Poemas, frases e mensagens de VALMARLOUMANN

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de VALMARLOUMANN

HOMENAGEM A ALDA LARA

 
TESTAMENTO


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

ALDA LARA

1

“Que encontrares em cada rua”
Um passageiro que se quer
Muito além do que puder
Se nesta história continua
O caminheiro mais audaz
Nas faces esfomeadas
Tantas misérias demonstradas
Para quem passa tanto faz
Não se percebendo o sinal
Da injustiça que vai grassando
Tornando este mundo nefando
Onde pudesse triunfal,
Assim se percebendo a cena
Verdade tão clara envenena.

2

“Oferecê-los às crianças”
Os tormentos que são tenazes
E ao perceber assim as fases
Tão diversas das esperanças
Não se pode ou nunca pude
Perceber sinais da justiça
Aonde impera esta cobiça
Seguindo alheia a juventude
Oferecer um só momento
Tocado com ternura e fé
Ao romper dos pés a galé
Quem sabe encontraria alento
Quem tanto necessita a luz
Aliviasse ao menos, a cruz.

3

“Com passos feitos de lua,”
Esperanças muito além
O que tanto não contém
Tantas vezes continua
No vazio que se vê
Numa audácia mais profana
Quanta vezes já se engana
Sem saber algum por que
Desta insânia que domina
Cada passo desta gente,
Pois se amor é tão urgente
Ao perder mapa da mina
Morte exposta a cada afeto,
De vazios me repleto.

4

“Vás por essa noite fora”
Andarilho do futuro
Tendo tudo o que procuro
Boa sorte te decora,
Segue contra a correnteza
Da injustiça sem sossego
E deveras tanto apego
Traz a sorte com certeza
Pra quem tanto assim porfia
Noite e dia, vida inteira
A palavra é mensageira
Traduzindo alegoria
Para quem se fez além
E o universo em si contém.

5

“Beijar de longe os teus olhos,”
Onde tanto poderia
Conhecer uma alegria
Mesmo envolta por abrolhos
A certeza de um momento
Feito em tanta claridade
Inda mesmo que se agrade
E permita novo alento
Caminhando sem destino
Tantas vezes me perdi,
Mas encontro agora em ti
O calor em que fascino
Bebo a fonte mais suave
Sem ter medo que me agrave.

6

“Em que a minha alma venha”
Transcendo ao próprio ser
Nas entranhas do prazer
Tanta força já contenha
E permita o quanto pude
Sonhador inveterado
Bebo as sombras do passado
E traçando em atitude
Passo rumo ao que virá
Nada mais eu temeria
A verdade sendo a guia
O meu sol já brilhará
Sem saber de qualquer sombra
Que decerto sempre assombra.

7

“Para que, na paz da hora,”
Nada deixa pro final,
A certeza sem igual
Minha sorte revigora
Nada temo e nem pudesse
Quem decifra cada passo
E se faço ou me desfaço
Sei de cor o rumo e prece
Cavalgando pelos prados
Das estradas sei as manhas
E se adentro estas montanhas
Os caminhos decorados
Nada impede que se creia
Nem na sorte, minha e alheia.

8

“Deixo-os a ti, meu amor”
Os caminhos que descubro,
Meu olhar deveras rubro
O carinho furta-cor
Galopando céus diversos
Andarilho das estrelas
Se eu pudesse enfim contê-las
E trazê-las pros meus versos
Transcendendo à própria vida
Nas ardências do desejo
Quando a sorte em ti eu vejo
Do caminho não duvida
Quem se fez em liberdade,
Não carrega uma saudade.

9

“Desesperada mas firme,”
Sorte dita qualquer luz
E deveras me conduz
Mesmo quando não confirme
Cada passo dita o tanto
Quanto pude descobrir
Se decerto há um porvir
Nele tento sem quebranto
Na desdita conhecida
Nas entranhas do quem fora
Alma tanto sonhadora
Esquecendo a própria lida
Liberdade conquistada
Com a faca sempre armada.

10

“Esses, que são de esperança,”
Na verdade muita vez
Ao cobrir o que se fez
Com ternura ou firme lança
Nas estradas as tocaias
Nos caminhos tal espreita
Quando tanto se deleita
Almas outra não lacaias
Bebem sangue das escravas
Tomam goles em tortura
Tendo além da noite escura
Do que tanto queres lavas
Mesquinhez ditando regras
Quando o sonho não integras.

11

“Sincera e desordenada”
Sorte tanto indulgencia
Quem deveras a alegria
Tantas vezes não diz nada
Se eu pudesse noutro tanto
Geraria novo rito
E se ainda teimo e grito
Por mais forte velho canto
O quebranto muito pode
E transcorre em minhas veias
Quando em fúria me incendeias
Nem a sombra mais me acode
E desvia o rio quando
Outro tempo porfiando.

12

“Esses, que são de dor”
Nada posso dizer
Se não sei do prazer
Se não sou trovador
Se nada posso ainda
Contra o quanto mais quis
O meu verso no bis
Se nada mais deslinda
Mergulho num abismo
E se tanto não vejo
Pode mesmo o desejo
E ainda sim eu cismo
Vagando contra a luz
Falena; não me opus.

13

“Quanto aos meus poemas loucos,”
Nada faço nem faria
Se deveras a alegria
Dita dias tanto roucos
Mergulhando no vazio
Navegando insensatez
Tanto quanto ainda crês
Produzindo novo estio
Geração pós geração
Renascendo novo encanto
No que ainda tento e canto
Procurando a direção
Sei da sorte mais atroz
E decerto bebo a foz.

14

“Que nunca souberam ler”
Os anseios deste povo
E se canto e mesmo aprovo
Os caminhos do saber
Não podia acreditar
No que um dia se fez meu
Meu caminho se perdeu
Noutro rumo a navegar
Das histórias do passado
Dos momentos mais presentes
O que tanto já não sentes
Pode ser o meu legado
Para as sendas do futuro
É por isso que amarguro.

15

“São para os homens humildes,”
Os desejos da esperança
O meu verso agora alcança
Julietas e Matildes
Margaridas e os Antônios
Tantos outros campesinos
Com diversos vãos destinos
Nos olhares dos campônios
Lavradores, lavradoras
Dos senhores nem sinal,
O meu canto é sempre igual,
Almas puras sonhadoras
O meu verso é para quem
Sabe o que esta dor contém.

16

“Das contas de outro sofrer,”
Das andanças pela terra
Onde o sol na lua encerra
A beleza sem poder
Sem diversa qualidade
Do que sempre é tal igual
Quando amor diz ritual
Canto sempre à liberdade
Na cidade, vila e campo
No sertão, nas pradarias
Onde estrelas são meus guias
Na esperança agora acampo
E vivendo sem temor,
Socialista, sim senhor!

17

“E os livros, rosários meus”
São as armas de quem luta
Vencendo esta força bruta
Caminhando a cada adeus
Mortos tenho nesta senda
Na seara mais fecunda
Solidão quando me inunda
A vontade que se atenda
Com terror e com bravura
Sem temor armas expostas
As feridas formam crostas
Na batalha com ternura
Nas clareiras, nos anseios
Sanguinários sem receios.

18

“Que não acredita em Deus”
Nem nos deuses dos engodos
Os caminhos, digo todos
E não vivo pelos breus
Se eu batalho pela sorte
Se esta luta se bendiz
Coração tanto aprendiz
Procurando sempre um norte
Não temendo algum canhão
Nem tampouco a baioneta
A minha alma se completa
Nesta imensa multidão
Onde a fome dita a guerra
E a justiça não se encerra.

19

“Ofereço-o àquele amigo”
O meu sangue, minha glória
E decerto esta vitória
Servirá como um abrigo
A quem possa sem temor
Encontrar nesta batalha
Mesmo o fio da navalha
Traduzindo o puro amor,
Caminhando por searas
Mais diversas doloridas
Transformando nossas vidas
Quando em lutas escancaras
O futuro em nossas mãos
Cultivando belos grãos.

20

“Este meu rosário antigo”
Que carrego no meu peito
Como um sonho insatisfeito
Cada curva outro perigo
Procurando algum apoio
Onde tanto poderia
Perfilar a fantasia
Separar trigo de joio
E seguir em noite mansa
Contra os medos mais atrozes
Pois ouvindo nossas vozes
A esperança nos alcança
E prepara outro momento
Onde cesse este tormento.

21

“Todo tecido de renda”
Que fizesse com ternura
Quem deveras já procura
Tanto sonho que se atenda
Com sabedoria plena
Com a lucidez da luta
Quem conhece não reluta
Quando a sorte já lhe acena
E ao mudar a caminhada
Pretendendo um novo sol
Dominando este arrebol,
Noutro rum, nova estrada
Traduzindo o socialista
Delirar que já se avista.

22

“O meu vestido-de-noiva,”
Lua branca em pleno céu
Esperança deixo ao léu
Tendo a sorte como noiva
Quem procura o casamento
Bebe a história e nada teme
Nem o corte que inda algeme
Nem o medo do tormento
Mesmo quando houver tal bruma
Na presença de um vulcão
Liberdade é qual tufão
A batalha não esfuma
Sangue escorre, medo doma,
Não conheço uma redoma.

