Poemas, frases e mensagens de Marinheski

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Marinheski

SERÁ O SEXO SUJO?

 
Entrámos no quarto, o calor era tanto, todo o nosso corpo estava em ebulição, as roupas começaram a abandonar o nosso corpo, precisávamos de satisfazer a nossa fome animal.

A citação não é de ninguém, de momento não me ocorre nenhum escritor conhecido que tenha usado frase semelhante, mas frases do género abundam na literatura, principalmente na literatura cor-de-rosa barata. Fi-la para poder perguntar: por que raio o sexo é considerado animal? Por que é que a nossa animalidade tem que se reflectir no sexo? Será que todos os impulsos homeostáticos são animais (embora o sexo não seja enquadrado por alguns nessa tabela, porque se considera que não põe em risco a existência do indivíduo)? O que quero discutir não é se o sexo é ou não um impulso homeostático, mas sim se é animal.

Silogisticamente, se nós somos animais, e os impulsos são nossos, logo os nossos impulsos são (de) animais. Mas não se trata disso, porque quando referem o sexo como impulso animal relegam-no ao plano da nossa primitividade. E isso por quê? Porque sexo é algo com que todos os animais se identificam, ou porque é algo que já foi praticado pelos nossos antepassados da caverna? Se foi por esses motivos que o chamam de animal, eu pergunto se comer, beber, respirar e defecar não são também impulsos animais.

Um punhado de moralista de toda a sorte e a Igreja (principalmente a Igreja) resolveram considerar o sexo impúdico, algo animal que um homem de bom senso deveria praticar com moderação (e como definem a moderação neste caso: sete vezes por semana, tês vezes por dia, uma vez por mês?), e para agravar conectaram umas séries de palavras que se relacionam ao sexo ao impudor. Já ninguém pode dizer foder, cona ou outras palavras do género, porque é devasso. Mas até aceitam, em certos contextos, que se diga pénis, vagina, fazer amor e muitas outras coisas como se a imagem que a palavra pénis invoca não fosse igual à invocada pela palavra caralho. E, condenando o significante, condenaram também o significado.

O nudismo, embora esteja a ser praticado cada vez em mais larga escala é ainda considerado uma espécie de depravação, porém recuemos à era dos criadores da democracia – uma das culturas mais admiráveis até agora – e veremos homens nus a praticar desporto nas olimpíadas, sem que isso constituísse um escândalo; lemos poesias latinas e vemos que cantam o falo (estão a ver que até não digo pila) e a vagina, sem que se tratasse de devassidão ou pornografia.

Acho a nossa cultura demasiado hipócrita e pretensiosa, prenhe de pessoas que praticam uma coisa, gostam de praticá-la, mas dizem que é suja.

Vamos lá perguntar: quem é que anda com a boca tapada? Ninguém. Não, ninguém tapa a boca, só temos que tapar as partes ligadas ao sexo, os genitais, as mamas e o rabo… mas não será a boca também um órgão sexual? Aliás, o maior órgão sexual. Não é a boca que faz elogios, que convida o parceiro, que combina o sexo, que começa os beijos, que faz um broche (desculpem se eu não disse felação)? Já Freud falava da boca como o primeiro ponto de erotismo, ou melhor, o primeiro órgão erótica de um indivíduo. E, na minha opinião, a boca é o mais desenvolvido órgão sexual que existe. Mas ninguém censura a boca, nem é indecente dizer boca, enquanto que dizer caralho já é.

Por exemplo, costumamos ler: Ele saiu da água e escondeu com as mãos as suas partes vergonhosas. É uma citação muito frequente, chamar o sexo (órgão sexual) de partes vergonhosas. Eu pelo menos não tenho vergonha do meu sexo, e, para dizer a verdade, se não sou nudista talvez não seja por causa de mostrar o meu sexo, mas sim das minhas canelas que são tortas. Sim, as minhas partes vergonhosas são as minhas canelas. E o que para os outros devia ser a minha parte vergonhosa, só me envergonha por ser pequeno.

Li algures uma anedota sobre a mulher se um sultão que caiu do camelo e deixou as suas partes vergonhosas (as palavras são deles) expostas ao olhar de toda a gente, e o sultão ficou contente porque a cara da mulher não se mostrou. Então, afinal, qual é mesmo a parte vergonhosa. Já vi um documentário sobre uma tribo de índios que nem sequer andavam com tanga, mas a câmara evitava decentemente filmar a parte genital. Se a eles não causa nenhum mal andarem nus, e se não fazem balbúrdias por causa de sexo (eles, considerados primitivos), por que raio fazemos nós (que nos consideramos a nós mesmo super-civilizados)?

