Poemas, frases e mensagens de Karla Bardanza

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Karla Bardanza

"Se me achar esquisita,respeite também.Até eu fui obrigada a me respeitar."
Clarice Lispector

PESSOAS SÃO POEMAS - UM TÍMIDO TRIBUTO AO 1º ENCONTRO DO LUSO

 
Há algo que nunca passa:
coisas navegando no peito,
palavras transbordantes,
sofreguidão.

Instantes multiplicam-se
enquanto as horas
curvam-se diante do encontro.
Pessoas são poemas
e nada consegue deter
o que fica guardado na memória
da pele.

Levo mais isto na minha trajetória
tímida e poética.
Felizes os convidados para ceia
porque saímos todos saciados
de emoção.

Karla Bardanza

Este poema é um tributo ao 1º ENCONTRO LUSO-POEMAS.Memorável.Viverei mil vidas e nunca poderei esquecer a emoção de estar lá de conhecer Fátima Abreu de perto. Pessoinha pérola. José Silveira e o seu vozeirão. PenA que não pude vê-lo cantar, Sandra Fonseca - pessoa-sol e Sol Figueiredo, outra pessoa-sol. Alice Luconi - e o seu sotaque é hipnotizante.Gisele e Iolanda, maravilhosas,Felipe e PCoelho além de Robert que mora aqui do outro lado da poça como eu.Faltam palavras, sobram emoções para mim que sou mega tímida.Se esqueci de alguém, me perdoa.
 
PESSOAS SÃO POEMAS - UM TÍMIDO TRIBUTO AO 1º ENCONTRO DO LUSO

QUANDO EU ME CASAR

 
Foto de Edouard Plongeon

Quando eu me casar, vai ser por amor. Não esse amor que seja infinito enquanto dure à la Vinícius. Não! O amor com as horas contadas está riscado da minha agenda, da minha história, dos meus retratos. Gosto de coisas grandiosas, de intensidades, de coisas que queimam e ardem. Amor que acaba logo depois do primeiro ensaio e do segundo erro é para quem tem tempo e eu já não tenho mais. Acho que nunca tive. Deve ser por isso que nunca casei antes.

Posso até ver tudo. Eu vou estar de branco: esse branco dos que possuem olhos de centelhas e mãos de delicadeza .Talvez, eu esteja apenas vestida de mim e com os pés descalços, pisando na suavidade do momento com graça e fé. Talvez Joe Sartriani esteja lá tocando Love Thing enquanto eu estiver atravessando o sonho com os cabelos apontando para o infinito. Tudo dependerá das nuvens e das árvores.

Entrarei neste casamento com os olhos fechados para não ver as imperfeições do outro e nem as minhas. Será melhor manter a boca sempre pronta para um beijo e a língua cheia de palavras guardadas no peito. As mãos estarão sempre abertas e dadivosas. Preciso de mais do que uma aliança no meu dedo: nele prenderei o amor como pipa. Sempre livre e à vontade.

Irei bem devagar, gozando, exercitando o desejo, o silêncio, a minha próspera verdade. Irei sozinha, olhando na direção do meu amado, nos olhos do meu amado, cabendo inteirinha no sonho dele e na minha poesia.

Vou prometer todas as coisas que o vento trouxer para dentro das flores: sementes e o eterno desaborochar. Vou prometer apenas a vida porque o amor verdadeiro é para além. Vou prometer o nosso bem, o nosso desafio e viagens para dentro da lua e quando eu estiver nua, vou prometer o que ninguém deve escutar.

Quando eu casar, algo estará no canto escuro do mar, abençoando o momento. Algo vai abrir a boca do tempo e eu passarei pelas alamedas com a minhas bagagens: uma filha, alguns gatos, uma cachorra, muitos livros e vários problemas para resolver.

E acima de tudo, quando eu casar, vai ser com você: com a pessoa certa, com o deus que irá acender as estrelas na minha testa e o sol nos meus seios, com aquele que saberá carregar os meus receios e as minhas malas com doçura e boa vontade.