23

“Deixo o meu vestido branco,”
Ao amor que tanto quis
E se queres ser feliz
Necessitas ser mais franco
Nada cale a tua voz
Nem o medo nem tortura
Nem tampouco esta amargura
Nem a fera mais atroz
Liberdade é nossa estrela
Nela guio cada passo
O futuro agora traço
Na certeza de contê-la
Rasgo céus no meu corcel
Galopando em fogaréu.

24

“Sonhando algures uma lenda,”
Aonde tanta luz se faz
O meu caminhar mais audaz
Que a todo teu desejo atenda
Percebendo então cada dia
Como se pudesse sonhar
Muito além do quanto o luar
Traduziria a poesia
Numa tortura e na amargura
Ao vencer com toda certeza
Não encontrará correnteza
Nem tampouco seja a procura
Em vão aquilo que te impeça
Encontrar no sol a promessa.

25

“Rapariga sem ternura,”
Sem amor e sem carinho
No teu colo me avizinho
Desvendando com brandura
Cada parte deste sonho
Libertário coração
Nele toda a direção
Possa ter claro e risonho
Caminhar para o futuro
Nesta senda verdejante
Tanto amor num raro instante
Neste canto em procuro
Ter nas mãos a senda rara
Que esta liberdade aclara.

26

“E àquela virgem esquecida”
Pelas benesses deste sonho
Deixo o coração mais risonho
Ao se perceber assim vida
Aonde tanto se quis a sorte
Não poderia haver tristeza
E deveras esta certeza
Dia a dia já nos conforte
Podendo saber desta luz
Quem caminha com olhos mansos
E vagando pelas estrelas
Com a força de poder tê-las
Encontrará no fim remansos
Aonde toda a glória traz
Uma vida perfeita em paz.

27

“Em cristal, límpido e puro”
Minha herança para quem
Sabe o quanto já convém
Neste encanto que procuro
Caminhar de peito aberto
Ao vencer a tempestade
Sem ter nada que degrade
Esta luta eu não deserto
Sendo assim um sonhador
Dos meus dias, meses, anos
Não suporto desenganos
Aflorando sempre amor
Onde tanto se fez treva
Liberdade agora ceva.

28

“Deixo os meus brincos, lavrados”
Com suor, sangue e batalha
Quem deveras nunca falha
Já sabendo dos recados
Vence as guerras mais terríveis
Não encontra mais temores
E nas sendas dos amores,
Planta os sonhos mais incríveis
Bandoleiro coração
Sabe as tramas, teias tantas
E decerto sempre encantas
Com a força e a decisão
Deixo a lua como guia
E nos dedos poesia...

29

“Do bairro mais velho e escuro,”
Das entranhas duros guetos
Ao fazer os meus sonetos
Minha sorte já procuro
No caminho mais audaz
De quem tanto batalhava
Uma alma sendo escrava
Não conhece nunca a paz
E se faz além de tudo
Mensageira de uma luta
Vencendo esta força bruta
Mas enquanto não me iludo,
Vagabundo coração
Na justiça a direção.

30

“À prostituta mais nova”
Ou à velha carpideira
Esperança uma bandeira
Que a verdade sempre aprova
E o desejo de vingança
A vontade de lutar
Enfrentando sem parar
Quando à fúria já se lança
Coração aventureiro
De quem tanto ora porfia
Tendo em si a fantasia
Sabe o rumo verdadeiro
Socialismo e desde já
Minha estrela guiará.

VALMAR LOUMANN
 
HOMENAGEM A ALDA LARA

VERSOS TRISTES

 
Vestindo eterno luto após a guerra
Aonde se perderam esperanças
E quando mais distante tu te lanças
O coração ausente se desterra

Beleza sem igual ainda encerra
Os dias que pululam nas lembranças
E como se ainda fôssemos crianças
Brincando em liberdade. O tempo cerra.

As nuvens no horizonte anunciando
Enquanto as aves seguem ledo bando
Deixando solitária quem queria

Viver ao menos gozo que superno
Agora em versos tristes eu externo
Deixando para trás a fantasia.

VALMAR LOUMANN
 
VERSOS TRISTES

SAUDAES DE TI

 
Do teu ser distante muitas vezes
Procuro por mim mesma e nada sei,
Aonde e em que mistério eu mergulhei
Que encontro tão somente estes reveses?

Amor já se perdeu há tantos meses
Não posso decifrar para qual grei
Aquele que decerto imaginei
Vagando pelos mares portugueses

E agora só restando a dor e o sal,
Distante de meu sonho: Portugal,
Em terras brasileiras sigo só.

Do amado Cabo Verde nem sinal,
A solidão perfaz seu ritual,
Não resta do passado sequer pó...

VALMAR LOUMANN
 
SAUDAES DE TI

POR QUE TE AMAR ASSIM?

 
Meus olhos te procuram, mas não vêm
A vida se transcorre em tanta dor
Pudesse novamente recompor
Caminho que percorro sem ninguém.

Dos sonhos mais audazes sigo aquém
Na ausência de teus braços, sem calor
Restando tão somente este torpor
Adormecido sonho busca alguém

Que possa traduzir felicidade,
E enquanto a solidão mais alto brade
A voz de uma esperança já se cala.

Olhando para longe, no horizonte
Não tendo sequer raio que desponte
Minha alma desta espera em vão: vassala...

VALMAR LOUMANN
 
POR QUE TE AMAR ASSIM?

FRÁGIL

 
Prováveis os caminhos que percorro
E neles percebendo algum oásis
Que tantas vezes dizes e não trazes
Qual fosse um vão pedido de socorro

Vencer as minhas ânsias e teimar
Por entre as mais diversas tempestades
Enquanto tão distante ainda brades
Não posso mais conter em mim luar

E sigo desdenhosa e tola sina,
Por vezes a menina já renasce
Ou mostra esta volúpia noutra face
E o seu próprio futuro determina,

Mas sei o quão sou frágil e mesmo assim
Lutando sem descanso até o fim...

VALMAR LOUMANN
 
FRÁGIL

IV - HOMENAGEM A OLAVO BILAC

 
IV

Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramaria

Não atravessa nunca a luz do dia,
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado,
Como a floresta secular, sombria...

Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora...

Palpitam flores, estremecem ninhos, . .
E o sol do amor, que não entrava outrora,
Entra dourando a areia dos caminhos.

Olavo Bilac

1

“Entra dourando a areia dos caminhos”
O sol se transformando em guia e fonte,
Reinando sobre a linha do horizonte
Guiando os tantos pássaros aos ninhos.
Forrando a terra em áurea maravilha
Azulejado céu se torna imenso,
E quando neste brilho paro e penso,
Minha alma em luzes fartas também trilha
Seguindo cada raio na manhã
Deveras tão fantástica que vejo,
Iridescentes lumes num lampejo,
E a vida recomeça o seu afã.
E tendo sob os olhos tal beleza,
Verseja dentro em mim a natureza.

2

“E o sol do amor, que não entrava outrora,”
Ao perceber distante dos meus olhos
Jardim que agora entranha-se em abrolhos
Enquanto esta aridez tudo devora.
Encontro sob os raios deste sol
Sobeja maravilha que, infinita
Deveras transformando uma desdita
Traçando em minha vida, este farol.
Percebo que se emana dentro da alma
Prismático e sem par, raro espetáculo,
Não tendo mais sequer qualquer obstáculo,
Imensa claridade já me acalma,
Excelso dia, eu sinto me tocando,
Num ar suave e manso, claro e brando...

3

“Palpitam flores, estremecem ninhos,”
Envoltos pela intensa claridade
Tornando bem mais bela a realidade,
Não tendo mais meus dias tão sozinhos,
Permito-me sonhar e em cada sonho
Deveras se pressente um Paraíso,
O passo destemido e mais preciso,
Num raro amanhecer que ora componho,
E vendo-te tão bela em luzes fartas,
Rondando a minha mente, fantasias,
E enquanto com prazeres tu me guias
As dores e os temores; já descartas.
Seguindo cada passo rumo à paz
Que amor, sem ter limite; quer e traz.

4

“Tinge o cimo das árvores a aurora’
Derrama sobre a Terra em áureos tons,
E os pássaros entoam vários “C
Enquanto a Natureza se decora.
Pudesse ter deveras a certeza
Do quanto se faz raro este momento,
Teria pelo menos um alento,
Gerando dentro em mim tal fortaleza
Que nada impediria o meu caminho
Aonde se pensara em dor e tédio,
O amor se demonstrando este remédio
Trazendo a paz aonde ora me aninho.
Seguindo cada passo desta luz,
O brilho em teu olhar se reproduz...

5

“Soltam festivamente os passarinhos”
Vagando por diversas direções,
Nos cantos mais fantásticos me expões
Belezas que se espalham nos caminhos,
E quando me percebo mais feliz
Vivendo desta forma, sem temores,
Sabendo em meu canteiro tantas flores
E nelas farto amor que me bendiz.
Tomado por carinhos, sigo em frente
Deixando no passado a dor imensa,
E quando tenho em ti a recompensa,
O mundo se transforma, num repente.
E sinto neste céu tal festival
De um canto mavioso, sem igual...

