Poemas, frases e mensagens de quidam

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de quidam

Escrevo não para mudar o sentido do mundo, mas para que o sentido do mundo não me mude a mim.

brincar no teu corpo

 
uma casa para quê
se é no lar do teu peito
que quero morar
e por lá guardar
os meus brinquedos
do meu tempo de criança

se me ousas abrir a porta
permite-me sair
de vez em quando
para brincar no teu corpo
 
brincar no teu corpo

adormeço nos tentáculos de m’alma

 
adormeço nos tentáculos de m’alma
 
à beira da praia
sinto o pensamento dos rochedos
e em meus lábios arde a flor de sal
recém-chegada da noite

escorre pela garganta seca de silêncio
a inundar o meu corpo de areia
tentando cobrir esta solidão
da sua incapacidade de expressão

e nas ondas surge um vazio
de uma concha fóssil secular
a rasar a vastidão do mar
onde ferve um tempo reprimido

entrego-me ao fundo do oceano
para encontrar outra luz outra vida
suspensa na densidade das águas

aconchego-me nos limos e nas algas
e preso na rede dos meus sonhos
adormeço nos tentáculos de m’alma
 
adormeço nos tentáculos de m’alma

tu começas aqui

 
tu começas aqui

nestas águas revoltas
que inquietam os sentidos
oceano imenso e profundo
e eu tão pequeno sou perante ti
tenho-te frente aos meus olhos
mas jamais te posso alcançar

o mar em ti

diante esta falésia onde te assisto
fim e o principio do teu ser
rosa que cresce nas águas
em azul de algas perfumadas
que eu sinto salgadas
por terem vindo de tuas lágrimas

e a tua alma por fim

no silêncio sussurrando baixinho:
- este é o lugar onde o amor começa
mas eu não sou naufrago perdido
(de ilha rara ainda por descobrir)
para encontrar teus mistérios perdidos
tesouros que guardas intocados

e tu és assim

por entre tormentas e marés calmas
com a tua serenidade profunda
da fé que te guia neste pélago
onde lá longe um horizonte
com cheiro de ternura de mãe
protege botões de rosas vermelhas
a perfumar toda a aragem

- livres deitam suas pétalas à deriva
neste mar onde não posso navegar
apenas consigo reter nos meus olhos
a imagem de pura pérola a brilhar
 
tu começas aqui

LUZ DO HORROR

 
LUZ DO HORROR
 
Estranha ambição

esta de querer juízos
em subtis estados
defraudadores de equilíbrios
de ungidos passados.

Estranho vício

este de fantasias dos sentidos
que me arrepia e cala
as lunações dos silêncios
que jorram na minha fala.

Estranha doença

esta que me tira a presença
deste corpo paralisado no mundo
no templo profanado da minha crença
onde se prega o verbo surdo e mudo.

sim, sinto estranha dor

que me faz chorar sem qualquer lágrima
será este o choro da dor de amor
pelos vivos que não têm alma?
(sim, esses que matam com a luz do horror!)
 
LUZ DO HORROR

quarta-feira (de cinzas) - (parte iv)

 
passaram por mim
as três estações
contemplo agora
nas paredes do meu sonho
as telas onde tu
um dia surgiste

és um branco invisível
acariciado pela neve
onde o sol
por entre ramos de árvores
tenta iluminar o teu reflexo

e eu queria tanto deitar
a tua insustentável nudez
no colo da sombra deste amar
de quão frágil solidez

a neve aquece certamente
e a sua água correrá fluente
da nascente da tua imagem

o teu corpo
é levado pelos rios
de outra
primavera verão ou outono
assim como sucede
aos fins dos dias do entrudo
(tantos como as três estações)

ó quisera eu ter sido brincadeira
deste carnaval
as telas pintadas à minha maneira
mas tudo me correu mal...

começa hoje a quaresma
vou procurar redenções
para a minha pecadora alma
deste meu desejo carnal

enterro agora a tua gravura
e não alimento mais recordações

só esta estação de inverno
com o seu intenso frio
ainda não terminou

tudo o resto acabou
o carnaval em fim de dias
e as minhas quatro poesias

em quarta-feira (de cinzas)

