Poemas, frases e mensagens de adelaidemonteiro

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de adelaidemonteiro

À Procura de Mim

 
À Procura de Mim
 
Procuro-me em ti…

No teu ventre de menina, nos teus sonhos desfeitos, nas lágrimas que secavas no lençol mordido pela tua raiva e, com o teu orgulho não as mostravas.
No teu crescimento interrompido, para que eu pudesse crescer em ti…

E o que foi que eu te disse, enquanto acariciava os tecidos do teu ventre?

Não chores mãe, pois tu não vês que eu serei a Estrela que iluminará os teus passos?
Enquanto flutuo na tua dor, eu sonho!...
Não sabes que a cada gesto teu, enquanto puxas a foice ou o arado, eu navego em ti para outros mundos, para onde te levarei?

Procuro-me no teu grito... engolido pela dor que encobriste quando saí de ti e gritei bem alto…estou aqui!

Procuro-me no meu choro,... interrompido pelo teu seio quente ou pela água da cântara, que eu ensolada bebia, sempre que a sombra do castanheiro, teimosa de mim fugia.

Procuro-me em cada gesto teu... no campo de trigo dourado, esventrado pela tua mão, enquanto eu, com grilos e joaninhas brincava e dormia.

Procuro-me na tua beleza de mulher… que cresceu enquanto eu crescia.

Procuro-me nos meus amores de adolescente... escondidos em recados no meio dos livros e nos beijos dados à pressa, que de ti escondia.

Procuro-me na semente do imbondeiro,... tão bondosa e bela como aquela que tão cedo germinou em ti.

E Vês!… Cumpri as promessas…

Levei-te aos mundos que dentro de ti tinha descoberto.
Ouviste o riso traiçoeiro das hienas e o rugido do leão a rasgar o silêncio das noites quentes, na floresta.
Cheiraste a terra molhada e secaste no teu corpo a roupa, também ela molhada pela chuva quente.
Respiraste ar puro, partilhado com gente honesta.

Procuro-me na minha vida a correr... e é a correr que te encontro, que vos encontrava aos dois!…

Procuro-me agora... em cada vinco do teu já marcado rosto e culpo-me, por te mostrar tão pouco, os vincos que vão surgindo no meu.

Procuro-me em ti... e tenho medo de não te encontrar!...
 
À Procura de Mim

Sou

 
Sou
 
Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera
Sou uma ave que migra
Em busca de Primavera

Sou chegada, sou partida
Sou silêncio, multidão
Sou um cometa que brilha
Na noite de escuridão

Mar revolto e tempestade
Sou calmaria e bonança
Sou sonhos e realidade
Sou mulher e sou criança

Sou os destroços do mundo
Banhado em violência
Sou o grito que sai fundo
Da minha pobre impotência

Sou uma alma inquieta
Nos restos de uma quimera
 
Sou

Porquê, ó mar?

 
Porquê, ó mar?
 
Olho-te… e vejo-te
Carregado de nuvens negras
Que me impedem
De ver a luz do teu olhar
Que me assustam me sufocam
Me mostram papões
E não me deixam navegar

Porquê que há dias
Em que tens águas transparentes
Em que a brisa é perfumada
E os teus monstros são inocentes?

Com golfinhos salto as tuas vagas
Mato a sede, sorvo o teu sal
Respiro o teu perfume
E com olhar ausente
Me perco no horizonte.

Sentada
Partilho contigo os meus segredos
E depois apaixonada
Viajo em ti, ó mar!...

Porquê que hoje...
Te vejo de águas turvas
Me sinto triste, mal amada
E os teus polvos gigantes me prendem
Me asfixiam e dominada
Me lançam contra os rochedos
E me matam?

Porquê, ó mar?!...
A quem contei meus segredos!...

O mesmos rochedos
O mesmo jornal
O mesmo mar!...
 
Porquê, ó mar?

Nasce poesia

 
Se a minha alma chora e lágrima solta
Se o coração se aperta e a dor o sufoca
Se qualquer coisa me abala e me perco na rota
Me gelo no Verão e na noite fria
Em murmúrios ou gritos
Nasce poesia

Se a mulher é humilhada quando passo na rua
Onde a criança foi violada e ajuda implora
Vem-me a dor ao peito dessa aguarela crua
Ergo-me e com força pego a folha vazia
Lanço-me em revolta
Nasce poesia

Se por ser mal amada, uma pessoa sofre
Eu passo para mim todo o sofrimento
Ergo a minha voz e com o seu lamento
A minha alma fala o que ela sentia
Em dolorosas palavras
Nasce poesia

Se do peito me transborda felicidade
Por te ver ó botão, a abrir em flor
Se a alegria existe e predomina o amor
E todo o universo vive em harmonia
Canto feliz e agradeço
Nasce poesia

Se a planura me encanta mesclada de flores
Malmequeres papoilas urzes violetas
Os pássaros voam em enleados amores
E a árvore esvoaça com a ventania
Persigo borboletas
Nasce poesia

Se o sol me aquece e a lua me inspira
Em noite estrelada e num dia qualquer
Se vejo num homem alma de mulher
Que a sofrer chora e enfim suspira
Me compreende e me contagia
Eu canto com os dedos
Nasce poesia...
 