6

“Hoje, entre os ramos, a canção sonora”
Dos pássaros trazendo na alvorada
A imagem tão sobeja quão dourada
Nesta manhã divina que se aflora.
Mergulho em cada raio fulgurante
Que emana-se tomando todo o espaço
E quando neste sol divino eu traço
Porquanto em tal beleza se agigante
O sonho mais audaz e a divindade
Trazendo para tantos, luz e vida
A história noutras eras já perdida
Agora de esperança enfim se invade.
Tornando bem mais belo o meu jardim,
Derrama maravilhas sobre mim...

7

“Como a floresta secular, sombria”
A vida se mostrara em árdua cor,
E tendo tão somente o desamor,
A sorte a cada corte desafia,
E eu tento vislumbrar alguma sorte
Diversa da que tanto me maltrata,
A vida se por vezes é ingrata
Sem ter sequer quem mesmo nos conforte,
Percebo ainda ao longe num relance
O brilho deste sol que se aproxima
E nele com certeza nova estima
Tocando minha pele em belo alcance.
Lançando o meu olhar neste horizonte
Permito que este amor, novo, desponte...

8

“Tinhas o coração ermo e fechado”
Depois dos vendavais e tempestades,
A vida traz correntes, frias grades,
Porquanto ainda vivo o teu passado,
Mas quando nos meus braços te entregaste
Mudando a direção dos ventos, vi
Que toda esta pujança havia em ti
Gerando com a dor raro contraste,
Bebendo cada gota deste encanto,
Já não se vê mais dores no caminho,
E quando nos teus braços eu me aninho,
Um pássaro liberto, enfim, eu canto.
E sei que tu também segues tranqüila
Na glória que este amor, raro, destila...

9

“Assim também, da luz, o amor privado”
Jamais encontraria amanhecer
E tendo mais distante algum prazer
A dor já dominando rumo e Fado.
Pudesse ter nas mãos a minha sorte
Não haveria tanto sofrimento,
E quando nos teus braços eu me alento
Encontro quem deveras me conforte,
Trazendo lenitivo às tantas dores
Mudando a direção, em paz prossigo,
E tendo neste amor um raro abrigo,
Seguindo cada passo aonde fores,
As flores renascendo no canteiro,
Num sol sobejo e claro, verdadeiro...

10

“Não atravessa nunca a luz do dia,”
A sombra do que fora desamor
Ao mesmo tempo em ti percebo a cor
Que o coração deveras já recria
Matizes tão diversos da emoção
Alheias fantasias do passado,
Agora ao ver meu rumo ensolarado,
Jamais conhecerei a solidão.
Vestindo de ilusão meu peito eu sigo
Enfrentando as tempestas mais vorazes
E quanto mais amor, querida trazes
Maior a sensação de imenso abrigo.
Não deixe que este encanto finde, pois,
É dele ora o futuro de nós dois...

11

“Do tigre, e cuja agreste ramaria”
As garras com os ramos misturados
Caminhos que pensara abençoados
Transformam a beleza em agonia.
A fera se mostrando atocaiada
Floresta impenetrável, desamores,
Aonde se pensara colher flores,
A morte sendo assim anunciada.
Vencido pelo medo, nada tenho
Somente este vazio dentro da alma,
Nem mesmo uma alegria inda me acalma,
Pois sinto quão é frágil tal empenho.
Do tigre, da floresta, do terror,
O fim do que pensara eterno amor...

12

“Onde apenas, horrendo, ecoa o brado”
Da fera que prepara-se em espreita
A sorte malfadada não aceita
Destino pelos deuses já traçado.
O peso do viver se acumulando
Vergastas me cortando dia a dia,
Aonde se pensara em fantasia,
Em tempo mais suave, ameno e brando
Imenso temporal ora aproxima
E deixa em polvorosa a Natureza,
Lutando contra a intensa correnteza,
Sem ter sequer o sonho que redima,
Prepara-se o final da minha história
Deveras dolorida e merencória...

13

“Virgem do passo humano e do machado”
Florestas dentro da alma mais ferozes,
Jamais ouvindo enfim dos sonhos vozes,
Amor há tanto tempo abandonado.
Vivendo sem saber sequer ternura,
O corte se prepara a cada instante,
E o que pudera ser mais deslumbrante
Transforma qualquer brilho na loucura
Que doma e não permite a caminhada
Daquele que se fez um eremita,
A sorte se transforma na desdita,
Jamais reconhecendo uma alvorada,
A negritude imensa do arrebol,
Impede o brilho farto de algum sol.

14

“Como a floresta secular, sombria,”
Minha alma se perdendo em turvas águas
Trazendo tão somente frias mágoas
Do que vivera outrora em fantasia.
Não tendo com certeza a boa sorte
Que tanto desejara quem sonhava,
Apenas nos meus olhos, fogo e lava,
Seguindo cada passo sem suporte.
Pressinto assim o fim do sonho e então
Depois da tempestade sem bonança
Restando algum resquício de esperança,
Quem sabe novos dias me trarão
Após o sofrimento e o desprazer,
O sol num belo e claro amanhecer!

VALMAR LOUMANN
 
IV - HOMENAGEM A OLAVO BILAC

HOMENAGEM A SAFO

 
1

“em taças de ouro.”
Beber à farta
Sorte descarta
Ancoradouro
Vivo tesouro
Nunca se aparta
Relendo a carta
De vós me douro,
Seria tanto
Quanto tivesse
Imensa messe
Sobejo canto
Sabendo enfim
Do amor em mim.

2

“que tão graciosa serves para a festa,”
E tanto quanto pode engalanais
Vencendo com ternura os temporais
O amor quando demais sempre nos gesta
Não posso perceber qualquer tempesta
Se em tanto tempo vivo tenho um cais
E nele com certeza derramais
Beleza sem igual ao sonho empresta
A senda mais sublime dita a vida
E dela se prepara a tão ungida
Vontade de seguir vosso caminho,
E quando mais encontro a correnteza
Amor se transformando em fortaleza
Dos deuses, neste instante eu me avizinho...

3

“e dá-me um pouco desse claro gozo”
Sabendo desde quanto muito quer
Quem conhecendo a fundo uma mulher
Desfruta deste mar que é tão formoso
E bebe cada gota e tanto sabe
Diversidade transformando então
O quanto posso neste tanto ter
Vivendo sempre o divinal prazer
Singrando tenras luas cevo o grão
Sobeja glória divindade em vós
Servindo tanto quanto posso além
E sei da farta luz que agora tem
Quem caminhando em senda assim feroz
Desvenda cada passo rumo ao quanto
O amor se mostra sempre em raro encanto.

4

“Apanhando grinaldas, vem, ó Musa”
Traçar com sonhos fartos; noites belas
E tanto quanto posso no amor revelas
Belezas tão sobejas dor escusa
E sinto ferve em nós vontade tanta
Diversa luz em tom melhor e raro
E quando amor além em ti declaro
Uma alma bebe a sorte e então já canta
Ao vislumbrar então clarão imenso
Sabendo sempre deste tanto amor
E nele vivo com fartura a flor
Plantada em luz ao se mostrar intenso
Desejo traça a sorte quando vejo
Em ti sobeja glória em tal desejo.

5

“igual ao mel”
Bebo da luz
Que reproduz
Caminho e céu
Desvendo o véu
Em contraluz
Tanto seduz
Amor fiel
Reserva a sorte
Impede o corte
Transcendo quando
Transformações
Agora expões
Nos dominando...

6

“e os anetos exalam seu aroma”
Tomando em minhas mãos tanto carinho
E nele com certeza se me aninho
A vida em tempestade já se doma,
Não posso prosseguir sem ter a soma
Da qual e pela qual jamais sozinho
O mundo transformando pão e vinho
Com força a cada passo ora me toma,
Resisto a tanto amor? Nem mesmo quando
Pudesse resistir, mas me adentrando
O quanto posso ainda acreditar
No verso mais feliz, a dor se aplaca
O amor fincando em mim a mansa estaca
Permite novamente navegar.

7

“desabrocham as flores do carvalho”
E delas eu percebo a bela senda
Aonde tanto sonho já se atenda
No quanto em farta luz em me amealho,
Sentindo assim a sorte a cada atalho
O quanto do prazer amor desvenda
Não posso mais saber qualquer contenda
Se em tanto brilho nunca me retalho
Vagando por caminhos mais diversos
Usando como bússolas meus versos
Dispersos dias traço em luz enorme,
E tanto poderia ser assim
Amor domando cedo o meu jardim,
Do quanto desejara sempre informe.

8

“Aqui num campo onde os cavalos pastam”
Risonhas maravilhas, fontes claras
E tanto quanto amor tu me declaras
Os dias mais doridos já se afastam
Os templos divinais só não me bastam
Vivendo com ternura tais searas
As sortes mais audazes; tanto amparas
As dores vão além e se desgastam.
Saber da plenitude deste encanto
E quanto mais feliz, eu sei e canto
O mundo mostra o brilho feito em sonho
O quanto posso ter até reponho
Cevando a glória e o fausto aonde posso
Sentir divino encanto teu e nosso...

