Poemas, frases e mensagens de nunorita

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de nunorita

A vida é muito mais bonita quando temos por companhia uma bela poesia

Desprezado!

 
Eis o Desprezado!
Um pai natal caído do trenó,
abandonado pelas renas,
sem prendas para dar ou receber.

Eis o Pedinte!
Um anjo maltratado,
despejado de uma nuvem
num soluço de tragédia.

Eis o Barbudo!
Pêlos queimados pelo tabaco,
paraíso de parasitas que o acham
mais parasita dos que eles.

Eis o Rasgado!
Com as calças, os sapatos
e o casaco a sorrirem
com suas bocas de chagas desdentadas.

Eis o Viciado!
Que se desinfecta com álcool,
ingerido para fazer efeito por dentro
e poder mover-se por fora.

Eis o Mal cheiroso!
Repugna os que o sentem
na distância de um sopro
mais vigoroso do vento.

Eis o Mal Amado!
Infecta a rua conservadora,
do bairro onde não tem
o direito de ser gente.

Eis o Vergonhoso!
Incomoda os orgulhosos
que se sentem superiores
em géneros e números.

Eis o Vadio!
Figura de gente
em forma de animal
acossado pelas moscas.

Ei-lo que se aproxima!

Deslizando no visco do seu rastro.

Guardem os vossos filhos em casa.
Tranquem as portas das moradias.
Fechem os bolsos das esmolas!

Ignorem-no!

Porque a ignorância é a protectora dos que preferem não ver.
 
Desprezado!

Impressão digital de um beijo.

 
Inscreve na minha boca uma impressão digital,
que eu inscreverei na tua o meu sabor natural.

Pressiona em meus lábios os teus feitos cor,
duas rosas suaves, brilhantes, com traços de amor.

Saboreia lentamente o meu gosto particular,
mordo as palavras dos beijos dados no teu ar.

Refresca minha palidez com a tua pura saliva,
trocamos fluidos alegres numa atitude festiva.

Encerramos os olhos num segredo de contacto,
acaricio-te a alma com ligeirezas de tacto.

Na curva deste beijo, nas linguas encontradas,
repousam finalmente as nossas almas cansadas.

Por isso
inscreve na minha boca uma impressão digital
que eu inscreverei na tua o meu amor fundamental.
 
Impressão digital de um beijo.

Não é para os Pardais

 
Não sinto nada…

Abril já passou e as andorinhas verdes partiram há muito…

Os poleiros que tinham a alegria dos vestidos de cravos,
encheram-se de Abutres e de Aves de Rapina que espreitam e governam…

Não há liberdade para os Pardais!

Apenas calma…
Apenas o dia sereno, que avança, sereno.
Tudo sereno e tudo manso.
Bem mandado o dia avança cansado.

E os poleiros, que de cheios, até vergam…
E as andorinhas verdes que partiram…
E os Pardais sem liberdade para serem pardais!

Ah, a liberdade não é para os Pardais!

O primeiro milho não é para eles,
O segundo, também não.
E se ele faltar, eles o pagarão!

A liberdade não é para os Pardais!
Não há liberdade para os Pardais!

Entalados entre o ferro e a bigorna que adorna…

Apenas mansidão,
Apenas serenidade,
Apenas tolerância.
Não, não é para os Pardais, a liberdade!

Para pôr Portugal a refletir.
 
Não é para os Pardais

Nasci...

 
Nasci,
Cresci,
Morri,
Sem que tu desses por mim.

Sonhei,
Cantei,
Gritei,
Sem que tu desses por mim.

Amei-te na sombra
Duma parede gigante
Que se punha entre nós.

- Sem que tu desses por mim.

Corri o espaço todo
À procura de alguém
Como tu.
- Não achei.

Colei-me à tua porta
Para que desses por mim.
Mas a parede cresceu
Novamente e cobriu-me
De sombra outra vez.
- Assim se passou a vida,
sem que tu desses por mim.
 
Nasci...

Choro...

 
Choro...
E não sei porque choro,
mas choro com vontade,
chorando porque choro.

Choro...
Porque preciso de chorar
o choro da ansiedade
de rir para não chorar.
 
Choro...

Sem ti não sei ser eu

 
Amo-te com a serenidade de um rio.
Mas por vezes sinto-te a escapar como areia pelos dedos.
 
Os teus olhos embarcam em viagens para onde não fui convidado,
lugares só teus, para os quais não forneces bilhete
e para onde precisas de ir, 
só Tu.
 
Mas regressas, regressas sempre.
 
Minha vida, minha pele.
 
