Poemas, frases e mensagens de AlvaroGiesta

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AlvaroGiesta

Poemas assinados, em projectos diferentes, com o nome de baptismo do autor e com o pseudónimo Alvaro Giesta.

Eu, pecador, me confesso

 
Já nem sequer sei o que sou.
Nem sequer sei se quero ser alguma coisa
diferente daquilo que sou.
À parte de nem saber sequer se sou
talvez nem queira ser absolutamente nada.
Prefiro nada ser
e ficar preso em mim nos sonhos
que sonho e que invento.

Passeio pelas calçadas da vida que espreito
sem ver
das janelas do meu sonho feito de quimeras.
No meu quarto, escuro, a que apaguei a luz
que outrora me iluminava
traço linhas indefinidas no espaço da noite
e procuro unir os seus pontos dispersos
unicamente num ponto comum.

Procuro nos mistérios da noite que se cruzam
lá fora, silenciosamente se cruzam
com o bulício das ruas movimentadas,
o real inacessível, eternamente desconhecido.
Misturam-se as coisas da vida que gritam,
idilicamente gritam,
buscando mistérios onde não há mistérios nenhuns.
E o Destino corrói estas coisas da vida
e de nada
e conduz a coisa nenhuma.
Fico vencido.

Vencem-me os ruídos mudos neste quarto
apagado…
e também as linhas imprecisas e indefinidas
que imagino e idealizo
pelas paredes sombrias deste quarto,
onde nem sequer as osgas se aventuram
em lúbricas corridas.

Dentro da minha cabeça sacode-se
o vácuo
e a minha cabeça não pensa senão em nada
e os nervos ferventes à flor da pele
destroem-me a razão por nada já saber pensar.
Esqueço-me.
Estou dividido entre o que sou e não sou
e os ossos do corpo que estalam e rangem dor,
negam-se a ser.

Dentro da minha cabeça que estala de dor
instala-se o esquecimento.
De tudo me esqueço já!
Da sensação que sonho mas não sonho
porque estou acordado
se bem que sonhar também é estar acordado.
Já nem sei se penso alguma coisa que valha a pena pensar.

Estou dividido por fora e por dentro
entre o que penso que penso
e aquilo que já não sei pensar.
Mil sonhos de génios que não fui mas quis ser
estalam-me e abrem ao meio mil cérebros
que tenho em mim,
já podres e inertes de tanto pensar.

"Não sou nada. Nunca fui nada. Jamais serei nada
e nada quero ser."
Que sei eu de mim? Nada, absolutamente nada.
E que sabem os outros? Ainda menos que eu
embora muitos pensem que sabem de mim
aquilo que nem sequer eu sei.

Sei que nos manicómios da vida há malucos
muito menos doidos que eu. Doidos que nunca sonham
e são!
E eu nada sou e passo a vida a sonhar.
Mas eu não sou maluco. Serei lunático, talvez…
um lunático sem certezas
nem nenhuma certeza da vida,
porque sonhar coisas lúcidas não é saudável
para um lunático sonhador como eu.
É que o mundo não é dos que sonham
mas dos que nascem para o conquistar
mesmo não sabendo sonhar.

Vou sair pela noite calada depois de acabar este longo
poema a que me propus, e sonhar com tudo
menos em sonhar com ser alguma coisa
diferente daquilo que sou,
ou conquistar o mundo e ser.
Sonhar mistérios e sonhos irrealizáveis. Sonhar em nada
à luz dos fluorescentes néons que incomodam
esta minha forma meio louca de sonhar.

Atravesso a luz oblíqua dos faróis acesos
que cortam o negrume das ruas sórdidas e escuras,
e esventro a podridão da noite
e misturo-me com ela. Para pensar, prefiro
a luz difusa da noite à luz real e ofuscante do dia
e prefiro o ruído surdo dos carros
na noite,
na cidade atropelada por vultos esguios
que dobram as esquinas das ruas que fedem
a fezes e urina das prostitutas e chulos.

Há ruas escondidas e sórdidas, aninhadas e estranguladas
aos pés de prédios velhos quase despedaçados
e feitos em nada. Estas ruas nunca verão a luz do sol
nem ouvirão a voz da gente diferente
da que usualmente aí passa.
Também elas, essas ruas, sonham sonhos diferentes
daquilo que são e não querem ser.
E há alcovas bafientas e húmidas ao cimo
de cada lanço de escadas velhas, podres e esburacadas,
que nunca se atreveram a ter sonhos diferentes.
Escadas que rangem a cada passada
trémula, hesitante,
dos noctívagos vadios e putas de rua que as frequentam.

