Poemas, frases e mensagens de wagner

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de wagner

salvador (um poema ateu)

 
salvador (um poema ateu)
 
foto: wagner martins

e quando viram os albores do horizonte,
perceberam a visão do paraíso:
o por do sol,
o barulho das águas,
o cheiro do mato,
o ruflar de asas
o coaxar da rã
o pio da juriti;
e,
foi assim,
de olhos abertos,
firmes em sua conquista
que se deram conta
de sua não existência.

esquecidos da luta,
das perdas,
das dores,
amores,
derrotas;
das imposições,
elucubrações
superações,
atos de sobrevivência,

agradeceram
e adoraram em atitude de contrição:
“nasceu o salvador!”
 
salvador (um poema ateu)

espectro

 
"de noite, no meu leito, busquei o amado de minha alma, busquei-o e não o achei." Cantares 3:1

ouço o seu passo na escada
e eu dentro do metrô,
bêbado, dentro da noite.
você bate à porta.
ouço os passos da escada,
e eu, dentro do quarto,
fundo, no fundo dos desejos
e você atravessa a porta.
ouço os passos dentro da noite
e me prendo na escada.
os gritos de fora me acordam
e você me põe os olhos.
ouço os gritos do metrô
e os passos do povo;
e ouço a porta aberta.
vejo os dentes, fora dos lábios
e os lábios sorrindo.
ouço dentro do metrô
e os passos da escada,
e os passos da vergonha
caminham bêbados,
trôpegos, dentro da noite.
você passou a porta.
ouço os passos do seu peito
e o meu peito acelera,
corre a circulação
e eu sinto o cheiro do poço;
sinto o cheiro do lixo;
você tirou os sapatos.
sinto o bêbado da noite,
e os passos(que) sobem a escada.
o ar é aziago,
o cheiro é aziago,
o bêbado também.
e você assenta dentro de mim.
dentro de mim a circulação apavora,
os passos aceleram,
a mente viaja.
sinto os passos do quarto
e vejo o suor do cais,
o cheiro do cais,
o bêbado do cais,
e os passos dentro do metrô.
você entra.
sinto os seus olhos abertos
muito grandes,
e os seus lábios vermelhos.
sinto as dores do mundo
e você me põe a mão.
vejo seus braços longos
e os dedos ágeis
que trabalham.
sinto o passo da calçada
e a prisão aberta.
você está de pé,
assentada à minha frente.
ouço o apito na enseada,
e o porão frio/fedorento.
lá fora o sal,
areias da praia,
o barulho de ondas,
marcas na areia,
passos de amor,
passos de bêbados,
passos bêbados.
ouço o cardume que passa,
e o cheiro de café.
você me sufoca com o hálito.
o seu hálito é forte
e o ar parado.
sinto o seu hálito,
nos passos da escada,
nos passos da estrada.
um sol na galeria
e eu preso no metrô,
no cais, no porão,
preso no mundo,
no seu hálito;
um hálito de sal,
de iodo, de lixo,
hálito de areia,
de bêbado, de rum.
um beijo.
um beijo de sombras.
sombras que se perdem,
me despertam,
se formam e caminham,
e descem as escadas
e se perdem, nas escadas,
nas estradas,
nas enseadas
e no escuro da noite.
 
espectro

Rua do Kaquende

 
Rua do Kaquende
 
Foto: Wanderley pita

a noite passou
a chuva passou
a neblina passou
fina e insolente;
passou o frio
cortando as entranhas;
a mulinha passou;
- olha o doce! -
gritou
juca doceiro;
passou o tempo
as mágoas
passou o vento
o homem da rua
a viúva de chico cego;
passou o poeta
o boêmio
passou o dia
a rua branca
a vida não acabou;
sabará,
não passou;
cidade malemolente
 
Rua do Kaquende

Fordinho

 
Fordinho
 
- Sabe, aí o meu pai, chamou o Geraldo Gomes e foram consertar uma usina hidrelétrica lá perto de São Cândido. Nós fomos, eu, o Manito meu irmão e o Silvio, filho do Geraldo Gomes, tudo pequenininho, com calça curta e suspensório de pano. O carro era do Geraldo Cláudio, o único que tinha carteira de motorista em Entre Folhas, naquela época. Era um fordecozinho, antigo, fabricado em 1927 ou em 1929. Era conhecido por lá como “Ford bigode”; eu não sei se era por causa do para-choques que lembrava um bigode ou se era por causa de uma lavanquinha que tinha no volante pra acelerar o bicho.

Era um rompedor de obstáculos. Quando chovia e a jardineira não vinha, era nele que as pessoas viajavam pra Caratinga; mas tinha que reservar lugar; cabia umas seis pessoas só. A buzina tinha um som engraçado, parecia com... ah sei com que não!

Além de motorista o Geraldo Cláudio era mecânico e de vez em quando ele mais meu pai faziam uns serviços juntos, mas nesse dia ele foi só de motorista e com o carro dele de condução.

Quem tirou a foto foi o tio Uzias, o único e o melhor fotógrafo da região. Ah, ele foi também! Parou o carro, ele desceu, armou o tripé do daguerreótipo, enfiou a cabeça debaixo do pano preto e: CLAP... registrou esse momento.

wagner m. martins
 
Fordinho

matilda

 
matilda
 
matilda era cadela
discreta

não
matilda era amiga
na certa

morreu hoje;
que dó;
que dor;

dor;
dor de doer
muito,
com lágrimas
e tudo;

dor de amor
matilda,
dor de amor,
dor de amor!
 
matilda

A SENTINELA DA SERRA, OU, UM PÉ DE JEQUITIBÁ

 
Era na parte de baixo da rua de cima que montavam o estaleiro. De estrutura simples, uma engenhoca simplória.