9

“uma sombra de rosas; cai o sono”
E quanto me permito crer no todo
A vida se traçando em tanto engodo
Gerando a cada passo o quanto adono
Do verso frágil manso tento e clono
Viver fartura invés de dor e lodo
Pudesse ter ao menos deste modo
O amor querido e na verdade um dono
Sabendo sempre o que talvez pudesse
Sentir com toda a fúria a imensa messe
Da qual e pela qual mergulho ainda
Vivenciando o passo enquanto audaz
E dele moldo a voz porquanto faz
A sorte fera que este amor deslinda.

10

“em meio aos ramos; cobre este lugar”
O corte dita o meu caminho em paz
E dele todo mostra o quão mordaz
O passo feito enquanto jogo ao mar
A prenda lúdica traçando amar
Se dela vejo o meu caminho e traz
O quanto posso ou mesmo sou capaz
E neste tanto quanto faço o altar
Ao percorrer o meu sobejo mundo
E quanto posso e mesmo enfim me inundo
Do sonho vivo em tempestade atroz
Sabendo deste sempre fero rio
Aonde tento o verso e assim desfio
Buscando tanto percorrer a foz.

11

“Aqui a água fria rumoreja calma,”
E dela mesma se produz o canto
Enquanto tento este possível manto
Aonde todo fim traduzindo acalma
E dele sinto mesmo terna luz
Vencida pelo anseio medo ou corte
E tento esguia noite feita um norte
Aonde sempre ao adentrar conduz
Traçando brusco caminhar presente
Seguindo a sorte deste tosco mar
E nele posso então viver o amar
Diverso deste quando tanto sente
A quem a noite transgredindo o sonho
Deveras muito mais do quanto ponho.

12

“das folhas trêmulas
Dos dias tais
Meros cristais
Do mar anêmolas
Escassas vênulas
Riscos iguais
Aos magistrais
Que ora em fórmulas
Ditas prefácio
Amor? É fácil?
Bem sabes não
Assim se vê
Sem ter por que
Nem direção.


13

“o odor do incenso”
Amor refaz
A sorte audaz
Caminho imenso
E quando penso
Na minha paz
Sede voraz
Não recompenso
No tanto posso
No quanto faço
Se tanto é nosso
O que não traço
Vivo remoço
E me refaço.

14

“e dos altares sempre se levanta”
A sorte tanta de quem sabe a luta
E quando audaz se jamais reluta
Vestindo enfim esta terrível manta
E dela vejo o que se faz e espanta
Quem tanto quis e na verdade astuta
Percebe quando o caminhar disputa
Com quem deveras ao sentir quebranta
Pereço enquanto posso tanto ou menos
Viver os dias que julguei amenos
Ao mergulhar neste delírio insano
E quando tento decifrar meu rumo
Os erros fartos com certeza; assumo
E sei deveras o meu próprio engano.

15

“ao redor há um bosque de macieiras”
E nele sei do caminhar disperso
Aonde tanto poderia um verso
Falar da noite em que tu foges. Beiras.
As sortes frágeis e deveras queiras
Falar do quando se imagina imerso
Quem pensa mesmo que se vê diverso
Do quanto podem noites vãs, bandeiras
E sinto cedo o tal terror sublime
Aonde amor se mostraria um crime
E sendo assim ao mergulhar além
O quanto posso, mas jamais se crê
No tanto quando procurar por que
Embora saiba se esta luz convém.

16

“Eu vos rogo, ó cretenses, vinde ao templo”
E sabei vós o que deveras sinto
Neste vulcânico caminho extinto
Enquanto amor ainda aqui; contemplo,
Reflete então esta maior beleza
E nela vejo o que não sei nem tento
Calando agora em tanto amor o alento
Sentindo mesmo ter tão grã pureza
Quem na verdade ao se saber imensa
Conhece o canto pelo qual me expresso
O verso sáfico ao trazer começo
Do encanto tal que deste amor convença
A sorte rara pela qual a messe
Sobeja glória em que este sonho tece.

VALMAR LOUMANN
 
HOMENAGEM A SAFO

JUVENTUDE

 
A antiga majestade em ilusão
Criando este cenário multicor
Propício para o insano e belo amor
Trazendo as alegrias que virão,

E após imensos sóis, farto verão
Eu vejo em meu outono sem calor
O que pensara meu, se decompor
Deixando só resquício e negação.

Aquela garotinha agora sabe
Que tudo se transforma e antes que acabe
Momentos devem ter a plenitude

Sem medos nem pudores, vãs algemas,
Por isso meu amado nada temas,
Vivamos com vigor a juventude.

VALMAR LOUMANN
 
JUVENTUDE

O AMOR

 
Uma “aventura errante” e nada mais
O amor entranha noite bebe dias
E nele vês a luz que ora te guias
Em meio aos seus delírios magistrais

Às vezes bancarrota, noutras cais
É pai das ilusões e fantasias
Invade sem pergunta as cercanias
Expressa maravilhas rituais

E traz o sofrimento prazeroso,
Que embora nos permita riso e gozo
Também nos dilacera e nos maltrata.

A força incomparável de um amor,
Este anjo que é maldito e sedutor
Pois ele; um Deus satânico retrata..

VALMAR LOUMANN
 
O AMOR

HOMENAGEM A HUMBERTO DE CAMPOS

 
O Irapuru

Dizem que o irapuru, quando desata
A voz - Orfeu do seringal tranqüilo -
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata,
Tudo se queda, comovido, a ouvi-lo:
O canoro sabiá susta a sonata,
O canário sutil cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave;
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave:

O que mais no fenômeno me espanta,
É ainda existir um pássaro no mundo
Que se fique a escutar quando outro canta!

Humberto de Campos

1

“Que se fique a escutar quando outro canta”
Assim num ato nobre e tão gentil,
Pudesse renovar-se o que partiu
Gerando sobre a sorte, rara manta.
Aos píncaros eleva-se tal sonho
E nele se permite um novo templo,
Além do que em verdade já contemplo,
Usando da emoção, assim proponho.
Versando sobre a glória de quem sabe
E vive a poesia com alento,
Por vezes, solitário me atormento,
No quanto uma ilusão, tola, desabe.
Assim quando te leio, caro amigo,
O que há dentro de mim; sentir. Consigo...

2

“É ainda existir um pássaro no mundo”
Que possa traduzir em raro canto,
O quanto a vida gerando encanto
E dele com certeza já me inundo,
Canora fantasia traça o todo,
E deixa para trás o sofrimento,
No quanto ao percebê-lo, enfim me alento,
Diverso do que eu vivo; imenso lodo,
Saber ser mais plausível do que quando
Negara ao meu caminho a boa sorte,
Ouvindo o passarinho que conforte
Meu mundo noutra senda se tomando,
Percebo quão real a divindade,
No som que mavioso; tudo invade.

3

“O que mais no fenômeno me espanta,”
Da vida refazendo da vida
Na eternidade assim já percebida,
Mutável caminhar em força tanta.
Alenta-me pensar na primavera
Após a primavera do passado,
O sonho noutro sonho recriado,
É mais do que talvez uma alma espera,
Pretensas emoções, dias sombrios,
Mortalha do viver em tais granizos,
Mas quando se percebem paraísos,
Reato da paixão, diversos fios.
E tento após a chuva e o temporal,
Momento mais feliz, no meu final.

4

“Não é, por si, o alto poder dessa ave”
Levando aos mais diversos sonhos que
Ainda se transborda quando vê
O encanto que jamais nada inda trave,
Assim ao perceber quão soberano
O canto diluído pelos ares,
É como se pudesse nos altares
Viver além do medo e desengano,
Singrando os mais sobejos mares belos
Rasgando os céus em naves fabulosas,
Sorvendo este perfume, raras rosas,
Tomando a consciência de castelos
Traçados pelas notas musicais
Além do que pensara. Magistrais!

5

“O que, porém, me faz cismar bem fundo”
Além de um tão perfeito caminhar,
Vencendo esta distância a se mostrar
Nas ânsias mais sutis das quais me inundo,
Bebendo em tal fartura, esta beleza
Realça-se deveras cada sonho,
E quando ao mais sobejo me proponho,
Percebo quão divina esta grandeza.
Escassas luzes tive no passado,
E agora ao perceber tanta fartura,
Já não concebo a vida tão escura,
Caminho com bravura desvendado,
Proclamo em voz suave o quanto quero
De um mundo mais audaz, porém sincero.

6

“Eu próprio sei quanto esse canto é suave;”
E dele me entranhando maravilhas,
Aonde com certeza sei que brilhas
Felicidade além de simples nave.
O gesto ritual de uma amizade
Permite que se veja claramente
Beleza sem igual, nada desmente,
E nela com certeza uma alma brade
Além do quanto pude conceber,
Numa ânsia maviosa em luzes feita,
Assim a soberana e mais perfeita
De tantas fantasias posso ver,
Sabendo da existência deste canto,
E dele desfrutando todo encanto.

7

“O canário sutil cessa o pipilo”
Ouvindo o bardo em canto incomparável,
Assim sorvendo além do imaginável,
Suprema maravilha em ti destilo,
E crendo ser possível magnitude
Suprema no teu canto sedutor,
Vencido pelas ânsias de um amor,
Permito que meu rumo se transmude
E sinto ser feliz quem ouve enfim
A magistral canção que agora entoas,
Gerando maravilhas nestas loas
A florescência toma o meu jardim,
E a lua emoldurando este cenário,
Acompanhando o encanto do canário.