Eu não pretendo apelar a pessoas a aderirem ao nudismo, nem que andem a dizer na rua palavras que certamente a maioria consideraria palavrões e indecências, mas sim para nos tornarmos indulgentes com a pessoas que usam essas palavras, porque são apenas palavras e servem para representar algo. Se não é mau dizer: aquela mulher é fantástica, não vejo maldade nenhuma em: aquela mulher é puta (senão para a própria mulher, isto é, se ela se importar).

Se não é devassidão falar de Deus, porque é Ele que nos dá a vida, por que será devassidão falar do sexo se é através dele (e de todos os seus componentes) que ganhamos a vida?
 
SERÁ O SEXO SUJO?

UMA QUESTÃO DE... RACISMO

 
Não sou racista. Eu vou para a cama com pretos!

Lembro-me de ter ficado bastante magoado quando uma amiga que prezo muito me disse que não se via a ter relações com pretos que não fosse mais que amizade. É claro que pensei que ela era racista, porque para mim, na altura, a maior mostra de não ser racista era talvez ter relações sexuais com alguém de outra raça (e digo já àqueles que vão retorquir que somos todos da mesma raça: pliz, não chateiem e deixem-me acabar o meu raciocínio). Eu sei que foi um pensamento estúpido tanto quanto foi estúpida a frase dela, pois quando desenvolvemos sentimentos de amizade, se forem genuínos, é claro, por alguém, isso significa que podemos desenvolver sentimentos de amor, pois se não nos restringimos a amar fraternalmente alguém de uma raça diferente, provavelmente é porque não somos racistas.

Eu vou para a cama com pretos!, não quer dizer que a pessoa não seja racista (embora não signifique que o seja), aliás, não atesta de forma nenhuma o racismo ou a sua ausência em ninguém, embora possa ser um indicador. Pode-se ir para a cama com pretos por fetiche, ou para se sentir cool e progressista, ou porque essas pessoas não passam de objectos sexuais. E pode-se não querer ir para a cama com pretos da mesma maneira que não se quer ir para a cama com gordos, musculados, magros, loiros, morenos, anorécticos, entre outros tipos físicos. Porém, quando alguém diz: loiras não fazem o meu tipo, ninguém o acusa de “tipismo”, mas quando alguém fala: pretos não fazem o meu tipo, é logo racista. Eu sei que estou a ver a coisa de uma maneira um tanto superficial, mas acho que suficientemente para mostrar o meu ponto.

Imaginemos um branco a dizer (como já ouvi algumas vezes): gosto de carne escura, brancas não me atraem!, o que concluímos: Ele é racista e não gosta da sua própria raça? Ele é racista e trata os pretos como objectos? Ele simplesmente definiu um tipo? E vamos pensar então que ele cresceu com os pretos e sempre viveu com eles.

A verdade é que nem tudo o que envolve a cor é complicado, no entanto, tudo o que envolve os pretos é. E parece que para a maioria, tal como era para mim, o não-racista é aquele que vai para a cama com a outra raça e não aquele que respeita, valoriza, amiga-se ou ama os outros, independentemente da sua raça.

E, voltando atrás, quando um preto diz: gosto mais de brancas!, ele é logo taxado de racista e de alguém com vergonha da própria raça, nem se pensa em aspectos culturais ou na simples questão de atracção pelo oposto. Não choca a ninguém ouvir as arianas, loiras platinadas e de olhos azuis nórdicas a dizerem: atraem-me mais os morenos e de olhos negros. Ninguém julga que pela abundância de “arianismo”, elas queiram algo diferente; aliás, de forma igual, ninguém se chocaria se uma delas manifestasse uma tendência exclusivamente “ariana”, certamente se diria: ah, é o tipo ao que ela está habituada!

Por essa razão não entendo por que tem de haver sempre complicação quando esta questão envolve os pretos. Quando um preto prefere brancos é racista; quando preto prefere pretos é fingido e orgulhoso; quando branco prefere pretos é fetichista.

Mas como eu disse antes ir para a cama com pretos não significa não ser racista (mas também não significa sê-lo, ou seja, como indicador para o racismo não serve de nada); há quem coma os animais, em todas as acepções da palavra, e isso não significa que não seja “especicista”, por exemplo, decerto que Monica Mattos nunca diria que respeita os cavalos como aos humanos.

