Poemas, frases e mensagens de cremilde

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de cremilde

Miragem

 
Miragem

Lá vai Maria bonita
de missanga no pé
kitandando n'avenida
xitate cor de rapé...!

Lá vem Guerreiro, o felino
com seu xitate de chita
um belo laço ao peito
na mão uma mariquita...!

Os olhos até faíscam
atentos como gazelas
encandeando as ruas
enlaçam suas canelas...!

Lá vão Maria e Guerreiro
brindados pelo deserto
com a cor já meia nua
e o coração bem desperto...!

E de missangas e chita
pintam sua aguarela
uma welwitschia na rua
um botão flor de canela...!

Cremilde
2010
 
Miragem

Força Natural

 
Força Natural

Encapuçado de urze
ronda o silêncio…
Envolve-se a brisa
com fragrâncias de Outono…
De bronze te vestes
Mãe natureza…
Em filões de ouro
e prata te descarnas…!
Cúmplices…
Beijam-se os ventos nos vales
matizando ao despique
gélidas sinfonias…
Livre, tu, natureza,
em misterioso ciclo,
lanças doce e forte
o fascínio da mudança!
Poderosa, como mãe
num acto de criação!
Espantam-se olhos e sentidos!
E a mão humana, gela…
egoísta e prepotente
redimida ao teu domínio…
aguardando silenciosamente
Tua presunçosa vontade …!|

Cremilde
2009
 
Força Natural

Amo-Te

 
Amo-Te
 
Amo-Te

Não tenho vergonha de dizer
que Te amo!
Não tenho!
Tão forte que me incendeias,
Tão puro que me cristalizas,
Tão doce que me sacias,
Tão presente que posso dizer:
- Sempre!
Só Tu amas como ninguém,
Só Tu sabes quem sou,
Só Tu estás onde preciso,
Só Tu me realizas!
Tu,a quem não posso negar,
Tu,que estás presente em mim,
Tu,que me afastas da ignorância,
Tu,que és o meu escudo,
Tu,que me livras do que me tecem!
Presente, na minha ausência,
pousas o Teu olhar em mim…!
Só posso dizer:
Amo-Te!

Cremilde
2009
 
Amo-Te

Sombra

 
Sombra
 
Sombra

Estás em mim!
De mim és dona.
Senhora em absoluto!
Serpenteias-te...
frente e verso...!
Sem rosto.
Sem expressão!
Queda de silêncio,
vazia de emoção,
não enxergas...!
Meu fruto!
Minha cópia!
Passeias-te em mim...
Tu...
O nada!
O tudo!
O momento...
ao sol,
ao luar,
no breu,
na penumbra...!
Cega perfeição
de humana cópia!
Memorável!
Tu...
Meu presente!
Minha ausência!
Estou...
estás em mim!
Persegues-me...!
Rastro...
Sombra...
Solidão!

Cremilde
2009
 
Sombra

palavra

 
“Palavra”

Soubera eu escrever-te poesia…
polinizar de luz e cor
a simetria dos teus versos…
Pincelar de quentes tons
a tela dos murmúrios
e de enamoradas sílabas
teu ventre adocicado.
Pudera eu escrever-te poesia…
Num glaciar de rimas
beijar os teus recados,
ao som de amantes letras
declinar em versos teus pecados…
Escrever-te-ia poesia
como se poeta eu fosse…
ou existisse em alma minha
o pulsar da tua força,
a magia dos teus cantos…!
Banhar cada estrofe
em mágicas madrugadas…!
Inerte fantasia...
serva mão a minha,
embriagada,
possuída por teu reino, astuto e mágico:
- A força da “ palavra”.
Assim… queria escrever-te!... Poesia…!

Cremilde
2009
 
palavra

Entardecer

 
Entardecer
 
Entardecer

Cantam-me na face lágrimas …
Miragens do passado…
Como é breve o entardecer!
Breve e intenso,
Real e místico…
Sonho?... realidade?...
O peito rasga-se e esvai-se
com guilhotinas de saudade!
Já não moram
andorinhas nos beirais…
Nem se ouve o “sururu”
do canto dos pardais…
Que é feito da dança das gaivotas?...
Nesta redoma de fados adormeço
enxaguando lágrimas,
no desejo de acordar,
antes do entardecer!...
Pois, sonhos?... o que são?
Já nem me lembro de os ter!


Cremilde
2009
 
Entardecer

Confissão

 
Confissão
 
Confissão


Atlântico…
Deitada no teu leito,
balouçava ao som
do rebentar de tuas ondas…
O Sol,
maestro da natureza,
espelhava-se vaidoso
no fulgor da tua imensidão!
Sob o suave manto
que me cobria,
perplexa de encantamento,
com os olhos salpicados do teu sal,
saboreava o esplendor
da orquestra desagregada
e reflectida em tuas ondas….
Eram mil… eram milhões…eram estrelas ! …
Quantas galáxias de amor
elas guardavam? …
Quantos segredos e paixões,
elas levavam? …
Quantas alegrias e tristezas
elas embalavam?...
Quanto mais nadava para elas,
mais se afastavam de mim…
Eram segredos...
Intocáveis!
Múltiplos de unidades astronómicas
numa miríade de sustenidos!
Assim se abraçavam,
confessores e confessados…
onde as Nereidas tecem seus bailados.
E numa Afrodite sinfonia,
tangem Poseidon e Apolo seus recados.
Desnudam e guardam humanos os segredos,
afogando neles a sombra e o pecado!!!...

