uma administração? Mas será que ainda não perceberam que essa imagem da espuma está estafada? Que existem livros e filmes com essas coisas? Se calhar sim… ou não… porque são tão burros, lêem tão pouco que nem se apercebem da mutilação literária que estão a fazer. O pior é que não são um, nem dois, nem três a fazê-lo, são uma data deles a poluir o site com escrita de quinta categoria, e de tal forma que a partir de agora me arvoro no direito de desmascarar e classificar como tal esse tipo de escrita que tenho andado a ver por aqui. Quero ter essa liberdade, a mesma com que essas pessoas me ferem ao escrever coisas que não lhes pertencem, simplesmente porque não conseguem fazer mais, ou porque andam numa crise de inspiração e acham-se no direito de por exemplo postar letras de musicas (conhecidas!) e ainda por cima andar a fazer disso dedicatórias a tudo que é cão e gato. Poetas rascas é o que são. E é injusto o adjectivo de poetas antes de rascas, porque são rascas mesmo, só.
 
dedicado aos poetas rascas

por este rio (me) de falsos poetas

 
Algumas pessoas vivem em redoma, escrevem, tentam passar o que sentem mas de forma estereotipada. Sempre que algo lhes escapa dos versos em “grito de silêncio” lançados, de um “peito dorido” que ganha vida na morte do amado, (porque mais não sabe…) ou vice-versa inflamam-se na perca de argumentos válidos para contrapor as opiniões de que não concordam. A discordância não é um defeito, é uma virtude, é no sonho do escriba, daquele que discorda, que o mundo pula e avança, é do sonho, é da metáfora, da hipérbole, do parafrasear perdido nas aliterações e anáforas das palavras que volteiam em metas perdidas, para enfim chegar ao ponto de partida. Na redoma em que vivem na adoração do pouco que sabem e mais não querem saber esses falsos escribas reduzem o livre pensar a um egocentrismo não percebendo no deambular parco do caminho que percorrem o troço de escolhos e esburacado que pisam. São pobres na essência, pobres no sentir, fossem eles contorcionistas e até no sexo se bastavam. Mas não…
Não se bastam, porque nessa sanha que nem eles percebem o porquê, esconjuram quem deles discorda e amam aqueles que os bajulam, e bajulam os que os bajulam (isto é uma aliteração e uma anáfora mas não é uma hipérbole), exaltam a ímpia concordância, até ao dia em que um que os bajula se atreve a discordar do plágio de si próprios que vão estruturando um atrás do outro… Nem se dão conta é minha convicção e deles também… pena tenho de quem assim sente, e se exalta na discordância não tentando encontrar na plenitude do ir e do vir pontos de intersecção, pela simples conclusão que não há rectas infinitas, algures no ocaso esse traço terá que curvar ora perante a imponência e ditadura da montanha firme e hirta, ora perante a inconveniência do regato que desagua no ribeiro que desagua no rio que desagua no mar, porque quer queiram quer não, os rios desaguam no mar… é isso que eu sou, começo regato nascente, na esperança de me tornar rio… mar… oceano… quem sabe até… planeta... e mesmo assim sei que terei de voltear em torno do sol.
 
por este rio (me) de falsos poetas

sim, eu confesso...

 
Rasgo-te, em cada palavra
Brota de mim um instinto puro
Na auto-preservação
Da minha demência,
Alimentada pelo sangue que te derramo.
Não procuro sequer desculpas.

Rasgo-te prostituído pela vontade de te possuir
Não só o corpo, antes a alma
Que me dizes minha mas que a distancia, teima
Em adiar presente nas dores que te (nos) provoco.

Rasgo-te no impulso do meu querer vagabundo e clandestino
Gumes afiados por dentro do teu bem-querer
Que sei que tens, que sei que me dedicas
No porfiar das promessas que me fazes.

Rasgo-te sem que o consintas
Quiçá pesado na desilusão da saudade
Sempre presente, nunca saciada.
Que de ti meu amor, angustia da alma,
Sorriso do meu ser
Nunca me sacio… a saudade é ela própria
O rasgo do meu querer
 
sim, eu confesso...