Há muitos indicadores para o racismo e o factor “cama” é também um deles, mas só se, suponho eu, aliado a outros, porque só por si não é nada determinante. E olhem que para esta reflexão usei o preto como a constante e o branco como a variável, o que, não fosse o facto de eu me encontrar num país branco, poderia significar que pretendo que apenas os brancos podem ser racistas. E para esclarecer digo: o racismo não tem raça, só os homens têm. E olhem que nem comentei a frase: não sou racista, pois tenho amigos pretos!

publicado anteriormente em:
http://montedepalavras.blogspot.com/2 ... a-questao-de-racismo.html
 
UMA QUESTÃO DE... RACISMO

VOLTA PRA MIM

 
Dores de saudades
e afectividade
beijam o meu peito,
neste d’serto leito;
Os dias correm,
vão e vão e fogem,
substituindo-se,
e distraíndo-se,
e eu nem os teus olhos,
entre meus escolhos
consigo fitar;
Quero o teu voltar.
 
VOLTA PRA MIM

COM DO AMOR A FORÇA

 
Rezava ao teu coração
Suplicando-lhe o amor;
Quase morri de emoção
Quando com rubro calor
Eu li naquele teu cartão
A tua frase de amor.

Disse: Amo-te loucamente...
Eu, também eu te amo assim.
Se a tua letra não mente,
Então vais ter dó de mim,
Pois tornei-me mais ardente
Desejando amor sem fim.

Sei que mentindo-me ou não,
Eu já me fiz todo teu,
Nas rédeas da tua mão
Dominas o peito meu.
És tu agora o meu pão,
O meu coração, o meu céu.

Não tem palavra que chegue
Para expressar o meu amor.
Nem aguaceiro que regue
A maravilha da flor
No meu coração entregue
À graça do teu fulgor.

Amo-te muito, princesa,
Com toda a força da vida,
Podes guardar a certeza,
Que sempre serás querida,
Mesmo que finde a beleza
Da nossa graça escondida.
 
COM DO AMOR A FORÇA

É AMOR

 
Frutos semeados nos nossos corações,
Sementes que brotam das nossas devoções,
Luzes celestes que adornam com esplendor
No auge da vida o que chamámos de amor.

A divina seiva da vida que em nós corre
Erigindo a magnificência do perdão,
Fazendo que o fogoso ódio em nós não more,
Vem porque existe do amor uma insuflação.

Graças escondidas no recôndito da alma
Que se disparam para qualquer direcção
Gritando plenamente numa voz que chama
Sem cessar por outro querido coração.

O sabor que resplandece cheia de vida
E aligeira o fardo que temos nos ombros,
O ardor que nos reconcede a vida perdida,
A alegria que afasta a vida dos escombros.,

Amor, traço lindo do nosso sentimento
Que guia com a sua luz as nossas almas,
Aquilo que adocica o nosso sofrimento
E transporta-o, bravo, para as águas calmas.
 
É AMOR

AMO-TE, MAS O MUNDO...

 
Amo-te...
Amo-te tão loucamente;
O meu amor é maravilha
Que mui pouca alma sente.

Amo-te...
Como nunca amei alguém,
Com uma graça e fúria
Que ninguém no mundo tem.

O meu amor por ti, doçura,
É o outro nome da loucura,
Mas o meu peito não procura
Pra esta doença uma cura.

Amo-te...
Mais que tudo sabes isso;
Amar-te é uma felícia
E é um doce compromisso.

Amo-te...
E sou capaz de o jurar.
O meu sonho te perfilha
Co'o esplendor do meu amar.

Minha paixão é pura,
Mas este amor tem via dura
Num preconceito que perdura
Que só o vero apego fura.
 
AMO-TE, MAS O MUNDO...

UMA QUESTÃO DE... MERDA

 
UMA QUESTÃO DE... MERDA
 
Os seres humanos amam o perfume dos seus próprios excrementos, mas não o odor de dos outros. No fundo fazem parte do nosso corpo. (…) Levantei-me e olhei para as minhas fezes. Uma bonita arquitectura em caracol, porém fumegante. Borromini. (…) O cocó é o mais pessoal e reservado que temos. O resto os outros podem conhecer (…) Inclusive os teus pensamentos. Mas o cocó não. Excepto por um breve período da tua vida, quando a tua mãe te muda as fraldas (…) Os caminhos do senhor são infinitos, disse a mim mesmo, também passam pelo olho do cu.