Nasce poesia

Tirem-me daqui

 
Tirem-me daqui
 
Quando olho para trás
E vejo as montanhas que trepei
As escarpas que escalei
Os vales que percorri
O que aprendi e ensinei

Quando olho para trás
E vejo os amigos que conquistei
As paixões que senti
Em batalhas que travei
Nos caminhos que percorri

Quando olho para trás
E vejo as terras que semeei
Com os saberes que transmiti
Que em heras bravas fixei
E os frutos sãos que colhi

Quando olho...
Sinto-me moribunda
Grito e imploro...
Tirem-me daqui!...

A terra que me dão é infecunda
A norma aplicada é insana
E a semente não germina

E eu...semeando...
Choro de dor
E digo gritando
Tirem-me daqui
Por favor
 
Tirem-me daqui

Libertei as palavras

 
Desatei as palavras
e deitei-as a voar…

As palavras assim libertas
juntaram-se a uma nuvem branca,
nun poema.

Declamei o poema com vigor
para tu o ouvires,
para fazer sair da tua alma
um sorriso,
ainda que triste…

Mas não!
A tua alma não ouviu o meu poema,
mesmo em gotas duma nuvem…

Esboça um sorriso...
Quero ver os teus olhos a brilhar
ainda que seja com uma luz ténue,
como a luz de uma candeia
que com uma brisa
se possa apagar.

Apagou-se a luz...
Apagou-se o poema...

Procurei-o na noite…
mas o poema voltou para a nuvem branca
e, desiludido...
por falta do teu sorriso,
como uma estrela cadente,
…calou-se para sempre...
 
Libertei as palavras

Eu decido

 
Eu sou brisa, sou vendaval
Nevoeiro, tempestade
Eu sou começo, sou fim
O meio não é para mim
Sou de extremos, na verdade.

Pertenço ao mundo e a mim
E só me dou se eu quero
Sem posse e só assim
Sem cadeias, sem atilhos
Porque a liberdade venero.

Tenho a força da nortada
A fragilidade da maresia
O rubor da rosa encarnada
De açucenas a candura
Do malmequer, a fantasia.

Por muito que a mente
Me diga que não
Ouço a voz do coração
E depois gero um conflito;
O coração fica aflito
Eu imponho-me, eu refilo
Alto lá, eu mando aqui
Eu que sou coração e mente
Eu que sou gente
E no todo, eu decido.
 
Eu decido

Doce rio, meu amado

 
Sigo-te no silêncio das arribas
Rio meu que calmo segues
Entre rochedos e zimbros
Transmitindo a paz que bebes

Ah, se eu pudesse chegar-te
E me entregar em teus braços
Mesmo que trémula eu iria
Para me receberes com abraços

Pois tu não vês que descendo
Eu nunca mais subiria
De teus braços me desprendendo
Eu subir não poderia

Vives assim heremita
Sozinho bem lá no fundo
De tuas dores já padeces
Sozinho nesse teu mundo

Ah, se eu pudesse beber-te
E em ti mitigar securas
Banhada nas tuas águas
Lavava em ti amarguras

Doce rio, meu amado
Eu hei-de alcançar-te um dia
Nas águas do mar salgado
Envoltos em maresia
 
Doce rio, meu amado

Evade-te, poema!

 
Poema, porque te escondes
Se os teus olhos são estrelas
Em noite escura?
Porque te escondes atrás da nuvem negra
Na penumbra, no engano, na amargura?

Evade-te, poema
Dessa nuvem, espuma dissipada
Das vagas,
Contra a areia molhada.

Insinua-te poema
E à tua amada mostra a luz
Dos teus olhos, seduz!

Sai da masmorra em que te encontras
Labirinto de pesadelos, terror
Onde confundes dever com amor
Onde lentamente cavas a tua sepultura.

Perfura a nuvem negra, poema
Sai em liberdade, doçura!
 
Evade-te, poema!

Este céu

 
Hoje
Pesa-me o céu no meu peito
Dum cinzento que me abate
Porquê que às vezes o céu
Se me envolve que nem véu
Toque de sinos a rebate
Dum sonho que foi desfeito.