É à noite que o mundo começa a nascer
e eu vou por aí! Perdido e só, vou por aí.
E sonho tudo e nada ao mesmo tempo.
À porta de cada palácio a mil chaves trancado
sonho um sonho diferente dos sonhos
de quem lá mora. Porque quem lá mora já não precisa
sonhar, pois tem tudo na vida.
Aspiro a ser o dono de cada um desses palácios
onde se sonham sonhos diferentes dos meus.
Aspiro a nada.
Porque o meu sonho não passa de coisa nenhuma.

Mas encanta-me sonhar assim.
Serei sempre o dono de nada, desses palácios
faustosos e velhas mansardas em ruínas
onde também se escondem os ratos da noite
ao romper de cada dia.
Nem sequer Deus se atreveu algum dia
a passar por aqui, pelos escombros destas ruas desertas!...
Deus? Mas eu não creio em Deus!
Às vezes penso que até nem creio em mim
e nem sequer em coisa nenhuma.

Só creio no sol que me aquece, e me abrasa
as ideias, de dia. Porque este vejo-o! E sinto-o!
Prefiro também a noite. Que eu sei que existe,
porque sei dos seus silêncios e segredos e angústias.
A noite com os seus dons de mistérios urdidos
sabe-se lá como e por quem, também é o Deus
em que eu acredito. E a chuva.
Também creio na chuva que me molha e me ensopa
a roupa de pobre que trago vestida
e que o tal Deus, de quem falam, não consegue mudar.
A chuva fria que me penetra até aos ossos
e mos faz doer. Creio no vento que sopra e que oiço
uivar, de raiva, uivar…
e me diz que a noite é gelada sem lume
que me possa aquecer.
E o tal Deus não se importa em me vir aquecer…
Do resto em pouco mais creio, porque todo o resto é nada!

Acordo deste sonho opaco e cinzento
e fica a amargura daquilo que nunca serei.
Mas que me importa ser outro diferente
daquele que sou?
Quantas vezes eu me imaginei o mendigo
encostado ao bordão
implorando uma esmola. Talvez noutra encarnação
tivesse sido o tal mendigo que a cada passo
se cruza comigo nas encruzilhadas da vida.
Talvez eu tenha existido antes de mim
e tivesse sido aquilo que sempre quis ser.
O tal mendigo.

Nem sei que quis ser. Também não quis ser poeta.
Nunca quis ser poeta! Porque ser-se poeta – dizem,
é ser-se um desgraçado.
Mas ser-se poeta não é desejar-se sê-lo
muito menos aprendê-lo nos livros.
Ser-se poeta é nascer-se, sendo-o!
Não nego que me corre nas veias o sangue da poesia
que nunca quis escrever. Porque nunca quis
que alguém soubesse que eu tinha escondido em mim
em qualquer sítio que nem eu conheço,
o dom de escrever.

A quem deixarei eu os meus versos? Ao Mundo!
E que o Mundo os leia e leia neles somente
aquilo que com as palavras eu quis dizer.
Que não procure neles o que neles não há
nem neles está dito,
mas somente aquilo que neles escrevi.
Nada, nos meus versos, se leia o contrário
do que neles deixo expresso. Não se inventem
nas entrelinhas em branco, que não escrevo, o que não há
porque nas entrelinhas eu nunca soube escrever.

_______
Publicado no Recanto das Letras em 22/10/2007
Código do texto: T704743
 
Eu, pecador, me confesso

Amo o vago, o Nada-Ser, o teu instante

 
Amo as pedras da calçada que teus passos
percorrem lentamente pela tardinha
amo a chuva, que te molha, miudinha,
amo o xaile em que aconchegas os teus braços.

Amo os sonhos que de noite me acalentam
até o vento que sussurra e não tem voz
amo a noite que me faz escrever de nós
amo os ciúmes que a toda a hora me atormentam.

Amo o vago, o Nada-Ser, o teu instante
o que hoje és, o que hás-de ser, com doida ardência
com loucura consigo amar a tua ausência.

Amo assim e só assim sofregamente
me satisfaço nesta doce penitência
de te amar até aos limites da demência.
 
Amo o vago, o Nada-Ser, o teu instante

Vácuo

 
Entre os nossos corpos unidos
existe o vácuo...
mas chego a pensar
que esse vácuo
não é a ausência de ar
quando nossas bocas se colam
ou nossa respiração ofegante
se torna una
e nossas moléculas de O2
se fundem.
Esse vácuo é!
É o vazio de nós
é a ausência de nós
é apenas a lembrança do prazer
numa noite já cansada.
É o vácuo que nos une
e nos separa.
Ele é tudo e nada!