E lá no fim do mundo, eu vou olhar para trás com saudade e já bem mais velha do que estou. Falarei sozinha então que faria tudo de novo pelo teu fogo, pelo teu mel. E depois de muitas eternidades e conflitos, vou te encontrar descalça mais uma vez,com a barba por fazer, lá no céu.

Karla Bardanza

Você está ouvindo Love Thing com Joe Sartriani
 
QUANDO EU ME CASAR

MENINA INTERROMPIDA

 
Do nada, sei tudo
ou talvez quase tudo.
Sou especialista
em entender coisas
não explicadas
ou desimportantes.
Falo a língua da árvores,
seguro o vento com as mãos,
canto a música da alma.
Sou uma encantadora de joaninhas:
nunca estou só mesmo sozinha.

Guardo teias de aranhas
e flores secas dentro dos livros.
Coleciono desastres e ocasos,
palavras não ditas e amores inacabados.
Nunca sei o que é pecado
ou se existe pecado abaixo da linha
profana do Equador.
Eu daria uma atriz e tanto
numa história de amor.
O problema é sempre achar o mocinho
e ter um final feliz.

Ainda não sei muito bem
como caçar estrelas
ou falar com as pedras.
Mas, tenho certeza que elas
sempre me escutam.
Preciso conhecer
esse alfabeto de letras invisíveis
que apenas o coração domina.

Eu sou uma menina interrompida
pelas nuvens e pela vida.
Faço limonada quando tudo esta amargo,
largo as pessoas sem voz
para trás
e busco a simplicidade das heras
que enraizam com graça aqui
e ali. A delicadeza das avencas
é algo que me intriga também.

No final das contas,
eu sou zen:
zen dinheiro,
zen berço,
zen verniz.
Não vejo problema algum
em ser essa mistura
que não tem país.

Amanhã vou acordar
mais cedo e ensaiar
com as ondas do mar
a minha próxima fala.
Depois, vou trabalhar.
Nestas horas em que sou
apenas uma escrava do sistema,
minha singularidade sempre se cala.

Karla Bardanza

Você está ouvindo Anoushka Shankar

Copyright © 2011 Karla Bardanza Todos os direitos reservados
 
MENINA INTERROMPIDA

MAR QUASE POÉTICO

 
uma bala perdida me alcançou, rasgando tudo ou quase tudo que vai da alma ao coração. levantei sem pedir socorro. olhei apenas para o espelho em frente, querendo explicações e precedentes. viver é indecente quando a violência está na dor que nos escolhe, nos atos escusos da vida: senhora das traições.

não quero pensar neste vil momento, no vento destruidor, na minha covardia diante dos acontecimentos. estou doente dos olhos. não consigo mais olhar dentro de mim sem chorar, sem dissecar a desnobreza de tudo, sem ver a da faca enterrada todo dia no meu peito.

problemas caem das gavetas, a porta emperra, um medo berra feito louco nos meus bolsos: não posso mais nada de agora em diante. só as distantes estrelas negras me aguardam. e enquanto eu não descubro mais nada, tento buscar a noite no céu da minha boca porém, girar essa chave que me trava e me fechou para balanço quase dói.
cordialmente não aceito mais conceitos, dúvidas ou coisas sem nome.
estou trancada dentro da minha esquisitice. quando o meu coração voltar a crescer, vou entender como é ser gente grande.
por enquanto vou ficar por aqui sendo ridícula, esperando que o mar torne-se poético novamente.

karla bardanza
 
MAR QUASE POÉTICO

O QUE É ARTE ENTÃO, PORRA?

 
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Devdatta Padekar

O QUE É ARTE ENTÃO, PORRA?

Embrulho a paisagem
e a coloco em cima da mesa,
quentinha, pronta para ser comida
pelas palavras, pelas metáforas,
pelas imagens.

Bagagem de poeta
é o papel de braços abertos,
é a linha reta e desregrada,
é quase tudo do nada.

Nuvens de cobre,
fios que dobram a esquina
da solidão, as tempestades
nossa de cada dia,
a força bruta,
a luta vã com a vontade
de parir um poema saudável,
fácil de engolir,
fácil de ser band-aid
curando tudo e descolando
na medida certa
quando o mundo aperta
por dentro e fora.

