Poemas, frases e mensagens de boxer

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de boxer

A barreira invisível (tradução de Terrence Malick)

 
A barreira invisível (tradução de Terrence Malick)
 
Esta maldade imensa.
De onde terá vindo?
Como é que se imiscuiu no mundo?
De que semente,
de que raiz é que veio a crescer?
Quem é que está a fazer isto?
Quem é que nos está a matar?
A roubar-nos a vida e a luz.
A zombar de nós com a visão
daquilo que podíamos ter conhecido.
Será que a nossa ruína
beneficia a Terra?
Será que ajuda a erva a crescer
ou o Sol a brilhar?
Será que também tens em ti
esta escuridão?
Conseguiste atravessar esta noite?
 
A barreira invisível (tradução de Terrence Malick)

quem somos nós

 
quem somos nós,
que primeiro que o vento
despertámos o tapete da tua pele,
que deslizámos pelas tuas levadas
até um despojo de escravidão,
um ricto azul de quebranto,
o humor virgem das cavernas.

quem somos,
que os sopros digitais de uma nova inocência,
da mecha de sol que ondeava por estes lençóis,
nos vendiam os pedaços de risos
que não colhemos numa tarde de junho,
porque não pressentíamos
o serenar rouco das nossas vagas.

quem somos nós,
já não nos falam do tempo das cigarras
e as folhas tenras da poesia se queimaram,
ajoelha-se um fauno e traz para a penumbra
as gotas lunares de uma outra liberdade,
cai a poalha do crepúsculo
sobre as rosas, sobre os deuses do estio.
 
quem somos nós

quanto de ti pus no poema

 
quanto de ti pus no poema,
o teu rosto sem base pela manhã,
o teu dedo no mokambo e na boca,
as tuas mãos no meu peito,
lado a lado,
o teu cheiro no meu cheiro
ao saíres...
quanto de ti:
os dias de riso e os de chuva,
as portas entreabertas
e o teu perfil na sombra,
o sexo ritual e o brutal,
os domingos com a família
que te fazia chorar e rir
como eu nunca soube fazer.
quanto de ti lá pus,
nesse maldito poema,
as gargalhadas que te desfiguram,
o decote grotesco,
as tuas nas carnes dos outros,
o teu desprezo.
quanto de ti pus no poema,
esquecendo que o poema
não era sobre ti.
 
quanto de ti pus no poema

Stardust memories

 
se um dia
a memória destas estrelas
se apagar

não tenhas medo

o seu hálito
o nosso
perdura
 
Stardust memories

No dia em que morri

 
No dia em que morri,
havia sol
e gente que me amava
e o dever de ser feliz
e tudo aquilo que na vida
dá sentido
e proíbe de se pensar no fim.
No dia em que morri,
lá estava o mesmo caminho,
as mesmas rotinas,
os mesmos rostos,
sem surpresas nem sobressaltos.
No dia em que morri,
ouvia pela última vez
a tua voz
e deixava-a percorrer todo o corpo
como um vento quente
pela praia ao avançar da tarde.
Porque o dia em que morri
foi o dia em que o meu corpo
morreu no teu,
em que, sob o cansaço do tempo,
sob as vozes alteradas,
sob a solidão,
algo se quebrou
e voou pelos céus,
e foi então que fechei os olhos
e...
 
No dia em que morri

Porque o que é imenso é eterno

 
Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria na fronte se não secou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.
Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar.
O vento e o mar viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera; — e passaram, e sorriram-se.
E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulcro, as árvores derribadas no fundo dos vales, secas e carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio; — e passaram, e sorriram-se.
Sem dúvida, o homem é forte e a mais excelente obra da criação. Glória ao rei da natureza que tiritando geme!

Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmúrio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte?
Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele.
É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.

Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam, ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as ações dos homens.
Para ele há unicamente uma vida real — a íntima; unicamente uma linguagem inteligível — a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia — a da solidão.

O mundo atual nunca poderá entender plenamente o afeto que, vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrasta para as solidões marinhas do promontório, quando os outros homens nos povoados se apinham à roda do lar aceso e falam de mágoas infantis e dos contentamentos de um instante. Arrasta-me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.

O meu espírito atira-se para as trevas do passado. E o sopro rijo do norte afaga-me a fronte requeimada pela amargura, e a memória consola-me das dissoluções presentes com a aspiração suave do formoso e enérgico viver de outrora.
É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepúsculo, tu não és para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordação indecifrável; um consolo e ao mesmo tempo um martírio.
As minhas paixões não podiam morrer, porque eram imensas, e o que é imenso é eterno.

