Poemas, frases e mensagens de (re)velata

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de (re)velata

«Le plus précieux de nous-mêmes est ce qui reste informulé.»

ANDRÉ GIDE, in Nouvelles Nourritures – livre II

MARCA D'ÁGUA

 
A lágrima de mágoa e prata
desviou-se da cascata
e desaguou no papel.
Soprou-lhe o Zéfiro suave
um ar tão fresco e tão grave
que lhe secou o fel.
Como parece ilesa a folha
aos estúrdios olhos do mundo!
Mas a lágrima de prata e mágoa
já não molha, mas é marca d’água
para sempre impressa no fundo.
 
MARCA D'ÁGUA

BUSCA

 
Rola o seixo baio
ao capricho das marés.
Olha de soslaio
a rocha altiva,
tão firme no seu trono de areia
e tão alheia
à sua pequenez.
Ah, como queria a modesta pedra
descobrir-se cativa
num lugar só seu!
Mas… pobre pigmeu!
Quanto mais o mar se agita,
mais o seixo se perde
mais turva a água fica.
 
BUSCA

ESTIGMA

 
O vento norte
será sempre vento norte.
Aborrece
se é forte,
não aquece
se é frio
(e um arrepio
é coisa que ninguém merece).
Se se faz quente,
é lume ardente
na pele,
e se por um momento
mui bem se comporta
se suaviza,
se veste de brisa,
pouco importa,
continua a ser vento.
 
ESTIGMA

Quisera descascar as palavras

 
Quisera descascar as palavras,
descaroçá-las,
sentir-lhes a polpa,
a acidez
(ou a doçura talvez),
espremer-lhes o sumo
num dizer vigoroso,
e no fim
ter a mestria suprema
de as pingar uma a uma
no ventre caudaloso
de um poema.
 
Quisera descascar as palavras

SENSIBILIDADE

 
A pele que sente
o subtil frescor
de um salpico do mar
num dia que agosto aquece,
também padece
da mansa dor
vinda de um grão de areia
que o vento arremesse.
Não há malícia,
mas a pele arroxeia
sem razão,
e desenha-se um arranhão
onde antes pousou uma carícia.
 
SENSIBILIDADE

ROSEIRA

 
É a mesma seiva quente
que nos percorre,
o mesmo lume,
o mesmo perfume
da rosa primeira.
Caídos os acúleos da distância,
vivemos a mesma ânsia
das raízes entrelaçadas,
transpiradas de amor.
Crescemos roseira,
e há mais uma flor
naquilo que somos.
 
ROSEIRA

Não me ofereças flores

 
Não me ofereças flores
de estufa,
lindas, perfeitas e iguais,
ufanamente processionais,
exigidas à terra
e que a terra dá
sem oferecer.
Leva-me a ver
as flores do campo:
toscas, de caules entortados,
são beijos p’la terra lançados
em borbotões de cor.
E como viceja
o chão tingido!
O amor que merece
é aquele que se oferece
sem ser pedido.
 
Não me ofereças flores

MURALHA

 
Com seu olhar de granito
fito
na cidade estendida,
é sem farsa
que a abraça,
destemida.

Fortaleza de amor,
é por querer ser guarida
que almeja ser maior.

De si iludida,
parece que esquece
como medra,
como dói
a erosão que corrói
a sua primeira pedra.
 
MURALHA

FRUTO

 
Agora,
que já se passaram muitas luas,
que as minhas raízes são as tuas,
que meus ramos terminam em ti,
sei enfim que é hora
de dar de mim novamente
e recolher nova semente
nas mãos onde flori.
 
FRUTO

CÍRCULO

 
Nas páginas da agenda
o compasso rodopia,
traçando no dia de hoje
as voltas do outro dia.
Fiel ao seu vil ofício,
rodando, a linha do tempo
é circunferência ferina,
renovado suplício.

Não é rotina,
é vício.
 
CÍRCULO

LEME

 
As mãos tisnadas
perseveram.
Gretadas
por vendavais passados,
ainda a laceram
o sal, o sol
e os ecos mesquinhos,
aziagos,
do porto seguro
abandonado.

Mas vão.
Calam o turbilhão
da dor que as feriu
e miram o azul futuro,
refrigério desejado,
rumo a essoutro mar
que as descobriu.
 
LEME

IN SOLITUDINE

 
Sim, o dia virá,
luminoso,
rasgando o luto da noite.
Mas não tem hora marcada
esse romper da aurora,
e por agora
paira a indecisão
da madrugada.
Sim, virá o dia,
radioso,
aquecer a carne fria
da minha mão.
Mas esperar o que é certo,
mesmo que esteja perto,
também se chama solidão.
 
IN SOLITUDINE

FACES DA LUA

 
Lá fora
a lua oferece
a cidade recortada,
estampada em paredes
de negro algodão,
e na confusão
das sombras paradas,
num marasmo que aborrece,
logo adormece
e se derrama no mar.

Cá dentro
p’la janela entreaberta
a lua oferecida
rebola, desperta,
no branco algodão
dos lençóis que se inflamam,
e ondula, aturdida,
na confusão dos corpos
que, fluentes,
se derramam.
 
FACES DA LUA

Sangra o silêncio

 
Sangra o silêncio,
ferido
pelas palavras apressadas,
roubadas à noite,

perdido
no labirinto crescente
das vozes surdas, abafadas,

diluído
na saudade urgente
de outras madrugadas.
 
Sangra o silêncio

NEVOEIRO

 
Brilha nas pedras da rua
o teu silêncio
em gotas de nevoeiro.
Vai caindo cerrado,
gélido e pesado,
a remoer seu triste fado
agoureiro.
Há a noite e o nada.
Chove o silêncio.
Choram as pedras
da calçada.
 
NEVOEIRO

DO LADO DE DENTRO DA CHUVA

 
Deixa-me estar
do lado de dentro da chuva,
onde as bátegas são refrigério
e não guardam mistério
os meus olhos,
pintados de arrebol.
Semicerrados,
são vidros embaciados,
de si mesmos encharcados,
por trazerem dentro a chuva,
cansados de mendigar o sol.
 
DO LADO DE DENTRO DA CHUVA

CONFIANÇA

 
No teu peito
tempo quebrado
sou rosa desarmada
de espinhos despida
sou flor esquecida
dos segredos das folhas
e quando me olhas
(afeição desmedida!)
sou corola aberta
de mim liberta
em ti adormecida.
 
CONFIANÇA

MUTANTE

 
O que se perde
também se transforma.
É depósito azedo e ressequido
no fundo do copo partido
tão cheio daquilo que foi
e não torna.
 
MUTANTE

COÁGULO

 
A palavra desliza
espessa e lenta
na veia da mão.
Engrossa e aumenta
e sedimenta
em silente ebulição.
Sem um verso que a liberte,
tenta, porém, não avança,
mesmo inerte não descansa,
e só sai quando rebenta.
 
COÁGULO

SEM TEMPO

 
porque a hora que passa
nunca chega
e o relógio se nega
a ter outro sentido,
porque as coisas que se fazem
nos desfazem
em subtil trapaça
sem o termos querido,
é tempo
de chegar a hora
(a de outrora)
do tempo esquecido,
aquela em que vivemos
o agora,
instantes supremos
em que nos fizemos
no dia amanhecido.
 
SEM TEMPO