Realmente todos nós merdeamos (limitando a referência ao sentido biológico do termo e sem intenção de ser escatológico), todavia a merda tem um significado bastante íntimo, muito mais íntimo que o sexo, de maneira que acaba por ser ainda mais escandalosa que ele. Todo o mundo partilha o sexo, mas a merda é mais solitária que a masturbação, razão por que o fazemos à porta fechada (limitemo-nos à merda ocidental). É claro que há excepções para tudo, encabeçando o exemplo, o par de coprófagos mais famoso do Séc. XXI, as senhoras da 2 girls 1 cup, mas os nossos sapientíssimos psicólogos chamam-nas, às excepções, de desviantes, e os precavidos higienistas com razão avisam que é uma actividade pouco, ou nada saudável.

A merda, ou melhor, merdear é o maior tabu da nossa sociedade, apesar de qualquer pessoa saudável o fazer pelo menos uma vez por dia (ou devia fazê-lo com essa frequência; bem não sei precisar o melhor número diário, mas julgo que em grande número o melhor é consultar um médico). E a nova geração está tão empenhado em desafiar os tabus, principalmente à porta fechada, que práticas como o beijo grego ou o ATM (não confundir com as caixas de multibanco) são cada vez mais comuns. Será isto uma demonstração de coprofilia em estado latente?

Trabalho num supermercado e vejo todos os dias pessoas a comprarem papel higiénico, e quando, há dias vi o filme Mary e Max e as referências escatológicas ali deixadas (e que me remeteu ao texto de Umberto Eco, do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, com que abri o post) comecei a ficar com desejo de entrar na cabeça dessas para saber se pensam alguma coisa sobre o que pensam os outros pelo facto de comprarem papel higiénico ou se simplesmente estão-se a cagar, pois comprá-lo atesta claramente que a pessoa merdeia.

À merda relacionamos o peido (é melhor dizer flatulência, para não parecer ordinário, e começar a dizer excreção ou dejecção, para parecer científico e não vulgar), de tal maneira que constitui um embaraço quando este se ouve quando o queríamos calar, mesmo que o único sentido que desperte seja a audição; aliás, preferimos empestar o espaço com um fedorento que ninguém pode identificar a origem passando toda a gente a ser suspeito (tirando quando há moscas por perto, pois começam logo a voar na direcção da fonte da emissão, estragando o disfarce), do que a fazer um sonoro que não incomoda a mais ninguém.

Fico à pensar se não condenamos a defecção por sua ligação com o sexo, pelo menos no início. Ok! Eu explico: o acto de defecar expõe inevitavelmente o sexo (o órgão), e acho que o pudor tinha mais a ver com isso do que com questões higiénicas. Li um romance, onde uma senhora da corte francesa durante um passeio, manda parar a carruagem, e avia-se ali mesmo à beira da estrada, à frente dos demais. E parece que até o Séc. XVII era normal defecar em qualquer sítio que desse jeito, dentro da casa ou na rua, ou dizer um: água vai!, antes de amandar a porcaria para o meio da rua. E quando as medidas começaram a ser tomadas para acabar com essa porcariada toda, e mesmo no Palácio das Necessidades dos portugueses, o acto de defecar era partilhado com os outros, porque não haviam separadores e nem sanitas cómodas como hoje, quando muito pias turcas.

Se era isso prática comum na altura, começo a pensar quando é que a merda, ups!, defecção, começou a ser sacralizada? Eu sei que os muçulmanos nunca se relacionaram bem com ela, e julgo que e pela mesma razão acima sugerida, o sexo, porque também não se relacionam com a urina, motivo das suas abluções antes de começarem as orações. Mas, também, n’As Mil e Uma Noites soube que eles partilhavam banhos e latrinas, embora já evidenciassem o pudor de merdear em público; eram mais civilizados nesse sentido que os ocidentais.

Parece que os gregos costumavam defecar em público (confirmem se faz favor), sem vergonha desse acto, os próprios romanos tinham o que chamavam de Cloaca Maxima, a sua rede de esgotos, pois os actos higiénicos faziam-se na rua, mas, hey, os romanos eram muito desavergonhados para o nosso padrão actual, eram tipos que faziam hinos ao sexo e aos órgãos sexuais e louvavam o nudismo.

Tudo o que o corpo manda fora pelo seu sistema excretor é lixo, e duvido seriamente que se consiga reciclar. Eu cresci numa quinta enorme, quando criança eu costumava defecar no fundo do meu quintal e tinha sempre algum porco (animal) que ganhava assim refeição (era proibido de fazer isso, porque a minha mãe dizia que comíamos pela carne do animal o que eles comiam; mas eu cagava-me na proibição, afinal eles estavam ali para fazer desaparecer a prova), no entanto, nunca vi um porco a comer o seu próprio dejecto. Ou seja até aqueles idiotas de cérebro reduzido sabiam não ser saudável digerir a própria merda.