Pedacinhos colados,
um pouquinho do que mata
e consola, a esmola
na mão do leitor
e aquela puta dor
que todo poeta carrega
com orgulho e estandarte.

E depois do depois,
vem um cara qualquer
dizer que a tua pele arrancada
pelas tuas próprias unhas
não é arte.

Karla Bardanza

Copyright © 2013 Karla Bardanza
 
O QUE É ARTE ENTÃO, PORRA?

INFELIZ-MENTE

 
quem de pé ficará
para ver a poeta chorar,
rasgando as horas
que sentam no
vazio da resistência?

no extremo do nunca,
a luta, a puta culpa
por sentir mais do
que pode, a voz sem voz.

quem de pé ficará
para carregar as palavras
quem caem doentes,
loucas e deprimidas
no chão?
vida que mata.
saída sem porta,
obscena-mente.

mente quem levanta mão.
mente-coração.
sutil ansiedade acorda
a covardia, a poeta
é uma cor fugidia,
uma nuvem me cobrindo
disso que desfigura.
a poeta é uma figura
sem favos e fé.
a poeta foi-se e é
sendo quase sido.

quem levantará
para lhe dar mais
um diagnóstico?
por enquanto um enquanto,
um santo sem canto
ou talvez.
por enquanto apenas
o que não se pode tocar
porque a mente sente.
porque a mente é
infeliz-mente.

karla bardanza
 
INFELIZ-MENTE

ENQUANTO ME ABRAÇO

 
Não tenho sonhado ultimamente. Deve ser falta de tempo ou disposição. Quando estou de olhos fechados, as coisas estão em preto e branco. É estranho não esperar acontecimentos e surpreender-me pouco. Não sei bem se esta fase é a consequência do cansaço ou do excesso de alguma coisa entre a sabedoria e racionalização. Sempre gostei de viver transbordando, da paixão escorrendo pelos poros. Agora, estou contida em minhas próprias limitações e ressecamento. Meus pés estão tão fincados no chão que tenho notado minhas enormes raízes. Minha pele está séria e entrando em lenta erosão. Minhas mãos nem procuram mais o inatingível. Viver tem sido um ato estranho ultimamente. A vida não deixou de ser maravilhosa nenhum instante. Sou eu que não me sinto mais assim. Não tenho medo de me perder nesta seriedade, inexatidão e estranhamento. Tenho medo é de perder a poesia, de acordar de repente e não tê-la mais me esperando nas pontas dos dedos e nas curvas do coração. A rotina nos engaveta e tenho a impressão de que me despertenço toda segunda-feira. O calendário sufoca-me com todos aqueles números e as coisas sempre iguais.

Não tenho planos, estratégias ou dicas para uma vida melhor. Os livros de autoajuda não me ajudam e eu creio que o ideal é viver à la Zeca Pagodinho, deixando a vida me levar. Vou olhando para frente, esquecendo as coisas lentamente, criando novas saudades, refazendo caminhos, vivendo mais perto de mim.Não sei se a vida vai estar mais incrível amanhã. Certezas não tenho nenhuma. Daquilo que aprendi, pouco sei também. "Um dia de cada vez" diz a pulseira que vi no braço de minha filha. Que seja assim então. O hoje vai acabar em duas horas para o amanhã começar. Estou respirando e tudo torna-se possível dentro do real. Vou fazer um favor a mim mesma: esquecerei que isso tem nome de vida. Será mais reconfortante acordar sem a lembrança de que preciso dar conta desse momento intensamente. O outro nome da sabedoria deve ser paz. Encaixo-me nesta alternativa com gratidão.O que vale mesmo é a vida aqui dentro, é o coração batendo seja por que motivo for, é o amor guardado nas estranhas enquanto me abraço mesmo quando sinto tão pouco, tão absolutamente pouco.