_________
in Colagens
 
Vácuo

Poema 31. "é impossível bloquear a Luz"

 
Quando morrermos
entenderão, afinal, que em nós havia
vida:

Aqueles que nunca beijaram em algum dia
a margem do lago onde ficámos parados
e tolhidos;
Ou que nunca conheceram o dentro
dessa claríssima rua
onde, perdidos,
rumámos sem destino a qualquer sol
sem lua.

Aqueles que nunca descobriram os lábios
da terra que lhes deu o Ser,
nem a espuma branca sem mar
nem o sal nem a fome nem o frio
de sofrer;

Ou que nunca conheceram a Luz
mesmo quando a Luz negada
se nega
a iluminar a vontade e o querer,
persiste na sua teimosia
cega
e se refugia
num silêncio mudo de dizer
 
Poema 31. "é impossível bloquear a Luz"

Sempre há Sul dentro de nós

 
Às vezes dentro de nós faz Sul.
E tingimos a noite de luz
mesmo sabendo que em nós, a noite
tem uma escuridão mais negra que o breu.
Espreita-nos dentro da alma nessas ocasiões
a luz mais suave e cândida que esse Sul tem.
Mas teima sempre uma lágrima teimosa
em toldar de penumbra e sombra essa luz
que em nós esse Sul floresceu.

Por isso escrevo-te
mesmo sabendo de antemão que jamais
receberás esta prosa. Mais poética
que outra coisa qualquer, que os letrados
no seu mau génio costumam classificar.

Por isso escrevo-te
apesar de não saber quem tu és
nem se te vais dignar a abrir o sobrescrito
e leres-me.
Mas não me importo que nem me leias.
O que quero, apenas,
é que saibas que, apesar de todos os revezes
que a vida tem,
sempre há Sul dentro de nós.
Ou, pelo menos, sempre se faz Sul dentro de nós.
Uma vez por outra. Sul. Sol. Calor.
E calor também, pois claro (!),
porque não há sul sem sol e sem calor.
Ainda que mais das vezes o sul
também tenha fome e crianças estropiadas
e órfãos e mutilados de guerra,
que sendo do sul jamais saberão
o calor e luz que esse Sul em nós pode ter.

do Autor em "Vértices do Tempo"
 
Sempre há Sul dentro de nós

Ficaram apenas as memórias

 
Pressinto o mar à distância e os sulcos
da chuva ácida
queimam-me as veias
e estiolam-me os ossos. As imagens inacessíveis
da memória
quebram-se no segredo dos deuses

Pedaços delineados da presença dos mortos
esfarelam-se no ar
onde se acende uma única luz
rente à terra. É o sítio
onde se alimentam as almas errantes
alicerçadas no sal da desolação

Paredes meias habito com o sonho
que cresce de dentro para fora
como se fosse um álacre ou o fermento
que leveda a sêmea
e perco o medo de o sonhar

E a luz continua a entrar pelas frestas
das janelas de tábuas mal pregadas
algumas partidas, até
por onde o sonho se esvai
As imagens são os únicos sinais
da memória esquecida

Atravessam os corpos fulgentes
raios de luz. Últimos resíduos da memória
em fragmentos de noite
onde não há mais noite
nem catástrofes
nem solidão
nem lugares outros por descrever
nem sombras nem nada

Resta-me a perturbação de ter os dias
sem amanhecer
ou anoitecer
sem queixumes nem precárias moradas
amordaçadas
para o vaguear da escrita e o voo do coração

Subtis os fogos
e o Princípio que se gera no corpo
da mulher
Formas etéreas do seu ventre aos poucos
crescem em imemoriais auréolas
de fogo e ouro
no esplendor das geadas
e constelações

O doce caminhar o rumor dos beijos
e as tréguas mal resolvidas. As estrelas
secretas e o silêncio
depois da tempestade e a bonança
e as feridas por sarar. As tuas mãos de neve
recolhem as conchas e o rumor das águas
e o ciciar dos canaviais
Nasce mais uma moura encantada

Sóis oblíquos dos dias esquecidos
onde os íntimos desejos se confundem
com a paisagem
e a precariedade dos dias por viver

_______
in: onde os desejos fremem sedentos de ser
 
Ficaram apenas as memórias

12. (de memórias dos sentidos)

