Estátua

Data 12/06/2012 03:55:44 | Tópico: Sonetos



***


Pergunto ao teu olhar se me vê. Nem pestaneio.
Nada me diz, nada, de tão surdo e tão cego
Que, na cor, na aparência, alembra um morcego
Sem asas, atro enfeite de um túmulo feio.

Esmoreço assim. Em vão o teu lábio folheio.
Sumiu o verbo, só resta um estranho sossego,
Qual nénia muda, qual drama de cariz grego
E papiro carnoso de silêncio cheio.

Nem a tua mão, eloquente, do amor tribuna,
Esboça gestos ou brada queixa oportuna.
Antes se recolhe ao peito, tão pobrezinha.

E perdoa-me se por estátua te confundo,
Ou por alma sombria que parte deste mundo,
Ó triste, ó destronada, ó pobre rainha.

(Luís R Santos)



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