No aquém da cerca da casa antiga, o barranco cortado de há muito, a jeito de que sua profundidade medisse a estatura de um homem de pé. Os dois toros de madeira bruta, roliça, sustentando varais alinhados, amarrados com cipó. Tudo organizado dentro da técnica do mestre lenhador. Era uma caixa sem fundos, sem tampa, sem laterais, desenhada no imaginário do expectante e suspensa num espaço vazio. Parecia mesmo é com um cadafalso.

Acobertado pela noite de luzes profanas, Zezinho puxou da rabeca, atarraxou as borboletas cavilhadas do instrumento. Depois de conferir-lhe primorosa afinação, despejou a cantoria. No arranjo da tulha a vizinhança se amontoava e se empolgava, tanto quanto mais se encompridava a noite. Em bicas, o suor descia. A dança, em revoluções coordenadas desregrava o aconchego dos corpos entrelaçados de homens e mulheres ávidos e perdidos pelo deleite da melodia. Suas figuras, refletidas pela chama vermelha do fogo, no centro do terreirão, formavam um espetáculo de sombras que se misturavam num vaivém assimétrico, sem ordem. Zezinho era figura reclamada nos pagodes da redondeza. De cara aberta e sorriso miúdo, ligeireza no passo que se media no compasso da música. O repertório agradava e a voz também.

A Rua do Louco Amor tinha fita de lugar de pouca visitação. Era só impressão. Fita mesmo. Engulho de quem tinha receios de frequentar os casebres de lá. É que lá, repousava o lado alegre do lugar; o puro prazer do povoado. A iluminação emergia tremeluzente de tochas improvisadas em pontas de bambu, com pavios embebidos no azeite fino, fabricado da mamona, arbusto abundante na região, espetados estrategicamente pelos cantos do terreiro.

O trio de músicos era incansável e não dava folga. A rabeca dava o tom. Na marcação, o pandeiro incensurável de Assef com suas platinelas douradas e a zabumba de Joaquim Parriba, o anão, repetia no contraponto. Num concerto de atitudes e ritmos bem encaixados, ouvia-se o canto, que se perdia mansamente pelas redondezas:

Um dia passei te vendo
Um mês só te namorando
Dez anos por ti sofrendo oh! cabocla
A vida inteira te amando.

Nos pequenos e breves intervalos corria o porongo, cabacinha ou o coité, servido da melhor cachacinha de alambique – Essa é mesmo coração! – falavam entre sorrisos.

Cachaça é coisa de ciência. Durante a destilação, são coletadas três frações: a cabeça, o coração e a cauda, resultado da temperatura de ebulição aplicada no fabrico. O coração se impunha pelo nome. Órgão nobre do corpo humano, aqui também era referência. O equilíbrio. Extremas eram cabeça e cauda, também chamada de óleo fúsel ou caxixi.

Levindo dormia. O catre, improviso de cama construído de rústicas peças de madeira superpostas, semelhante ao estaleiro, rangia sob o peso daquela enorme carcaça humana. A constituição física de Levindo, o fazia destaque no meio das pessoas comuns. Os pés descalçados, sempre, sem apertos, cascos resistentes e intangíveis. Era um homem quadrado. Formava par com Zezinho. Na rabeca não, na rabeca Zezinho era único num raio de muitas léguas. Levindo não tinha ânimo para as noitadas de pagode. Tinha na voz mansa e compassada, uma tonalidade aveludada que lhe dava uma parecença de apascentador de ovelhas. Não tinha vícios. Carregava naquele corpão a docilidade de uma criança.

Quando sentiu o comprimento do raio de sol na parede, percebeu o dia já alto; mais de cinco horas; o trinca-ferro já ciscava o fundo da gaiola. Esfregou os olhos e conferiu que o café já estava coado. Molhou o rosto, engoliu o fubá suado com avidez e pressa, despediu de Fia e foi pro estaleiro. Zezinho já estava lá, firme, à espera do parceiro. O sol espichava no céu enquanto a criançada encarangadas de frio entrava de carreirinha para as salas de aula do Grupo Escolar bem ali na frente. Saudou o rabequista, e ficaram ambos observando o grande jequitibá-rosa deitado sobre os varões do estaleiro. Que belo espécime!

O ritual da serração obedecia critérios previamente determinados, construídos no empirismo da constância. Um puxador, geralmente pessoa de pequena estatura, postado na parte inferior do estaleiro e o serrador, quase sempre de estatura avantajada, ombros largos de halterofilista, posicionado em equilíbrio sobre a peça de madeira. A um canto, a vasilha d'água oferecia a garantia de umidade do ambiente, saturado do pó de madeira.

Levindo e Zezinho formavam dupla de anos no ofício do estaleiro. Naquela manhã, estavam incumbidos de consumir o grande jequitibá-rosa – a árvore sentinela da perigosa serra dos Ferreira. Quem não se lembra dele? Figura portentosa, copa esparramada sobre o que restou de vasta floresta. Visão privilegiada para quem se aventurava nos sacolejos da pequena jardineira de coloração amarelecida, fazendo o trajeto nunca em hora certeira, mas vinha e ia, preguiçosamente, ora subindo com seu gemido rouco, ora descendo na frouxidão do embalo contido no estrondo dos freios inconfiáveis.

