Poemas, frases e mensagens de glp

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de glp

O nosso vinho

 
Traz-me um copo de vidro fosco,
Como aquele onde bebi, em tua casa.
Entorna nele o vinho que bebemos juntos.
Saboreia, mastiga, absorve.
Envolve a minha pele nesse aroma afrutado.
Torna-me alcoólico, encorpado.
Sei que contigo sou veludo puro,
De cor rubi, sangue vivo,
Quente, maduro, persistente.
A tua casta difere-te.
Cabernet Sauvignon, Aragonês, Trincadeira,
Touriga Nacional, Syrah ou Merlot.
Que importa?
És como o nosso vinho.
Deixas-me tranquilo, fermentado neste corpo,
Suave, intenso, de textura macia.
Chambreia-me com o teu calor.
Torna-me quente, meu amor.

16 de Abril de 2009
 
O nosso vinho

Apagado

 
Sentado nesta cadeira e ao redor
Uma luz que me trespassa.
Sou mais um dia que finda
E virado a sul procuro respostas
Às dúvidas da noite que se avizinha.
Crepúsculo do silêncio incómodo.
Tudo me torna vago e obscuro.
Sinto-me tétrico ao anoitecer.
Nem sempre assim foi,
Mas hoje estou mais ignorante,
Não discirno a intenção e a capacidade de pensar.

Preciso do fulgor.
Do brilho do sol.
Com ele sou clarividente.

E o candeeiro desta rua não chega.
Preciso de uma luz que não esta, vil e amorfa.

Não dou nas vistas!
Hoje não é o meu dia
E não irei aos mais altos astros.
Ficarei por aqui,
Nesta cadeira imóvel, partida num dos seus calços,
Como eu, quebrado em mim.

11 de Junho de 2009
 
Apagado

Armário Fechado

 
Custa-me as palavras
Que gasto ao te ler.
Por vezes não vejo mais
Que aquilo que te dás a conhecer.
Podia ser mais eu e sentir
A tua pele em mim
E no meu armário fechado.
Enfim, revolvi a gaveta.
Vasculhei sentimentos e cartas velhas.
Saíste!
No meu pensamento
Acordo a mudança de um ser diferente.
Consigo me vislumbrar e viver.
Sem ti, por certo, dor de um dia passado.
Naquele armário fechado...

03 de Abril de 2009
 
Armário Fechado

As horas que marcam o relógio

 
São zero.
As horas que marcam o relógio.
Podiam ser vinte e quatro.
Há quem queira não terminar o tempo
Do dia anterior e começar o próximo.
Eu gosto de viver.
Para mim são zero
As horas que marcam o relógio.
Penduro o tempo para o ver melhor.
Ele passa e resolve.
Destina a minha vida ao melhor desígnio.
Espero!
As horas que marcam o relógio são nulas.
Parece que, por momentos, o tempo pára
Para nos unir-mos num só.
Eu e tu, razão.
Zero!
Nunca um número significou tanto
E tão pouco neste instante.
Agora liberto-te. Corre tempo...
Mostra-me o que de melhor posso ter.
Dá-me o prazo de duração das coisas
E deixa-me abrir os braços para me trespassares.
São zero.
As horas que marcam o relógio
E eu aqui continuo,
A olhar o relógio e o infinito.

10 de Junho de 2009
 
As horas que marcam o relógio

Não existes

 
1

Vou esquecer
De gritar por ti
E, tão pouco, lembrar
Que existes e te perdes
Nesta floresta de equívocos.
Toma por certo
O meu pensamento.
Acredita no que regurgito.
Represento, cegamente,
A tua salvação
E a forma de como,
Em última circunstância,
Encaras o teu eu.

2

Corre loucamente
Na direcção do infinito, e
Sementes de inconsciência
Saltam de ti.
A tua amplitude é diminuta
E, nem de soslaio,
Vislumbro o teu olhar.
Jamais a neblina te trará o esquecimento
E, consequentemente,
A aurora te dará esperança.
Simplesmente esquece
Que a minha existência
Te domina a razão.