É claro que depois de as pessoas começarem a esconder os dejectos e a ter vergonha deles, todo o mundo começou a ganhar, as cidades começaram a ser mais saudáveis e as doenças desapareceram, por isso ninguém pense que estou a fazer um apelo a coprofilia. O que estou a tentar entender é por que raio começamos a ter vergonha de algo tão natural como merdear? E somos tão fascinados pela merda que Piero Manzoni - o grande trapaceiro que soube bem vestir o rei de nu (primeira foto) - teve o trabalho de cagar em 90 latas e nós o consideramos uma obra-prima.

[font=Haettenschweiler]PS: Eu não sabia que algo como a merda podia render um post tão comprido, pois acho que ainda vou voltar ao assunto.

PPS: A segunda foto é de uma instalação sanitária pública com vidros espelhados. Imaginem a sensação de merdear vendo todo o mundo (se conseguisse é claro, eu cá duvido muito), é como ser um deus: cago pra vocês, mas nem sabem.[/font]

publicado em: http://montedepalavras.blogspot.com/
 
UMA QUESTÃO DE... MERDA

SAUDADES

 
Olhando atento pra a chuva que cai,
Coa vida para o vazio orientada,
E a solidão no meu sonho entroncada
Cruel gemido da minha alma sai.

A chuva invejosa caindo vai
Copiando a lágrima amargurada
Que dos meus flébeis olhos sai aguada,
Misturada cum lacerante ai.

A chuva na solidão me desperta
As doce lembranças postas por ti
No meu agoniado coração

Que a saudade dorida tanto aperta
Sem olhar pro tanto que já sofri,
Dando apenas aos seus intentos vazão.
 
SAUDADES

GRITOS (Falsidade ou Obsessão?)

 
Gritos! Lágrimas ’sparsas por amor?
Desejos presos na infelicidade,
Sonhos ardentes de necessidade
Convertidos em fome de calor.

Prantos de mil lágrimas sem valor,
Fingimentos sem autenticidade,
Semeados na alma pla não-verdade
E que explodem com fremente furor.

Peitos se rebentando pelo falso,
Ostentando a marca do sofrimento,
Sacudindo-se de desgraças frígidas.

Sonhos desfeitos por algum percalço,
Obrando infinidade de tormentos,
Mentiras feitas de vontades líquidas.
 
GRITOS (Falsidade ou Obsessão?)

SER S(C)EM SER

 
Posso ter espírito de poeta,
Em rimas meus sentimentos cantar,
A todos o meu íntimo mostrar,
E ser, na realidade, um profeta.

Posso não ter alma igual ao asceta,
Nunca no silêncio refugiar;
Posso junto dos outros sempre estar,
E ser, na realidade, um cometa.

Também, posso não ser o que pareço,
E inda posso ser, sem o parecer,
Personagem que eu mesmo desconheço.

Eu posso existir sem acontecer,
Ter um fim sem antes ter um começo.
Mesmo sem querer, posso, às vezes, ser.
 
SER S(C)EM SER

HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA?