8

“O canoro sabiá susta a sonata,”
Tocado por tamanha sedução
Beleza se aflorando desde então
Tomando num momento toda a mata,
Soberana e sobeja fantasia
Tocando o coração de cada ser,
Transcende à própria essência do prazer
E nela toda a sorte se porfia,
Deidade se percebe a cada canto,
Enternecida voz se entorna e toma,
Enquanto a fria fera já se doma,
Sorvendo cada gota deste encanto,
E toda a Natureza embevecida
Aplaude a divindade feita em vida.

9

“Tudo se queda, comovido, a ouvi-lo”
Amigo quando entoas cada verso
Tomando em luzes fartas o universo,
O próprio sol de ti, mero pupilo.
Ainda se percebe no teu canto
O quanto Deus se fez além do todo,
Por mais que a vida trace algum engodo,
Em ti de farta luz, eu me agiganto,
Pudesse eternizar cada segundo
Sentindo a raridade feita em som,
Sabendo quão raríssimo tal dom,
Tocando em plenitude todo o mundo,
Magnânimo cantor, vate sobejo,
Contigo um novo tempo em paz prevejo.

10

“Quando o canto, veloz, muda em cascata,”
O templo se refaz como se fosse
Além de um tempo claro, manso e doce,
A sorte do passado se desata
E gera este futuro em glórias tantas
E bebo cada gota da esperança
Na qual minha alma agora já se lança
Enquanto em perfeição sublime cantas.
Pudesse ter somente este momento
E nada mais bastando para mim,
Ao florescer divino este jardim,
De toda a tempestade me apascento,
Abençoada voz tomando conta
Para uma eternidade em luz aponta.

11

“Em derredor agrupa-se na mata”
Fartando-se do brilho desta lua,
Catuliana imagem rara e nua,
Divina fantasia desbarata,
E quando eu a percebo em rara luz,
Teu canto em magnitude plena traça
Sobeja maravilha aonde escassa
Outrora e agora alquímica produz
A soberana glória do existir,
Toando uma viola sertaneja,
Além do que talvez ainda veja,
Pressinto a divindade no porvir,
Traçada pelas notas sob o brilho
Da deusa em cujo rastro, prata, trilho...

12

“O passaredo, rápido, a segui-lo,”
Qual fossem mil falenas vendo a luz,
Fantástica emoção que me conduz
Tocado pelo belo deste estilo,
E vendo a fonte rara deste encanto,
Traçando cada passo rumo a um Deus
Matando os velhos dias quando ateus,
Não pude perceber divino canto,
E tento redimir os meus enganos,
Mudando num momento minha sorte
E tendo em tal beleza novo Norte,
Já não concebo mais antigos planos
E sinto ser perpétua esta expressão
Tornando o que eu vivera outrora vão.

13

“A voz - Orfeu do seringal tranqüilo –“
De um bardo que ora entoa esta cantiga
Permite quanta paz onde prossiga
Vencendo qualquer dor que inda destilo,
Servindo ao mais perfeito sedutor,
Minha alma se demonstra embevecida,
E vendo para os medos a saída
Percebo a magnitude de um amor,
A flórea senda expressa esta certeza
E dela se gerando etérea luz,
À sideral beleza me conduz,
Levado pela imensa correnteza.
Traçando com meu verso mais singelo
Usando da emoção, sutil rastelo.

14

“Dizem que o irapuru, quando desata”
Seu canto sob a lua magistral
Domina com certeza todo o astral,
E invade com ternura a imensa mata,
Assim também ouvindo a tua voz,
Percebo a maravilha deste encanto,
E bebo a fantasia e me agiganto
Atando com os deuses firmes nós.
Vencendo os meus temores, eternizo
A sorte de poder estar contigo,
Singrando este oceano que persigo,
Deixando no passado algum granizo,
E quando me mostrando inteiro a nu,
Concebo-te qual fora um irapuru...

VALMAR LOUMANN
 
HOMENAGEM A HUMBERTO DE CAMPOS

As Artes São Irmãs HOMENAGEM A GONÇALVES DIAS

 
As Artes São Irmãs

Gonçalves Dias

As artes são irmãs, e os seus cultores
Do fogo criador nas mesmas chamas,
Perante o mesmo altar, coroam-se, ardendo.
A mesma inspiração, que acende o estro,
Guia a mão do pintor quando debuxa
Do rosto nas feições o brilho interno,
Dá linguagem sublime à estátua muda,
Ou lânguida na lira se transforma
Em sons cadentes, que derramam n'alma
Idéias do prazer — do mal no olvido!
O mesmo entusiasmo as vivifica,
São iguais, são irmãs no amor do belo!

1

“São iguais, são irmãs no amor do belo!”
As Musas que me inspiram em meus versos,
Sentidos muitas vezes tão diversos,
Mas neles sentimentos eu revelo.

Melodias que chegam do passado,
Momentos que vivi, outros nem tanto,
Mas quando com ternura, em tento e canto,
Algum pedaço meu é revelado.

Os sonhos se traduzem por vontades,
Às vezes saciáveis, noutras não,
Porém eles deveras mostrarão
As sombras de prováveis realidades.

Assim do imaginário eu posso ver
Um pouco do que existe no meu ser.

2

“O mesmo entusiasmo as vivifica,”
Vontades e querências recolhidas
Durante as várias faces, tantas vidas
Aonde o pensamento se edifica.

Variantes entre tantos pensamentos,
Sentidos mais dispersos, suas somas
Permite este mosaico aonde tomas
As tuas decisões; dores e alentos.

Te entregando sem medo aos temporais
Verás neles lições para o que resta
Da vida mesmo quando mais funesta
Navegação ensina onde há um cais.

Assim nas discrepâncias se concebe
O ser que em ti agora se percebe.

3

“Idéias do prazer — do mal no olvido”
Enquanto a dor se torna mais presente,
Assim quando do gozo a vida ausente
Permite imaginar-se tão sofrido.

Mas quando uma alegria nos invade,
Decerto se esquecendo pouco após,
O rio se perdendo noutra foz,
Lembramos do que fora tempestade.

Não deixe que isto faça com que tudo
Pareça bem diverso, noutro fato,
Se em dores tão somente eu me retrato,
Deveras, sobre a vida eu já me iludo.

Caminho sobre brasas; sei das dores,
Mas também sei colher, da vida, flores...

4

“Em sons cadentes, que derramam n'alma”
Encontro uma real satisfação,
Vivendo claramente uma estação,
Realidade dói? Também acalma.

As cores de um outono, invernal frio,
Primaveril beleza, imenso sol,
O quanto se transforma este arrebol,
É como perceber um desafio.

Envelhecer com arte e galhardia,
Saber da mocidade com fulgor,
Matizes tão diversos de um amor,
Que a cada novo tempo, sempre guia.

E ter uma certeza nesta vida
Cada etapa terá que ser cumprida.

5

“Ou lânguida na lira se transforma”,
Ou trágica se faz a cada passo,
O quanto muitas vezes me desfaço,
Impede que se tenha a mesma forma.

Dicotomias trago em cada passo,
E nelas a melhor das decisões
Por vezes bem diversa do que expões,
Nem sempre o melhor rumo, ainda traço.

E vivo sem temer as tempestades,
Nefastas? Muitas vezes redentoras,
As horas mais doídas, sofredoras
Aquelas que nos dizem mais verdades.

Servindo de repasto para a dor,
Um novo amanhecer saber propor...

6

“Dá linguagem sublime à estátua muda,”
Cada momento aonde se entregando
Não sei se em temporal ou ar mais brando,
O tempo tão instável se transmuda.

E quando aprendo dele sem terrores
Amadureço em mim a própria morte,
E nela algum descanso que conforte
No renovar da vida, risos, dores.

Existo e sei que basta esta existência,
Se dela eu perceber quem mesmo sou,
Já sei qual o destino pr’onde vou,
O fim é do começo, a conseqüência.

Renova-se destarte eternidade
Gerando com fulgor, diversidade...

7

“Do rosto nas feições o brilho interno,”
Diverso do que às vezes se aparenta,
Aonde se diz paz é violenta
E aonde se diz glória, pleno inferno.

Somar as nossas tantas variantes,
Seguir por vezes mitos ledos, falsos,
Comuns na caminhada tais percalços,
Mudamos nosso rumo por instantes.

E quando se aproxima o fim da história,
O quanto nós já fomos, padecemos,
Permite ao marinheiro tantos remos,
Ou traçando uma linha merencória.

Às vezes num sorriso, lacrimejo,
E em lágrimas sacio o meu desejo...

8

“Guia a mão do pintor quando debuxa”
A soma de fatores mais diversos,
Assim quando eu componho tantos versos,
É como se imergisse em vária ducha.

Ourives da palavra, um escritor,
Usando seus disfarces nos permite,
Se acreditar além de algum limite,
Nas tramas deste insano sonhador.

