Poemas, frases e mensagens de Luis

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Luis

Questiona

 
quando quiserem que acredites
questiona

se te fecharem a porta
abre-a

e quando te disserem que não há uma estrela da manhã
acende-a
 
Questiona

Prisioneiros

 
despidos,
os lábios vestem-se de palavras.

a cada uma
os olhos fitam as portas que elas encerram.

e cada frase proferida é uma chave,
como se a saliva emergisse em fios de seda branca
até que o casulo, translúcido, se fecha.

e nós lá dentro!

prisioneiros do que dizemos!
 
Prisioneiros

Onde fica?

 
São assim,
os desejos que invadem os homens
quando na quietude do bem estar
se sentem impelidos a fazer.

O que os move?

Há quem diga que somos feitos para ser felizes e,
felizes, deixamo-nos estar.
Quietos,
tranquilos,
na esperança de que o estado de graça fique
para a eternidade.

Há quem diga que estamos aqui para festejar a felicidade.
Conseguindo-a, ficamos nela de pousio...
sem querer que ninguém nos cultive o corpo ou
abane a caixa dos pensamentos.

E o sentido do dever?
Onde fica?

Há quem diga que fazer por dever é fazer obrigado
e que a obrigação não é sinónimo de vontade.
Agimos e fazemos quando nos sentimos incomodados:

é antes disso que está a felicidade!
 
Onde fica?

Sabedoria

 
nas tuas mãos
o mundo

nas rugas que trazes
as sementeiras
e os arados que navegaste

na quietude
as pautas musicais nuas
das valsas caladas
que danças em silencio

ah!

escuta na multidão
a chuva que te corre no sangue

os sonhos que semeaste
 
Sabedoria

É simples...

 
é simples permanecer
na frágil amurada de um porto e na vigia de um barco
que parte sem nunca chegar

por isso
moras na orla de tudo o que os teus olhos não te mostram
e passeias sem querer saber das perfeições escondidas
 
É simples...

Todos os rios

 
sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia
confesso que não vi cada um dos grãos de areia
nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro

sentei-me ali

estava como sempre estou em todas as praias
mais no sal que na terra
mais na água que no sol
quando olhei para longe e vi na linha
da fronteira celeste do mar

como se estivessem perto de mim
todos os rios do mundo
 
Todos os rios

Intocado

 
existe
intocado pelos sentidos um mundo
latente

que permanece ao meu lado
quando o esqueço

que me guarda o silêncio
se canto

que me pede que o sonhe
sempre
 
Intocado

O tecto

 
são aves que te habitam

de asas abertas navegam-te por dentro
à bolina da tua pele

és o tecto do universo em que elas voam

pudessem elas ausentar-se
pudesses tú soltá-las
para além do tecto que és e dessa terra que te pertence
 
O tecto

Em segredo

 
nas tardes de primavera
com o sol morno e o céu rubro
eu corria para ti e sentava-me no degrau
à tua beira

encostava a cabeça ao teu peito
e tu sorrias e falavas-me
da imensa tristeza
da esperança dos desertos

dizias-me que não havia fogos despertos
que ardessem no peito mais do que os nossos
dizias-me que todos os mistérios eram só Um
e que nem toda chuva do céu
seria tão nossa como nós

e eu não falava nem dizia
ouvia tão só os sons escondidos em tudo
e em segredo construía cidades

com a tua voz
 
Em segredo

Como sempre

 
navego em terra
seguindo faróis de marear

desenho no chão da tua pele os caminhos
e abalo assim

perdido como sempre
 
Como sempre

Não quis aprender

 
foram tantas as coisas que me quiseram ensinar
mas que eu não quis aprender!

quiseram que acreditasse que o mundo era como era
só por ter sido como foi.
e eu sentado com as pernas curtas, que nem chegavam ao chão,
repetindo para mim que não queria saber.

e do quadro negro, de dedo em riste,
gritavam-me que ser alguém era ser como os outros
porque os outros eram como deveriam ser.

e eu a não querer saber daquela sabedoria!

e da cátedra explicavam-me como se fazia a partir de um ponto
uma circunferência por natureza redonda,
mais um quadrilátero que até podia não ser quadrado.

e eu a não querer saber daquela geometria das figuras!

de pernas curtas que nem chegavam ao chão
tudo para mim era enfado, travessuras, imaginação.
 