Sem ti não sei ser Eu, seria outro.
 
Ainda não compreendi ao que vim mas contigo sou Eu e não outro
e quero ser Eu e não outro.
 
Se é exagero amar-te então deixa-me ser exagerado.
Se é exagero querer ser Eu e não outro,
por favor, deixa-me ser Eu.
 
Junto de ti.
 
Regressas sempre, bem sei.
Aguardo.
Mas receio…
 
Sem ti não sei ser eu

As mãos...

 
As tuas mãos...
Meu deus! As tuas mãos...
Trazem flores de calos e mapas de estradas,
vincadas fundas na alma cansada de ser alma,
trazem rios e flores do campo e montanhas trabalhadas,
escavadas, desmontadas por essas mãos que te pendem
pesadas da ponta do corpo.

As tuas mãos...
São mãos de gente simples,
de gente que por vezes parece que não sente,
e que quando sente pede para não sentir
o peso daquilo que a gente sente
quando sente e parece que não está a sentir
aquilo que sente...

As tuas mãos...
Sonharam ser outras mãos,
mãos macias de quem nunca pegou numa enxada,
encaixada na suavidade das tuas mãos de moço,
que se tornaram nestas mãos baralhadas,
guardadas secretamente no fundo de um bolso,
onde, envergonhadas, se escondem...

As tuas mãos...
São mãos de trabalho,
sujas, gastas, velhas, secas, gretadas,
perpetuadas como dolorosos troncos de arrasto,
que se arrastam nas pedras das calçadas
que diariamente calcas no chão
como se calcasses o teu próprio ser...

As tuas mãos...
São as mãos de quem é
honesto, leal e trabalhador.
São mãos dispostas a amar com carinhos
brutos de quem não mede a força
que as mãos têm quando apertam
os meus frágeis ossos de criança...

Meu deus! As tuas mãos...
São as mãos de um rei
que eu inventei e que venceu o espaço
e todas as batalhas e que regressa
para me abraçar com as suas mãos de guerreiro
que cingem uma espada de aço...

As nossas mãos...
Apertadas num aperto carinhoso,
num longo passeio domingueiro...
A minha mão tão pequena e frágil na tua mão
tão grande, forte e rugosa como uma
concha que se fecha e protege a minha
pérola de mão...

Amanhã podia ser domingo outra vez...
 
As mãos...

Fio de cabelo

 
Caminhou longamente num fio de cabelo
com a dor como sua única companhia.

Um anjo aproximou-se do seu doloroso pedido
e com brandas mãos entregou-lhe os instrumentos
que ajudarão a auto libertar-se.

De rosto amortalhado em serenidade
toma consciência do seu futuro
e sorri, porque a dor não vencerá mais...
 
Fio de cabelo

"Quadrilogia" das estações - Inverno

 
INVERNO

Calçou as pantufas, vestiu o roupão,
E na cabeça pôs um gorro preto.
É criança que amua, o refilão!,
Ninguém atura o Inverno cinzento.

Do armário tirou o guarda-chuva.
Foi brincar com ele na noite de luar.
Tentou apanhar todas as gotas da rua,
Como não conseguiu, pôs-se a berrar.

É assim, um pobre menino mimado.
De cada vez que ele faz birra, chove.
Mas ficou o lavrador bem consolado
Com tantas e tantas birras que houve.

A cura para estes amuos é simples:
- É deixa-lo ir brincar na praia no verão,
- É vestir-lhe da primavera as vestes,
- É, por fim, adormecê-lo com uma canção
das de embalar, que tu me ofereceste.
 
"Quadrilogia" das estações - Inverno

Quando a noite se torna dia...

 
Quando a noite se torna dia
com estoiros de alegria,

o céu enche-se de cores
e o ar de secos odores.

Há notas de música a voar
e pequenas estrelas a dançar,

há cornucópias cintilantes
e foguetes possantes,

há magia à solta no céu
e no sorriso que é só teu,

há cabeças que seguem
os sons que se erguem,

há momentos de êxtase puro
nos contrastes do céu duro,

há uma linguagem universal
nesta praça de Portugal.

Quando a noite se torna dia
torna-se noite de poesia.
 
Quando a noite se torna dia...

Viagem no vento

 
Em silêncio,
esperando pela porta fechada
que abrirá os braços para os receber,
aguardam pela passagem de um vento tubular
que os levará para onde não querem ir.

Estes olhos, conformados, realistas,
desistiram de sonhar os sonhos da infância
onde eles se perdiam no imenso mar da imaginação,
em que a alma navegava de ilha em ilha,
procurando os segredos particulares
que cada uma delas guardava
nos tesouros enterrados pelos piratas do sentir.