Devido as imagens poderem ter conteúdos suscetíveis de ferir sensibilidades as mesmas não foram publicadas. poderá ver o poema com a respetiva imagem em http://afacedossentidos.blogspot.pt/
 
quarta-feira (de cinzas) - (parte iv)

escondo-me

 
escondo-me
 
Escondo-me
Não para fugir do mundo
mas para que o mundo não fuja de mim

Escondo-me
Não por ter medo de nada
mas para que o nada seja tudo

Escondo-me
Não da multidão por onde ando só
mas para poder ser alguém

Escondo-me
porque espero que me encontres
mesmo sendo ninguém

Se me perguntares a onde estou
posso não saber responder-te

procura-me…

e se me encontrares
guarda esse segredo contigo
eu posso não reconhecer-me

imagem sapo
 
escondo-me

A TI

 
A TI
 
Eu não te consigo amar
(nem tão pouco entender)
abriga-me dentro do teu silêncio
para eu te poder decifrar

Imagem © Leanne Limwalker
 
A TI

a cor dos teus olhos na minha íris

 
a cor dos teus olhos na minha íris
 
o silêncio sonhou as sombras de ti
nas formas da tua imagem colorida
na memória que se manteve viva
de um certo dia em que eu te vi

agora o silêncio apenas grita a tua vida
nas linhas pretas e brancas do teu perfil
esqueceu-se de ti - partiste nesse dia
apenas recorda a primavera - era abril

as cores do por do sol da lua e o mar
o silêncio nunca as consegue esquecer
(sempre serão lembradas por um olhar)

mas cala-se quando vê uma cor morrer
não foi uma cor do expetro do arco-íris
foi a cor dos teus olhos na minha íris
 
a cor dos teus olhos na minha íris

uma estrela a sorrir me olha

 
uma estrela a sorrir me olha
 
plantei uma roseira
no meu jardim
para oferecer-te uma rosa de mim
mas procurei-te em vão por ai
não te encontrei não te vi

fui ao mar saber de ti
e ao mar eu prometi
que afogava o meu peito
nas ondas criadas pelo vento
em troca da tua imagem

mas o mar é amistoso
verdadeiro e grandioso
devolveu-me uma miragem
e não me quis levar com ele

fez cair a noite que é dele
acabei por regressar do mar
com as minhas lágrimas
ou seriam gotas de água salgada?

não importa o dia estava a findar
voltei ao meu jardim
levei a rosa que colhi
e plantei-a de novo por ali…

olhei o céu naquela hora
e uma estrela a sorrir me olha
 
uma estrela a sorrir me olha

labirinto sem saída

 
labirinto sem saída
 
são os teus olhos
que me encantam com tal beleza

um negro escuro transparente
com tua alma espelhada em pureza

uma parte inteira de um lugar
onde nascem todos os amores

uma vida vivida num olhar
na verdadeira face da natureza

um jardim de flores selvagens
onde se inventaram as cores

um brilho celestial pelas margens
onde escrevi este frágil poema

um cristal translúcido
que encheu a tinta da minha caneta

num despertar perfumado
a atordoar o caos da minha vida

assim és estro de um ser apaixonado
dentro de um labirinto sem saída
 
labirinto sem saída

falei com o vento

 
falei com o vento
 
falei com o vento
para me levar num sopro,
mas meus versos estão pisados
e no chão da terra ficam atolados
…eu não fui com o vento

aqui fiquei!

troquei as manhãs
nascidas rente à raiz
por um sonho escuro e infeliz
adestrado pela distância do momento
… eu não voei com o vento

aqui fiquei!

não vi o sol no horizonte
a despenhar-se nos campos
fiquei com asparas espigas de trigo vazias
a arder na tempestade de loucas utopias
… o vento ateou mais o fogo

aqui fiquei!