Não quis aprender

Estuário dos tempos

 
são inocentes os olhos que acordam
na fonte do princípio,
na origem das nascentes.

maculados os outros, que adormecem
na foz dos invernos.

no estuário dos tempos.
 
Estuário dos tempos

Setembro

 
Como eu preciso de ver os barcos encostados à muralha,
acabados de chegar, ou prestes a partir.
Quem sabe? Quem me diz?

Como eu preciso dos meus olhos na água,
apressados, com a pressa que as ondas têm...

Já devia ter ido até ao cais
a que chegam todos os barcos depois do verão.
Mas ainda não fui.

Eu aceito.
Aceito, mas não sei por que não param os relógios em agosto,
quando o mar está chão, o sol visível e a areia quente...
Quem sabe? Quem me diz?

Já estamos em setembro,
o mês em que as sombras crescem enquanto o lume se apaga.

E eu já devia ter guardado a nudez para vesti-la
para o ano que vem, quando for tempo para despir a roupa
e regressar.
 
Setembro

Admirável mistério

 
o que tem de admirável o mundo
não é tanto o que eu não sei do mundo
mas o que eu não sei de mim

o que faz dele este admirável mistério
não é tanto ele
mas eu

porque sem mim nada seria surpreendente
nem misterioso

porque os mistérios do mundo existem
tão só porque existo
e me surpreendo
 
Admirável mistério

O piano que ladra

 
I

sei de um surrealista que traz uma cerejeira ao ombro
e mora numa corda de roupa

na cerejeira todos os dias principiam frutos
que à noite regressam às flores

II

a mulher do surrealista toca um piano que ladra

ouvem-se matilhas de acordes
quando dá concertos em família

III

o casal tem dois filhos

o segundo nasceu antes do primeiro
e ladram os dois ao piano da mãe
 
O piano que ladra

Um novelo uma Rosa

 
era fina a linha que tracei
invisível aos mais desatentos

depois de fazê-la com muito cuidado
fiz dela a fronteira entre mim e o fado

fiz dela o traço entre o céu e a terra

a vida e a morte
o amor e o medo
a paz e a guerra

era um fio de seda uma teia fina
depois um novelo uma Rosa divina
 
Um novelo uma Rosa

Há cidades onde

 
sempre que a noite se cala
quando cresce o sol
e a lua desce

há cidades onde
os cães passeiam os donos
e correm do futuro para o passado
as águas que o tempo dá
 
Há cidades onde

Do nada

 
criar é fazer emergir do nada!

do escuro tirar a Luz.
do silêncio harmonia.
do inolente o aroma e do insípido o sabor.

é tirar da noite o dia e do carvão o lume.
do cravo o odor.
da tua pele o perfume.
 
Do nada

Eles saltam saltam

 
um a um e também aos pares
aos trios e quartetos
correm pelo fio que separa o meu sono da noite

um depois do outro conto todos
e cada um dos carneiros do rebanho

eles saltam saltam
às vezes riem
às vezes dançam
e caem de sono sempre antes de mim

também já contei camelos de uma e duas bossas
grãos de areia estrelas e histórias
mais todas as folhas verdes que se podem contar
e todos os peixes do mar

mas não há como os carneiros não
para cuidar das minhas insónias
de verão
 
Eles saltam saltam

A minha rua

 
A minha rua é de pedra muito bruta
paralelepípedos
paralelepípedos
paralelepípedos

A minha rua é a descer
mas quando chove a água não escorre
faz poças
faz poças
faz poças paralelepipédicas
nos intervalos dos paralelepípedos

A minha rua é geometricamente rectangular
Se fosse quadrada ou redonda
não seria uma rua mas talvez uma praça
E quando chovesse ao invés de
poças
poças
poças paralelepipédicas
eu na minha praça teria um lago
um lago
um lago provavelmente cubico
um lago provavelmente cilíndrico

A minha rua matematicamente é uma série... de buracos
religiosamente não anda nada católica
filosoficamente é uma mistura ecléctica... de fios eléctricos
politicamente é direita... mas desconfio que é vesga
enfim... é uma doida de uma rua
 
A minha rua