 
Estive a ler Yvan Leger, Os Desvios Sexuais, no capítulo onde ele fala de homossexualidade, refere-se à questão como se fosse uma doença. Eu não sou psicólogo, mas confiro-me autoridade suficiente para contrariar esse senhor, autoridade esta apoiada pelos seguintes artigos (só de exemplo): este (http://super.abril.com.br/superarquivo/2004/conteudo_364679.shtml) e mais este (http://homossexualidade.sites.uol.com.br/homo.htm), embora este último seja tendencioso.
É ridículo considerar homossexualidade uma doença, ou mesmo desordem mental e psicológica só porque a tendência geral é a heterossexualidade. Aliás, se formos ver bem, então doentes neste planeta seriam os honestos, altruístas e ateus, porque somos ensinados que o mundo é cruel e portanto temos de sê-los também para poder sobreviver. Mas isso não é assunto para este capítulo.
Entretanto, vou dar um desconto ao Dr. Yvan, considerando a época em que escreveu esse livro e a mentalidade que imperava nessa altura, vou fechar os olhos e não ver que por causa de autoridades, moralistas ou científicas, tendenciosas é que o nosso mundo continua estagnado em preconceito vários. Bem como Pierre Boulle n’O Planeta dos Macacos com maestria ridicularizava: uma sociedade de orangotangos que mandam na ciência com dogmas e tretas não permitindo que se chegue ao passo seguinte porque têm medo de verem a sua autoridade derribada.
A homossexualidade (esta vai para alguns idiotas preconceituosos que se julgam sábios) não é doença, não significa instabilidade mental, significa simplesmente escolha. As pessoas não nascem homossexuais, não nascem heterossexuais, não nascem com coisa alguma, simplesmente são educadas ou fazem a sua escolha por motivos diverso algures no caminho da sua vida enquanto se formam e se consolidam. Homossexualidade é doença? Ridículo.
Não bastam os religiosos, com as suas cruzadas fictícias, a chatearem os homossexuais… não bastam os hipócritas que curtem bué um show de lésbicas, mas atacam os homossexuais masculinos, porque são contra a homossexualidade… não basta o medo de ostracismo pela sociedade… ainda vêm psicólogos ou sexólogos a escreverem livros com finalidade de instruir uma massa a dizer que a homossexualidade é doença!!!
Porra! Se formos ver bem, doentes seriam os heterossexuais. Pelo menos até hoje ainda não tive conhecimento de uma violação “homossexual”, pode ser que haja e provavelmente, temendo o estigma, tal como muitas mulheres não participam quando são violadas, os homens muito menos o fazem. Alguém pode objectar dizendo que nas prisões ocorrem violações homossexuais, mas eu diria não, pois os que violam os outros na prisão são heterossexuais. E sabemos bem dos tipos de psicoses que espaços fechados como prisões podem criar nos indivíduos.
Eu fui criado heterossexual, e confesso ter também alguns preconceitos em relação a homossexuais, preconceitos estes cada vez mais minimalizados... mas digo que cada um manda no seu cu, cada um tem o direito de fazer o que quer com ele (alusão a homo-homens). Se se estranha a alguém como é que um homem pode gostar de sexo anal (estou a tentar usar uma linguagem menos chunga) ou de beijar outro homem, pode simplesmente pensar como é que as mulher gostam de sexo anal e de beijar-nos. Se elas adoram quando nos beijam, porque não poderia um outro homem adorar quando beijar um igual? Se elas gostam do sexo anal, porque não gostaria um homem? Nós somos moldados pela nossa educação e ficamos presos a isso, mas lá porque outras pessoas são diferentes de nós não significam que sejam doentes e nem que devem ser maltratadas (em todas as acepções da palavra e em todas as outras que ela pode conter)… não digo mais, só recomendo: revisem a questão na vossa cabeça.
 
HOMOSSEXUALIDADE É DOENÇA?

CÉPTICO E CASMURRO

 
Por mais raro que seja nada estranha
O céptico que no inato desenha
Desejos de sonhos ricos, mas prenha
De sevícias que males nele entranha.

Por mais que perde, ele julga que ganha;
Não faz o erro, só tudo o que contenha
O discernimento que como lenha
Acresce o fogo do ai onde se banha.

Arrepende-se da via em que caminha,
Mas insta em trilhá-la mesmo medonha
E onde contra os outros o medo empunha.

Cada vez mais do final se avizinha,
E por mais desaire que se lhe ponha,
Mais às velhas raízes finca a unha.
 
CÉPTICO E CASMURRO

DE TI NÃO ME ESQUECEREI

 
Quando estavas comigo tudo era tão a jeito,
Tudo era simples, sem nenhum preconceito,
Nada me preocupava, o mundo era perfeito,
Ter o Paraíso era ter-te colada ao peito.

Eu sorria, tu sorrias, tu sorrias logo eu sorria,
A minha alegria com nada no mundo se media,
Só de ver os teus olhos, ficava alegre todo o dia,
Oh, minha querida, tu eras tudo o que eu queria.

Eu estava invulnerável, nada me afectava,
Eras o meu escudo, tudo em ti eu encontrava,
Eu era o mais feliz do mundo, nada me faltava,
De tanto te amar até a alma por ti eu dava.

Eras tu o meu manto, o meu anjo protector,
Cavaste em mim uma grande fonte de amor,
Fizeste-me provar toda a espécie de sabor,
Talvez fosses o diabo mas eras o meu redentor.

Contigo fui à Lua, visitei o universo,
Contigo na felicidade eu estava sempre submerso,
Em ti eu encontrei o mais aconchegante berço,
Dizer-te amo-te querida foi o meu mais belo verso.

