Poemas, frases e mensagens de Siturcio

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Siturcio

Criação

 
Criação

Sol nascente serve o anjo de luz,
Que lumia os olhos da brisa fina!
Quando na inconstância celestina,
Somos pedra, barro, coroa e cruz.

Serpentes venenosas da escuridão,
cujos venenos indenes, revigoram,
da vida acre que nas selvas afloram,
O perdão dos remidos de perdão.

Selva de pedra! Céu de maldição...
Crieis a vida com placidez!
Mateis o ódio que em ti vês.

Sejeis ira, lamúria, rendenção!
Homem e deus, cândura e acridez,
criador, criatura, cria e criação!
 
Criação

O Canto

 
Quando de vosso vôo contente,
Admirava do céu a tristeza,
vislumbrei um balé de beleza,
Onde dançavas solitariamente.

Quietei-me, ausentando-me de mim!
Ouvi calado o vosso canto!
Cá me perdia em casto pranto,
ao ver tão majestoso querubim.

Deixar-me-ia morrer no enxergar,
pois de beleza o mundo há suprido,
(já que nenhum protesto fora ouvido)
só por estar no céu a bailar.

Dançaste por dias, e encantei-me!
Bebi das pávidas noites serenas!
Comi da terra as luas pequenas;
Dormir solitário, e mirrei-me.

Ao bramir do sol, deleitei-me,
Com a alvura do céu a brilhar;
Do pássaro o canto fiz copiar,
e, sem medo ao céu, entreguei-me.

Estando lá o pássaro fiz encontrar;
apaixonado por teu canto de prece,
raptei-lho para que comigo fizesse
da terra o mais sublimável par.

Afastei-lho de seu ninho alado;
Aprisionado, já não mais cantava;
enquanto minha pobre dor aumentava,
Chorava aos cantos desafinado.

Libertar-nos-ia no libertar;
Qual canto de glória ao céu,
que corre o horizonte infiel,
e sente, mas não pode escutar.

Fi-lo da terra o ser mais infeliz;
Já que nem de tristeza cantava;
não sorria, não comia, não piava!
tampouco haveria de ser joliz.

O lindo querubim as asas pendeu,
e com elas se foram o doce canto!
Das pétalas celestes ficou pranto
de uma sina de silêncio sandeu.

Quando o perecimento já abatia,
um sopro do céu veio a libertar,
e às almas muito enfermas curar,
do mal que há muito lhes curtia.

Da prisão o querubim se libertou;
Verteu-se no céu e pôs-se a cantar,
reanimou-se-lhe e dançou no luar
enquanto piava, como jamais piou!

Eu cá em terra pus-me a chorar,
duma alegria e tristeza do canto,
e calado vislumbrei, com espanto,
que só ali ele teria seu lar.

E ele, nas noites frias de solidão,
quando colhe o céu a tristeza,
canta alegremente à nobre realeza,
sua terna e lisonjeira realização.

Enquanto fico eu perdido em terra,
ouvindo calado a linda serenata
do pássaro à noite ingrata,
que solitária e muda se encerra.
 
O Canto

Solstício

 
Novo solstício,
De lume escarlate.
Beijo de vício.

Brilho em combate,
Glória de início,
Trevas se abate.
 
Solstício

Engano

 
Tenras flores do casto engano,
Que assolaram o bem que mo continha!
A vós não sabida é a ventura minha:
Se viver ditoso, se viver ufano.

Nos eflúvios que se me estranho,
verte um delírio de inconstância,
adonde me aproxima a distância,
do afastado bem-viver que acompanho.

Bem do meu viver é tolerância!
Que mal algum, que se me atente,
alcança o céu meu de inconstância!

E viver-se neste jardim latente,
é buscar no engano a pura ânsia
De no mal comum viver contente.
 
Engano

Parte I

 
Parte-se numa fração de parte,
Absorto num abismo incontrolável!
Voa para o infinito, é inevitável!
Reparte-se de tudo, tudo reparte.

Como o dia carece a noite escura
Para seu súbito preenchimento!
E os pássaros carecem o vento,
E risos vagos do dia, brandura.

A parte carece todo conjunto
Para que se dê como acabada.
É parte o esquife do defundo,

Que procura sua nova estada!
E tudo o mais nesse assunto...
É conjunto, parte ou é nada.
 
Parte I

SINA DE UM PECADOR

 
Sinto as penas da minha sorte
Instalarem-se no pensamento!
Não cuidam o meu tormento,
Auscultam a minha morte.

