Poemas, frases e mensagens de arfemo

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de arfemo

QUANDO EU ME FOR EMBORA

 
QUANDO EU ME FOR EMBORA

Quando eu me for embora, levarei comigo

a madrugada e de meu pai, suas mãos rudes,

com que moldava, a golpes incisivos,um tronco
frágil

insubmisso, sempre em sentido vertical.

De minha mãe, não esqueço, a ternura que mandava, disfarçada,

por entre o pão suado e a manteiga. Assim cresci.

Quando eu me for embora, também não esquecerei, os luares

que percorri, envolto em ti, sem precisar de

leito. Assim cresci.

Mais tarde, pouco mais, hei-de lembrar-me daquilo que não fiz.

Mas quando eu me for embora, é porque morri, cá dentro,

por não saber cuidar de ti, amor-perfeito.

arfemo
 
QUANDO EU ME FOR EMBORA

POEMA PARA... (AO ESTILO DE...)

 
POEMA PARA (ao estilo de…)

Peguei na roupa de Domingo,
afivelei no rosto uma rosa vermelha
e parti, como quem já viveu.
No caminho, aliviado das estrelas,
guardei uma lágrima de reserva,
sem saber se tu aparecerias pronta
para me receber.
Foi assim que tudo aconteceu
eu acordei tendo a meu lado
o travesseiro húmido e não tinha chovido
naquele dia.

arfemo

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POEMA PARA... (AO ESTILO DE...)

A AMIZADE

 
A AMIZADE...

transporta-se no bojo

ou na raiz,

e, quando exígua,

está ao alcance

de uma mão,

pura,

é sua irmã,

e mesmo inerte

aperta-nos,

deixando uma marca,

húmida,

de ternura.

Arfemo

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A AMIZADE

OLHARES...(Haiti)

 
OLHARES...(Haiti)

olhei para ti,
como um escultor
(que não precisa
de matéria).
basta-me a dor,
para dar corpo
às formas
na memória

arfemo
 
OLHARES...(Haiti)

ÁGUA-FORTE

 
ÁGUA-FORTE

Pintei o seu rosto

com a tinta que restava,

diluída,

quase se não via

a minha obra.

mas ainda brilham

os olhos que gravara,

a água-forte, na memória,

e o espelho me devolve,

a toda a hora,

a sua ausência.

arfemo

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ÁGUA-FORTE

NAS LEVADAS

 
NAS LEVADAS

i]demiurga, a água

transborda

por sobre o próprio

corpo,

submergindo os dedos

que buscam

alento,

à medida que a torrente

se lhes escapa.


sorrateira, num ímpeto

de cantata,

penetra fundo,

como uma adaga

em peito aberto,

pela dor.

nas levadas,

os pássaros já não cantam

nas suas margens,

apenas ressoam

ecos, pouco audíveis,

da tragédia.

Arfemo

*As “levadas” são cursos de água à volta das montanhas, construídos pelo Homem nos primórdios da colonização na Madeira, para levar água aos terrenos agrícolas inacessíveis. Eram uma das atracções da Ilha.

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NAS LEVADAS

PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?

 
Quando no duro empedrado de basalto inventávamos
campos da bola onde disputávamos campeonatos intensos e eu aparecia todo esfolado mas não doía, tu ralhavas mas eu era feliz,

Quando a menina Júlia, que regressava de táxi todas as manhãs, ao sair do carro deixava entrever um pouco mais da branca pele por sob o rodado da saia, eu também não te dizia que estava lá à sua espera,

Da nossa vizinha, do andar de baixo, essa sabias, que me oferecia livros de que fiquei amigo para toda a vida: O Sandokan, do Salgari, mas também o Júlio Dinis e Os meus Amores do Trindade Coelho, e tantos outros, de que jamais me desfiz,

Também te não falei da minha primeira namorada, que acompanhava à saída da escola todas as tardes, subindo as centenas de degraus, quase até sua casa, de mão dada, e de uma flor que, por timidez, nunca lhe dei,

Quando decidiste – eu crescera – mudar para um bairro novo de prédios grandes (mesmo que para isso labutasses noite e dia), onde se não podia jogar na rua e eu não conhecia ninguém, também não te disse como tanto gostava do bairro que acabara de deixar…

Pai, para que querias que eu fosse ainda mais feliz?

arfemo

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PAI, PARA QUE QUERIAS QUE EU FOSSE AINDA MAIS FELIZ?