Ontem
Vi-o leve, nem sabes quanto
Desse céu que aquece e acalma
Encheu-me de luz, de ternura
Do corpo tirou a desventura
Apagou a tristeza da alma
Um céu bebedor de pranto.

Amanhã
Será azul forte ou claro
Cerúleo ou azul indigo
Um céu a forçar-me à luta
À força, à esperança, à labuta
Sempre terno, sempre amigo
Companheiro e amado.

Este céu onde me evado
Onde sonho, onde me elevo
Onde de manhã me lavo.

.
 
Este céu

Não me peças Palavras

 
Não me peças Palavras
 
Não me peças palavras!
A minha voz é um murmúrio
De letras aglutinadas
Em sílabas sem sentido
Que não ouves

Ouve-me com o coração
E só assim sentirás
O que tenho para ti
Neste fogo de paixão
Que ouvirás

Olha-me...
Vê-me com as mãos
E ferve-as no meu desejo
Escalda-te no meu sangue
Em ardente beijo
E verás...

Chegaremos à Lua e a Marte
E em labareda ondulante
Voltaremos a nós
Em letras aconchegadas
Em palavras com sentido
Ouvirei...
Ouvirás...
 
Não me peças Palavras

Eu Que Sou Mulher

 
Fui feita por acaso
Sobrevivi por acaso
Nasci de um rompante rude e destemido
Rasguei as entranhas aos montes onde mamei pão amargo
Atravessei rios com os pés descalços e saí em gelados gemidos
Fui castrada por uma sociedade insana e cortei as amarras
Reconstitui-me, juntei as peças roubadas

E … aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Vivo neste Cosmos estirada por forças opostas
Que me distendem os tendões e músculos
Uma parte de mim é Terra, regida por Marte que me prende ao chão
Outra parte é Vénus e Lua que me desprende, liberta e me lança em sonhos

E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...

Com dedos de pincéis e teclas
Corto as amarras do chão
Liberto os meus pés sangrentos
E sou mulher, sou sonho e sou criança
Elevo-me e a levitar
Abraço Vénus e a Lua
E deixo Marte a descansar
Nas estrelas escrevo poemas
Nas nuvens pinto o mar

E… aqui estou eu!...
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!...
 
Eu Que Sou Mulher

Morre! Ignóbil Ser...

 
Querendo matar
Morres sem saber!...
Com as tuas maldades
Ateias fogo
E ardes nas labaredas do ódio
Das tuas vinganças
E das tuas verdades.
Estás enrugado, bacilento
Oco, corroído por dentro
E há momentos
Em que sentes vergonha de ti.
Sim vergonha
Por escassos momentos.
Mas depressa lançarás
As flechas impregnadas
Do veneno do ódio e da vitória
Que a ti próprio vencerão.
Justiça!...
Aqui sim, faz-se justiça!...
O teu inimigo sofre, mas não morre.
O alvo és tu
E és tu que vais perecendo.
Vives...
De alma suja e coração corroído
Pelo ódio que te vai comendo.
Como estames murchos, secas!...
Mataste o Outono
E sem passares o Verão e a Primavera
Vives soterrado no Inverno.
Em nome da tua honra e do teu ódio
Lazarento, vais morrendo.

Morre, ignóbil ser!...
Afoga-te nas tuas vinganças!...

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Morre! Ignóbil Ser...

Danço-te

 
Danço-te…
Em valsa
Sala dourada
Leveza
Flutuando
Embalada
Danço-te…
Em tango
Paixão
Quando me empurras
Me afastas
Me puxas
E com o olhar
Sedução
Me bebes
Desejada
Danço-te…
No ritmo do samba
Quando vibro
Em movimento
Livre
Extasiada

Danço-te…
 
Danço-te

Procura-me

 
Dou-me como se dá o rio ao mar
em tumultuosas tempestades
Dou-me como se dá o vento às folhas das camélias
em suaves afagos
Dou-me como se dá a lua às estrelas
em pestanejar insinuante
Dou-me como se dá a flor ao beija flor inconstante
em doce néctar
Dou-me na insegurança das tuas verdades
que me confundem
Dou-me nas palavras que me exiges
e que não balbucias

Encontro-me no silêncio da noite escura
à espera de te encontrar
de me encontrar ao teu lado, plenamente
Encontro-me em encruzilhada labiríntica
duma teia tecida com fio resistente
que me desorienta

Procuro uma bússola
que mostre o caminho
que me leve a ti neste universo confuso
Procuro um farol
que me faça encontrar um caminho liso
orlado de jasmim