3

Não quero recordar
Aquele dia, na minha casa,
Onde me encontraste
Despido, cheio de ilusões.
Afinal tu, a maior
De todas as que me
Assolam a razão.
Sentindo a água fervilhar,
Saída das entranhas,
Traduz o desespero
Das minhas causas,
Que sem me aperceber
Vãs se tornaram.

4

Dedica-te à sapiência
De leituras inexactas,
Próprias do teu sistema,
Onde os teus caracteres, na definição,
Não se coadunam com os meus;
Daí este confronto, onde
O teu eu não complementa o meu.
Agora percebo o porquê
De nunca teres falado
A minha língua, nem sequer,
A facilidade de traduzir,
Em gestos suaves, toda
A tua sensibilidade.

5

Tornaste a vir,
Mas não quero;
Não me apetece esse desgosto,
Muito menos o teu cheiro.
Prefiro metamorfosear-me frasco
E envolver uma nova essência.
Não a tua, gasta e supérflua.
Colocarei um novo rótulo,
Dando a conhecer
A nova esperança,
A verdade odorante
De um novo perfume,
Do qual já não fazes parte.

6

Nem lugar tem na minha estante,
O depósito legal do teu livro.
Passou de validade, e
Apenas perdura no
Âmago da mais ténue recordação.
Li e reli as palavras
Que um dia lembrei de acreditar.
Sujaram a minha consciência,
Tornando-a inócua e inibida.
Jamais, na integra, voltarei
A sensibilizar a tua atenção em causas minhas.
Ficarei, agora, inerte
Ao teu iníquo apelo.

7

Não serei o mesmo ingénuo.
Inferir em ti, seria,
Agora, infrutífero.
Capturar a tua alma
Não está nos meus desígnios.
Ah! Como desejarias
Que vestisse o meu hábito
E atendesse às tuas preces.
Não! Chega de lamento.
Desta vez não irei ao casino.
Não será a roleta a desenhar o meu destino.
Não serás a dama do meu jogo.
Não te pedirei para dançar.

8

A melodia é diferente.
Agora mais grave, outrora muito suave.
O que cantas não se ouve;
Nem o teu som sai, ruidosamente,
Daquela velha grafonola.
Não és vinil. CD nunca serás.
Para sempre analógica...
A qualidade alheia-se de ti.
Nem que graves de novo,
Comprarei a tua música.
Afinal, nunca foste novidade.
Adquiri-te em saldos e, certamente,
Com defeito de fabrico.

9

Porque nunca gostaste das flores?
Daquelas que te ofereci
Enfeitadas com o luar
E o calor do sol ao mesmo tempo.
Certamente nem as cheiraste.
Viste-as, ao menos?
Reparaste na silhueta
Que desenhei nos grãos de pólen?
Representava a volúpia dos teus seios.
Como me ignoraste!
Nem isso viste.
Não mereces que escreva
E discorra sobre ti.

10

Tornaste menos que zero
Na matemática dos sentidos.
Nem na mais simples soma
Te consigo inserir.
O resto que sobra
Não chega para te complementar, e
O terço não serve para contar.
Talvez te liberte, se acreditares.
Deus não te mostrou o caminho.
Apenas tu o podes descobrir.
Aclama para ti.
Caminharás sem medo.
Eu duvido!

11

O espelho reluzente
Já não reflecte a tua imagem.
A tua beleza deixou de ser efectiva,
Nem tão pouco anseio a tua pele.
Não quero o teu sexo!
A tua consistência,
Feita de papel velho de jornal,
Sujou as minhas mãos
Ao tentar pegar-lhe.
Perdi as chaves que
Acedem ao teu cofre e, assim,
A saliva da tua boca que
Possuía ao beijar-te.

12

O guarda-roupa vazio se encontra.
Lá já não moram as tuas velhas roupas
Que, com o tempo,
As traças foram consumindo.
Como vês,
Nem os bichos mediaram o nosso instinto,
Que, por vezes, mais selvagem seria
Do que o habitat próprio
A que estavam sujeitos.
Mas ainda subsiste aquele trapo,
Velho, é certo, e sujo
Que um dia colocaste no meu travesseiro.
Chegou a altura de o rasgar!