Este texto não é da minha autoria. Os excertos foram retirados de "Eurico, o Presbítero", de Alexandre Herculano.
 
Porque o que é imenso é eterno

TENHO UM SEGREDO

 
Tenho um segredo na palma da mão.
Dos prados e dos outeiros,
do estio e dos invernos,
dos naufrágios e das cadeias,
queimaduras, golpes, cicatrizes
desenharam estas linhas
que contornam agora
o corpo da tua memória,
prestes a sucumbir
ao silêncio e ao deserto.
 
TENHO UM SEGREDO

escafandro

 
infeção latente
nos olhos-destroços
sopro negligente
de um deus sobre os ossos
incandescentes

escafandro
afundamo-nos
dissolvemo-nos

coágulo solar
cicatriz materna,
eterna, polar
como uma lanterna
intermitente

escafandro
afundamo-nos
dissolvemo-nos
 
escafandro

manifesto

 
importa agora
bater a porta
contemplar o mar
e não regressar
importa agora
esticar a corda
levantar a voz
escalar o cume
acender lume após lume após lume
importa agora
escrever uma árvore
plantar um filho
parir um livro
partir as cartas
voltar a dar
importa agora
tocar a rebate
gritar ALARME
salvar e matar
importa agora
despir a roupa
correr a cortina
perder o medo
perder o tino
achar a dor
ser grito ser cor
ser de novo menino
 
manifesto

cosmologia

 
sou a criança travessa
que te suja a cara
com cinzas do magusto de ontem
ris-te e ouço a voz dos anjos
sou o adolescente tímido
com o braço sobre os teus ombros
dás-me a mão
e caminhamos sobre as estrelas
sou o amante ardente
e vou ferir-te como ninguém
antes já amanhã
sou esta pele enrugada
que te protege
que tu proteges
sou as trevas sou a luz
estás comigo
somos o eco do universo
brilhamos
sonhamos
vivemos
 
cosmologia

Os dias do abandono

 
Porque não há fogo, nem cinzel,
para contornar a serena angústia
das primeiras vagas de luz

Deixo que o teu corpo em fuga vá fechando
o ângulo cor de cinza em redor

Um relâmpago obsceno assoma
ao último céu de primavera

E eis que uma lâmina,
vagueando aos uivos
pelas esquinas do meu sangue,
arrasta-me aos golfos
para os rostos da minha infância

Contemplo os filhos na boca do canhão
e submeto-me à loucura,
última das esperanças

Porque não há oração ou esconjuro
para redimir os dias do abandono
 
Os dias do abandono

O poeta maldito

 
Num canto sombrio do quarto,
atrás de uma coluna de livros
e de vinis riscados,
vive o poeta maldito,
misantropo e proscrito,
demente e carrancudo,
com olheiras e tudo.
Às vezes levo-lhe o que sobrou
de sonhos, frustrações,
de motins religiosos,
de certos amores proibidos...
Então descerra as pálpebras
que esqueceram a luz do sol
e arrasta os despojos para a toca
onde conserva todo o dia
estes restos de pesadelo,
remoendo, resmungando...
Uma vez por semana
faço a limpeza às quimeras
gravadas no soalho, nas paredes,
e penteio a cabeleira revolta
que se recusa a deixar cortar,
mais por hábito
que por convicção.
Às vezes levo-o a passear
até ao fundo do jardim,
deixo-o brincar com os primeiros raios de lua
e ele uiva de júbilo
enquanto, com carinho e paciência,
o vou espancando uma vez por outra
quando desenterra este ou aquele passado.
Tem fugido algumas vezes:
demora-se pelas florestas
ou aventura-se pelo deserto
até que o corpo reclame abrigo
ou que outro poeta
mais sábio e inspirado
o escorrace com palavras obscenas
por causa do odor
a prosápia e a cobardia.
Meu pobre poeta,
um dia terei de te deixar
ou talvez tu a mim.
Quem sabe venhamos a descobrir,
num vitral partido,
no reflexo de um charco,
a imagem um do outro.
Que nos reserva esse instante?
Sobressalto, melancolia,
saudade, desilusão
ou simplesmente solidão?
 