Cremilde
2009
 
Confissão

Namibe

 
Namibe
 
Cremilde
2009

"Ai Hué"
Quem me dera
sentir a fragrância das tuas praias
e o aroma do teu capim...
Banhar-me nas tuas águas,
filtrar a alma nas tuas areias...!
Quem me dera
ouvir o eco das tuas falésias,
pavonear-me nas tuas ruas,
dançar ao som do teu batuque...
Mover as dunas do teu deserto,
decifrar a mística dos teus oásis,
devorar o tempo das lágrimas
e ter presente o calor dos amigos!
Ai quem me dera
desfolhar o meu templo
nos teus jardins...
Afogando o fantasma da saudade!
Namibe!
Simbiose de magia,
que me possuis com o teu feitiço...
em longas noites
te abraço em sonhos,
perene e mansa
na turbulência das lembranças!
Comigo ficas eternamente...
Terra minha!!!

Cremilde
2009
 
Namibe

Fala para mim

 
Fala para mim
 
Fala para mim

Fala para mim...
Conta-me como os teus olhos me vêem,
como a tua retina me cristaliza.
Fala para mim...
Diz-me o que quero ouvir,
o que construo em sonhos,
como acorrento os meus desejos...!
Fala para mim...
Fala-me da forma que te construí,
da maneira como te vi.
Esse segundo eu
que me prende...
Fala, fala para mim!
...Pega numa agulha e
com a linha mais branca
coze-me!
Coze a minha alma
que de rasgada secou,
coze o meu corpo
que de fúria se desnudou...
Veste-me com a luz das estrelas,
Toca-me com o fogo dos sentidos...
Navega comigo ao som das marés...
Transporta-me!
Agarra-me!
Encontra-me!
Sustenta-me de pé!
E fala para mim...!

Cremilde
2009
 
Fala para mim

Filho

 
Filho

Meu ventre germinou e floresceu…
Fruto do amor e da paixão!
Filho do desejo…
da luta, de sonhos, alegrias!
Filho da verdade, da vontade,
Filho da mulher,
Filho da minha realidade!
Em ti meu olhar se eleva
com o brilho terno do amor,
o respeito e a vaidade!
Filho da Terra!
Filho do Amor!
Espelho de luz… amor… sabedoria!
Minha fortuna!
Meu engenho!
No peito tens
a humildade do saber e na alma
a dignidade e o querer!
Do passado e do presente
das memórias de uma vida…
Estás tu!
Meu Orgulho,
Meu Amor,
Minha Vida,
Meu Filho!

Mamã
Cremilde
2009
 
Filho

Luz

 
Cruzo-te em meus braços!
Peito contra peito,
absorvo o teu cansaço...
Prelúdio do entardecer...!
Bocejas num sorriso
a densidade do mundo...
...e beijo-te...
...e chamo-te...
Chamo-te de meu amor.
Chamo-te de pai!
Afagas-me no teu olhar
e nele leio que está a anoitecer....

Cremilde
2009
 
Luz

Douro

 
Douro
 
Douro

De ouro és por torrentes bronzeado,
Rio de choro, cantos, risos, gargalhadas,
Suores e lágrimas em xisto embriagadas,
Das tuas gentes com vidas recalcadas!

Roliças sedas e longas vindimadas,
Por generoso "Baco" férteis, fecundadas,
Rasgas o hálito rubro no cristal,
Com o delírio das margens contornadas!

Pincelo d'oiro tuas águas salteadas,
Por arrojadas fragas suportadas,
Consomes o fascínio da luxúria,
Beijas colinas de socalcos cobiçadas!

Em singelos, frágeis e místicos "Rabelos",
No teu leito em sobressaltos me deleito,
Por entre vales e escarpas abraçados,
Sorvendo a fonte dourada do teu peito!

Brotais do ventre a corrente adocicada,
Deusas de ouro em lama fustigadas,
Jorrais de esperança a longa caminhada,
A cor da vida em verdes madrugadas!

Cremilde
2009
 
Douro

Esquecidos...

 
Esquecidos…

Numa avalanche temporal,
desafio a gravidade…
Aperto a noite,
sombria de silêncio…
Afago ecos espelhados,
onde o som refracta
a dor e a ansiedade!
Imperfeita de egoísmo,
derreto o medo gélido dos dias,
embriagados pelo suor do tempo!
Casta, a perfeita solidão!...
Penso em mim!...
Da assimetria constante
do carpidar dos dias,
solvo indulgente
minha musa… minha sinfonia!
Enquanto ecoam
por ravinas destroçados,
os sonhos reprimidos,
os desejos incontidos,
a fome insaciável,
os dias não vividos,
daqueles que serenamente,
sucumbem distintos
à lei da Humanidade!