crónica de uma queda

 
Afigura-se um dia pesado, sem jeito para rimas. Compassado pelo passar das horas, o peso da negritude ameaça o andar cadente para a noite qual morte anunciada aos primeiros raios de sol, como tambores a rufar… Dá tempo que se reze aos santinhos de improviso! Sem jeito para improvisar, essa tem hora marcada.
Não há hora como a da morte. Um abraço sólido, sem tempo para arrependimentos, só esse interregno de visão passado. Um tempo que se desmorona, outro sem descoberta, ali aberto aos nossos olhos mas sem vislumbre.
Pode existir doçura nesse abraço, como um penhasco sem fim…
Ou aqueles sonhos em que despencamos de uma altura sem ver o fim da descida, só o terror de cair… E cair… E cair…
 
crónica de uma queda

A pomba cagona

 
Era uma vez uma pomba que se achava linda, bonita, pressurosa. Enfunava as alvas asas sobrevoando altaneira e presunçosa, porque mais perto do céu se achava. Competia com outras pombas lá no pombal para ver qual a mais bela e prazenteira e quando escovava as penas logo perguntava:
- Então? Não dizem nada das minhas alvas penas? – E transformava-se em pombo-correio com a mensagem na pata entregando a reclamação da ausência de opinião sobre a qualidade das suas penas que invariavelmente resumia-se a um “há tanto tempo que não elogias as minhas penas…!”. E com pena todas as pombas do pombal acorriam a elogiar a alva pena da pomba que já merecia pena por tantas penas pedir. Ninguém lhe podia dizer que a pena não era tão alva como isso, tinha algumas manchas, que logo ela apagava e ignorava o vil comentário. E acorria ás penas alheias, mesmo aquelas que imitavam voares alheios.
- que lindo é o meu voar, vejam como as minhas penas se abrem ao vento que me sopra em sentido ascendente, fazendo-me subir, subir…
E as outras pombas no pombal diziam entre si que não percebiam essa ânsia de reconhecimento da pena, começando já sem pena nenhuma a lançar escárnio e maldizer na pena da alva pomba. Mas a pomba continuava a voar e como todos os pombos mandava abaixo todo o interstício que defecava sobre as outras pombas do pombal.
- Vão ter que me gramar dizia a pomba… e lá continuava a voar (a defecar) sem pena de quem lhe aparava as excreções…
- Até um dia…- Diziam as outras pombas – Até um dia…
A pomba terá o sonho de Ícaro?
 
A pomba cagona

Não choro pelo teu fado

 
Amordaça-te o corpo essa dor
Mas corre-te veloz nos meandros da alma
O grito que exalas nos confins do sentir
Lá onde o verso te sai em serena calma

Morre-te os olhos na neblina
Luz de vela agitada pelo vento
E cantas a morte, arrenego
Da vida que sentes como tormento

Não queres que chorem pelo teu canto
Queres que te bebam sem lamento
Bebo-te em vida o versejar
Ora alegre, ora triste, suave e lento

E pergunto-te eu… Deixas?
Quando rompeste da tua mãe as coxas
Quem te prometeu o arco-íris
Nesta vida matizada de cores negras e roxas?

A vida é a tua guerra, aquela que vencerás
Ainda que na refrega da batalha
Te sintas vencido, mas renascerás
E só vencedor te enrolarás na mortalha

Que com certeza a hora a ti chegará
De a ela te aconchegares na inevitabilidade
Do tempo, que sereno te abraçará
Nesse ir e vir, do ser a sustentabilidade.

E quando chegar já lhe conheces o hálito
Serás velho, cansado e feliz, vestes-lhe o hábito.
 
Não choro pelo teu fado

prostituta de mim, prostituida pela palavra

 
A palavra toma-me por louco
Na frase o grito rouco,
E não sei que mais lhe diga
Deixa minha boca aflita
Obedeço-lhe aos caprichos
Tudo que eu calo é pouco
A essa louca prostituída
Ante a verdade proscrita

Chupa-me o sangue, rói-me as veias
Bebem-me vinho tinto as letras
Morde-me a alma castiga-me o corpo
Lavam-me o corpo e maceram a alma
Canta-me em poesia, deleita-me na prosa
Cortam-me em penas da mão a palma
Enrola-me no enlevo do seu doce sopro
Setas de amores que em mim penetras

Toma-me no corpo, vendaval de paixões
Arrastam-me palavras cheias de emoções
Assassina-me a vontade em seus braços
Elevam-me acima das nuvem do céu
Roça-me húmida no deambular das emoções
Caem dos olhos em tempestades e trovões
Mil, como mil são seus regaços.
E dentro no peito fazem escarcéu

Corre-me nas veias liquefeita
A loucura dessa vida imperfeita
Umas vezes torpe outras sôfrega
Beija de poemas minha pele
Munida de punhal ou de penas travestida
A matéria de que eu sou feita
Mas nunca a palavra me saiu trôpega
A utopia e ao prazer me impele.
 
prostituta de mim, prostituida pela palavra

Um grande abraço...para todos

 
é mesmo para todos sem excepção.