A espécie foi comum na região. Com o passar dos anos apenas ele, agora refém da dupla de serradores, pronto, para dentro de alguns dias ser servido num banco qualquer de carpintaria.
No vaivém dos braços, produzia-se o reboar dos dentes em serrilha da grande lâmina de aço, lembrando em tudo o vaivém do arco da rabeca e o som por ela produzido. O bailado de Levindo projetava-se no descampado do grande quintal. Trazia à lembrança o espectro das sombras da noite da tulha, iluminado pelo raio de sol que lhe traíra na madrugada, ao feitio da chama do fogo que iluminara os trejeitos de Zezinho, e seus parceiros, na cantoria do Louco Amor.

Mais que a lembrança do samba, a sonoridade do ato emergia como um gemido de lamento do grande tronco, se espraiando para a distância dali, como que numa denúncia incompreendida pelos passantes que se acocoravam no barranco e davam palpites. O tracejado na madeira como guias definiam a linearidade do corte e as exéquias do velho jequitibá. O dia se foi dessa maneira. À noite, possivelmente mais uma rodada de samba, rabeca, porongo e cachaça; ia depender da disposição de Zezinho. Levindo descansaria aquele corpão pesado sobre o catre. Acariciaria as intimidades de Fia, com suas mãos intumescidas do cabo da grande lâmina, provocando-lhe arrepios de prazer.

O jequitibá, com as entranhas reviradas seguiria pra um canto de sala ou um escritório qualquer, talvez um salão de liturgias. No estaleiro, a lembrança de risos, assobios e a borra de farelo da madeira embolorada e perdida no colo do chão. A Serra dos Ferreira, que já não sentia mais o clangor dos freios da jardineirinha amarelecida, não tinha mais sentinela. Uma lacuna invisível, que os olhos dos homens não conseguiam perceber, diminuía o espectro da natureza rala do lugar. A serra ainda está lá, corrompida; poucos os que sentiram a ausência do jequitibá-rosa. Poucos. Longe dali, eviscerada, consumida, a sentinela da serra guardava para sempre a marca dos dentes afiados da serra de aço dos dois serradores.
 
A SENTINELA DA SERRA, OU, UM PÉ DE JEQUITIBÁ

borboletas ao vento

 
de que se serve
a frágil borboleta
para enfrentar a forte ventania?
a forte ventania,
tal qual a fragilidade das borboletas,
é conseqüência mera
num mundo
onde as coisas se completam
e se equivalem
às desigualdades,
meras consequencias.
delas
tiram proveito
as fortes borboletas
para enfrentar
a frágil ventania!
 
borboletas ao vento

AS VOZES NOTURNAS DE JANUÁRIO CAPADOR

 
Só restavam os dois ali.

A noite avançava sobre a madrugada e Marciano, já cansado de improvisar no fabrico de cigarros de palha, cochilava no canto do balcão.

Uma dose derradeira e repete o gesto manjado de quem bem entende de balcão de venda. Apruma o corpo, despeja lá na glote de uma vezada só a talagada bem medida de três dedos, estala a língua e atira o restinho do Santo que escorre candidamente pela parede do balcão. Ajeitou o chapéu no alto da cabeça, estalou o chicote na bota de cano longo e se despediu.

Pousou o pé no estribo e num golpe único, alcançou o colo macio do arreio. Num meneio de corpo, como que para ajeitar a distribuição do peso de Januário, a montaria pegou trote em direção ao final da rua.

À medida em que se distanciavam, iam deixando para trás as casinhas minúsculas, de janelas tanto mais minúsculas quanto mais distantes ficavam do centro da cidade. A iluminação desapareceu por completo, e, cavaleiro e montaria ganharam a escuridão da estrada de terra batida.

Conhecedor a palmo daquelas brenhas - quantas vezes cruzara aquele pé-de-serra! - soltou a guia e deixou que o passo frouxo da mulinha seguisse lento em ritmo de retorno.

Voltar prá casa era sempre uma aventura. Nunca que Januário se preocupava com horários. Garrava numa conversa fiada e não se dava conta de que os minutos corriam contra sua disposição de não ir embora. Quando não mais tinha jeito, repetia o ritual de sempre. De qualquer forma, o cavalgar naquele horário e sem companhia servia como forma de um acerto de contas consigo mesmo. Quantos anos já ali, tocando sua harmônica de muitos baixos nos pagodes domingueiros e capando a marrãozada nos arredores daquelas tantas léguas!

A aragem que subia da noite trazia no murmúrio do “corguinho”, a cantilena candongueira da madrugada, interrompida pelo “tchibum” do mergulho de algum animal perdido, fugindo de virar alimento para predador noturno.

Reencontrava-se com os seus dias. Mestre na arte da castração, herdou do pai a maestria no manejo da lâmina, e recebera como legado o apelido pelo qual ficou conhecido. Era um privilegiado. Ninguém que tivesse chegado ali como ele, que tivesse feito vida arrostado em cabeção de carro-de-boi, gozava de tamanho prestígio e admiração.

Nos últimos tempos, fatos estranhos vinham ocorrendo por ali, desde que Januário começou a ouvir vozes durante a noite.
Quando da última vez que resolveu verificar o que se passava, pode ficar observando um estranho cortejo atravessar o altinho da tranqueira, ganhar o descampado na divisa da encosta e desaparecer na capoeira miúda, onde as vozes sumiam.

Dia seguinte o corgo todo tomou conhecimento do fato. Quem não tinha visto a procissão na madrugada? Coisa do outro mundo com certeza. Mas só Januário se lembrava das vozes...

Sentia uma esquisitice naquele dia. O arrombamento da tulha de café e o desaparecimento de peças do engenho, era tudo meio estranho, não bastando aquela procissão de estranhos vultos cortando a noite e levando caixão de finado. E foi lembrar agora daquelas coisas.