Fizeste nascer em mim um sorriso permanente,
Alegria constante que intrigava a toda a gente,
Fizeste-me sentir como se fosse diferente,
Que mesmo ao mundo eu era capaz de fazer frente.

Concentrado em ti ultrapassei o Nirvana,
Meditava no nosso amor de forma insana,
Descobria em ti coisas novas a cada semana,
Eu diria o tanas, se dissessem que eras humana.

Não me vou queixar agora, nem acusar ninguém,
Nem mesmo o destino que na mão reféns nos tem;
Se há mal em tudo agora, houve muito bem,
E todo esse bem, o meu coração ainda retém.

Coisa boa melhor que tu, Deus fez só pra ele,
Só de lembrar de ti ainda sinto-te na pele,
É grande o sentimento que para ti me impele
E que a ideia de juntarmos de novo não repele.
 
DE TI NÃO ME ESQUECEREI

QUEM ME DEVE AMOR

 
A quem meu coração devo dar?
Quem neste mundo me deve amor?
Já não compreendo este meu falar,
Pois sai impresso de falas de dor.

Os meus olhos famintos confusos
O dia lúcido descortinam
Mas marcados de sonhos obtusos
Que os deuses ao peito me destinam,
Tenho a visão pintado de escuro
Que me esconde o amor que procuro.

Meu pobre coração iludido
No silêncio, solitário, chora,
Pois por qualquer amor que devora
Sente-se sempre incompreendido.

Ao viver na alma de cada dia
Coisas angustiantes eu noto,
Parece-me que ninguém confia
No tanto amor que louco lhe voto,
Já todos os sonhos que eu fazia
Padecem no meu coração roto.

Sou metáfora da leve pena
Ao sabor do vendaval deixado,
No peito tenho amor que envenena
O meu coração apaixonado.

Eu já não peço nada de mais,
Eu só desejo um ninho de paz.
Não sei palavras para dizer,
Para com o meu pesar me ajudar,
Não vejo que actos devo fazer,
Este sofrer só quero acabar.
 
QUEM ME DEVE AMOR

A VIDA É MAIS QUE O ONTEM

 
Nunca a vida foi tão-somente dura,
Sempre repleta de insignificância,
Sempre dentro do abismo da secura...
Pois, ela é feita apenas de inconstância.

Nunca a doença desejou a cura,
Nem o debaste da sua elevância;
Saber viver a ninguém dá tontura
Nem de abandonar este mundo a ânsia.

Nunca a vida ficou no ontem pregada,
O modernismo é que parece imundo,
A vivência mostrando estar desprezada.

E como nunca a morte acabou o mundo,
Pois sempre há vida nova a ser criada...
Força! Todos os abismos têm fundo.
 
A VIDA É MAIS QUE O ONTEM

NÃO SOU POETA (as minhas exéquias)

 
Eu versejo, versejo bem eu sei, conheço palavras e delas tenho prática. Eu não sou poeta, não me sinto poeta, porque se poesia é sentir o dizer, moi ici, sente palavras. Eu sinto palavras, tenho o ritmo, sou prosaíco, não poeta. Escrevo muito, também ritmo tenho, penso que sou, mas não sou poeta.
Eu sei que não sou poeta porque penso meus temas... já os senti, já, quando puto, apaixonado, mas hoje, não não sinto mais, penso e versejo. Não preciso de inspiração para escrever sobre nada, preciso do tema, encontro as palavras. Sou poeta, não, palavreador.
Amigos me diziam, em sinal de desafio, escreve sobre isto e eu escrevia, fala sobre aquilo, e lá eu ia, sem barreiras, improvisando.
Depois veio a rima, dominei a rima, conheço palavras porque lia o dicionário (estranha actividade, mas era prazerosa); comecei a escrever a rima usando e ainda estou nessa, mudarei não sei quando... sinto-me poeta porque escrevo com a rima; e não só.
Lendo os clássicos descobri o ritmo, os acentos e a métrica, e... imitei os clássicos. E senti-me poeta. Dominei o ritmo, dominei a métrica. Senti-me poeta, mas vi-me prisioneiro dessas armas que julgava que poeta me fariam.
Sou poeta, pensei, e muitos também o pensaram, increvi-me em clubes, fundei até um, juntei-me a outro, e até aqui estou. Sei que pareço, mas não sou poeta. Já escevi, e escrevo, porque adoro as palavras, se é isso a poesia, então sou poeta, mas se é sentir a poesia, poeta não sou.
E mais... conheço os artifícios e finjo-me poeta digo banalidades trocando da palavra a ordem, em vez de dizer: não sou poeta, digo: poeta sou não, e logo me dizen: tu és poeta.
Sou poeta, não, não sou, sou o que diz o Pessoa: um artífice de palavras. Sou escritor, gosto de palavras, por muito ter lido conheço estilos, e por muito ter escrito julgo ter criado estilos: para a poesia, para a prosa, para queixumes e confrontos sofísticos. Mas poeta, confesso, eu não sou.
 
