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ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Eu não sou militante de movimento feministas, por considerar que há alguns equívocos, e um deles é exatamente medir forças com o universo masculino, de tal forma que se iguala em determinados momentos, com o machismo que se pretende combater. Não. Eu sou militante pelo respeito e reconhecimento das pessoas, em suas singularidades, portanto diferenças. Direitos Humanos, esse é o meu grande barato. Mas o que me aconteceu dentro de um ônibus, numa viagem entre Belo Horizonte e Montes Claros, me deu uma ideia muito clara do que é ser mulher, desacompanhada e aparentemente vulnerável, portanto.
O sujeito, um verdadeiro ogro, um paquiderme embriagado, inconveniente, já estava instalado na poltrona oposta à minha, no corredor do ônibus. Imaginem uma figura gigantesca com visíveis sinais de embriaguês. Bufafa, gemia, falava palavrões, dizia coisas ininteligíveis, exigia que o ar condicionado fosse aumentado, enfim, a típica imagem de quem se acha o centro das atenções e os outros- que- se- danem- futebol- clube. E nem falei dos puns homéricos que ele soltava, dos quais ele mesmo sofria os efeitos, se abanando desesperado.
Viagem iniciada, eu tentava me desligar do sujeito inoportuno, apesar da indignação de ter que testemunhar tanta falta de educação, num pequeno espaço coletivo, direito de todos que compraram a passagem, nada barata, por sinal. Devia ter reclamado ao motorista. Devia...
As luzes apagadas, fechei os olhos, tentando aquietar minha raiva, quando senti algo esbarrar de maneira brusca em mim. Era a mão direita do infeliz que se curvara, não sem dificuldade, na minha direção, tentando me tocar. Então, minha raiva virou fúria, e eu armei o maior escândalo (quem quiser pode chamar de barraco). O motorista deve ter passado um aperto, enquanto parava o ônibus. O detalhe é que ele era gago, fato notado quando se apresentou no início da viagem, parecia ter ensaiado para não gaguejar, falando pausadamente. Pelo menos um toque cômico. Entrou na cabine de passageiros desesperado tentando entender o que se passava. Eu disse que tinha sido “atacada” pelo bêbado que ele tinha embarcado, e que já anunciava que traria problemas. O sujeito passou a falar mansinho, dizendo que estava dormindo, que jamais pensou em me importunar. Dizia que era advogado e um homem probo. Começou a mostrar seus documentos, tentando visivelmente impressionar o motorista. O pobre do motorista não sabia como agir. Eu disse ao idiota que ser advogado não lhe conferia honestidade, muito menos educação, e que ele era a meu ver um degenerado, tarado, e que certamente era uma prática dele atacar mulheres que julgava indefesas. Que ele tinha escolhido a vítima errada, e que eu ia infernizar a vida dele. Guardou imediatamente os documentos, sentou-se e ficou absolutamente calado. O motorista conseguiu dizer que se isso se repetisse, seria obrigado a chamar uma viatura da polícia. Houve momento em que ele ficou entre mim e o sujeito, e eu imagino que eu devia parecer uma louca, pois falava com o dedo no nariz do maníaco.
Não consegui que me trocasse de ônibus e tive que providenciar por minha conta, a troca de lugar com outro passageiro, ao qual recomendei que tivesse cuidado, já que o bebum alegou que quando dormia, não tinha domínio sobre sua mão, e o fato ia certamente se repetir.

Outra discussão se levantou na próxima parada do ônibus, quando novamente fiz questão de expor a conduta de tão ilibado personagem, homem probo e “adevogado”, nas palavras do próprio.
Da experiência, não saio fragilizada. Ao contrário, consciente de que não sou flor que se cheire, muito menos que se toque, caso não seja meu desejo. Mas, tristemente com a certeza revelada dessa realidade bruta que se refletem nas estatísticas. As mulheres no nosso país são minuto à minuto violentadas, humilhadas, de todas as formas por canalhas como esses. Como psicóloga, sei do prejuízo emocional que a violência sexual, por exemplo, pode causar a uma pessoa. Pessoa, ser humano, direitos humanos. É por isso que eu luto, mesmo acanhadamente, no meu espaço de atuação, como profissional, mulher e pessoa. Isso me fez acordar. Não basta só se indignar. É preciso mais. Expor uma figura dessas à execração pública não tem preço. Na minha imaginação, esse não passa mais a mão nem em sombra alheia.

Sandra Fonseca


Nota: O SUS (Sistema Único de Saúde) recebeu em seus hospitais e clínicas uma média duas mulheres por hora com sinais de violência sexual em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde.
Essas estatísticas funcionam apenas como um indicador, pois não englobam casos de violência nos quais a mulher não procurou atendimento médico ou se dirigiu a uma unidade de saúde privada.
A falta de estatísticas integradas sobre abusos sexuais na esfera da segurança pública é uma das principais críticas da ONU ao Brasil na questão do combate à violência contra a mulher. Além dos números imprecisos, as estatísticas só revelam a ponta de um iceberg, desses casos graves. Imagine no dia-a-dia a violência que se pratica, silenciosa e criminosamente, contra crianças, adolescentes e até idosas. Imaginem...