QUANDO EU ME FOR EMBORA

 
QUANDO EU ME FOR EMBORA

Quando eu me for embora, levarei comigo

a madrugada e de meu pai, suas mãos rudes,

com que moldava, a golpes incisivos,um tronco
frágil

insubmisso, sempre em sentido vertical.

De minha mãe, não esqueço, a ternura que mandava, disfarçada,

por entre o pão suado e a manteiga. Assim cresci.

Quando eu me for embora, também não esquecerei, os luares

que percorri, envolto em ti, sem precisar de

leito. Assim cresci.

Mais tarde, pouco mais, hei-de lembrar-me daquilo que não fiz.

Mas quando eu me for embora, é porque morri, cá dentro,

por não saber cuidar de ti, amor-perfeito.

arfemo
(rep)
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QUANDO EU ME FOR EMBORA

FRUTOS PROMETIDOS

 
FRUTOS PROMETIDOS

I

De súbito recolho as velas

Ao abrigo do porto, da memória,

Enquanto as águas cintilam prateadas,

Reflectindo as faces desejadas.

II

Seguros são os frutos prometidos,

Que colherás de tanto semeares,

Entre as searas abertas pelos dedos,

Que o vento ondulará quando quiseres.

arfemo
 
FRUTOS PROMETIDOS

MEIA JORNADA

 
MEIA JORNADA

Quando a viagem é meia, já tornada,

Impelida pelo vento ou ressentida

Da calmaria ou sede de viver,

Por vezes reaparece a maresia

E tudo pode ainda acontecer:

O perfume agreste, a malvasia,

Ou a loucura de ver nascer o dia

De quem passa o dia sem o ver.

E onde está o Homem está o sonho,

Nem que seja um filho por nascer.

arfemo

(Rep.)
 
MEIA JORNADA

TEU CORPO AVE CINZENTA

 
teu corpo ave cinzenta simulou um voo

ao encontro dos deuses, mundo dos ses,

em movimento pendular: ser e não ser,

cintilando ao retornar pela última vez

o corpo brotou manancial de água fresca

sobre suave tapete de plátanos em flor

sem cuidar de saber se ao partir voltaria:

eclipse ou expressão circular da geometria

teu corpo ave cinzenta aninhou uma última vez

no meu colo,e ali ficou, delicada,serena forma,


depois despertou tão naturalmente naquele dia,

que deixou a ilusão de ser eterno – não seria…?

arfemo
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TEU CORPO AVE CINZENTA

CABO DA ESPERANÇA

 
CABO DA ESPERANÇA

Quanto custou dobrar o Cabo,

Assegurar os mantimentos

E o ânimo dos Homens?

País de marinheiros, de aventuras,

Ninguém pergunta quanto custa

Dobrar o cabo da ternura.

Dobrar o Cabo, sem perder a esperança,

E ao sabor do vento navegar,

Indiferente à tempestade ou à bonança,

Ser uma ilha entre o azul e o mar.

arfemo

(reed.)
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CABO DA ESPERANÇA

SOFIA

 
SOFIA

1.
À medida que o tempo humedecia,

crescia entre a areia do pecado,

cálida na substância e na idade.

Fez-se mulher: sumo de romã

em taça fria.

2.
Sacudiu graciosamente os ombros,

abotoou, lasciva, o último botão,

pegou na sacola, cingiu o corpete,

e partiu naquele dia, como nos demais,

mas jamais apareceria,

Sofia.

arfemo

rep.

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SOFIA

TEMPO DE PARTIDA

 
TEMPO DE PARTIDA

A terra é fresca, entumecida,
O fruto escasseia ou está ausente,
Aproxima-se o tempo de partida.

Que nada impeça
O traçado oblíquo da razão,
Nem o riso da criança,
Nem a ternura de irmão.

Percorrida em traços largos,
Ao sabor do vento forte,
Por entre o Sul e o Norte,
Da minha imaginação.

Nela encontro o que procuro.