Uma cantoria plangente como nas cerimônias de encomendação de almas, de repente ecoou pela noite escura, vindo na direção oposta, e Januário pode ouvir claramente o canto:

“Ó que contas rigorosas
“Tens de dar por toda a vida
“Confessa-te ó pecador
“Tens a tua alma perdida

Estranho arrepio percorreu-lhe a espinha e a mulinha ficou estática.

“À porta das Almas santas
“Bate Deus a toda hora
“As Almas lhe responderam
“Que quereis meu Deus agora?
“Quero que vindes comigo
“Para o Reino da Glória!

Estava ali, diante de seu susto o cortejo que vira dias atrás. Mais ou menos uns sete vultos vestidos num roupão branco, conduziam um estranho caixão e repetiam em coro aquele cântico de agonia.

No inusitado do encontro, cortou-se ao meio a cantoria, e estranho silêncio se fez.

Num gesto de investida por parte do pretenso líder do grupo de penitentes, Januário não teve outra alternativa que não o enfrentamento. Forçou os calcanhares nas costelas da alimária, relutante em continuar, até que, premida pela insistência investiu sobre o grupo, enquanto Januário brandia valentemente o seu chicote, dispersando o bando que se espalhou em desabalada carreira mato adentro.

Na debandada, sobraram o caixão, Januário e a mula.

Receoso do pecado que poderia representar a violação de objeto de adoração, mesmo assim não lhe restou alternativa se não verificar quem seria o finado e com as cautelas que acometem o ser vivente que se depara com alma de outro mundo, puxou a mortalha de um só lance e desnudou a finada alma:

Sacos de café acondicionados sobre um estrado de madeira, eram conduzidos em séquito, ao som da ladainha dos penitentes.

Estava ali a resposta para os arrombamentos da tulha.

17/10/00 - sabará

(Publicado no livro “Fala, filho da mãe!!!”)
 
AS VOZES NOTURNAS DE JANUÁRIO CAPADOR

A PERNA DE BENZINHO, OU, O BODE

 
A casinha era humilde, encravada entre tantas, todas, igualzinhas uma e outra, praxe de final de rua, onde a população mais pobre se acotovela, quando pode, em janelas contorcidas, equilibradas em paredes de adobe sem reboco, quando não da ripa linhenta de palmito, travadas com cipó São João e revestidas de barro cru. São as casas de taipa, pra nós da região do Entre-Folhas, casas de pau-a-pique ou de barro batido.

Como a aparência externa, o interior também era de uma uniformidade estremamente resumida: piso de chão batido, “encerado” com bosta de boi diluída em água, paredes caiadas de barro branco e o fogão de lenha na vigília intermitente da porta da cozinha, como um duende, a bocarra fumegante voltada pro cômodo da sala. Este por sua vez tinha como ornato de parede uma estampa de Nossa Senhora Aparecida, uma folhinha Mariana, no costão da porta da rua, e uma foto do escrete brasileiro, campeão do mundo em 1962. A mobília resumia-se a um banco rústico, de madeira, com pernas arreganhadas, nada mais.

De comer, só o essencial. Havia mesmo dias em que o desjejum era uma“cruz na boca” e a misericórdia de Deus.

Tamanha miséria não afogava o carinho entre os dois amasiados, sem filhos, às mil maravilhas no benzin pra lá, benzin pra cá, naquele tiquinho de nada de casebre.

Quitéria bem cedo sacudia Venâncio, emborcado no colchão de palha de milho, esparramado sobre o catre:

- Levanta benzin!

Dava um trato ligeiro na arrumação da cozinha e sumia coxeando da perna, emaranhando guaximas pelo quintal até a pedra do poço. Mergulhava até a cintura, no remanso do corguinho e se punha a lavar... sabão-preto, fabricado em casa mesmo, resto de sebo ganhado do açougue, lata de querosene, das grandes, equilibrada sobre fornalha de pedra e a decoada pingando semana inteira: pim... pim... pim... à espera do ponto.

As trouxas de roupa pegadas pra lavar na rua, servia para aumentar o ganhame, tão minguado naqueles dias de sofreguidão; essas, lavava com sabão Mossoró, amarelo e pintadinho que nem banana ouro, de cheiro mais suave, utilizado também para o banho do sábado, pois os trocados da lavação recomendavam economia e não suportavam gastos exagerados e supérfluos.

De sua casinha, em mesmas proporções, no lado contra do rio, Nania vigiava e reparava as dificuldades daquela mulher trabalhadeira, no vai-e-vem de semana inteira, trouxa de roupa na cabeça, varando quintal pra-lá-e-pra-cá. De Venâncio não tinha referência. Era um folgadão.

Vida difícil. Venâncio era aquela pustema de paciência e sossego. Uns bicos daqui e de lá, na cata de lenha prá vender na rua, pegar animal no pasto, um mandadozinho aqui, outro ali... quando dava de encontrar animal arisco e tinha que correr atrás, dormia no descanso, feito um inocente, até perder o sol de vista. De tarde, não perdia por nada uma fiada de prosa no “pau-da-grosa”.

Que estropiada! Correr animal daquele jeito em troca duns míseros quinhentos reis, que não davam nem pra aumentar o tamanho da perna de fumo... o jeito era dormir; “dormir às bandeiras despregadas”, como dizia Quitéria.

Esticou os braços ainda adormecidos, enfiou os pés na botina chiadeira e saiu, sem nem ao menos perceber que sua mulher, ainda não retornara do batedor de roupa na beira do corgo. Bah! Conversa de lavadeira não tem fim.. .

Ganhou a rua empoeirada e tomou o seu rumo. Enquanto caminhava a passo medido, tirou da orelha o “toco” meio-pitado do cigarro de palha e acendia e reacendia o danado, que teimava em não pegar, devido, sei lá, à qualidade do fumo – “soca, com certeza...” Acender a binga naquele roletão de pavio comprido, sem o luxo da gasolina de combustível exigia arte, técnica e habilidade, fatores que o bendito do cigarro de palha não levava em consideração.