13

Alieno-me de sentir a tua presença.
És tão fútil!
As águas separadas são, afinal,
O rio que galgo.
É nele que agora desces.
O acampamento dos deuses
Chama por mim. Penso em ir.
Já não acendo cigarros,
Nem forma tenho de
Contemplar outro fumo
Que não aquele que
Brota do que escrevo.
É este o fumo que agora me vicia.

14

Desisto de ti, que não
Desista das coisas francas.
Ao menos, estas, não escondem
Aquilo que, efectivamente, são.
A ti entrego a espada
Com que sempre lutei
Nestas quezílias constantes e medíocres,
E me fizeram encolher
A sensibilidade que
Agora vomito com avidez.
Infelizmente para ti são
Estas palavras soltas,
Repito! Em sofreguidão.

15

Na floresta dos medos
Perdura ainda um.
Inabalável, presumo, que
Me penetra o espírito e,
Sinuosamente, na
Memória de uma vida.
Quero abolir este receio
De ter de te enfrentar outra vez.
Sorrio, acenando
Ao vento que leva
Tudo que a ti diz respeito e apaguei.
Risquei, a carvão,
O teu nome do meu caderno.

16

Estou confinado a mim e
Ao meu ideal concreto.
Ao saber fluente de uma
Literatura constante
Que em tempo recorde
Toma de assalto o meu ego.
Agora sim!
Liberto de ti,
Consigo discorrer sobre a vida,
Assimilar o sufoco de existir
Um pesadelo tão certo,
Como o foste,
No frenesim da minha existência!

24 de Janeiro de 2003

Este poema, escrito durante quatro anos (1999 a 2003), deu origem ao meu primeiro livro "Não Existes ou o breve manual prático de como esquecer um amor antigo" editado com a chancela da Temas Originais, com 1ª Edição em Março de 2009
 
Não existes

Al-hamma

 
O meu lugar é aqui,
Onde os caminhos se estreitam
E as calçadas gastas cantam o fado.
No beco o cheiro a sardinha,
No pátio a roupa pendurada nos estendais.
Consigo ser assim, pitoresco,
Quando percorro as tuas ruelas.
Para mim és muito, Alfama velhinha,
Lugar de tradições; sobranceira,
Onde a varina canta a tua história
E o marinheiro, já velho, perdura na memória.

23 de Junho de 2009

Dedicado à sempre eterna e "minha" Alfama
 
Al-hamma

Banco de jardim

 
Apetece-me!
Hoje sento-me no banco do jardim.
Aqui espero a tua chegada.
Hás-de vir um dia, eu sei.
Rodeiam-me os passos do sossego.
Ao virar a face creio em ti no horizonte.
Não estou aqui a todo o momento;
Vou e venho amiúde, e me tolero
Neste jogo de anseio.
Entretanto se chegares e não me vires,
Pergunta por aí onde me encontro.
Não creio que o banco de jardim te responda
Pois nele não mais me sentei.

29 de Julho de 2009
 
Banco de jardim

O Corredor

 
Se soubesses que aqui estaria, virias na mesma?
Acredito que sim, mas ficavas no corredor,
Entre a sala e o quarto, onde
A espaços temporais, comsumíamos o nosso desejo.
Estou sentado naquela cadeira,
Num outro quarto qualquer da mesma casa.
A razão pela qual não te moves
Explica-se pela saudade que te assola.
Espero-te como da primeira vez.
Nada vale se não for vivido.
Porque não vivê-lo outra vez?
E outra. E mais outra.
Obviamente, podendo parecer ridículo,
Se ficares no corredor a espera será eterna.
Vem! Encontra-te em mim, novamente.
Outra vez. E outra. E mais outra.
Sei que sabes que estou aqui.
Sem medo, vem depressa.
Senta-te a meu lado, neste outro quarto, e vive!

1 de Março de 2009
 
O Corredor

O inesperado

 
Rolei a cabeça para te encontrar.
Estavas aí, vestida de perfume brando e sincero,
Onde a loucura se encontra com a razão.
Não te vi no passado. Passava e não parava.
Estavas ausente no meu olhar.
Aconteceu o inesperado!
Consigo olhar nos teus olhos e me perder.
Não sei o que queres ao baralhar-me.
Contigo me perco, agora, onde nunca me encontrei.
Quem és? O que fazes?
De ti pouco sei, mas gosto.
Sou masoquista ao te desejar,
Pois nunca o quis.
Nem a ti, nem a este momento.
Vou ficar a assistir a esta ocasião,
Que de certa nada tem senão a certeza que gosto.
O imprevisto aconteceu...
Já nada me pasma a voz secreta do coração.