O corte se bem dado do buril,
Traçando com beleza uma escultura,
Mas quando a mão se mostra fria e dura,
Por vezes o cenário se faz vil.

Não creia no que digo, mas me creia,
A mão traça diversa ou una teia.

9

“A mesma inspiração, que acende o estro,”
Por tantas vezes traça o desespero,
E quando noutra sanha me tempero,
Por vezes verdadeiro ou mais canhestro.

Se o peso do que vivo influencia
Talvez o que não viva pese mais,
Criando do vazo, os temporais,
Palavra dita a norma e cadencia.

Apego-me ao não ser enquanto sigo,
E sigo sem saber quem mesmo sou,
Errático caminho se mostrou
Deveras muitas vezes meu abrigo.

Ilusionista, sim, porém nem tanto,
Retratando minha alma quando canto?

10

“Perante o mesmo altar, coroam-se, ardendo”
Demônios, querubins, várias figuras,
Palavras que clareiam sendo escuras,
Momento doloroso ou estupendo.

Nefastas maravilhas, luzes tantas
Bebendo desta imensa liberdade,
O quanto do vazio que me invade,
Permitem ser profanas, créus e santas.

Ecléticos caminhos num só rumo,
As cores se misturam neste prisma,
E quando vez ou outra uma alma cisma,
Nem sempre um andarilho, eu tudo aprumo.

A queda prenuncia a redenção,
Assim como um amor dita o perdão...

11

“Do fogo criador nas mesmas chamas,”
Encontram-se diversas fantasias
E quando delas novas tu recrias,
Revives do passado, luzes, dramas.

Tramas se entrelaçando, atemporais,
Existem desde quando existe o sonho,
O todo muitas vezes eu componho
Dos dias mais dispersos, tantos cais.

Apátrida emoção, vívida luz
Nas trevas a beleza incomparável,
Assim como um reflexo do tocável
Efeito tão complexo reproduz.

Nas crenças, ódios, medos e rancores,
Nos sonhos, nos anseios, nos amores...

12

“As artes são irmãs, e os seus cultores”
Transformam qualquer forma num tesouro,
Das tantas emoções quando me douro,
Permito cultivar diversas flores.

E mesmo nas daninhas, meu alento,
Transito entre o fantástico e o real,
Portanto se feroz, tolo ou venal,
Nas tantas variáveis me sustento.

E bebo em goles fartos, outros dias,
Trafego em dissonantes maravilhas
Porquanto novos mundos sempre trilhas
Sabendo desde o eterno as melodias.

Infinitas verdades num só passo,
Num limitado espaço o mundo eu traço.

VALMAR LOUMANN
 
As Artes São Irmãs  HOMENAGEM A GONÇALVES DIAS

A MOÇA

 
Sorrindo neste espelho vejo a moça
Que há tanto se desfez e agora volta
Aonde se fazia em vã revolta
As lágrimas formando imensa poça

Amores que trouxeram juventude,
Primaveris desejos me invadindo,
Um tempo tão sofrido, mas tão lindo
A vida vai passando e nos ilude.

Quisera ser assim o tempo inteiro,
A sorte vai mudando a minha face
A cada nova ruga ou novo impasse
Mudando sempre o tom deste tinteiro.

E agora a moça volta ao mesmo espelho,
Com ela, vez em quando me aconselho...

VALMAR LOUMANN
 
A MOÇA

AMANDO OS TEMPORAIS

 
Amando o temporal percebo às vezes
Que a insânia toma conta do cenário
Aonde se pensasse temerário
Delírio que procuro há tantos meses

Os sonhos simplesmente como reses
Perseguem cada templo temporário
E bebo deste gozo raro e vário
Sem ter a gentileza dos ingleses,

A louca se transtorna e toma tudo,
E quando solitária inda me iludo
Com velhos e diversos bibelôs

Amores se transformam; beduínos
E os beijos escondidos dos meninos
Agora em andarilhos camelôs.

VALMAR LOUMANN
 
AMANDO OS TEMPORAIS

O AMOR MADURO

 
Sonhara ser a fonte aonde um dia
O amor se transbordando em correnteza
Levando em suas mãos tanta beleza
Matando a minha sede se sacia,

Talvez isso não passe de utopia
A vida se mostrando em incerteza
Decerto já não tem tanta leveza
Conforme imaginara em fantasia.

Mas deixo a adolescência para trás
E o amor que amadurece é mais capaz
De trazer consistência aos meus caminhos

Outrora tão fugazes, hoje firmes
E neles fartos brilhos reafirmes
E nunca mais seremos tão sozinhos.

VALMAR LOUMANN
 
O AMOR MADURO

SOU NEGRA, SOU MULHER E SOU FELIZ!

 
A mãe, amante, o dínamo e a potência
Aonde se quis reino; escravidão
E ao mesmo tempo é âncora e um arpão
Distante da longínqua adolescência.

Marcada pela dor e paciência
No olhar inda o sinal da emigração
Os dias venturosos voltarão?
Acreditar talvez seja inocência,

Mas quando estás deitado em meu regaço,
Os sonhos de menina; então, refaço.
Diversa realidade contradiz,

Mas posso com orgulho neste dia,
Falar com emoção e galhardia:
Sou negra, sou mulher e sou feliz!

VALMAR LOUMANN
 
SOU NEGRA, SOU MULHER E SOU FELIZ!

JÁ ESTOU DE SACO CHEIO

 
Não vou ficar aqui calado e apático,
A sorte num momento se perdeu,
Não venha perturbar se sou ateu,
Problema todo meu, mesmo lunático
Direito de não ser sequer simpático
É tanto quanto teu, decerto meu,
Se até Bocage aqui já se fedeu
Melhor é traduzir em senso prático,
Chutando tantos anos de uma história
No mínimo é preciso ter respeito,
Soneto necessita ser bem feito,
Senão a coisa fica merencória,
Primeiro é conhecer a matemática
E o resto só se aprende é com a prática.

VALMAR LOUMANN
 
JÁ ESTOU DE SACO CHEIO

FANTASIA

 
De todos os meus dramas corriqueiros
Usando da paixão que me devora
O barco que procura um porto e ancora
As flores enfeitando os meus canteiros,

Os medos muitas vezes verdadeiros
A sorte de quem fica ou vai embora
A dor que no meu peito em vão demora
Os sonhos são dos anjos, mensageiros.

O corte dentro da alma, a chaga, a escara
A solução que amor nos escancara
E o tanto que perdi e não sabia.

Assim ao perceber esta quimera
Enquanto o meu caminho destempera
Suporta cada passo, fantasia...

VALMAR LOUMANN
 
FANTASIA

PAIXÃO

 
Da calma costumeira, uma procela
Surgindo sem perguntas nem respostas
As faces já desnudas ou expostas
Transformam enquanto a vida se revela

Das ânsias mais sobejas, rara tela
Terror que bem no fundo sei que gostas
E vence sem pensar tantas apostas
Liberta e nos prepara dor e cela.

Angustiadamente traz saída
E ao mesmo tempo é luz e despedida
E nela mil facetas mostrarão

Deidade muitas vezes vil, satânica
E transbordante; uma erupção vulcânica
Intraduzível fúria, eis a paixão.

VALMAR LOUMANN
 
PAIXÃO

HOMENAGEM A CHARLES BAUDELAIRE

 
Charles Baudelaire

Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,
Inebria-se ao sol o infante deserdado,
E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante
Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado.

Às nuvens ele fala, aos ventos desafia
E a via-sacra entre canções percorre em festa;
O Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.

Os que ele quer amar o observam com receio,
Ou então, por desprezo à sua estranha paz,
Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,
E empenham-se em sangrar a fera que ele traz.

Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto
Eis que misturam cinza e pútridos bagaços;
Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,
E se arrependem por lhe haver cruzado os passos.

Sua mulher nas praças perambula aos gritos:
“Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,
Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos,
E assim, como eles, quero inteira redourar-me;

E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,
De nardo e mirra, de iguarias e licores,
Para saber se desse amante tão intenso
Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores.

E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,
Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;
E minhas unhas, como as garras das Harpias,
Hão de abrir um caminho até seu coração.

TRADUÇÃO DE IVAN JUNQUEIRA

1

“Hão de abrir um caminho até seu coração”
As garras da ilusão às quais tu te entregaste
A vida em dor imensa expondo tal contraste
Em traiçoeira luz demonstra a podridão

Inerte em cada ser e nele se verão
As marcas mais sutis do medo que entranhaste
Ferrenha tentação aos poucos gera o traste
Que tanto se expusera em tétrica versão.

A morte me sondando encontra tão somente
A fétida impressão do quanto poderia
Em lástimas trazer além desta agonia

O que gerara vã, estúpida semente
Um pária na avenida esgota-se em vazios
Enquanto insanamente adentro podres rios...

2

“E minhas unhas, como as garras das Harpias,”
Penetram tua pele expondo esta carcaça
E quando apodrecendo o olhar futuros traça
As noites tão sutis, deveras morrem frias,
O quanto desejara e nada mais terias
Somente o que não vês, o tempo atroz já passa
Deixando tão somente além desta fumaça
Entregue em suas mãos, as mortes que ora crias.
Estúpida quimera, a sorte desairosa
Canteiro em aridez, negando qualquer rosa
Esgota qualquer fonte e mesmo que inda houvesse
Momento mais feliz seria insensatez
Somente na mortalha agora sei que crês
E trazes no vazio, uma oração em prece...

