Poemas, frases e mensagens de António Aleixo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de António Aleixo

Quadras

 
Quadras
 
Sou humilde, sou modesto;
mas, entre gente ilustrada,
talvez me digam que não presto,
porque não presto p`ra nada.

Forçam-me mesmo velhote,
de vez em quando a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.

Por de Deus ter recebido
tantas provas de bondade,
já lhe tenho até pedido
a morte por caridade.

Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor mas não sou
a lama que muitos são.

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

António Aleixo, (Este livro que vos deixo)
 
Quadras

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
P`ra que tentastes subir
tão alto, mulher vaidosa?
quem sobe assim vai cair
na lama mais vergonhosa...

Meu amor, vê se te ajeitas
a usar meias modernas,
dessas meias que são feitas
da pele das próprias pernas.

De te ver fiquei repeso,
em vez de ganhar, perdi;
quis prender-te, fiquei preso,
e não sei se te prendi.

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

Vemos gente bem vestida,
no aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
tudo é miséria dourada.

António Aleixo ( Em... Este livro que vos deixo )
 
Quadras soltas

Que Feliz Destino o Meu

 
MOTE

«Que feliz destino o meu
Desde a hora em que te vi;
Julgo até que estou no céu
Quando estou ao pé de ti.»

GLOSAS

Se Deus te deu, com certeza,
Tanta luz, tanta pureza,
P'rò meu destino ser teu,
Deu-me tudo quanto eu queria
E nem tanto eu merecia...
Que feliz destino o meu!   

Às vezes até suponho
Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.

Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que 'stou no céu.

Que vejo através dum sonho
Um mundo onde não vivi.
Porque não vivi outrora
A vida que vivo agora
Desde a hora em que te vi.

Sofro enquanto não te veja
Ao meu lado na igreja,
Envolta num lindo véu.
Ver então que te pertenço,
Oh! Meu Deus, quando assim penso,
Julgo até que 'stou no céu.

É no teu olhar tão puro
Que vou lendo o meu futuro,
Pois o passado esqueci;
E fico recompensado
Da perda desse passado
Quando estou ao pé de ti.

António Aleixo in "Este Livro que Vos Deixo"
 
Que Feliz Destino o Meu

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

António Aleixo
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!

António Aleixo
 
Quadras soltas

Sei que pareço um ladrão

 
 
Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo que são
São aquilo que eu pareço

Sonhara eu, um dia ouvir no trinar de uma guitarra um mote meu

António Aleixo
 
 Sei que pareço um ladrão

Os Vendilhões do Templo

 
Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.

Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.

António Aleixo in "Este Livro que Vos Deixo"
 
Os Vendilhões do Templo

Quadrs soltas

 
Os que bons conselhos dão
ás vezes fazem-me rir
por ver que eles mesmos, são
incapazes de os seguir.

António Aleixo
 
Quadrs soltas

Quadras soltas

 
Vós podeis chamar-me louco,
Democrata, socialista,
E comunista também,
Que eu sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que isso tudo tem.
(apud MAGALHÃES, [s./d.], p. 33)

António Aleixo
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Após um dia tristonho,
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias.

António Aleixo
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
Para triunfar depressa
cala contigo o que vejas
finge que não te interessa
aquilo que mais desejas.

António Aleixo
 
Quadras soltas

A Torpe Sociedade onde Nasci

 
I

Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

II

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

III

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

IV

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

V

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo"
 
A Torpe Sociedade onde Nasci

Quadras soltas

 
O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!

António Aleixo

Basta um só sonho, basta uma só leitura para o sonho se concretizar
 
Quadras soltas

Não Dês Esmola a Santinhos

 
MOTE

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.

GLOSAS

Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.

Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão...
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.

Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?...
Arranjam voz comovente
Para jludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,
Dá antes aos pobrezinhos.

Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p'rà ajuda da cera»...
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.

António Aleixo in "Este Livro que Vos Deixo”
 
Não Dês Esmola a Santinhos

Onde Nasceu a Ciência e o Juízo?

 
MOTE

— Onde nasceu a ciência
— Onde nasceu o juízo
Calculo que ninguém tem
Tudo quanto lhe é preciso

GLOSAS

Onde nasceu o autor
Com forças p'ra trabalhar
E fazer a terra dar
As plantas de toda a cor
Onde nasceu tal valor
Seria uma força imensa
E há muita gente que pensa
Que o poder nos vem de Cristo
Mas antes de tudo isto
Onde nasceu a ciência

De onde nasceu o saber
Do homem, naturalmente.
Mas quem gerou tal vivente
Sem no mundo nada haver
Gostava de conhecer
Quem é que formou o piso
Que a todos nós é preciso
Até o mundo ter fim
Não há quem me diga a mim
Onde nasceu o juízo

Sei que há homens educados
Que tiveram muito estudo
Mas esses não sabem tudo
Também vivem enganados
Depois dos dias contados
Morrem quando a morte vem
Há muito quem se entretém
A ler um bom dicionário
Mas tudo o que é necessário
Calculo que ninguém tem

Ao primeiro homem sabido
Quem foi que lhe deu lições
P'ra ter habilitações
E ser assim instruído
Quem não estiver convencido
Concorde com este aviso
— Eu nunca desvalorizo
Aquel' que saber não tem
Porque não nasceu ninguém
Com tudo quanto é preciso

António Aleixo in "Este Livro que Vos Deixo"
 
Onde Nasceu a Ciência e o Juízo?