4 de Agosto de 2009

Dedicado à PF
 
O inesperado

Palavras Soltas

 
Chego à lareira e me aqueço.
Lá fora a chuva cai em sobressalto.
O vento grita. O frio congela as minhas lágrimas.
Que dor!
Aqui, junto do fogo, reflicto a minha vida.
Aquilo que fui. Aquilo que sou ou quero ser.
Regurgito esta essência e me condeno.
Nem imaginas o que me passa pela cabeça.
É um trânsito de contradições que se move cá dentro.
Tudo é complicado. Confuso. Pouco claro.
Penso em ti. Neste ou naquele momento.
Choro. Descrente.
Vislumbro, finalmente, esta mísera realidade.
Junto do fogo me aqueço.
Lá fora estarás também. Algures.
Acredito que, nem por um só instante,
Te lembrarás que ainda gosto de ti.

2002
 
Palavras Soltas

O mundo somos nós

 
O mundo somos nós.
Eu, tu e os outros.
Todos juntos somos todos e mais alguns.
Sabemos que unidos somos melhores
Neste mundo de existências comuns.
Porquê existir,
Viver juntos nesta amálgama?
Sei que se vieres ter comigo sou ainda mais forte.
Os outros são apenas o complemento de uma outra energia.
Não chores!
O mundo somos nós.
Eu sei que sabes que assim é
E nem por isso desistes de não existir.
Vou revolucionar as existências.
Chamar para mim todos os homens que andam na rua.
A eles vou delegar as funções do existir.
Concordas?
Sei, que dessa forma, seremos ainda mais nós.
Todos.
O mundo que nós somos, ou vice-versa.
Eu, tu e os outros. Aqueles e nós.
Se existimos...
O mundo somos nós.

27 de Abril de 2009
 
O mundo somos nós

Pedaços da Minha Existência

 
Aqui estão os pedaços.
Pedaços da minha existência
Junto-os para te entregar.
Mistura o teu tempo para me leres.
Porém, se achares melhor,
Coloca-os na tua mesa-de-cabeceira.
Assim serão companhia eterna dos teus sonhos.
Aqui estão os pedaços.
Redigi para alienar coisas minhas.
Se quiseres podes tomá-las, agora, tuas
E percorrê-las como pautas de música.
São estes os pedaços
De uma vivência, de uma liberdade.
Quero que tomes conhecimento
De como foi bonito viver assim.
Se assim for tua vontade,
Obedece aos desígnios de uma maturidade atingida.
Estes pedaços são apenas meus.
Ao ler, podes rasgá-los em seguida.
Peço-te apenas que te lembres de mim,
Te lembres do meu nome.
Até existir, estes pedaços
Serão meu espelho.
Aqui estão os pedaços.
Lê! São para ti.
Pedaços da minha existência.

14 de Fevereiro de 2009
 
Pedaços da Minha Existência

Voar é ser poeta (dedicado ao António MR Martins)

 
Ser poeta é poder voar.
Brincar com as palavras entre as nuvens.
Suspirar o ar por entre quimeras.
É libertar o nosso âmago.
Sentir forte os nossos medos.
As nossas alegrias, igualmente.

Ser poeta é poder voar.
Chilrear sonetos como quem lê partituras.
Sentir a brisa por entre as penas.
Soltar amarras de loucuras intensas.
Chorar prisões em gaiolas falsas.
Pendurar alegrias na mais alta estrela.

Ser poeta é poder voar.
Levar o pensamento para bem longe.
Criar pontes em novas culturas.
Dissimular existências a todo o momento.
Ser actor de nós mesmos.
Representar vivências, credos e lamentos.

Ser poeta, enfim, é poder voar.
Voar para voltarmos a ser nós.
Aqui ou no céu mais sagrado da terra.
No meu pensamento.
Vislumbro.
Acredito.
Voar é ser poeta!