NÃO SOU POETA  (as minhas exéquias)

QUEM É A POESIA?

 
A poesia é a face da mulher,
Linda, sumptuosa, beleza rara.
A poesia é a própria mulher,
Às vezes, tão coquete e colorida,
Provocante, ousada e de porte altiva;
Arranja-se para se fazer notar;
Nos actos seus finge-se modesta
Mas objectiva sempre a evidência;
Maquilha-se, mais luzindo a beleza;
O natural artificializa
Para ser naturalmente bela
E uma mulher bonita parecer,
Com beldade, gostos e gesto únicos.

A poesia é a mulher africana:
Com o rebento às costas amarrado,
Sobre a cabeça levando um embrulho;
Muito pouco pano o corpo tapando;
Tronco nu a gritar esbelteza;
Os seios rijos a lamber o vento;
Cabelos curto e encarapinhados
Enormes sorriso fulgentes, brancos,
Salientado plo ébano da pele;
Pés descalços a calcar a terra;
Preocupada a cuidar dos meninos.

A poesia é a mulher europeia,
Rústica e um tanto barbitesca,
Com os cabelos no mar de vento soltos,
Ondeando na eólica maré;
Um sorriso os lábios a rasgar;
Na cintura, vestido atarracado;
Faces vermelhas, plenas de rubor,
Olhos coloridos, doces e belos;
Empenhada nos trabalhos caseiros.

A poesia é uma mulher moderna:
De vestidos curtos, tão apertados,
Evidenciando a forma do corpo,
Mostrando o muito do que se esconde;
Com saltos muito altos e finos;
Lábios avermelhados pelo batôn,
Olhos pintados, ar artificial.

Mas essa nossa ilustre poesia
E, também, uma tão feia mulher,
Que, resumindo, por mais arranjar,
Mesmo esgotando as artes da beleza,
Nunca, mas nunca consegue ser bela.
 
QUEM É A POESIA?

SEM INSPIRAÇÃO

 
Sinto-me só, plácido, estou sentado,
Com uma caneta e papel na mão.
Rastreando qualquer inspiração,
Sem ter nada no coração focado.

Apagado, não me sinto inspirado,
Revisto os cantos do meu coração,
Não encontro nenhuma sensação
Que mereça em poesia ser cantado.

Mas com esperanças estou ainda
De conseguir poetemorfar um soneto,
Só este alento me faz escrever.

Agora, só devo cantar a finda
Do desenho deste último terceto
Para poder mais um soneto ter.
 
SEM INSPIRAÇÃO

GRITOS

 
Gritos, gritos desesperados,
Soltos nas indigentes hortas,
Segurando os ventres apertados
A pedir vida pelas portas.

Gritos feios do desespero
Que fazem ondular os céus,
Mistos de cansaço e exagero,
À miséria descobrem véus.

Gritos forjados de reclamo,
Sons a mendigar doçura,
Pois separar da árvore o ramo
É matá-lo pela secura

Gritos mansos de apreensão,
Tirados da garganta morta,
Pedindo um pouco de afeição
Que é o que apenas importa.

Gritos de fadiga e revoltas
Contra todas alheias glórias,
É tecer belas malhas soltas
Nas asas céleres do bóreas.
 
GRITOS

LOUCURA DOS SÃOS

 
Loucura! Dar a vida por amor!
Sacrificar os prazeres pela paixão!
Amar até ao extremo da exaustão!
Loucura! Mas loucura de valor!

Loucura! Inebriar-se pela dor,
Na alegria da contrita canção
Dum tão apaixonado coração!
Loucura! Mas loucura de sabor!

Tão doce é esta pujante loucura
Que em alegria o luto vira, veja,
E para a qual uma válida cura

Ninguém dito são no mundo deseja.
Loucura! A loucura dos embeiçados
Que os segura no amor apaixonados!
 
LOUCURA DOS SÃOS

Marinho de Pina



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Se não te comentei, possívelmente não te li, ou então não sei dizer nada sobre...