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.

António Aleixo
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
Não sou esperto nem bruto
Nem bem nem mal educado;
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

António Aleixo
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.

Quando não tenhas à mão
Outro livro mais distinto,
Lê esses versos que são
Filhos das mágoas que sinto.

Julgam-me mui sabedor;
E é tão grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!

Compreendo que envelheci
E que já daqui não passo,
Como não passam daqui
As pobres quadras que faço!

António Aleixo 1983, p. 21)
 
Quadras soltas

Quadras soltas

 
Quadras soltas
 
Vinho que vai para vinagre
não retrocede o caminho;
só por obra de milagre,
pode de novo ser vinho.

António Aleixo
 
Quadras soltas

Actualidade viva de um poeta morto:

 
Actualidade viva de um poeta morto:
 
Prefacio da terceira edição, corrigida, de, Este livro que vos deixo:

Actualidade viva de um poeta morto:

A actualidade da mensagem deste poeta singular evidencia-se e toma relevo crescente à medida que o tempo passa.
Desaparecido em 1949, aos cinquenta anos, não entraram os seus versos naquela zona de penumbra, mais ou menos silenciosa, que costuma suceder à obra dos escritores que, em vida, tiveram a sua aura de mais ou menos justificada popularidade. Com António Aleixo, considerado poeta menor, dado que, por carência de estudos regulares, pouco menos era do que meio-analfabeto, verificou-se este fenómeno insólito: duas edições de « Este livro que vos deixo», lançadas em 1969 e 1970, por diligencias de um filho de poeta, mantiveram, durante semanas seguidas, o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos do país. A razão desta singularidade está em que o conteúdo das quadras e dos esboços de teatro, contidos no volume, correspondia a preocupações morais e aspirações sociais que, já por esse tempo, animavam as consciências de grande numero de portugueses. E, sob a forma lapidarmente sintética de muitas das quadras do singular poeta algarvio, explodia, ou sorria, a expressão contundente ou contestatária de velados ou explícitos protestos, humanos e justos, perante uma sociedade fortemente policiada e dificilmente vulnerável por outras formas directas de critica ou ataque frontal. O protesto adiado de um poeta morto e, ainda para mais, elaborado por um homem do povo, que, em vida, não fora considerado socialmente perigoso, pôde assim corresponder a anseios vivos de gente viva. Daí o êxito excepcional. Para ele contribuíram ainda transcrições frequentes em jornais e revistas, cantores e declamadores e até, passadas pelas malhas da vigilância, referencias e apresentações de textos pela rádio e na televisão. Por outro lado, grupos de amadores iam representando, conforme podiam, e com os indispensáveis disfarces de defesa, os seus ensaios de teatro de tipo popular vicentino.
Assim se esgotaram os exemplares das duas edições deste volume, e se justifica que se lance esta nova edição.
A actualidade da mensagem de António Aleixo torna-se mais evidente nas novas condições da vida portuguesa. O poeta está, afinal, mais vivo, hoje, do que enquant andou por este mundo.
Cremos que lhe deve ser reservado lugar cimeiro de participante de formação do Portugal novo que todos os portugueses conscientes desejam socialmente menos injusto do que aquele em que o poeta viveu e penou.

Fevereiro de 1975
Joaquim Magalhães

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Obras completas de António Aleixo

QUANDO COMEÇO A CANTAR… – 1ª Edição, Faro, 1943; 2ª edição, Coimbra, 1948; 3ª edição, Lisboa, 1960

INTENCIONAIS – 1ª EDIÇÃO, Faro, 1945; 2ª edição, Lisboa, 1960

AUTO DA VIDA E DA MORTE (1 acto) – 1ª edição, Faro, 1948; 2ª edição, Faro, 1968

AUTO DO CURANDEIRO (1 acto) – 1ª edição, Faro, 1949; 2ª edição, Faro, 1964

ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO… Volume I, 18ª EDIÇÃO, Lisboa, 2003

ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO… Inéditos – Volume II , 13ª edição, Lisboa, 2003

INÉDITOS – 1ª edição, Loulé, 1978; 2º edição, Loulé, 1979
 
Actualidade viva de um poeta morto:

António Fernandes Aleixo
( 18/02/1899 — 16/11/1949)
Autores Clássicos no Luso-Poemas