Entretido com o manejo da engenhoca de fazer fogo, se vê de repente, cara a cara com o Nania, que vinha descendo a rua em sentido contrário, acossando o pobre do Benzinho, um bode já velho e manco, preso no coice do carrinho de cabrito com seus fueiros cediços, entupido de tantas e tantas dúzias de bambu, que o infeliz arrastava coxeando com dificuldade e sob a tortura do chicotão de Nania.

Sem meias condescendências, Venâncio sai em defesa de Benzinho:

- “Ô camarada, cê num tem dó desse pobre animal?”.

- “Que o que Venâncio...” - resmunga o Nania, com cara de quem não queria muita conversa.

- “Cê num vê o aleijão do bicho, não; num vê o tanto que ele cuxeia e que é uma maldade ficá obrigando esse pobre de trabaiá tanto, e ainda com uma violência desse suporte?! Completa Venâncio indignado.

“...cê tá achando ruim de que? – Perguntou Nania; e completou com toda irreverência:

- Aquela sua muié Quitéria cuxeia mais que esse bode veio, e ocê põe ela prá lavá roupa dentro do corgo todo dia, sem dó ninhuma; e que que cê tem com isso, o bode é meu?!

Venâncio engoliu em seco, deu uma estatelada e desistiu do “pau-da-grosa”. Voltou prá casa, descalçou as botinas cravejadas, atiçou o fogo do fogão, acendeu o cigarro meio pitado que não acendia desde lá fora na rua, encostou a cabeça no batente roliço da porta da cozinha, fixou o olhar na direção do remanso do corguinho e ficou pensando na perna coxa de Quitéria:

“Não é que ela e Benzinho mancavam da perna esquerda!?”.

Publicado no livro “Fala, filho da mãe!!!”
 
A PERNA DE BENZINHO, OU, O BODE

aipertin

 
"Vovô foi no Bugre.
- diz vovó -
vovô sempre vai no Bugre.
"Onde fica o Bugre, vovó?"
"Ali, meu filho,
pertin,
No Bugre mesmo!"
 
aipertin

Ah, Majestades!

 
Ah, Majestades!
 
Começa agora, bem de mansinho uma chuva no meu telhado. Sempre que chove me cubro de preocupações; não moro em área de risco, mas sou castigado severamente pelo medo do trovão. Bobagem. Se ouço o trovão é porque o perigo já passou.

Naquela tarde noite chovia. O anoitecer aumentava o risco não só para os que moravam nos morros e nos sítios ribeirinhos. Costumo dizer, sem que ninguém me conteste que as coisas desagradáveis e inusitadas acontecem sempre à noite. É à noite que o gás do fogão acaba; de preferência quando você está na metade do “mexidão”; o dente dói e não tem analgésico, só à noite. À noite é quando os filhos resolvem nascer; alta madrugada! Vai tudo muito bem e de repente:

“Bêêmnhêêê, estourou a bolsa!” - Corre daqui, corre dali, e o jeito é passar o resto da noite no hospital.

Ligaram não sei de onde. A comitiva de Sua Majestade Imperial seria pontual e já estava a caminho. Engoli o lanche e sai no galope. A recepção foi um ato inusitado. Motivação para impor contrafação numa situação política local. Uma pugna despropositada marcada pelo cerceamento de direitos básicos me jogou no colo aquele momento. Algumas linhas foram publicadas nos jornalões da capital. Tá bom, forçou a barra. Recebemos os herdeiros do trono!

Chovia fino. A preparação haveria que ser feita com presteza, embora rapidamente, para se evitar o cometimento de gafes. Há um jeito muito especial de se tratar com membros da realeza, dizia o Augusto Ferreira o anfitrião. Perfilhados no calçamento irregular do paço municipal o minguado destacamento policial repassava o “mise-em-scénes” pra não fazer feio.

D. Bragança espera com o olhar fixo no horizonte como se estivesse alheio ao mundo que lhe rodeava. Augusto desceu rápido, abriu a porta do veículo, curvou-se cerimoniosamente e se fez acompanhar de sua Alteza até onde a meia dúzia de milicianos aguardavam em posição de sentido, desconfiados daquilo tudo.

Ariel, como se estivesse a persignar-se elevou a mão à pala em sinal de respeitosa continência, saudou o herdeiro imperial apresentando-se e se colocando à disposição da comitiva.

D. Bragança estende a mão aos moldes do gestual das monarquias, talvez à espera do beijo do vassalo. Em forma de murmúrio, misto de educação refinada e distanciamento singular da pompa imperial provoca um inusitado desconforto de natureza semântica:

- Obrigado comandante, desejo boa sorte para o senhor e para sua tropa.

- Agradeço, meu príncipe, eu desejo o mesmo para a alteza do senhor também.

Em comitiva, depois de um discurso rebuscado de saudosismo e a expectação de um possível retorno aos lauréis de anteontem, fomos todos à recepção nas dependências do museu federal, nos fartar de bom vinho e vistoso repasto.
Abro os jornais e percebo hoje, no vórtice dessa chuvinha murrinhenta em minha janela, tal qual naquele dia, que toda a imprensa do país está deveras preocupada com a visita do Príncipe Harry às terras de D. Bragança. Policiais paramentados, holofotes e flashes insistentes, iluminam e incendeiam o sorriso amarelo de um inglês genuíno, de rosto vermelho e pele esbranquiçada. Longe de se vislumbrar no rosto do infante, uma beleza encantadora, tal a que se via no rosto gracioso de sua mãe, envolvida pela volúpia do mimetismo entre a frugalidade e a realeza plastificada. Por outro lado, não se escreve também em suas faces a estampa rabiscada do pai sempre com ares de quem está chupando limão galego, daqueles miudinhos que tinha no quintal da casa do Tiilton.