e queimaram-se as palavras
que falavam com o vento
entre os detritos do centeio e um grito
encarniçado na baba da destruição.
fiquei devoto a uma ilusão…
… o vento não me respondeu

e eu daqui sai…

Imagem Google
 
falei com o vento

PIANO EM TARDE DE CHUVA

 
PIANO EM TARDE DE CHUVA
 
Acabo por negar
teu rosto
e neste encontro
recolho teu corpo
nesta tarde de chuva

Serpentes loucas
filhas das gotas de água
comungam a minha sede
e a tua nudez me espera
na janela do provir

O meu pensamento
agitado de silêncio
ouve ao longe
as notas do piano
de Pour Elise

Mas, os meus olhos!...
Os meus olhos bebem
o mistério da ilusão
Um cálice sussurrante
e quente de solidão
a penetrar pela garganta
na voz da razão

A chuva que cai
vai escorrendo pela janela
e vejo teu rosto nela
tentando limpar
meus pecados.

E o piano toca
e nunca mais acaba…

Imagem © Lora Palmer
 
PIANO EM TARDE DE CHUVA

era preciso este vazio

 
era preciso este vazio
 
era preciso este vazio
eu tive que morrer
para voltar a viver
voltei por outra porta
ainda não me reconheço
ainda não sei quem sou
apenas sei que aqui estou
mesmo que não exista
já na outra vida
e aqui estou
à espera de morrer de novo…
vá, chamem por mim….
- mas com cuidado para vir devagar
eu não sei se vim pelo mal
 
era preciso este vazio

eu estou lá fora

 
eu estou lá fora
 
sinto-te perdida nesta vida
viras as costas à tua alegria
e ao amor não sentido ainda

sinto o teu corpo em lamento
uma solidão presa num gemido
no grito que me traz o vento

qual dor qual sofrimento
de um olhar já tão dolorido
de tão sagrado sentimento

recorda - amor - este momento
deste sentir a te sentir agora
num suave e breve fragmento

é hora - tenho que ir embora
eu nunca quisera ser violento
com a tristeza que em ti mora

a alegria de mim é o teu alento
abre a porta - eu estou lá fora
 
eu estou lá fora

HOUVE...

 
HOUVE...
 
E a chuva recomeçou
com ela veio o vento
os relâmpagos e trovões
como quem resmunga comigo
em oitavas superiores
de agudas sinfonias
numa ansiedade
infrene e desastrada

Agora, tudo são escombros
que carrego aos meus ombros:
de um outrora coração
que te penetrou
e um corpo que te amou
E entre um silêncio
e outro te sonhou
num tempo que já passou

E a tua imagem embaciada
esboça a palavra branca
de uma quase saudade
e de irrisória dor

E vi uma luz vinda do céu
Seguida de um bramido
Que se espalha na cidade inteira
Será revolta ou será sentir?

A chuva desaba mais intensa agora
Talvez seja das lágrimas
que vêm com o cair das águas…

Imagem retirada do Google
 
HOUVE...

hoje não queria

 
hoje não queria
escrever palavras
queria apenas
dar-te as minhas mãos
num poema com o toque
dos meus dedos:
nos teus seios, nádegas
e na tua pele fina e lisa
do teu corpo em fio de voo
para adormecer com a lua

és bela
(insustentavelmente bela)
faltam-me as mãos
e faltando tudo isso
faltam-me as palavras
(até as palavras emprestadas)
e fico neste espaço
de horizonte
entre a lua e este poema
sem te conseguir tocar

só com a flor do silêncio
consigo beijar tua boca
e juntar teu corpo
às palavras que não escrevo
 
hoje não queria

ALMA AUSENTE

 
ALMA AUSENTE
 
Submerso na procura interminável das coisas
falhei nas palavras desarrumadas na despensa
assustei-me com o acaso da coincidência:
«troca a tua alma velha por uma garrafa»
O verde escuro do vidro cheio de pó e teias
lá estava ao canto do armário com portas descaídas
estava prestes a fazê-lo, mas sempre recusei o fim
- a morte é o fim da vida - mas a lei é assim.
Quem me poderia libertar da banal existência?