Desço do céu dos errantes.
E ocilo entre a terra e o sol,

Uma ilha aos inconstantes.
Me Contenho! Sou arrebol!

Penetro os pântanos da dor,
Enquanto o castigo vou sofrendo!
Cansei-me das lutas - Senhor -
Agora vou apenas vivendo
De água, pão, medo e pudor!
Oprimindo meus erros e pretendendo
Redenção no vosso Amor.
 
SINA DE UM PECADOR

Está tudo errado!

 
Não, não. Está tudo errado.
Tudo se perdendo nas areias.
Os canais fechando-se céu,
revelando-se estão as teias.

Está tudo mais que perdido,
e tudo mais-que-perfeito…
É tudo, então, resto parte
esquecido no mal desfeito.

Está tudo, tudo, tudo falido!
A ermida caida na solidão
do povo que vive de amor
imprestável e de adoração.

Está presente a chama viril,
o fogo-fátuo da impavidez;
A garra dos maus pecadores,
o silêncio do que nada fez.

Está criada a nova ordem,
a vida em sua nova imagem,
o laurear da vicissitudes,
o regozijar da vassalagem.

Está! Sim, está tudo perdido;
Já não existe instituição,
é tudo carência, desordem…
é tudo pendência, degradação.
 
Está tudo errado!

Relutância

 
Onde está a alma resplandecente?
O caminho sutil da brandura divina,
Que conjugou talento à nossa sina,
Fazendo-nos enfermos na mente?

Vagamos por dentre janelas,
Vislumbrando momentos de emoção,
Tristeza, alegria, dor e compaixão!
Criando vida com cores singelas...

Que é isso que chamamos inconstância?
Que espírito desolador é o nosso?
Quem é essa tristeza? Que distância?

Quem domina o pensamento vosso?
Não sei! Sou apenas ínfima relutância
Entre tudo o que pretendo e o que posso.
 
Relutância

Eu

 
Queres saber quem eu sou?
Eu sou um destemido trovão
ecoando na turva imensidão,
que ninguém viu, ninguém notou.

Sou a ira nascida da cinza;
O pó de vento, a ventania...
Aquele a qual ninguém via
deslizar no dia ranzinza.

Sou escravo do casto engano,
a terra em sua vasta camada;
Aquele que vê em todo plano;

E, apesar de aparentar vessada,
sou pântano no universo de pano;
Onde tudo é renda, e sou eu nada.
 
Eu

Um segundo

 
Quero cantar de amores a vida,
sorrir alegre o prado fecundo;
Andar por sobre terra, jacundo;
Beber lábios da sina esquecida.

Mover, entre os dedos, uns cabelos;
Entre os beijos os mil sabores,
nos lábios, esplendorosos amores.
No enlaçar das almas os zelos.

Prado de amores e de serenidade
ando por ti, por ti me circundo.
Sou tua terra, flores, vivacidade!

Viverei-me em ti o mais profundo,
Despojando-lhe por toda eternidade,
Ou apenas por um dia, um segundo.
 
Um segundo

Insanidade

 
Minhas palavras se esvaem quando escrevo,
Se perdem na aurora do pensamento mesto!
E quanto mais me perco, mais me atesto,
Que quanto menos possuo-lha, mais devo.

Se me atrevo - oh! irônia - em pensar
O quão doce é teu lábio, e minha saudade.
Me engano, pois é doce a tua lenidade
Que beija-me, sem ao menos mo beijar.

Tamanha - oh! tragédia - é a ingenuidade
Que quanto mais me atrevo, menos sinto!
E quanto mais quero menos tenho! Adversidade...

Vivo - sem ao menos viver - num labirinto!
Beijo-te, toco-te, pinto-te! Pura insanidade!
Pois só em sonho lhe beijo, ouço e pinto.
 
Insanidade

Ilusão

 
Ah! como amei-na no aguaceiro,
deixando ser - feliz e então -
cada gotícula na precipitação
para gozá-la só e por inteiro.

Ah! como era bom amá-la, senão
nas suas entranhas, seu cheiro.
Senti-la, num ardor verdadeiro,
deixar-se amar, a cada paixão.

Amei-na somente e desatento;
Qui-la como a luz ao lampião,
de tal modo, e a contento,

que vaguei-me, sem precaução,
e tive-na - por um momento -
em meu doce sonho de ilusão.
 
Ilusão