Karla Bardanza

Copyright©KarlaBardanza2012
 
ENQUANTO ME ABRAÇO

Das minhas poucas verdades

 
ainda ontem
eu senti.

e senti.

mudar a rota,
cliché que aborta,
um pouco de ódio
maturando
eu senti.

essa é quase eu.
poeta pela metade,
mulher que arde,
dias infinitos de luta.

puta saudade
de semear o amor.
eu ainda sei.
eu ainda sou.

palavras que me escolhem,
coisas que me fazem menor.
eu estou aqui
e nem disse ainda
a que vim.

de tudo
posso apenas dizer
uma única coisa:
eu senti.

karla bardanza
 
Das minhas poucas verdades

APENAS PARA AS PESSOAS INVISÍVEIS

 
forma e conteúdo
esvaziam-se.
nada é tudo.

a sala faminta reclama
novos conceitos,
nada satisfaz:
nem o sol obsceno,
nem a lua sem sinfonia.

alguém febril passa
assustado, deixando cair
vinho e poesia.

mas ninguém quer
a embriaguez das metáforas e
as palavras fazem apenas
sexo explícito.
considere isto.

o contexto é sem tessitura
porque as linhas não amarram
mais pipas.
tudo solidifica o ar.

observo com estima
e apreensão a nova ordem,
evitando filosofias
e sentidos, insistindo
enquanto arrasto
minhas pequenas mortes.

quando paro
(se é que consigo)
enfio a faca
no mais profundo de mim
todo santo dia
sem sentir dor
e vou sangrando poesia
para pessoas invisíveis.

karla bardanza
 
APENAS PARA AS PESSOAS INVISÍVEIS

PROCURO ME ALIMENTAR DE GRÃOS APENAS PARA VOAR

 
PROCURO ME ALIMENTAR DE GRÃOS APENAS PARA VOAR
 
Ultimamente tenho olhado o mundo com os olhos de pássaro. Deixo apenas o lado esquerdo da minha mente funcionar.Fico cheia de sentimento de árvore, de coisas lânguidas e macias dentro de mim. Quando sinto que estou chovendo, procuro me alimentar de grãos apenas para voar. Se as minhas asas molham e ficam pesadas demais para carregar, pinto os olhos de preto e me escondo em alguma floresta calada até que elas sequem e eu possa ser eterna mais uma vez.

Não posso conviver com esses sentimentos sem nome, não consigo ser sem o infinito. Preciso que as coisas aumentem, que as estrelas tracem rotas e ritos. Preciso dessas coisas abençoadas para chegar além.

Na verdade, quero desaprender a ser gente e voltar a ser criança. Quem sabe se eu engatinhar de novo, a vida possa ser redescoberta.

Karla Bardanza
 
PROCURO ME ALIMENTAR DE GRÃOS APENAS PARA VOAR

A INTENSIDADE DO SILÊNCIO

 
A INTENSIDADE DO SILÊNCIO

Quando ele a beijava,
e os cabelos negros daquela mulher
cobriam a noite de estrelas
e
o seu rosto de promessas,
ele sentia.
Sentia
a intensidade do silêncio.

Ele entregava a alma
à Lua e deixava
Vênus e Marte
mais perto e silenciosos.
E ainda assim,
as palavras não saíam
de dentro dele.

O corpo daquela mulher
era o seu altar,
era o sagrado em suas mãos.
Ele se ajoelhava para recebê-la,
para honrá-la,
para guardá-la
e
mesmo assim
ele não sabia como chamar aquilo
ou se aquilo sem nome
poderia ser chamado
de
amor.

Aquilo não cabia
nas noites, nos dias,
nas horas, nos livros,
nas palavras.
Aquilo não cabia nele.
(nem nela)
E ainda assim ele não sabia
como deixar aquilo sair
de sua boca.

Um dia,
as palavras escorregaram
de seus olhos,
de sua alma,
de seu desejo
e prazer.
Saíram sem ele sentir.
O amor
não cabia mais no eu, no te
ou no amo.

E ai
o amor começou
mais do que existir.

Karla Bardanza

Feliz Dias dos Namorados. Amem-se pelas palavras
e pelas atitudes. A grande mágicka da vida ainda
consiste naquilo que podemos sentir.
 