 
Quero ruas
largas avenidas e praças
com bancos duros onde me possa
sentar
Bancos de madeira rija
como a vida que me foi adversa
bancos de silêncio e sombra
para descansar

Quero a exactidão das coisas
que muito pouca gente
tem
Quero a bebedeira das palavras
sempre inteiras
com que dou vida aos versos
Quero amizades puras
e verdadeiras

Prefiro a noite mesmo que seja
negra como breu
mas dum negro puro e a pura água
que nasce na montanha
Quero um peito que sangre
de verdade e exactidão
tal como eu
Quero um peito que vibre tudo
tanto quanto eu

__________
de Fernando AAlmeida Reis
 
12. (de memórias dos sentidos)

que falta de sossego que me invade

 
Que falta de sossego que me invade
nestas horas tão vazias e compridas...
em meu peito há saudades doloridas
há a busca, do infinito, sem vontade.

Morre o dia neste grito de ansiedade
vem a noite em passadas desmedidas
nas vielas ouvem-se almas já perdidas
a carpir o seu Fado de saudade.

E é por isso, que eu desejo, passe o dia
e bem depressa venha a noite em agonia
para me perder, pelas sombras, como um louco.

Que estranha criatura vive em mim!...
Mais valera não ter princípio nem fim
e ter nascido, como a noite, ainda há pouco.

do Autor
 
que falta de sossego que me invade

são flores do teu jardim

 
- No dia em que a minha mãe morreu
dobraram os sinos do Céu!

Minha Mãe.
Como eu gostava de te ouvir dizer
“Bom dia”
logo pela manhã, para me acordares.
Dizeres-me ao ouvido
no murmúrio dum beijo
tão sentido
“acorda meu filho, olha a escola,
que o dia está a romper”.

Pousavas a tua mão no meu cabelo
revolto,
- como a vida que me é madrasta…-
aconchegavas-me o casaco ao pescoço
arrumavas-me os cadernos na sacola
- conhecia-los todos de cor
sabias o que diziam mesmo no teu analfabetismo
inconformado -
e aí íamos nós
ladeira acima até Olas
por essa longa encosta fora,
apertando na tua mão tão quente
a minha mão tão fria
a caminho da escola.

Hoje
não te vejo ao dobrar daquela esquina
onde ficavas, com o lenço que cobria os teus cabelos,
negros cabelos,
a dizer-me eternamente adeus.
Nunca mais te sentirei a afagar os meus
- tão rebeldes quanto eu! -
com os dedos dessa mão
tão belos.

Deixei de te ouvir dizer
ao anoitecer
“vai-te deitar
que amanhã também é dia…”
tu, que me ensinaste a benzer
e a dizer
“Pai-Nosso Avé-Maria”,
com as tuas palavras de amor
de fé, muita fé
e alegria.

Sei, minha Mãe,
a quem sempre conheci de fronte erguida
que tenho muito a aprender
da lição que me ficou
da tua vida!
 
são flores do teu jardim

O último sonho da noite

 
A noite habituou-se a mim
[…] uma vez acordou e disse deixa-me
dormir sozinha ao menos uma vez
na vida
não me apoquentes com os teus poemas
ensanguentados

A noite solitária de ninguém
também é minha
Hei-de doá-la em testamento a alguém
que saiba entender da noite
os seus segredos como eu

Noites breves noites longas noites de luar
noites negras como breu

Noites de orgias sequestros assaltos
noites de gritos e gemidos
noites mais feias e frias que a morte
sem luar nem horizontes
nem perdão

Noites à espera da força do esperma
da última erecção
 
O último sonho da noite

Poema 35. "é impossível bloquear a Luz"

 
ao poeta Sebastião Gama, morto em 14/Out/2000

Cinco da manhã.
O despertador do meu relógio de pulso
acorda-me da noite em que ainda
não dormi.

A torre do tempo.
A mesa quase redonda do café
ao fundo deste cais adormecido.
Um vagabundo de partida,
quando da noite amanhece o dia,
para o banco esquecido
nesse extremo do jardim.

Ali se estira, ali se esquiva, ali se acolhe
ali se esconde
ali foge de si…

Envergonha-se da Luz
que ao fundo da pupila desmaiada
lhe mostra as ruínas da vida.
O pêndulo do tempo naquela face envergonhada
e suja e encardida
dobra-lhe a sombra da esquina
onde se acolhe,
humedecida.
 