Arfemo
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TEMPO DE PARTIDA

AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*

 
Órfão milenar, a profissão a herdara dos pais,

Nela se mantinha, sem orgulho, nem credo,

Apregoando, baixinho, a exígua mercadoria.

E, assim, lá ia vendendo o seu ódio,

Quase a medo…

arfemo

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*Título de um filme escrito e realizado por Bahman Ghobad, ganhou o Prémio da Paz no Festival de Berlim, e o Golfinho de Ouro no Festróia, sobre a realidade das crianças curdas refugiadas durante a guerra, mas que se poderia aplicar, de igual modo, aos palestianos, enfim às crianças “que nunca foram, meninos”, cujo horizonte é a guerra e o ódio que ela gera, ou vice-versa.
 
AS TARTARUGAS TAMBÉM VOAM*

OS LOUCOS DA MINHA RUA

 
OS LOUCOS DA MINHA RUA

O ar que se respira, carbono negro, denso,

quase impuro, nada tem a ver com a cor,

nem com as guelras (do odor não me lembro),

vem da memória, dizes, talvez do coração,

pois nem o pulmão que o inspira, sente.

Assim se vão passando os dias, indolentes,

aqui no asilo, onde às árvores chamam gente,

e elas murmuram entre dentes, qualquer coisa,

que bem podia tratar-se de sementes.

Mas não, é coisa de doentes…

arfemo

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OS LOUCOS DA MINHA RUA

FLOR DESEJADA

 
Nas asas do vento, criei uma flor

cercada de desejos e aguardei,

obstinado, a Primavera.

Passada a época das chuvas, liberta

a memória do silêncio das palavras, um

sorriso cúmplice, inebriante, anuncia

discretamente um novo tempo,

táctil e cálido, rodeado de aromas

inesperados.

O fogo dos sentidos, Cibele, necessita,

como o vidro, mil paixões.

arfemo

(rep.)
 
FLOR DESEJADA

A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão… (Para os companheiros do Luso neste Natal 2009)

 
Dispensava o autocarro e ia na companhia do seu aluno que, de tanto o dizer, o queria ser. E ele condescendia, que sim, que sim senhor, um dia haveria de ser. E assim foi, que era um homem de palavra…e esta rara nele, que não gostava de se ver retratado na rádio ou na imprensa. Assim nasceu a sua primeira grande entrevista dado a um “miúdo” ao grande jornal da época das Artes e das Letras. Boa a entrevista? Podia lá ser, quanta ingenuidade havia naquela tenra idade…mas ele não se importou e com o carinho só prodigalizado a quem gostava, ajeitava a linguagem e falava como se à sua frente estivesse alguém à sua altura. Hoje, mais perto do Natal, fui-lhe tomar emprestado – porque sei que ele mo dava!... – um poema (excerto) com que me identificava, com a saudade imensa do melhor professor que alguma vez tive e do poeta e amigo que pouco fiz por merecer.

arlindo pato mota (ARFEMO)

UMA QUALQUER PESSOA

Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.

Uma qualquer pessoa que a recebesse

num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto.

Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse

e em silêncio dissesse: é para si.

E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,

e, sem sorrir, sorrisse,

e, sem tremer, tremesse,

tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto

como se um grão de luz lhe percorresse

com um dedo tímido o oval do rosto. (…)

ANTÓNIO GEDEÃO
(Publicado por Arfemo em 20 de Dezembro de 2009)

VOTOS de BOM NATAL
 
A PRENDA QUE EU TOMEI! Do António Gedeão… (Para os companheiros do Luso neste Natal 2009)

NATAL É COMO SE…

 
NATAL É COMO SE…

Fosse a festa construída

em tempo e espaço, muito embora

a memória persistisse revestida.

Natal é como se…

Em cada um de nós surgisse

a mão estendida,

no sentido de dar e receber:

não a esmola secreta e compungida,

ou o presente inscrito no dever,

antes a ternura prosseguida.

arfemo
 
NATAL É COMO SE…

LUZ E COR...

 
LUZ E COR

Quem controla o desejo, a emoção

ou a ternura?

A paleta, responde o pintor.

A palavra, atalha o poeta.

Juntos, distribuem a luz

que inunda de cor o planeta.

arfemo

(reed.)

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LUZ E COR...