16 de Março de 2009

Poema feito online em resposta/comentário ao poema "Poetas e pássaros" de Henrique Pedro e resolvi dedicar ao poeta António MR Martins.
Para ti tudo, meu pai!
 
Voar é ser poeta (dedicado ao António MR Martins)

O meu monólogo acabou. Agora somos dois.

 
Subo ao cimo de ti.
A tua imagem encontra-se vazia. Sem cor.
Solucei monólogos, perdido na altura,
Por não mais me apetecer querer falar sem rumo.
Dizer coisas vãs.
Porque não te encontro?
Destino meu de falar aqui, distante.
Não desisto, nem sou disso.
Sou de ir mais além,
De te encontrar em cada esquina,
E na minha cama, também.
Enrolo-me no cetim dos teus braços,
Apenas quando vens.
Só quando vens.
Porque não vens sempre?
Não deves poder, eu sei.
Mas agora estás aqui, no meu colo.
Dedilho os teus cabelos e a tua face.
Consigo, agora, falar a dois.
Não suporto monólogos.
Fico entediado.
Vamos subir os dois,
Nesta noite negra, fria,
Onde embrulhados,
Somos unos, somos nós.
Os dois!

21 de Abril de 2009
 
O meu monólogo acabou. Agora somos dois.

Carta de Amor

 
Hoje escrevo para calar a minha tristeza. Definitivamente!
É que, nos últimos tempos, algumas coisas me têm corrido de forma contrária àquilo que eu desejaria. Mas não vou remexer em mais nada, acredita.
Escrevo apenas para desabafar o que tenho cá dentro. Aquilo que no âmago se prende e não mais quer soltar. Chega!
Escrevo para largar os medos, os receios, as desconfianças. Escrevo pelo amor. Escrevo por ti.
Estas palavras são um breve esquisso do meu profundo respeito pela mulher que te tornaste. Só tu me conseguiste pôr, novamente, a escrever.
Há quanto tempo não te escrevia? Nem um poema? Culpa minha, amor.
É certo…
Agora voltei a escrever. Voltei a ser feliz. Liberto aqui o meu choro. Não quero voltar a chorar. Pelo menos de tristeza. Quero rir. Como me apetece rir e ver o teu rosto.
Escrevo, finalmente, por te amar. O meu crer em ti, o meu desejo por ti traduzem a brisa solta que te prende os cabelos. És tão linda!
Cheiro a tua pele ao longe. Estás aí e eu aqui. Mas sinto. Sinto como se estivesses deitada com a cabeça na almofada da minha cama. E eu agarro-te…
Chega de arrogâncias, de medos, de mentiras, de males. Não quero isso de mim nem de ti. Quero verdade, quero confiança, quero respeito. De parte a parte, te digo.
Acredita. Voltei a escrever porque te sinto muito. Dentro e fora de mim. No coração e na cabeça. Na pele e no sexo. Em todo o lado.
Prefiro o teu sabor às demais. Para mim, serás perfeita! Sei que todos falhamos. Todos temos as nossas fraquezas. Eu não digo que não…também me podem bater à porta, mas certezas tenho poucas. As que tenho sei-las bem. Um delas és tu!
Como escrevi um dia: Em ti deposito todo o meu eu. Suporta-me nos teus braços e me enche de amor.
Quero que sejas muito feliz. Muito feliz!
Se me quiseres a teu lado para sempre, terei o privilégio de partilhar dessa felicidade e gozá-la contigo. É tudo o que anseio e sempre ansiei desde o momento que tive a certeza que tu és a tal! Naturalmente não terá sido desde o início, mas foi desde que descobri o meu verdadeiro amor por ti.

Abraça-me…hoje libertei-me!

Data incerta, perdida no tempo
 
Carta de Amor

Lobo

 
Choro ao uivares a clemência na noite.
Na fraga alta serves-te das estrelas.
A penumbra chama por ti, figura furtiva.
Nas águas do rio reflecte a lua que guardas por teu sonho.
Noite mítica que vives e choro;
Porque te perdes, lobo?
A floresta é tua e o Homem toma-a para si.
Choro a fúria de não te salvar.
Não sejas distante, cuida da serena paz;
Aclama, ser selvagem!
A natureza enfurece a tua existência.
Uiva que declamo para ti no frio e obscuro.
Revolve a fuga que o homem te persegue
Entre trilhos e penhascos, onde longas se tornam as noites.
Chegou a hora, de comigo, chorares a inexistente segurança.
Volta a rebolar na erva fresca perante o sol, e
Vive à luz a noite intemporal.
Partilho contigo este processo, este caminho.
A todo o tempo a tua voz ecoa e eu escuto;
Sob o luar como é belo o teu uivar.