A INTENSIDADE DO SILÊNCIO

ISTO APENAS

 
quando me adivinhavas,
eu era um poema inacabado,
um pedaço de metáfora
eternamente presa as
tuas entrelinhas.

não houve lamentos,
ou murmúrios quando
as mãos ficaram
levantadas para o ar.

as coisas derramam-se.
silêncio apenas.

agora que tudo me esquece
e eu pouco me lembro
das curvas das palavras.
abro a poesia inacabada
do que já deixou de ser,
buscando aconchego
nas coisas que ainda
podem ser ditas.
Mas, mesmo elas já
não podem sobreviver
a mim.

karla bardanza
 
ISTO APENAS

SOU BRASILEIRA DE SEGUNDA A SÁBADO

 
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Sou brasileira de segunda a sábado,
ar cansado,
correria,
a poesia caindo da bolsa
cheia de mundo,
ônibus lotados,
olheiras apenas.

Sou brasileira de segunda a sábado,
dou murro em ponta de faca,
mato um leão por dia,
engulo sapo,
estou um trapo
sexta à noite.

Sou brasileira de segunda a sábado.
Domingo perco a identidade,
a estribeira e tudo de menos e mais,
lembrando que amanhã já é segunda-feira...
Porra...que ela descanse em paz.

Karla Bardanza
 
SOU BRASILEIRA DE SEGUNDA A SÁBADO

VESTIDA DE TI

 
Ans Markus

VESTIDA DE TI

Olho para os lados
enquanto tudo dorme.

Ainda vestida de ti,
levanto e vou à janela
apenas para ter certeza
de mim.

O universo é tão generoso:
ele me deixa aqui mais um pouquinho
apenas para testemunhar que
a vida continua.

Espero silenciosamente
que o Tempo acalme as horas
ou que a Poesia relembre-me
que eu ainda existo.

E de olhos fechados,
faço um esforço danado
para lembrar
de como é ser feliz.

Karla Bardanza
 
VESTIDA DE TI

DO QUE AINDA RESTA

 
Um instante
dentro deste instante
para que as palavras
possam morrer de poesia
e renascer apenas
para a minha pupila
quase dilatada
de tanto nada.

Ela não sabe mas sofro
também. Não pelo que vivemos.
Vivemos muito pouco.
Sinto pelo que deixou de ser
quando ainda éramos.
Sinto pelo filho
que tanto querias.

Há dias que preciso
relembrar quem sou
e você ainda me dá
a justa medida da vida,
da poesia, de mim.

Teu coração ainda
respira dentro das palavras
que eram e sempre serão
minhas.
E eu lembro de ti
com gratidão,
com dor, com o ontem
molhando as mãos.
________________________

Karla

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Karla Bardanza

Um ano de silêncio e o mundo ficou muito mais triste
sem a tua poesia, sem o teu coração ímpar
e patriótico, sem a vastidão da tua alma.
 
DO QUE AINDA RESTA

VÃ FILOSOFIA E DELÍRIO

 
Não sou nobre, sou vira-lata e durmo com eles com fidalguia. Deito no frio sem medo, sem sonhos, sem dono. O abandono dói menos do que os sonhos que são apenas para aqueles que não se cansam de sonhar. Quando nada se espera, não há nada para esperar.Olho para as estrelas sem procurar o norte ou sul: meu lugar é onde o meu corpo pode estar.

Não pertenço a este mundo, não conheço este mundo. Afundo nas minhas contradições e vivo o que tenho que viver com os olhos voltados para o que não sei. Quando me enxotam, saio sem lamentar. Quando me chutam, sei o meu lugar.

O que me incomoda não é o que sinto.É o que não sinto porque já não sei mais sentir. O que me assombra não é a morte, mas a vida com as suas sutilezas e mensagens subliminares quando tudo vai pelo ralo abaixo ou pelos ares, quando não tenho pelos suficientes para me defender das temperaturas abaixo de zero dos acontecimentos quentes.

Não tenho verniz, berço, nem nada que me valha. Sou fruto de mim mesma, das manhãs cansadas, dos ônibus cheios, do esforço inglório e diário que me crucifica nos horários, no calendário louco que anda devagar na pressa e rápido na fragilidade tão minha.

Nada sou, nada guardo, nada sei, nada quero pensar, nem ver: basta-me sentir, basta-me esse momento de vã filosofia e delírio enquanto nada tenho nas mãos pois, eu sei que mesmo de mãos vazias, eu ainda tenho o mundo e a poesia.