Poema 35. "é impossível bloquear a Luz"

desilusão

 
Não me vendo
jamais me venderei
nem mesmo dentro do caixão.
Haja o que houver!
Sei
que é nesta perdição
pecaminosa
que me vou perder.

Busquei na vida
a luz que nunca vi
e me prometia o eterno.
Nessa busca incessante
me perdi
e tive como resposta
o regresso
às sombras deste inferno.

__________
"entre a Terra e o Céu"
 
desilusão

nenúfar, MULHER, navio, poema

 
Ali, sozinho
no recanto daquele velho lago
de águas contaminadas e negras
dum jardim que já ninguém visita,
cresceu o nenúfar.
E desabrochou em flor…
uma flor
que contra toda a evidência
teima em edificar um molhe,
qual couraça,
que só ela sabe indispensável à vida.

Cada dia,
em silêncio,
apoderou-se dos olhares sequiosos
de uma ou outra criança que por ali passava
e o tentava roubar,
com mão trémula e hesitante,
à quietude do velho lago.

Cada noite,
em segredo,
contemplou o porte altivo daquele candeeiro
de luz mortiça,
também ele abandonado à esquina
dum jardim que já ninguém visita
onde, debaixo dele, montou residência fixa
um vagabundo errante
e esquecido da vida.

Cada noite,
cada dia,
em silêncio e em segredo
decorou o eco dos passos vazios
que deixavam poemas de dor e solidão escritos
nas pedras daquela calçada;
cada dia,
cada noite,
contemplava as pedras desse lago
e lia nelas signos impossíveis de traduzir
o outono da vida
que não tardaria a chegar.

Cada dia,
cada noite,
no movimento pendular das estações do ano
abria-se à sumptuosidade do tempo,
e da vida,
e perdia-se no exílio daquele lago
de águas sujas e negras;
e resistia ao tempo,
firme e erecto
na sua cor de vermelho vivo
cor do sangue,
cor da vida.

Como tu
que tantas vezes, e sempre, caminhas
erecta e firme
sem te dobrares ao tempo, se te é agreste,
sem te dobrares aos espinhos da vida
que se atravessam no teu caminho,
construindo a luz
quando o dia tem mais bruma,
semeando estrelas no mapa da vida
mesmo quando ela tem mais espinhos.
Como tu,
MULHER-NAVIO-POEMA.
 
nenúfar, MULHER, navio, poema

entre a sombra e a claridade

 
Estou cansado
e morto por parar, nesta subida…
Dura é a vida
onde tanto naufraguei
colado ao chão!
Fartei-me de percorrer as veredas
entre a sombra e a claridade
em busca da razão
e da verdade.

E que encontrei no fim da linha
do horizonte
onde este se funde com os Céus?
Falta de tudo! Vede:
Às vezes penso que até a falta de Deus
e da água fresca duma fonte
onde pudesse mitigar a falta disso tudo
e a minha sede.

____________
memórias dos sentidos (poema 38)
 
entre a sombra e a claridade

não tenho escola

 
não tenho escola… 
…muito menos sou letrado
semeio as palavras em qualquer lado
em guardanapos de papel
ou folha já lida de jornal.
É assim tal e qual
quando me assalta a inspiração
busco qualquer folha de papel
e qualquer banco
em escuro canto de jardim
me serve para escrever…
ausento-me de tudo até de mim!
Ali fico quedo e mudo
de olhos cerrados em profunda meditação
e os poemas começam a fluir
como a água da fonte…
do sol que se esconde em rubro horizonte
em meditativa oração
nascem mil ideias e as palavras vão nascer
e nelas se eternizam
as coisas do amor,
mas se há coisas que enfim se concretizam
há tantas outras que ficam por dizer.

____________
assinado por Fernando AAlmeida Reis
(Publicado na Antologia Escritores Brasileiros e Autores de Língua Portuguesa, 3ª Edição, Agosto 2006 – Editora Ricardo De Benedictis)
 
não tenho escola

25. (de memórias dos sentidos)

 
Vou
arrancar as flores ao vento
que me rouba
a pouco e pouco as pétalas caídas
que forram o tapete do meu chão

Vou
pintar de verde o roda-pé da vida
sem travessias complicadas
nem labirínticas saídas

__________
assinado por Fernando AAlmeida Reis
 
25. (de memórias dos sentidos)

Em cada canto existimos

 
No escuro da noite nos passos que percorrem
as suas veredas estreitas e sombrias
existimos
Existimos na luz que nos alumia ou na falta dela
em cada brilho de estrela
em fuga cadente