5 de Julho de 2003
 
Lobo

Porquê?

 
Porquê?
Porque me deixas assim,
Entregue ao infortúnio da tua decisão?
Se soubesses o que tenho passado,
Virias rápido ao meu encontro.
Só me emerge ao pensamento
O tempo bom de nossas vidas.
Como me surpreende esta tua indecisão!
Da estabilidade ao abismo,
Perdoa-me a minha franqueza;
Parece que brincas com o nosso amor, a nossa certeza.

Porquê?
Porque me deixas assim,
Desarmado de todas as alegrias?
Penso que sou aquilo que não era, e vice-versa.
Ai, porque não me deixas dormir.
Afogar os meus problemas no álcool da minha cama.
O aperto que sinto é tanto que me soa a novidade.
Nunca senti esta ânsia, esta azia, esta adrenalina.
Agora o confuso sou eu, e
Mesmo quando me ligas a perguntar como e onde estou,
Sou envolto num turbilhão de incertezas.

Porquê?
Porque me deixas assim,
Incapaz de resolver o que seja?
Como queria relativizar as coisas, meu amor.
Nisto dos sentimentos sou mais frágil que cristal.
Ajuda-me! Vem depressa, não me deixes continuar mal.
E se a tua indecisão for outra,
Sairei amargurado pelo tempo. Por tanto te ter amado, que não me arrependo,
Mas pelo que sinto e nunca senti.
Amor, sincero, juro por mim!
Continuo, por enquanto, à tua espera. Aqui!

16 de Fevereiro de 2009
 
Porquê?

Rua

 
E ao subir esta rua, vazia, entretanto,
Talvez pelo adiantar da hora,
Olhei ao redor, na procura de ti.
Abraçados podíamos ser melhores.
Melhores amantes.
Deixar de ser errantes.
Ainda te tenho no retrato do coração.
Sei que acolhi, em mim, as tuas virtudes.
No passeio desta rua, as pedras me sustentam.
O alimento que me dás me vigora,
Assim como estas pedras de calcário sujo.
Escurecidas pela passagem da noite, e da multidão.
Esta rua é para mim como a tua presença.
Sem ambas não sou eu, nem mais ninguém sou.
Posso criar ilusões, acredita,
Mas contigo, nesta rua, sou sempre.
Continuando a caminhar, na tua rua.

6 de Março de 2009
 
Rua

O Segredo

 
O segredo é trazeres contigo o amor e um livro, de poesia.
Pode ser?
Por favor, traz-me aqueles bombons que tanto gosto
e um cd dos Moonspell.
Agrada-me ouvir.
Espera!
Não quero nada.
Vem apenas tu.
Nua.

2 de Março de 2009
 
O Segredo

30

 
Vivo num mundo
Dedilhado pelos dedos de um ser
Trazido pelas auroras frias de mais um dia.
Esses dias passam pela minha pele
E a envelhecem naturalmente.
Sorrio por estar vivo
E respiro o ar perfumado que me rodeia.
Sou assim,
Preso nestas coisas simples da vida
Como beber um copo de água na varanda do terraço
E suspirar por me lembrar do amor.
Lembrei-me, igualmente, que sou poeta.
Conjugo palavras como croché,
Numa harmoniosa manta de retalhos diversos,
Cujas lembranças fiz questão de guardar.
Trinta anos.
São estes os anos que já vivi.
Lembro-me que ainda ontem
Realizei sonhos de infância
E tornei-me obstinado na adolescência.
São já trinta.
Junto-os como quem junta grãos de arroz.
Encontro-me entre o homem e o miúdo,
Num beco de sensações várias,
Onde me olho e recordo
Como é ser eu, assim, despido de mim.

4 de Junho de 2009
 
30

© Gonçalo Lobo Pinheiro