
EU CANTO
Data 09/08/2012 00:39:26 | Tópico: Poemas
| Se tudo ainda é noite Se da alegria é véspera Se a vida é um açoite E se além da festa A dança das palavras O mudo sentimento O gesto, o desassombro Na curva do caminho Colheita de espanto Plantada ao fim da linha.
E se pro sonho é tarde Se acima do abismo As asas já não abrem Se o fogo já não arde Nas cinzas da palavra E se o som das rimas São mudas, sem alarde De sinos, e de guizos.
Se as coisas não se movem As pedras do caminho As nuvens e as aves A flor da paisagem. Se o tempo atropela A mansidão de um ninho Se a chuva já não rega Vindoura primavera Nem grito da garganta Nem gesta de um verso Se a vastidão de estrelas Rompendo a imensidão Desabam no granizo Em louca claridade.
E se a alma aflita Não diz sua beleza Perdida nesta nódoa E se a boca perdida Não acorda guitarras As cigarras, as cítaras Noturnas e caladas. Se a vida sobrevoa Silêncio e descabido Se à frente o mar bravio Esculpe em suas ondas As pedras de um rochedo.
E apesar de tanto De um fundo, de um desvão Silêncio, solidão Alucinada, eu canto.
Sandra Fonseca
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