Na margem do real

Data 20/06/2012 17:23:46 | Tópico: Poemas

Um grito, suave,
Surge devagar nos pulmões,
Arranhando as cordas
Que carecem de força.
A garganta sanguinolenta
Cospe palavrões
Como se veneno fossem.
Perde-se a cabeça
Por entre o pensar latejante
E o sentir desaforado,
Evacuando ambas relações e confianças!

O medo,
O sentir,
O saber que não-saber
O que se pode,
O que se é,
O que se deve,
Levam qualquer mente
A fraquejar,
A delirar incessantemente
Com as faltas,
Ou simples sonhos delas.

Fica, então.
Não vás.
Não me mintas,
Não me desiludas,
Preciso do teu apoio,
Preciso de ti,
Sempre.
Suprimo tantas afinidades
Que no fundo não se tornam reais
- porque não o posso permitir -,
Que as que são
Me consomem
E me destroem
A cada lágrima de deceção!

Não posso lutar em vão,
O pânico originado consome-me,
A ansiedade sufoca-me,
A dor sempre permanece,
Mesmo em euforia descontrolada
E infundada.
A enorme frustração
De conhecer e sentir
Esta incapacidade de mudar,
Mesmo tentando,
Em plena solidão tutelar,
Apazigua a vera força de vontade.

Mas só permanecerei,
Enquanto as forças não chegarem
Para uma completa metamorfose,
Enquanto o demónio persistir.
A impulsão não controla
Uma mente genuína,
Só esta adulterada
Por todas as vivências experimentadas,
Comprometida
A uma luta interior
Pelo ser,
Procura de um ego,
Ainda desconhecido,
Tecendo frutos
De tanta instabilidade,
Física e mental,
Correndo riscos escusados
Para acalmar todo este tumulto interior.

Sei que erro,
Sei como,
Onde
E os ilógicos porquês.
Sei de explosões,
Clamores desproporcionados
Que me tornam instável.
Bem sei que sofro de compulsões,
Obsessões e vícios.
Reconheço perfeitamente
A minha culpa
Em todas as condições.
Mas não sei o que em mim é certo,
Não sei como converter-me a bem,
Não consigo pensar e escolher
As minhas ações,
No calor do momento.
A cabeça vive escaldada
E não sei outra forma de viver.

E nem sonham os perfeitos deuses
A sombra que carrego!
Se já assim, louca,
Não tolero,
Como seria em minha completa existência?
Porque não me conheço,
Mas brutalizo-me por saber quem sou,
Porque não durmo,
E a dormir reflito mais ainda.
Em frente ao espelho
Mostra-se uma névoa
Que não me permite ver os meus olhos,
Uma máscara que me cobre a cara
E um pano denso sobre o corpo.
Na verdade,
Não sei se existo
Ou se mesmo isso é especulação.


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