3

“Sobre ele pousarei a tíbia e férrea mão;”
Açoitando o quanto em lágrimas se fez
Gerando a podridão e dela a insensatez
Na gélida manhã, meu mundo sendo vão,
Escreve com terror, a negra solidão,
Diversa da que tanto ainda em sonhos vês
A vida não teria, ao menos seus porquês
O resto do que sou jogado em turvo chão.
Alheio caminheiro encontra o descaminho
E mede com temor o quanto me avizinho
Da morte redentora, a pútrida carcaça
Que tanto desejara e agora se percebe
Somente em vil navalha, adentrando esta sebe
Aonde uma esperança, aos poucos se esfumaça...

4

“E ao fatigar-me dessas ímpias fantasias,”
Não poderei seguir mesmo contra as marés
Aonde se acorrenta em firmeza os meus pés
Algemando com terror as horas mais esguias
E nelas com astúcia; as mãos aonde guias
Astuciosamente as farpas e as galés,
Deixando para trás, o que pensaram fés
Amarga realidade; em trastes, desfazias.

Esgarça-se a esperança e nada mais percebo
Somente esta aguardente amarga que inda bebo
Expondo a minha face em trágica figura
Enquanto a luz se afasta e a noite me procura
O resto do que fora amante solitário
Esconde-se da luz e segue temerário...

5

“Posso usurpar sorrindo os cândidos louvores”
E deles produzir cenários mais cruéis
E quando se bebesse apenas estes féis
O mundo não teria ainda novas cores.
E sei que te seguindo aonde ainda fores
Deixando para trás o que pensara em méis
Seria bem melhor em vários carretéis
Usando da clemência invés de tais terrores.

Mas sôfrego caminho imerso em solidão
E bebo da mortalha e nela o meu verão
Eternizado em dor explode em neves fartas
Assim desta passada atroz e mesmo inútil
O que pensara ser bem mais que simples fútil
Estrada sem final, da qual já não te apartas...

6

“Para saber se desse amante tão intenso”
Ainda poderia crer algum momento em paz
O quadro em luz opaca, agora se desfaz
Deixando em seu lugar este vazio imenso.
E quando noutro rumo eu teimo e ainda penso
Meu passo não se faz e tudo ainda traz
A voz já tão cansada um ar bem mais mordaz
Do qual com galhardia, às vezes me convenço.

Eu poderia ter além da podre face
Algum momento aonde expondo um vago impasse
Trouxesse mesmo alento a quem se faz mortalha,
Mas nada me impedindo eu sigo em voz atroz,
Bebendo cada gota, exposta e tão feroz,
Da morte que me toca e agora me agasalha.

7

“De nardo e mirra, de iguarias e licores,”
O mundo prometera a quem se deu em paz,
Momento mais feliz, e nele satisfaz
O quanto se deseja além destes fulgores,
Mas quando a realidade agrisalhando cores
Expõe o fardo amargo e nele a voz mordaz
Do peso da esperança, eu sei tanto voraz
Matando no canteiro o que pensara flores.
E tendo esta verdade em minhas mãos exposta
A carne dia a dia, eu sinto decomposta
E o medo trafegando aonde quis delírio,
Açoda-me o vazio e nele eu me desfaço,
Pudesse traduzir bem mais tranqüilo o passo,
Mas resta ao caminheiro apenas vil martírio...

8

“E aqui, de joelhos, me embebedarei de incenso,”
Após a noite aonde imaginara um brilho
E nele com ternura, enquanto maravilho
Podendo até tentar um dia claro e imenso.
Mas quando o sol renasce eu sei e me convenço
Do quanto em dor e medo, ainda tonto trilho,
Esgarça-se este pano e puído trama o denso
Caminho aonde tanto eu quis acreditar
Possível ter a sorte em luz quase solar
De um tempo mais feliz. Quem dera se possível,
Mas tudo não passando apensa de ilusão,
As horas transcorrendo o fim me mostrarão,
E o corte se aprofunda e o medo em mim, terrível.

9

“E assim, como eles, quero inteira redourar-me;”
Viver como se fosse um momento feliz
Aonde a realidade em luzes me bendiz
E tendo plena glória enfim poder guiar-me

Mostrando ao meu caminho o quanto pude amar-me
Embora seja amarga e imensa a cicatriz
Do quanto poderia ainda mais que eu quis
Sem ter no olhar a cruz que tanto me desarme

Expresso a solidão em verso mais venal
E tendo ausente porto, adentrando esta nau
Vencendo o dissabor em tétrica aversão

Amor em dores feito escravizado ser
Na angústia traduzida além de algum poder
Traçando o que bem sei expõe a podridão.

10

“Farei tal qual fizera ídolo de outros ritos”*
Seguindo o meu caminho em luzes variáveis
E nelas poderei momentos adoráveis
Diverso do que outrora imaginara em mitos,
Os dias que passei em rumos mais finitos
Podendo acreditar nos cantos tão louváveis
E mesmo quando imerso em solos quando aráveis
Ainda que eu tentasse ouvir do sonho os gritos
Jamais eu poderia entranhar a verdade
Sem ter dentro de mim o quanto ainda brade
O peso do passado; expressa o nada ser
E quanto mais voraz, ainda que tentasse
Mantendo tão somente a dor de algum impasse
E nele com certeza o rumo em vão perder...

* o verso original seria “Farei tal qual os ídolos dos velhos ritos”, mas como há quebra de ritmo com relação ao alexandrino tomei a liberdade de alterá-lo para não perder o ritmo.

11

“Pois se tão bela sou que ele deseja amar-me,”
Mergulharia em vão nos braços do vazio,
E quando tendo o não, eu mesmo me recrio
Podendo ver no fim, quem tanto ainda me arme
E sendo sempre assim, a voz que ao revoltar-me
Sonega uma alegria, e expressa o resguardar-me
Qual fora o desalento e nele o desafio
Ainda que dorido, o medo assim desfio
Gerando o meu pavor, e nele o revoltar-me.

Estúpida quimera, a sorte do não crer,
Encontra algum alento aonde pude ver
A sombra do passado em mim já lacerando
O que talvez pudesse entranhar a verdade
E nela o desafio além do que degrade
Matando a sonhadora em fogo amargo e brando.

12

“Sua mulher nas praças perambula aos gritos:”
E nesta insensatez se percebe o quão dorida
Se mostra a realidade amarga desta vida
Aonde se mostrasse estúpidos tais ritos.
O sonho mais atroz invade os infinitos
E traz uma alegria há tanto em despedida
E nela a sordidez, aos poucos sendo urdida
Mostrando-se em nudez os cantos mais aflitos.

Eu pude perceber a minha própria dor
Ao ter no meu olhar a vida a decompor
Palavras tão venais resumem a ilusão
E nela perecendo o encanto que eu queria,
Traçando a realidade, esqueço uma utopia
E sei das vastidões dos nadas que virão.

13

“E se arrependem por lhe haver cruzado os passos”
Qual fora algum demônio astuciosamente
Seguindo cada traço, um pária, este demente
Ocupando sem trégua aos pouco seus espaços
Deixando o caminhar em tons sombrios, lassos
Vencendo destemido o quanto ainda sente
Aquele que pensara apenas tão somente,
Vivendo por viver, sequer deixando traços.

Assisto à derrocada enfim dos meus anseios
E bebo a tempestade, adentrando os seus veios,
Nefasta maravilha exposta a cada olhar
E tendo esta certeza, a morte companheira
Por mais que ainda tente, inútil se não queira
A sombra do futuro, em trevas irá tomar.

14

“Hipócritas, dizem-lhe o tato ser nefasto,”
Mas sabe muito bem o quanto se desfez
Quem tanto imaginara além da lucidez,
Por isto da verdade, eu sinto que me afasto,

E o gesto quase insano, há tanto tempo gasto,
Diverso do que ainda eu sinto que tu crês
Mudando a direção, negando seus porquês
Gerando do vazio, o quadro em que o repasto

Pudesse ter além de um sórdido momento,
No qual com total fúria às vezes me alimento
Arcando com engano e treva que se gera,

Bebendo a podridão que exalas quando ris,
E mesmo assim ainda, eu creio-me feliz,
Podendo ter no olhar, a apascentada fera.

15

“Eis que misturam cinza e pútridos bagaços”
E desta estupidez na qual eu me criara
A fome não sacia, a sorte se faz rara,
E o gozo não me deixa ao menos leves traços.

Realço cada passo em busca dos regaços
Aonde talvez creia amor já se declara
E quando me entranhando em noite fria e amara,
A morte se aproxima, e trama em duros laços

Errático caminho aonde ainda trilha
A lua ensandecida, espúria maravilha
Vestida em plena prata, anunciando o sol,

Mas como se nublando a vida me tortura
E quando se percebe a madrugada escura
Tomando em cinza intenso as cores do arrebol.