Nos rios que correm e nas pedras mudas e cegas
no seu grito ausente
na marcha e no uivo do vento
nas pálpebras do tempo que corre e passa
na sede arfante do mendigo que cai em desgraça
existimos

Existimos na voz que se ouve e não ouve
quando fica encravada no fundo da garganta
e não grita
Existimos no punho fechado da revolta
na esperança da mulher aflita que sofre as dores de parir
e grita e grita
e amamenta o filho que mais tarde a há-de trair

No copo de vinho que se bebe
na côdea dura do pão que se come – é duro mas come –
na frescura da fonte onde matamos a sede
existimos
Na amora silvestre onde mitigamos a fome
no sol da manhã e na brisa da tarde
nós existimos também

Existimos na fé que nos guia quando não perdemos a fé
e por sorte a vida até nos sorri
Existimos enquanto pudermos gritar
e até que nos bata à porta a existência da morte (!)
 
Em cada canto existimos

Inútil é pensar, porque eu existo sem isso

 
Dizem-me que o Homem que não pensa
é inútil.
E que pensar é existir.
E que, se o Homem pensa, existe.
E que, por si só o pensar, prova a todos
a sua Existência.
Então eu existo porque penso!

Mas as árvores do campo e as pedras da rua
e o eléctrico da cidade no seu chiar enervante
prolongado e constante,
mesmo não pensando, existem!
Logo, não é preciso pensar para se provar
a existência de algo.
Abaixo a filosofia que apregoa que só
o ser pensante existe.

O musgo da parede velha a cair
de madura e cansada
e o bolor que já tem séculos de vida
mesmo antes do seu aproveitamento medicinal
e que nunca pensou ser experiência
de laboratório e salvação de vidas,
também existe sem pensar.

O que existe, afinal,
é aquilo que vejo, sinto e apalpo
nos seus contornos – diariamente conheço! –
e não algo imaterial que me dizem que existe
mesmo sem o ver e sentir, só porque o penso.

Que a alma do Homem existe e o seu Criador
também… – dizem-me.
Porque acreditar que tudo o que há
para além da física, existe?
E porque necessito eu de provar
a minha existência
partindo da existência dum ser superior
que – dizem-me deu origem?
Ou porque, provando a minha existência
partindo do facto de que SOU
um ser pensante e, como tal, existo,
sou obrigado a aceitar a existência do tal Deus
que apregoam?

Sei que existo.
E algo em mim – seja alma ou não –
é fluxo e fluir dessa existência.

Mas se as pedras existem e as árvores e as águas
revoltadas do mar existem
mesmo não tendo alma nenhuma,
porque preciso eu de pensar para poder existir?
E porque afirmar que, se eu existo porque penso,
é porque um ente superior me deu a faculdade
de pensar para chegar à Sua e à minha existência?

Porquê esta metafísica toda para pensar
coisa nenhuma?!
Vejo metafísica suficiente nas pedras da rua
que piso
e nas águas do mar que me banham o corpo
mesmo sem pensar,
que não precisam de metafísica nenhuma
para existir. Porque tudo o que vejo
e apalpo e cheiro e sinto, existe sem pensar!

E tudo o mais, para além disto,
ainda que me chamem doido varrido
afigura-se-me ser igual a coisa nenhuma.

_____Pensando Alberto Caeiro_____

Publicado nos sites USINA DAS PALAVRAS e RECANTO DAS LETRAS
 
Inútil é pensar, porque eu existo sem isso

16. (de vértices do tempo)

 
Paira no ar o cheiro a terra molhada
fruto prometido dum ventre virgem
que desabrocha em flor.
Uma brisa morna com sabor a mel.
No horizonte da memória a vertigem
e na boca o gosto amargo do fel.

Queimam-se cigarros… esvai-se o tempo
a contra-tempo.
Esgotam-se as mortalhas, esmaga-se o que resta
dele na calçada. Abrem-se na sombra
mil navalhas e morre-se a granel.
Aspira-se pelo céu que tarda em vir
e chega-se a pensar que melhor que tudo isto
é o Nada.

________
escrito sob o pseudónimo Alvaro Giesta
 
16. (de vértices do tempo)

Poema 34. "é impossível bloquear a Luz"

 
Pasmam
os vidros da janela da alma
no movimento
lento
do partir.
Nada mais há para além do ir
do que o ficar no fundo do tempo
adormecido.

Levanta amarras o navio
e o frio
dos que ficam esquecidos
neste cais,
dói mais
que o gelo que entorpece os sentidos.
 
Poema 34. "é impossível bloquear a Luz"

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