Ao domingo, passeando na praia

Data 10/12/2011 19:33:08 | Tópico: Crónicas

Ao domingo, passeando na praia

Caminho, já a tarde vai alta, pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, que vazou, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de inverno.
Vou sozinha, cruzo-me com jovens em passo de corrida, outros deslizando em patins, um casal com o filho pequeno, todo contente na sua bicicleta de rodinhas, e um cãozinho saltitante, que corre num frenesim feliz em seu redor.
Carrego na mão o telemóvel e no olhar castanho, o brilho de uma remota esperança. Vou pensativa e sem horas, caminho sem pressa, reparando nas pessoas, mas sobretudo no mar desabrido que se atira à praia, no ar fresco que respiro e no vento que se levanta com promessa de chuva. Puxo o fecho do blusão cinza escuro. Meto uma mão no bolso.
Um pedaço de jornal passa, por mim, esvoaçante, noticias antigas, penso divertida, e volto a concentrar-me num navio de carga, brilhante de luzes, saindo de Lisboa e rumando ao mar aberto, com a velocidade de quem tem um destino certo num dia certo.
O vento rodopia e em rajadas mais fortes força-me a fechar o blusão até cima. Passa por mim um vento frio e húmido, fazendo a ponta do meu nariz fungar preguiçosamente.
A chuva vem aí. Começa de fininho, com gotículas minímas, caindo aqui e acolá, e numa rajada de vento, trás as pingas fortes, da chuva prevista. Com uma mão já no bolso, enfio a outra também, abraçando o telemóvel.
Os meus cabelos curtos, uma feliz confusão de madeixas castanhas, começam a molhar-se, mas não há pressa, porque gosto da chuva e de a sentir na cara. Em redor, uns e outros correm a abrigar-se, desistindo da presença do mar. Mantenho o passo, levanto o rosto sentindo o vento molhado - é bom! Tranquilamente, chego a um café com paredes de vidro e telhado de chapéus de sol, virado para o espraiar das ondas, mesmo ali à frente.
Escolho uma mesa mais agradável e peço um café quente. Envolvo o calor da chávena com as mãos. E, nesse entretanto, suspiro melancolicamente, e uma música inaudível cá fora, enche-me o pensamento, o som de um tema antigo. Languidamente, ouço deliciada: “ … you must remenber this, a kiss is just a kiss.....”. a memória da letra, perde-se na música que continua a tocar, levando-me para outro tempo, no mesmo lugar, aprisionando-me nas imagens antigas que estão sempre a voltar. Passam uns minutos de completa ausência, suspensa no tempo do meu amor naquela praia. Aos poucos a melancolia, transforma-se em dor, e começa a chatear-me.
Sacudo o cabelo, afastando a dor e a melancolia daquele lugar sagrado que não ficou no passado. Olho pelos vidros, lá fora, escorrem fios de água. As nuvens negras escureceram o dia. Engulo mais um pouco de água, poiso o copo e respiro fundo, concentrando-me enquanto pego no telemovel que entoa uma música de embalar e que me diz de quem é a mensagem.
Teclo e leio “encontramo-nos hoje?”. O meu olhar ilumina-se com um sorriso interior, que me acelera descompassadamente o coração e a inquietude da adolescência volta , para me lembrar a resposta a enviar – “sim, claro! adoro-te”.



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