Karla Bardanza
 
VÃ FILOSOFIA E DELÍRIO

COMPLETA

 
é quase meia-noite
e a minha pele é um poema
morrendo dentro de alguma boca.

sinto estrelas nas veias negras,
ressuscito e revelo-me
em letras afogadas,
no nada infinitamente brando
que é apenas imagem.

a hora cai de pé,
dissolvendo o mundo
e
de mãos vazias,
nada tenho porque tenho
tudo.

karla bardanza
 
COMPLETA

UMA PORCARIA DE POETA

 
UMA PORCARIA DE POETA
 
Steve Smulka

Poemas não vendem,
não cabem nas profundezas rasas
dos jormais
não combinam com o noticiário das oito
nem com coisas que diminuem
a imensidão das metáforas
e a fragilidade amarga da língua.

Para uns, são apenas hieróglifos dormindo,
Para outros, a palavra pulsante
entre a veia femural e a aorta.

Quanto a mim,
não se engane nunca:
não sou apenas um poema,
sou a própria poesia torta.

Karla Bardanza

Copyright © 2012 Karla Bardanza
 
UMA PORCARIA DE POETA

ELA DENTRO DELA

 
ELA DENTRO DELA
 
Fotografia de Lili Roze

Fechou os olhos e segurou a melhor parte dele com uma das mãos, sem pensar em nada. Sentiu o avesso do momento com a língua molhada de luar, com a pele coberta de desafios. Ele, em dor, sentiu mais do que o tempo permitia. O rosto se contraía, a vida acorrentava o corpo com delicadeza: aquilo era o que queria, o que temia, o que o abençoava.

Ela roubava dele o pouco de vida que ele ainda tinha, sugando-lhe os restos da alma com vontade, com a loucura dos sentidos, sendo usada e usando. Não sabe porque é assim.

Quem foi o primeiro a abandonar a luxúria? Quem mais precisa de devassidão? Ela é o que fez de si mesma. Dá medo afundar em seus cabelos, perder-se em seus olhos de profundidades ignoradas. Ela é quase tudo ou talvez um punhado de nada.

Não a ame: ela não precisa mais disso. Ela nunca soube o que é isso. Não a chame. Permita que ela diga quando. E quando houver apenas o silêncio pela metade, vá embora sem olhar para trás como todos os outros, sem querer mais. Ela já está imune.

Sonhe com cuidado esta noite e todas as noites que virão. Esqueça as linhas imperceptíveis da mão dela. Ela não viverá até aos oitenta. Está fraca demais para lutar consigo mesma e sobreviver as suas idiossincracias e perdas de amor-próprio. Está cansada de ser vulnerável e da letargia que a deixa insensível. A invisibilidade a enxerga e renega. Ela nasceu apenas para morrer com inexatidão, acendendo o tempo, (se) matando de amor.

Próximo da fila, please.

Karla Bardanza
 
ELA DENTRO DELA

DE CORPO ABERTO

 
DE CORPO ABERTO
 
Orley Ypon

Se ainda houver perdão
no canto da boca,
se ainda houver...

Tão natural
é a mão estendida,
é a vida que abre
o orgulho
sem julgamentos,
é a hora cheia de paciência
e esquecimento.

Faz tanta falta
essas coisas
que morrem
entre olhos,
no abismo do peito
sem transformação.

Se ainda houver energia,
se ainda houver,
me deixa chegar
perto desse silêncio
e desenhar uma ponte
entre os nossos pés sonhadores.

A gente não precisa
disso.
A gente nunca foi
isso.

Não carece de me perdoar.
O erro é sempre de quem
entendeu menos.
Mas, preciso te dizer
que o tempo
nos ensina a perder
com graça e mansidão.

De qualquer forma,
forte é sempre
aquele que primeiro
retirou a faca
enferrujada dos fios
que separam a alma
do coração.

Karla Bardanza

Saímos pela vida perdendo as pessoas que amamos:
pais, filhos, amigos, amantes, e etc
por orgulho e medo.
Nunca é tarde para bater na porta e tentar novamente.
A vida é sempre aquilo que fazêmos dela.


Copyright © 2012 Karla Bardanza
 
DE CORPO ABERTO