O poeta maldito

não me vais responder, pois não?

 
não me vais responder, pois não?
 
vens para aqui com desculpas
de novo a tua língua
de novo a pele quente
não me queiras dizer
que os teus olhos vão ser diferentes
tens restos de mim nas mãos
e quem sabe até onde
somos capazes de ir

mais vale
os despojos dos dois
guardados
lá para os lados do passado
e desfaço-me
despeço-me à pressa
que hoje vou mudar de vida
vou, pois vou,
não me peças, já não decido
nada

quando olhar para trás
não me vais responder, pois não?
 
não me vais responder, pois não?

cisne negro

 
 
olhos de rubi,
deixa-me ir contigo
à cave do medo
e da glória.
na tua língua
áspera, viscosa, quente,
sinto a iminência da queda,
o encontro súbito da negação
do que até agora fui:
o desejo - sangue e fúria,
o caminho solitário,
a morte dos que me amam.
troco a minha alma
por um pas de deux:
vivamos
no assombro da plateia,
na respiração suspensa
antes do aplauso.
 
cisne negro

A essência do amor ("To the wonder")

 
 
O amor não é apenas um sentimento.
O amor é um dever.
Devem amar.
O amor é uma ordem.
E vocês dizem:
"Não mando nas minhas emoções".
"Elas vão e vêm como as nuvens."
Deverão amar
quer gostem, quer não.
Receiam que o vosso amor
tenha morrido?
Talvez esteja à espera
de ser transformado
em algo maior.

Desejamos viver
na segurança das leis.
Tememos escolher.
A única coisa que se pode
condenar inteiramente
é evitar a escolha.
Escolher é comprometermo-nos
e comprometermo-nos
é correr o risco.
É correr o risco do fracasso,
o risco do pecado,
o risco da traição.
O homem que comete um erro,
pode arrepender-se.
Mas o homem que hesita,
que nada faz,
que enterra o seu talento
na terra,
com ele, nada podemos fazer.

Acordo o amor.
A presença divina
que dorme em cada homem,
em cada mulher.
Conheçam-se uns aos outros
nesse amor,
que nunca muda.
Que é como uma nuvem no céu,
numa tarde...

(excerto do guião do filme "To the wonder", de Terrence Malick)
 
A essência do amor ("To the wonder")

quaresma indiana

 
se dioniso
se deita comigo
e o cânone da anatomia
se desfaz
disforme
experimentemos
nossos quarenta segundos
de harmonia
porque a redenção tem de
ser
mais do que
os pássaros brancos de yeats
quando muito
um pelicano
desajeitado
sob o ejacular da tempestade
 
quaresma indiana

encontro

 
despachei mais três passos
em direcção ao sol
é que não tenho mais tempo a perder
as asas de cera
já estão esquecidas
(perdoa-me pai)
voo vou até ao centro do labirinto
tenho pressa em chegar
onde estás? onde estás?
no centro do labirinto
uma arena
a minha sombra no solo
e sangue
o cheiro quente a luta
lascas de vazio
a penetrar lentamente a carne
as paredes tingidas de cruzes confundem-me
já não sei recuar
viro mais uma esquina
e sou trespassado
reconheço a dor abraço-te
e adormeço
 
encontro

21-6-09 2:45 AM

 
menos dentes e mais língua, miúda
empurra-me agarra-me
como se a queda fosse iminente
tiro o baton da carteira
inalo duas linhas
e estou dentro de um sacrário em chamas
a eternidade é já, sabias?
porque não vens confirmar comigo
agora mesmo
calcinar o tempo
entre os dedos nos meus caracóis
queima para nós um kamikaze
há para aí um dj vagabundo?
los campesinos toda a noite
toda a noite
mais um riff estridente
para as docmartens sujas de lama
do quintal nas traseiras da tua casa
"já vamos mamã!"
tenho as sardas húmidas
da tua boca de noviça
e estou acesa do pericárdio ao perineu
vem ser a minha pulseira
a minha nova prótese
o acorde de uma balada manhosa
que eu amo mas com vergonha
como a uma comichão
como a um pecado
vem comigo junta-te à alcateia
estamos encerradas numa jaula de acrílico
e quando a luz se apagar de novo
vou precisar de uma resposta
tu não?
 
21-6-09 2:45 AM

Querubins

 
Ele
sofria com a sua voz
breve, leve,
areia volátil e quente.
Ela
ria dos seus impulsos
incapazes,
feitos de medo e de soluços.
Alguém assistia
aos contornos transparentes
nas curvas das suas mãos.
 
Querubins

desculpas para uma despedida

 
sem que a noite saiba
que o tempo mais uma vez
partiu
e os lugares à mesa permanecem vazios,
perscruto a tela em viés,
o outro lado do espelho,
e a vida subitamente irrompe pela sala
estás a meu lado
e basta
 
desculpas para uma despedida