Em cada tesouro havia sempre um mundo novo
pleno de cores e de cheiros desconhecidos,
habitado por gente que era bonita e interessante
e de onde não apetecia sair nunca.

Por lá encontraram estes olhos outros olhos,
que procuravam olhos amigos para partilhar
estes mundos novos e alegres.

E naquele momento, o mundo foi feliz.

Mas estes olhos não estavam destinados
a ver os outros olhos a envelhecer...

Separaram-se encharcados nas lágrimas dos olhos
que se julgavam juntos para sempre e que sem querer aumentaram o tamanho do mar que um dia os uniu.

Estes olhos juraram nunca mais esquecer os olhos que partiram...

Agora, estes olhos desfocados aguardam
pelo vento metálico tubular que os levará
como folhas varridas num jardim,
sem vontade de encararem outros olhos
igualmente deslavados que estão no rosto cansado
que habita o vulto imóvel à sua frente que lhe sorri.

Com esforço reconhecem naqueles olhos que o miram,
os olhos perdidos no antigo mar das emoções.

Reconhecem os contornos ovais e a cor de avelãs
torradas pelo sol do verão, reconhecem o brilho da determinação que sempre fascinou estes olhos que olham os outros que lhe sorriem.

Mas estão diferentes, tais como estes olhos, os outros perderama inocência e a doçura que os caracterizavam tão vincadamente.
O tempo, a vida e a distância encarregaram-se de as apagar destes olhos que se olham espantados e reencontrados.

Lágrimas correm destes olhos que durante muito tempo correram como loucos procurando os olhos que agora os foram encontrar sem que eles estivem a procurá-los.

Agora é tarde para voltarem a procurarem tesouros escondidos em ilhas imaginárias, no antigo mar das brincadeiras de crianças.

O mar já não separa os olhos que sempre se quiseram encontrar...

Esse mar já não existe...
 
Viagem no vento

No pouco céu que me rodeia

 
No pouco céu que me rodeia
envolvo o sono em dívida.

Porque insisto em deambular pelas
paisagens do pensamento,
resisto, resisto...

As unhas ao crescerem indicam o tempo
que passou entre o inicio e o fim.
Tantas vezes foram aparadas...

Sei que a sabedoria é um abraço de estrelas
pela manhã dos povos,
mas na minha mão nunca dançaram as pernas
de uma delas.

Talvez eu seja proporcionalmente simétrico,
e de simetrias estão as prateleiras cheias.

Assim resta-me ser oval como órbita do teu planeta.
 
No pouco céu que me rodeia

Quando a lua empurra o mar...

 
Quando a lua empurra o mar
eu beijo água que me deu vida.
Quando a lua sorri no céu
eu acendo-lhe uma despedida.

Quando a terra se espreguiça
eu espreguiço-me com ela.
Quando a terra se emociona
eu pinto-lhe uma aguarela.

Quando o vento afaga troncos
eu sorrio de alegria.
Quando o vento corre louco
eu fico louco de poesia.

Quando o fogo dança dentro
eu acendo chamas de esperança.
Quando o fogo queima novo
eu transpiro a confiança.

Quando dois lábios se tocam
eu gotejo força de paixão.
Quando dois lábios se querem
eu entrego o meu coração.
 
Quando a lua empurra o mar...

Qual a tua profundidade?

 
Qual a tua profundidade?
- És charco? És mar?
Ou tens marés? Períodos de seca e de cheias?
Qual o vento que enche as tuas ondas?
- O do norte? O do sul? Ou todos? Ou nenhum?

Qual a minha profundidade?
Uso o submarino interior
para me conhecer.
As janelas estão baças.
É difícil de ver...
O sonar é reflectido pela alma,
O sinal é forte, é fraco, é doce calma.
Quanto mais fundo
mais escuro e negro fica.

Sou complexo(s)
 
Qual a tua profundidade?

Falta-me tudo e nada me falta...

 
Falta-me tudo e nada me falta...

Tenho as mãos cheias de vento
mas falta-me o ar,
tenho livre o pensamento
mas falta-me pensar,
tenho amor ao momento
mas falta-me arriscar...

Tenho uma mesa cheia
mas falta-me o que comer,
tenho o meu pé-de-meia
mas falta-me o saber,
tenho de mim uma ideia
mas falta-me o que dizer...

Tenho os pés firmes no chão
mas falta-me o compasso,
tenho o mar no coração
mas falta-me vontade de aço,
tenho casa, roupa, e pão...
mas falta-me saber o que faço.