Pois tu não vês
que os meus olhos são duas fontes de água cristalina
que não vislumbram na penumbra
Pois tu não vês
que o meu coração e a minha alma são canoas
que não navegam em água turva
Procura-me…
 
Procura-me

O Grito

 
Estou inerte
Tenho fome
Quero caminhar e não posso
Perdi as rotações
Com estilhaços de minas
Crateras de explosões

Já não ouço
O chilrear dos pássaros
Em sonhos trocados
Trocaram estações

Tenho os olhos enevoados
Com lágrimas de sangue
Das mães órfãs de filhos
Em fogos cruzados

Estou sequiosa
Em rios contaminados
Peixes sufocados

Espessos cabelos rapados
Pulmões em fumos colados
Sento-me... exausta
Quero caminhar e vacilo
O grito sai num gemido...

Mas eis que
Enraivecida
Me ergo
Grito a Gorak e então
Sismos tempestades vulcões
Incêndios degelos tufões
Bocifero inundo abano
Arraso queimo congelo
E bem alto gritando
De ódios perdida
Vingando
As destruições

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O Grito

Se...

 
Se a Primavera me trouxesse as andorinhas
Ao meu beiral deserto de cores lentas
Com musgo de inverno frio vestido
Em tempestades envolto e em tormentas.

Se o sol me trouxesse alegria ao peito
Onde vivem Outonos amarelecidos
Em cama de neblinas onde me deito
E acordo dos meus sonhos interrompidos.

Se os campos me trouxessem muitas rosas
Espalhava-as pelos jardins dos sem ventura
Que dormem destapados, desditosos
Em pedras frias, na rua da amargura.

Eu teria andorinhas, alegria, calor
As rosas, os beirais e o sol quente
Os leitos, os jardins, a paz e o amor
De mãos abertas daria, a muita gente.
 
Se...

Pintor

 
Pintor
 
Tu que pintas sonhos
Poemas e abraços
Pinta a paz ao mundo
Desfeito em pedaços

Vais pôr nessa tela
Amor e esperança
Almas cristalinas
Sem ódio e vingança

Porás também pão
Justiça irmandade
Casa para todos
Amor lealdade

E com restos de tinta
Das tuas ilusões
Pinta,pinta, pinta
Pinta corações...

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Pintor

No tempo onde me sento

 
Sentada num recanto do tempo, sou tarde de temporal.
No regaço coloco as mãos frias como que a esperar que a chuva passe, o vento deixe de sibilar, as ondas alterosas deixem de me atormentar.
Ponho as mãos no regaço, perdidas, cansadas, inertes, à espera, neste cais que se desintegra, numa espera inútil, onde nenhum barco atraca, farol que não dá sinais.
De repente o crepúsculo cai, a noite fria surge, a noite de naufrágios, a minha noite. Sento-me nos destroços, as ondas rebentam aos meus pés, fortes, gigantescas e a minha alma chora ao ritmo da rebentação.
Sinto-me perdida, sem pontos cardeais, sem bússola, tentando encontrar as ruelas da madrugada que anelo, a que tenha a frescura da hortelã, o cheiro da madressilva, o gosto da amora, a macieza do linho gasto.
A noite tapou as ranhuras à madrugada e, asfixiada pela impotência de nascer, recolheu-se atrás de nuvens densas, castelos de fumo.
Lá ao longe, um farol a mostrar-me outro rumo, o barco que se volta, o meu regaço que se inunda, as minhas mãos que submergem, o meu peito que agoniza, o cais a desintegrar-se, e eu, noite de naufrágios,... no recanto do tempo onde me sento...
 
No tempo onde me sento

Lembra-te de mim

 
Lembra-te de mim
Quando a sombra que me segue
Se faz esguia
Num pôr do sol em Agosto
Seguido por olhos sedentos
Doutro e mais outro dia.

Lembra-te de mim
Quando a voz me enrouquece
Com o timbre do preso vento
E as cordas se me apertam
Com as palavras que calo
Como quem cala lamentos.

Lembra-te de mim
Quando não escrevo o que escrevo
Quando não digo o que penso
Para não dizer o que sinto
Ó céus quantas vezes minto
E tantas outras me arrependo.

Lembra-te de mim
Nos olhares da lua cheia
No frágil quarto minguante
Na pujança do crescente
Ou na nova em que me escondo
E sem me veres sigo diante.

Lembra-te de mim
Se a memória to lembrar...
 
Lembra-te de mim

Quisera eu ser poeta
Quisera eu ser pintor
Escrever telas e pintar poemas
Escrever, pintar, pintar,escrever
A humanidade com muita cor