16

“Ao pão e ao vinho que lhe servem de repasto”
Apodrecendo a cruz matando assim o Cristo,
Negando amor, perdão, deveras eu insisto
Quando percebo assim, aspecto tão nefasto

Do quanto ainda vive, embora um tanto gasto
O vendilhão canalha, um pútrido e vão cisto
Adentrando num Templo, aonde não resisto
E vejo com terror enquanto enfim me afasto.

Estranho este poder aonde não houvera
Da furiosa garra exposta de uma fera
Matando este cordeiro há tanto em sacrifício,

E quando se mostrara outrora mais cruel,
Poder sem ter limite, além do próprio Céu
Gerando em nome D’Ele o “sacrossanto” Ofício!

17

“E empenham-se em sangrar a fera que ele traz”
Vorazes seres tais que adentram cada sonho
E neles o retrato audaz, feroz, medonho
Qual fosse nesta vida, a angústia mais voraz,

E tendo em meu olhar, a face tão mordaz
Do quanto imaginara e agora decomponho
Num ato quase insano e nele já me exponho
Enquanto ao longe; vês e sei que satisfaz

Instinto mais cruéis, da estúpida pantera
Que apenas um vacilo, espreita e tanto espera
Devora com terror, as vísceras expostas

E quando me percebo inerme, sob as garras
Fatídico prazer; em ti vejo as fanfarras
E nelas o delírio em carnes decompostas...

18

“Buscam quem saiba acometê-lo em pleno seio,”
Os medos mais sutis, as armas escondidas
E neles eu me espelho e vejo sendo urdidas
As farsas pelas quais expões todo o receio,

E quando no vazio, estúpido inda creio,
Enganos mais venais, as honras esquecidas,
A lágrima que escorre encobre tais feridas
E nelas eu percebo, em ti claro recreio.

Bebendo cada gota esgotas todo o sangue,
E tens no teu olhar, a podridão do mangue
Tocando com furor, o charco que hoje sou,

E nele se entranhando, em lástimas farsantes,
Matando com sorriso, os sonhos delirantes
A fera se sacia e come o que restou...

19

“Ou então, por desprezo estranha à sua paz, “
Mergulhasse num mundo aonde não teria
Sequer algum alívio e a morte então seria
Um rumo desejado, o que me satisfaz,

A pútrida verdade, o sonho não desfaz
Aonde se pudesse além da fantasia
Mortalha com certeza, em mim já caberia
E nela o meu futuro, espúrio e tão mordaz.

Ou então por somente acreditar no não
Jamais eu saberia aonde a sorte insiste
E o coração atroz, deveras sempre triste

Sem ter e nem saber se há rumo ou direção
Batendo por bater aguarda então meu fim,
E nele a redenção e a paz dentro de mim...

20

“Os que ele quer amar o observam com receio,”
E nada mais trarão somente este vazio
Que tanto me maltrata e mesmo desafio,
Não tendo mais saída, ainda busco o veio

Por onde eu poderia estar da morte alheio,
A porta se fechando, amenos os estios
Que tanto procurara e agora sem pavios
Não posso mais tentar o encanto que eu anseio.

Quando esgarçada sorte entranho em luz opaca.
No peito se cravando amarga e fina estaca
A morte se aproxima e nela vejo o brilho

Aonde desvendara os ermos que busquei,
Sabendo da verdade, antevejo esta grei
Que agora, sem destino, em paz superna, trilho...

21

“Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta”
A medonha figura aonde se mostrara
A face verdadeira embora mesmo amara
Deixando para trás a sorte que inda resta.

O quanto se percebe a vida assim funesta
E o beijo em falsa luz, deveras escancara
A imensidão da dor que em ti já se declara
Matando o que talvez ainda seja aresta

De um tempo mais feliz, passado sem sentir,
Morrendo dia a dia o que se fez porvir
E tendo no vazio, apenas o retrato

Do quanto fora luz e agora nada além
Da treva mais feroz na qual já se contém
O que ainda vivo, espreito e desacato...

22

“O Espírito que o segue em sua romaria”
Traduzindo a face espúria da verdade,
E quando a dor enorme adentra em fúria, invade
Deixando alheia então diversa fantasia
O corte se aprofunda, e a morte geraria
Naquele que talvez aos poucos se degrade,
Marcada a ferro e fogo a dura realidade,
Negando algum sorriso a quem não poderia

Saber do quanto dói a ausência da esperança
E quando a minha voz, ao nada ora se lança
Reflexos de quem tanto amou e não sabendo

Do quanto bebe em luz, quem trevas traduzira
Distante deste olhar, acende-se uma pira
E nela ainda vejo, inglório dividendo...

23

“E a via-sacra entre canções percorre em festa;”
Deixando para trás as dores tão diversas
E quando sobre o sonho ainda sei que versas
Depois de certo tempo, ao nada já se empresta

O coração de quem sabendo ser funesta
A vida tão atroz em luzes mais dispersas
Sombria realidade; aonde vejo imersas
As dores mais venais, e a morte; aos poucos, gesta.

Eu quero ter à frente o olhar audacioso
Enquanto se prepara ainda sinto o gozo
No qual mergulharia o resto que inda trago

E nele tão somente o peso que carrego
Sabendo ainda ser o passo audaz e cego
Escuso caminhar sem luz e sem afago...

24

“Às nuvens ele fala, aos ventos desafia”
E sabe que não tem sequer uma esperança
Aonde poderia a voz que não se lança
Trazer após tempesta a noite menos fria.

O quanto se perdeu e o tanto que faria
Não fosse a vida assim, amarga e dura lança
Deixando no passado apenas a lembrança
Da morte que se dando esgarça a fantasia.

E o beijo amargo e falso, apenas destempera
Gerando o nada ser, estúpida quimera
A porta se estraçalha e nada se percebe
Senão a dor feroz e atroz do que jamais
Servira como amparo em meio aos temporais,
Destroçando sem dó resquícios desta sebe...

25

“Há um gosto de ambrosia e néctar encarnado”
Na boca que me morde e teima ser venal,
Aonde se faria um rito triunfal
Apenas o vazio aos poucos desvendado
O cheiro que percebo assim adocicado
Na pútrida certeza, o medo sem igual
E o corte se aprofunda, eu sei quanto é fatal
Traduz o que seria ao menos um pecado.

Satânico e mordaz, sorriso em face exposto,
O olhar decepcionado e mesmo decomposto
De quem se fez a fera e tenta disfarçar
Deixando no passado apenas o vazio,
E nele o quanto quero e teimo e desafio,
Matando o que restara ao menos, soube amar...

26

“E em tudo o que ele come ou bebe a cada instante”
A pútrida carcaça exposta ao forte vento
Explode em raro gozo, e nele me apascento
Deixando um resto amargo e mesmo deslumbrante.
O tempo nunca pára e sei do quão distante
Dos olhos de quem ama a luz de um vão tormento,
Mas tudo se transforma em fúria e desalento
Qual fora um falso brilho, inerte diamante.

Esbarro no passado e vejo a sua face
E nela se permite o quanto em tosco impasse
Futuro se desnuda audaz e em voz sombria,

A morte é solução, demônios me rondando,
Aonde se quisera um mundo ao menos brando,
Somente a solidão, deveras se porfia...

27

“Inebria-se ao sol o infante deserdado,”
E deixa demarcada a face em cicatrizes,
De tanto que pensara envolto nos deslizes
Encontro tão somente o que pensei passado
E o gosto do futuro há tanto abandonado
Diverso do que agora ainda queres, dizes
Espúria realidade, envolta em tais matizes
Trazendo enfim o céu, sem luz, acinzentado.

Nas ruas párias, sinto o quanto se fez claro
O desamor que vivo, e neles desamparo
Traçando o dia a dia, em mortalhas desfeito,
E o beijo da pantera estraçalhando o rosto,
Carcaça da ilusão, meu corpo decomposto
Seguindo sem destino, embora satisfeito...

28

“Sob a auréola, porém, de um anjo vigilante,”
O corpo putrefeito, a carne exposta e crua,
Deitando sob a fonte argêntea desta lua
Que mesmo em tal fastio encontro deslumbrante.

A morte é talvez tudo o quanto neste instante
Ainda sobre mim, domina e se cultua
A porta da ilusão expressa a própria rua
E nela uma alma bebe a luz inebriante

Do quanto poderia e nada então se fez,
No olhar do caminheiro há tanta insensatez
E o fim se aproximando, e nele se redime,

Certeza que terei, não nego e nunca fujo,
O coração imerso em lama, podre e sujo,
Sabendo que terá castigo após tal crime...

VALMAR LOUMANN
 
HOMENAGEM A CHARLES BAUDELAIRE

FEITIÇOS

 
Feitiços que as feições do amor me trazem
Em meio aos mais audazes descaminhos
Os dias do passado tão sozinhos
Por mais que as alegrias se desfazem

Escrevem com saudades se refazem
Momentos envolvidos por carinhos
Descubro no meu peito os passarinhos
Que ninhos mais felizes inda fazem.

Parece que foi ontem, mas bem sei
Longínqua caminhada em bela grei
Distanciando então o olhar da sorte

Mesquinhos sentimentos de hoje em dia
Diversos do que outrora conhecia
Nos braços deste amor que me conforte.

VALMAR LOUMANN
 
FEITIÇOS

De Praia para o mundo lusófono