Tenho tudo e o nada me falta...
Porque o tudo não me faz falta.
E a ti, o que te falta?
 
Falta-me tudo e nada me falta...

Tarde que tarda...

 
Aborrecida tarde que tarda em passar.
Tarda tanto que me está a enjoar.
Tenho tempo de sobra para pensar
e talvez seja esse o problema
desta tarde que tarda em passar.

Penso tanto e em tudo que começo a delirar.
Tenho a tentação de me deixar afundar.
E essa tendência tende a se enroscar
nesta tentativa de um poema
sobre esta tarde que tarda em passar.
 
Tarde que tarda...

Chá de poesia

 
Depois de adormecer a dor de ser,
depois de saltar de nuvem em nuvem,
depois de descer ao mais obscuro abismo,
acordo pesado, enrolado em mim,
e tenho a árdua tarefa de desembrulhar o papel de rebuçado em que a noite me deixou.
Apetece-me gritar um palavrão!
Mas não, ainda não...
Guardo-o para mais tarde...

Ergo-me como pedra gigante puxada por cordas e,
desequilibrado, pergunto para onde me levam as linhas de perspectiva.

Rio com vontade da figurinha que me olha do espelho,
até que um de nós não suporte mais e desvie o olhar.
Lavo o rosto com o sabonete da mágoa e enxaguo-o na toalha dos poemas por fazer.

Preparo um chá de poesia,
e saboreio-o lentamente, como ele deve de ser saboreado.
Afinal eu tenho sempre a chaleira dos poemas ao lume e bolachas com pinguinhas de versos prontas para servir a quem as quiser degustar, assim como eu o faço.
Sôfrego engulo pétalas de rosas e planto-as de volta
no jardim de onde saíram e para onde, triunfais, agora regressam.

Visto-me de deferência pelas coisas pequenas que a vista alcança e assobio a canção que um melro sábio me ensinou.

Então e só então sei que já consigo
dançar até à alma da alma...
 
Chá de poesia

Minha querida, querida...

 
Meu jardim florido de eternos beijos...

Meu pomar fértil em ternos desejos...

Minha Terra, meu Sal
minha Luz, meu Caminho
meu Cordão Umbilical
meu Rio, meu Carinho
minha Força, minha Alegria
minha Vontade de Viver
minha Voz, minha Fantasia
minha marca de Saber
meu Gosto, meu Perfume
meu Apoio, minha Almofada
minha Frase que resume
o quanto és Amada.

Minha Mão, meu Pé
minha Boa Educação
meu Olho, minha Fé
minha Justa solução
meu Fogo, meu Calor
minha Sede, meu Siso
minha rima de Amor
meus Dentes, meu Riso
meu Ser, minha Forma
minha Fonte de abraços
meu Querer, minha Norma
guia dos meus passos...

meu Tudo, meu Mundo
minha Estrela de Belém
meu Tempo ao segundo
minha Querida , Querida MÃE
 
Minha querida, querida...

Dentro daquela casa, alguém morre...

 
Dentro daquela casa, alguém morre
como uma luz que esmorece lentamente.
Todos os dias a chama vai diminuindo, diminuindo
até quase não se distinguir da escuridão que a vai cercando.

Naquele quarto, alguém se extingue suavemente,
alguém que foi (é) importante para quem amava, e prestável
para quem precisava, sempre que podia.
- As almas boas são assim: são poucas as condições que colocam para se partilharem.

Numa cama alguém fecha os olhos guardando recordações.
As suas mãos, alvas, já pouco sentem, mas ainda se lembram das outras mãos que ajudaram.
E os sorrisos de agradecimento...
Os pés, descalços, ainda sentem as pedras dos caminhos rectos por onde andaram.
É muito intensa a memória do corpo...

Esta noite alguém morre,
alguém que não merecia (alguém merece?)
suavemente, quase como quem regressa ao útero materno, depois de tantos anos no seu exterior...

mas não andaremos todos a morrer um pouco todos os dias?
 
Dentro daquela casa, alguém morre...

17,67 m

 
E dai graças, dai graças,
neste tempo abençoado
em que um povo se confunde
com o seu corpo trabalhado.

Dai louvores, dai louvores,
à terra que o lançou
com salpicos de vida pura
e à elegância que nele voou.

Rejubilai, rejubilai,
com a plena confiança
nos seus três saltos de nenúfar,
razão da nossa esperança.

Aclamai, aclamai
o eterno atleta
elevado ao olimpo
pela sua atitude correcta.

Obrigado pela alegria que nos trouxeste
 
17,67 m

NR