Não tenho a menor preocupação de acompanhar os fatos. Sequer me dá interesse em comparar as atitudes do herdeiro da coroa inglesa com as atitudes dos imperiais senhores de Bragança. Percebo hoje que a inusitada visita daquele distante momento chuvoso se repete rotineiramente na cidade, já que firmando-se num sentido sem sentido, germinou por aqui, uma célula de monarquistas emplumados. É coisa que não vinga. Não sai do broto, mas que é hilário é. Não menos hilário que o cordão de populares, moçoilas, crianças e curiosos que o rodeiam o terceiro sardento na linha de sucessão do trono de Windsor. Harry subiu morro, Harry jogou bola nas areias cariocas, Harry participou de corrida no aterro, comeu churrasco no Pantanal, posou ao lado de autoridades, foi recebido por escolares de bandeirinha do Reino Unido, fãs de Harry fantasiados de membros da realeza, por fim, como não poderia deixar de ser, Harry foi jogar uma partida de pólo com seus “amigos”. O polo é um esportezinho besta, coisa de ricos, que por preguiça ou comodidade, correm atrás de uma bolinha montados em cavalos de rabo empacotado.

O regime monárquico, a despeito do sonho da Imperial Família de Petrópolis, não foi de todo algo que atraiu muito nosso povo, ainda que em nosso meio existam os reis do futebol, do baião, as rainhas dos baixinhos e da pipoca. Mas, acho até que não sabemos muito bem o significado dessas metáforas não. O que mais me intriga, é que, não é incomum entre nós a expressão: “FULANO NÃO PASSA DE UMA RAINHA DA INGLATERRA!” num significado de que "fulano" não manda coisa nenhuma.

Em verdade, a monarquia inglesa, atualmente é mais o significado de um culto à tradição. Se por um lado, traz essa característica lúdica de emoções, não significa em efeito um governo de fato. Sabe-se que a monarquia inglesa é uma monarquia constitucional parlamentar onde o exercício do poder não está nas mãos do monarca, e tem limites na lei. Em suma a monarquia inglesa é bem um símbolo de poder.

Coisas que acontecem entre nós com importâncias significativas, por vezes não são noticiados. O ex presidente Lula, no clímax de sua popularidade, disse que os atos de seu governo com certeza teriam muito mais destaque e repercussão na imprensa alienígena que na doméstica. Há razões para tanto? Falou-se muito mais de Harry, numa semana que do vazamento de óleo nas águas brasileiras.

Que gosto, que razão, que motivos, que mística levam um bando de autoridades, um bando de pessoas do povo, que nem sabem de reis, rainhas e príncipes, a uma insistência exacerbada de uma mídia que zomba do país, que releva questões cruciais ao nada elevado a nada, a ficarem dias e dias com seus espaços todos tomados para definir o sorriso de Harry, discutir a cor da meia de Harry, se enfeitiçar com o beicinho de Harry, diagnosticar o cheiro do pum do Harry? Ora, a resposta não está muito longe daquilo que já se sentiu há tempos entre nós e que vem sendo uma prática aflitiva de nossa elite burguesa e metida a ativa, tão bem evidenciado por Nelson Rodrigues, o Anjo Pornográfico, a propósito, construída exatamente sobre um confronto com súditos da rainha:

“Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade.”

Jamais foi tão evidente, e eu diria mesmo, espetacular o nosso "viralatismo" quando esse espetáculo de inocuidades toma o nosso dia a dia e transforma em celebridades nada mais que um simples traço de ácido desoxiribonucleico, nada mais que isso.

Vou dormir. Com essa chuvinha manhosa, essa noite chegando, e esse povo brincando de príncipe por aí, pode bem ser que algum Bragança me venha bater à janela, ou mesmo um sapo coaxe sob meu catre, pois, é sempre a noite que essas coisas nos convém.

19 de março de 2012

Wagner M. Martins
 
Ah, Majestades!

o bilhete

 
depois do flerte
voltou
e
num soluço entristecido
estendeu as mãos
e de entre os dedos
saltou o bilhete:

- toma: é pra você!
falou,
com voz embargada
e os olhos marejados.

“esquece tudo,
como lhe dissera;
te amo.
da sua...”

escreveu.
 
o bilhete

À SOMBRA DA MANGUEIRA GRANDE

 
O corpo permaneceu imóvel, sob o lençol azulado, na mesma posição em que fora deixado. Desde o alvorecer perguntava-se sobre a possibilidade de ninguém haver percebido o que se passara ali, naquela noite. Tratado como “essa coisa”, ninguém lhe prestara vigília. Quando tiveram início os espasmos e as contrações, o dia já era quase realidade e Ele estava prestes a tomar o encaminhamento de seus afazeres costumeiros. Tinha que ser objetivo e rápido. Mal saíra do ventre, tomou-o nas mãos e com gesto brusco seccionou a coluna vertebral na altura do pescoço consumando o feito. Nenhum gemido; não, não houve tempo prá isso.

Sairia cedo naquele dia como fazia sempre.

Aqueles nove meses ficariam marcados como de eterna agonia em sua lembrança. Tempo de angústia, pavor e revolta, durante o qual não deixou de pensar sobre a solução única que o caso poderia comportar. Lamentar não resultaria em nada, afinal de contas. A decisão que encontrara cortava o mal pela raiz, dando fim à situação, antes que ganhasse o domínio público.