Tirei-lhe a rolha e coloquei dentro de si os meus passados
(embora não me lembre reconhecer algum no presente).
Lacrei a chumbo cortiça, como se fecha um tesouro inexistente
e embarquei no próximo barco com mais algumas bestas.
Ventos e brisas envolventes levaram-no por brumas nevoentas.
A alma se despediu do coração e do seu frágil corpo,
ao largo uma garrafa boiava rumo ao princípio,
na condição da grande insensatez do mar profano.

Na deriva das águas espero alguém que leia o que é meu.
Mas como, se a garrafa consigo leva dentro um engano?
Se alguém lhe encontrar um poema pode-lhe chamar seu
dentro do papel branco - maior que o azul das águas -
não há nada escrito nem por escrever ou fale de mim.
Com alguma imaginação e fantasia, poderei até acreditar sim.
(as serias estão presas em raios de sol, não podem faze-lo).

Mas só na minha despensa alguém poderá abrir a garrafa
e no seu bafo descodificar as palavras a provar o vinho quente
(embriagadas denunciando e entregam a minha alma ausente).
 
ALMA AUSENTE

COMPREENDER

 
COMPREENDER
 
Se cada um de nós
Para dentro de si olhasse
O verbo seria mais verdadeiro
Nas folhas que se escrevem

Se cada um de nós
Um coração no ar deixasse
A vida respiraria mais sentimento
Em cada sentido momento

Se cada um de nós
Com justa amizade falasse
Os ouvidos poderiam ser surdos
pois seria mais fácil de entender

E se cada um de nós
Fosse apenas e só o outro
A compreensão seria total
E não haveria juízos de mal.

Cada um de nós seria
Vencido por si
Para voltar a nascer
Sem pensar em vencer.

E isto é apenas compreender.

Imagem © Misha Gordin (Direitos reservados ao autor)
 
COMPREENDER

VEM APENAS UM DIA SONHAR

 
Vem, nada de ti sei, o que conténs.
Chamo por ti, uma só vida não chega
Para saber quem és, de onde vens.
Vem, vem comigo, dá-me a tua mão.
Toma estas palavras cheias, não em vão.
Surpreende-me, enquanto não envelheço.
Vamos passear nas estrelas do chão
E pelo céu nos caminhos de terra que esboço.
Vem, vem assim como estás,
Nua e bela, simples como és...
Neste castelo feito de noite lilás
E por onde vais, por onde vens
Crescem rosas no pisar dos teus pés
Vem, vamos subir telhados
Fazer ventos por nós soprados
Para que tudo se torne no nosso alento
De gestos eternos em mundos desabitados.
E eu, quero ter-te assim em brumas de mar,
Em vulcões de lava que me alimento
Subindo à boca, queimando o tormento
Do desejo incapaz de se fazer acalmar.
Vem, tu e eu saborear a doce essência
Perder-nos no sono do nosso eterno olhar
Levar ao rubro a paixão da ausência.
Vem, tu e eu apenas um dia sonhar.

Direitos Reservados
 
VEM APENAS UM DIA SONHAR

haverá alguém mais rico do que eu?

 
 haverá alguém mais rico do que eu?
 
 
falas em silencio comigo
por entre a tua voz
murmúrio cálido
do meu sossego
a aquecer o meu pensamento
a derreter o aço das palavras
que vagueiam sozinhas
para moldar a minha alma
em forma de baú
onde irei guardar
lembranças da tua fala

quando a saudade
me vier tocar
poderei então abri-lo
com os códigos
dos nossos segredos
e remexer nas tuas palavras
que protejo dentro do peito

diamantes lapidados
ouro de alto quilate
rubis safiras
esmeradas alexandritas
topázios turquesas
perolas negras…

jamais as poderei perder
valem todo o meu viver

o elo de te ter e não ter
sussurros de ti
escolhidos para mim

e nada mais vale
do que este valioso tesouro
palavras nunca ditas antes
mas que guardas em mim
em timbre melodioso
da voz de Paula Fernandes

é este inigualável valor
de quão elevado riqueza
que faz um homem pobre
de palavras sem valia
deter um preciso tesouro
dos tons da tua melodia

haverá alguém
mais rico do que eu?
 
 haverá alguém mais rico do que eu?

Jorge Oliveira

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