Estava para escrever um poema, depois pensei nas grilhetas da rima, no peso das sílabas. Na composição de uma declaração há que ter sempre em conta todas essas nuances, que quer se queira quer não nos retiram o instinto, aquele de escrever escorreito na ponta da pena sem parar, de forma instintiva tal como vos faço agora. O luso no último ano da minha vida ocupou uma parte importante da sanha criadora que tinha só para mim, nunca o confessava a ninguém. Lembro-me de em miúdo fazer um poema de fim de ano e os outros garotos da escola ficaram a olhar para mim desconfiando da sensibilidade que nos leva a pôr por escrito sentimentos e imagens, em vez de fotografar com a retina, eu fotografava com a caneta, por isso fui sempre contra o conceito de que “uma imagem vale por mil palavras”. Uma imagem despida de uma moldura pode até ser feia e para mim a imagem, é a moldura da palavra e não o contrário. No luso fiz amigos e amigas, pessoas que hoje fazem parte do meu quotidiano, não vou dizer nomes com medo de me esquecer de alguém, só por isso. E por vezes num exercício destes esquecemo-nos de alguém importantíssimo na escalada que empreendemos e para não cometer injustiças não o vou fazer. Vocês sabem quem são… Alguns nunca os conheci, outros gosto deles sem nem sequer no msn ter trocado ideias, só por uma salutar troca de opiniões por aqui, conquistaram a minha afabilidade e quiçá amizade, alguns ainda cujas ideias estão nas antípodas do meu pensar e da minha forma de ser. Respeito-os pela forma arreigada com que defendem o seu ideário. Alturas há que devemos parar e pensar no que fizemos em prol de quem nos rodeia, neste caso o luso, eu escrevi e contribui para a causa mas tenho para mim que recebi muito mais em troca do que aquilo que alguma vez irei dar. Numa fase importante da minha vida decidi em relação a algumas coisas parar e nessa paragem, em relação ao luso, brotam-me estas ideias de comunhão e saber reflectido. Não sei o tempo que estarei ausente, sei que terei saudades vossas, de todos… (sim Vóny, de ti também) a vida é feita de dissabores, de amizades quebradas e vínculos renovados e nesta hora lembro-me de todos sem excepção. De todos os que de uma forma ou outra privaram ou trocaram comentários comigo, umas vezes açucarados, outras nem tanto, mas não importa…O que importa é a comunhão ainda que ás vezes de palavra em riste e afiada. Não quis encetar esta etapa sem vos abraçar a todos e por favor, façam-me o obséquio, não me façam como os miúdos que partilhavam a sala de aulas comigo na altura em que escrevi o tal poema, que me chamaram piegas e lamechas… Eu sou assim…Pronto.
 
Um grande abraço...para todos

Onde é a merda da sacristia?

 
A casa continua lá, o jardim está igual naquele ar de semi-abandono que sempre teve, a sebe por aparar à espera das vésperas de páscoa, relva murcha e sedenta de um afago liquido que chegava quando enfim chovia. O branco da casa não é bem branco, é assim algo entre o sem cor e o desmaiado a conferir o verde morto das portadas e janelas. Não se pode sequer falar daquelas coisas que normalmente se falam, dos cheiros em dias de festa ou porque a memória me atraiçoa o que acho inverosímil, ou porque simplesmente nunca houve festas, acompanhadas das tradicionais correrias das crianças, das gargalhadas das tias pudicas ante a indiscrição de um tio mais malandro. Nem sequer o cheiro das rabanadas em vésperas de natal, as luzes do presépio a brilhar em mil esperanças da madrugada que anunciam.
Ainda passo em frente dela mas não me apetece entrar e a arrumação que lhe prometo faço-a no sótão das minhas memórias, no canto que não quero mexer, quero-o assim empoeirado e bafiento. Mal respiro com medo que um sopro involuntário desvende algo que não quero recordar.
É só uma casa, muitos chamam a isto casa, e neste momento as reacções que me provoca são muito parecidas. Deram-lhe uma remodelada, alguns recursos mal se percebem porquê, mas continuaram sem regar a relva, sem aparar a sebe, o branco continua desmaiado, o verde das janelas deixaram de representar esperança, antes flores murchas em campa abandonada. As tias continuam por aí, já os tios malandros desistiram e à noite bem cedo fica deserta.
É uma sensação estranha a de estar numa sala que já senti minha e estar rodeado de estranhos, ver as contribuições quase gerais e sentir ventos de mediania para ser simpático, ver rasgos de brilhantismo a serem pura e simplesmente ignorados e a mediocridade aplaudida quase de forma histérica. A vara engordou e tomou formas porcinas. As porcinas engordaram e tomaram formas suínas, pavoneando-se despudoradas numa espécie de pseudo vedetismo onde chafurdam gulosas e gordas.
Não é uma crítica, é uma constatação, já desisti de criticar. Só queria saber onde é a merda da sacristia para encomendar a missa de fiéis defuntos, entregar ao pároco da freguesia uma esmola choruda e dar-lhe os parabéns pela lenta agonia a que nos devota. As tias gostam disso, da tristeza e corações trespassados.
 
Onde é a merda da sacristia?