Não acreditava pudesse existir tamanha irresponsabilidade no caráter daquela renegada. Maldito o ventre que lhe pariu. Saíra à mãe, estava estampado em seu rosto; ainda bem que já fazia tempo que a desinfeliz se desencarnara e com certeza, àquela altura, deveria estar bem acomodada e sorridente num cantochão qualquer dos infernos, se deliciando com a sina que deixara à sua prole. Com ele seria diferente. Não toleraria mulher amancebada dentro de sua casa enquanto fosse vivo, não aceitava filho de pai desconhecido, se bem desconfiasse da autoria, o que lhe causava ímpetos de furor, e de vingança, quando o fato lhe vinha à mente.

A cerquinha de bambu com ingênua fragilidade, oferecia uma certa proteção para que não ficasse de todo exposto ao campo de visão de algum curioso. Afastou cuidadosa e mansamente a ramagem do “São Caetano”, o rastel da folhagem que cobria o chão e pôs-se a observar meticulosamente em cada quadrante do quintal, como se duvidasse ainda da possibilidade da existência de algum par de olhos por trás de alguma moita. O silêncio era absoluto. De companheira apenas a mancha de sombra da mangueira grande, esparramada pelo chão, no sentido porta da cozinha. Estava certo de que não daria motivos para disse-me-disses-suspeitos.

Demarcado o pequeno retângulo, começou a escavar numa extensão de medidas do que se poderia dizer ser uma “cova rasa”, daquelas onde se enterram os infelizes que não receberam o batismo da Santa Madre Igreja.

Encostou a ferramenta no tronco da mangueira, limpou o fio de suor que lhe escorria da face, dando por terminada a segunda parte do serviço.

Seus dias caminhavam para o final e pressentia que não suportaria a carga de inconfidências, o vexame que lhe impunha a filha, justo aquela. O que lhe fazia merecedor daquilo tudo?! Afinal de contas, sempre fora correto em suas atitudes. Seus princípios eram rigorosos. A madrugada o acompanhava desde os dias mais tênues da vida, não lhe deixando sobras de tempo para a prática de infortúnios inconfessáveis daquele porte. Construíra com sacrifício o respeito que lhe vinha desde os albores da mocidade, e se via agora a defrontar com um escândalo prestes a acontecer, bem debaixo de seu nariz. Jamais toleraria aquela ignominia.

Já não tinha mais coragem de circular pelo quarteirão. Não ia mais às missas dominicais, o que representava estar em falta com Deus. O riso lhe fugira da face larga e o seu olhar já não tinha mais brilho...

Poucas pessoas visitavam o casarão, agora sem a presença da finada, que havia deixado marcas traumáticas na formação da filharama. Inda bem que tinha ido cedo. Aquela manhã de silêncio se desenvolveu aliada a uma frieza irreconhecível.

Debruçado sobre o leito, a imagem recorrente do momento exato em que se deu a interrupção do ciclo vital percorreu-lhe os sentidos sem o mais tênue sinal de arrependimento. Onde já se viu filha sua posar de rapariga, de mulher-dama, se expor ao ridículo de boataria do diz-que-diz das esquinas, virando tema de ladainha de beatas desocupadas? Onde já se imaginou, ele, homem de estatura, respeitado pelos próceres da Relação, ter que colocar “benção” em filho de pai ignorado?

Tomou nos braços cansados de velhice, o corpo imóvel do recém-morrido, e foi na direção da vala aberta à sombra da mangueira grande. O volume trazia a aparência de um embrulho de menor importância; um monturo de coisas inservíveis; lixo. Ajeitou-o no fundo da vala e reconstituiu o terreno de forma a que não ficasse vestígio aparente. Nenhum gesto de arrependimento; nenhum sinal de fé; apenas a determinação de afastar toda especulação que pudesse advir da movimentação estranha ocorrida no casarão, naqueles últimos meses.

Como que aliviado retornou. Seus passos eram lentos e arrastados. Não saíra naquele alvorecer. Não sairia mais.

Antes que o sol saísse, e antes de ir para o avarandado do alpendre caminhava em volta da mangueira, com passo arrastado... a filha, em silêncio, fazia café...os outros saiam e voltavam com o anoitecer.

Em todos os dias que se seguiram passou-os assentado no avarandado do alpendre, recostado no batente da cancela. De longe os passantes o saudavam e recebiam como resposta um aceno de cabeça, apenas. O olhar perdido no horizonte trazia uma impressão de distancia, de ausência.

Dizem que chorava na madrugada.

(Publicado em “Fala, filho da mãe!!!”)
 
À SOMBRA DA MANGUEIRA GRANDE

a mulinha doce

 
a mulinha doce
 
foto Wanderley Pita

sobe juca,
mandrião,
pela rua do kaquende.

a mulinha,
carregada de doce
submete-se
e segue mansa
o trilhar da madrinha,
montaria de juca.

gritos alertas
ecoam nos ares

- “mãe, envém a mulinha doce”

e juca distribui
o doce de leite.

enquanto conta
os mil reís que recebe,
ouve-se do kaquende
a evanescência
de pingos e respingos
da água fria,
intermitente;
gélida.

sabará dormita
e o sonolento dia
amanhece.
 
a mulinha doce

MIGUEL

 
MIGUEL
 
Luana chegou derrubando alegria pelos lados do corpo. O virulento dia a dia que prende as pessoas, trabalho, sequencia de obrigações, afastou-a dos laços mais elementares da convivência familiar. Uberlândia ficou na histórica recordação de uma infância aromatizada e revestida de boas lembranças. Ia voltar agora, encontrar raízes, garimpar reminiscências que ficaram perdidas na distância.