... de "Um grito de Silêncio"...
Cremilde
2009
 
Esquecidos...

Retrato de um Eu

 
Retrato de um Eu
 
Retrato de um Eu

De ouvidos e vozes
sem luz e razão
de ofertas ferozes!

Ignoto e desnudo,
fronteira, prisão,
deserto maduro!

Fervido que foi
no mosto do tempo,
Aguarela cinzenta...
moinho de vento!

Um eu recalcado
sedento de luz…
Espiga de trigo
que à vida conduz…!

Cremilde
2009
 
Retrato de um Eu

Folha de papel

 
Folha de Papel

Eu quero uma folha branca,
sedenta de amor e verdade,
sombras de uma caminhada,
pinceladas de saudade...

O papel ficou molhado,
cansado de ingratidão,
foram lágrimas sentidas,
dias, horas, solidão!...

E mais de mim não sei,
folha branca espezinhada...

E mais de mim não dei,
folha branca que pintei...

E mais de mim não vi,
folha branca que perdi...

Eu quero esta folha branca,
de papel amarrotado,
que do chão já apanhei
para esquecer o passado!...

E mais de mim não tenho,
folha branca...amarelada,
com a cor do meu silêncio,
não a quero amarfanhada!...

E mais de mim... eu quero!

Cremilde
2009
 
Folha de papel

Doce

 
Doce

Sussurras ternamente,
os meus sonhos...ao ouvido...
Doces...
como a rosa...
que pétala a pétala
secou em mim...!
Cúmplices...
Num silêncio de desejo...
Num testemunho de paixão...
Agarramos o infinito...!
Olhamo-nos...
Vemo-nos...
Lemo-nos...
Tocamo-nos...
Queremo-nos...
Sentimos que somos!
Sentimos que estamos!
Sentimos...
Sentimos que nos queremos!

Cremilde
2010
 
Doce

Prostituta

 
Prostituta

A ti prostituta eu chamo:
-Minha irmã de berço!
A ti prostituta eu chamo:
-Mulher sem endereço!
Tu que podias ser eu,
numa cama sem lugar,
numa viela sem rua,
numa tarde de esperar!
Tu que tomas nos braços
talvez o homem que eu amo
e sem o troco do amor
mendigas num soluçar!...
A ti prostituta eu chamo:
-Vem!...sai da tua janela!
cansa-te de esperar!
Olha a força dos teus braços,
ainda podem trabalhar!
A ti prostituta...eu chamo!

Cremilde
(escrito em 1975)
2009
 
Prostituta

Fragmentos

 
De … “Um Grito de Silêncio”…

( fragmentos…)

…Foi destino meu levar,
Em pedaços e fragmentos,
O sofrimento de tantos
Para outros sensibilizar…

De barro feitos os moldes,
Tão frágeis como os reais,
Densa e incógnita ausência,
Da vida em seus pedestais.

Cruel como “eles” o sabem,
Cruel como "eles" o vivem,
Vagueiam humildes, discretos,
Sem um ai, sem um queixume…

Alguns já se partiram,
De frágil que é a matéria…
Como frágeis são as vidas
Na inércia da miséria…

Transformo os meus modelos
Em bronze e belos metais,
Serpenteados com cores,
Exponho os luxos mortais.

A verdade “real” e “crua”
Dos vivos árida a terra,
Olhos húmidos, toda nua…
Devassa e mórbida a “Guerra”!...

Cremilde
2009
 
Fragmentos

Natureza

 
Natureza

Gritam as serranias
e os ecos diluem-se em fragas distintas.
Sopram os ventos nas suas entranhas
e amortecem em ondas de encantamento.
Brilha o sol nos labirintos dos penhascos
e céleres se prostam as suas cercanias.
Relâmpagos disfrutam com estrondosa guilhotina
de todo o vale possuído de encantamento...
e brotam as águas das fragas mais profundas,
emergindo em rios de vida, de esperança!...
Funde-se a razão!... Nasce o verbo!

Cremilde
2009
 
Natureza

Herança

 
Herança

Nos teus braços fortes,
deste-me a segurança,
no teu abraço meigo,
a doçura do amor.
Cantavas melodias inventadas,
com carinho, para me embalar.
Hoje teus olhos brilham
ao ouvir-me falar,
como se fosse sempre
uma primeira vez…
Tua mão trémula procura o meu rosto,
que afagas e encostas ao teu peito.
As flores que me deste
já não têm jardim…
As histórias que me contaste
guardo-as no meu baú,
embrulhadinhas em ouro.
São parte do meu tesouro,
o maior que me pudeste dar!...
O meu peito reclama revolto
a condição do teu estar…
O teu amor…
A tua resignação…
É mais um ensinamento,
uma doação,
uma herança
do teu grande amor!
Aquilo que tu foste e és,
aquilo que eu guardo e reparto
como tu me ensinaste,
como tu me deste,
toda essa riqueza
de dar, amar, perdoar!
Esta é a maior herança...
o que faz de mim mulher!
Amo-te muito meu querido pai!

Cremilde
2009
 
Herança