Os preparativos estavam sendo cuidados e a ansiedade era indisfarçável. O pequeno Miguel não era diferente. Em uma cânula de inocência embebida duma espiritualidade ácida e inata, anunciava que ia viajar, num entremeio de choros de birra de uma criança de três anos e os arroubos de uma natural inquietude.

Viajar de avião, em tempos outros, já foi um privilégio de poucos. Atualmente, as viagens nessa modalidade tornaram-se algo palatável, possível a todos e natural.

Rondando a cozinha, arrastando vassouras, rolando pelos cantos, o pequeno Miguel sorria e comemorava a viagem enquanto a mãe vasculhava nos monitores as possibilidades de adquirir um bilhete sem ter que se deslocar aos guichês empanturrados dos terminais de viagem.

Nesse ambiente travo com Miguel um pequeno diálogo:

- quer dizer que vais viajar em Miguel?

- vou

- vai viajar pra onde, Miguel?!

- pá onde mamãe? A zente vai viazar pá onde?

- pra Uberlândia, Miguel, fala pro vovô que é pra Uberlândia

- vovô, eu mais a minha mãe vai viazar pá ubelândia.

- vai viajar de avião?

- não, vô, viazá de ombus,

- e porque não vai de avião?

- é poquê não tem cadera pá sentá

- não tem problema, viaja em pé, uai.

- não, vô, não pode viazá em pé não.

- e porque não pode viajar em pé, Miguel!?

- é poque se viazá em pé o avião dispilota

Tá certo. Sabedoria a toda a prova... “se viajar em pé o avião dispilota”.

Responder o que? Rsrsrsrsrs
 
MIGUEL

Rua D. Pedro II

 
Rua D. Pedro II
 
foto: zarley starling

múltiplas janelas
observam
veladas
o serpentear
da rua

a rua
parafusada
na esquina
não sobe
nem desce
é fixa

o casario
se entrelaça
em abraços
e floresce
como lírios
em canteiros
adornando a rua

os telhados
com suas águas
respingam
os suspiros silenciosos
entreditos entre paredes

sussurros obsequiosos
amálgamas
intercorrentes
da rua d. pedro II
no sabará de minas

Foto Zarley Starling
 
Rua D. Pedro II

além da montanha

 
o que há por trás da montanha
que não possa eu definir?!
tem laço de fita
amarrando cabelo de moça;
tem moça bonita,
abraçada com homem casado;
tem campo de concentração
burlando a paz mundial;
tem outra montanha encimada
banhada de cheiro de relva;
tem jasmim do campo
em noite de primavera;
tem rostos banhados em poeira
de cidades envidraçadas;
tem cigano com dente de ouro
roubado de sepultura;
tem puta de anel no dedo
com "cacho" de candongueira;
tem sentinela de morto
em noite de fumaceira;
tem vela acesa queimando
em despacho de sexta feira;
tem olhos de amor chorando
por amor que foi s'imbora;
tem festa de arromba fulgindo
tem baile de noite inteira;
tem bode trepando em cabra
em cima de pedraria;
tem gente ofertando pão
prá sócio de confraria?
tem viola plangente?
tem festa de formatura?
tem berrante tocando?
tem homem tangendo rês?
tem mulheres parindo filhos?
tem gente passando fome?
o que há por trás da montanha
que não posso eu definir?
montanhas e mais montanhas...
 
além da montanha

nenzinha

 
nenzinha
 
no balanço de cordas
o vai e vem
coordena o sustento
do corpo miúdo
da mulher triste
de olhos verdes
e lábios grossos.
eu vi
sorrindo
esses olhos
na moldura
do rosto moreno
da mulher triste;
eu beijei
aqueles lábios grossos
encarnados
da mulher triste
que tinham sabor de afeto
e numa tarde
já perdida no tempo
deixei naqueles olhos verdes
de forma definitiva
a angústia de
sombras esmaecidas
e as lembranças
de um adeus inusitado
 
nenzinha

alma nua

 
o que me desperta
nessa convicção crua,
do que é desperto
e do que é
essa alma nua?

o que me desconforta
dentro desse espaço,
de cada porta entreaberta
e do que é
essa alma nua?

o que me desconcerta
nessas mãos vazias,
nos dejetos da vilania
e do que é
essa alma nua?

o que me importa
nessa condição de fantasia,
que pela rua se posta distante
e do que é
essa alma nua?

quero por todos os poros
essa visão expectante;
quero o sol da fantasia
que se aporta
nessa alma nua.

quero o mundo desvestido
das bocas pretas e desnutridas,
das mãos sedentas e dos preconceitos,
não quero uma visão sombria
do quanto me desperta
a insistência dessa alma nua.

(Publicado em "Fala, filho da mãe!!!"
 
alma nua

a mulinha doce

 
a mulinha doce
 
foto wanderley pita

sobe juca,
mandrião,
pela rua do kaquende.

a mulinha,
carregada de doce
submete-se
e segue mansa
o trilhar da madrinha,
montaria de juca.

gritos alertas
ecoam nos ares

- “mãe, envém a mulinha doce”

e juca distribui
o doce de leite.

enquanto conta
os mil reís que recebe,
ouve-se do kaquende
a evanescência
de pingos e respingos
da água fria,
intermitente;
gélida.

sabará dormita
e o sonolento dia
amanhece.
 
a mulinha doce

Leia de Wagner M. Martins

FALA, FILHO DA MÃE!!! - Capa Paulo Vieira

UM BICHINHO À TOA. - Capa: Camilinho

Participação:

Livro OLHA PROCÊ VÊ! de Elias Rodrigues de Oliveira

No prelo:

UM INTRUSO NO QUINTAL