Criado em: 8/7/2013 18:14
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
Colaborador
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15/2/2013 15:24
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Sandra,

Fui lendo seu texto e, daqui também, me indignando.
Gostei da reação e gostei do texto.
Mas... por que “da próxima vez, chamo a polícia”?
Há casos em que não se espera uma repetição.
Este, por exemplo, que Vc tão bem compôs.


Um forte abraço!


Criado em: 8/7/2013 18:28
_________________

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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Caro Milton,

Muito embora a minha coragem de expor o absurdo da situação, e desse modo também me expor, ficou claro que prevaleceu o seu status de "adevogado probo". É a famosa "carteirada" a que estamos infelizmente acostumados no Brasil. Mas ainda resta a força da indignação e da denúncia pública. O covarde saiu com o rabo entre as pernas. Penso eu.

Abraço.

Criado em: 8/7/2013 18:42
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
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é tudo uma grande hipocrisia. uma caixa de sortidos elementos de um cotidiano acrescido e veemente negado por tantos! e vezes, por todos. um exemplo? pelo que te li, não houve alguma manifestação(ou, imediata) de qualquer outro usuário que utilizava junto a si, o meio de transporte em questão. quer dizer, ninguém se interpôs para parar o tal sujeito após a sua investida(heroica, por sinal ) e ainda o tal do condutor ameaçou de chamar a polícia em "segunda vez percutida?!?"
vê?
hipocrisia, sandra..
a mais reles e vil qual pode se ater.


eu poderia ter dar inúmeras razões e outros mil exemplos disto, mas então continuaria a ser.. a(mesma) mera hipocrisia de sempre.. e, se falam dos direitos da mulher, de sua autoridade presente "aos dias de hoje", se falam de movimentos feministas, movimentos femininos, etc.. e, em dada hora da concepção de embargar este direito, ou eleger-se ao protesto de tanto tempo.. calam-se. ou, pior até! nada fazem. e, nem farão, pois ela sabe se defender! ou, pelo menos nessa hora, nesse lugar, enfim.. mas,

"e, se..?"

eu deixaria um palavrão aqui, mas nem compensa à essa hipocrisia de merda, ahahaaha




meus (melhores)cumprimentos,

Criado em: 8/7/2013 19:48
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
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Caro Alex,

Você observou dois pontos importantes: primeiro a inércia das pessoas ao redor, homens e mulheres, como se aquilo não lhes dissesse respeito. Ficaram ou paralisadas pelo absurdo da situação, ou de fato, refletem esse estranho descaso diante de um abuso de poder (pretenso poder) de uma pessoa sobre outra. Hipocrisia, sim. Hipocrisia sempre. Vale aquela máxima de enquanto não sou prejudicado, fico quieto. Outro ponto é a mentira subtendida até nas leis, como a Lei Maria da penha, feita às pressas, para responder à pressão internacional. que existe muito bonita, no papel.
Portanto, vamos num sistema kafkiano, reproduzindo verdadeiras aberrações num cotidiano que tem nos levado a lutar apenas para sobreviver.
Respeito é um item fora da cesta básica. E quem quiser que se indigne e estrebuche como eu.
"É ruim, hein?" Investida heróica, me fez rir. E ainda mais quando me lembro dos sapatos do infeliz: Tênis alaranjado, quase fluorescente! Sem rir não dá pra seguir.

Abraço pra ti.


Criado em: 8/7/2013 22:44
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome

a banalização cotidiana da justiça quanto ao cumprimento da Lei específica, nos faz crer quão os crimes são acobertados ainda por atitudes machistas e irresponsáveis de algumas autoridades; e é o que permite que indivíduos do tipo jurássico descrito nesta crônica, de se aproveitarem destas situações, e partam para a violência, e até seguida de morte quando não há uma reação adequada para frear a consumação dos vis intentos, sejam; assédio moral, físico e ou psicológico, como aqui se apresenta triplamente qualificado.
o que aqui é narrado mostra primeiro o despreparo de motoristas (fiscais também) para lidarem com problemas semelhantes. segundo que; a falta de solidariedade é gritante. Vivem os cidadãos uma vida individualista. não os culpo; as pessoas vivem aterrorizadas com a violência urbana nessa contemporaneidade.
lembro que guando rapaz deambulava na boemia com mais frequência, sabia do rigor da madrugada, repleta de maus entendidos, raramente não me arrolava numas brigas, por coisa bobas, mais efeito do álcool que de um motivo sério... pois então; dava uns tapas pra lá, vinha um certeiro no olho de acolá, corpo a corpo, no máximo um malandro lá mais malandro puxava um canivete, mas logo era seguro pela turma do deixa disso. Nada que depois café forte ou uma ducha de água fria no chafariz da praça não resolvesse, e tudo voltava ao normal.
ficava tudo por isso mesmo. hoje não. o perdedor vai a casa e volta com uma pistola carregada e mais dois pentes cheios da cintura.
esta introdução foi para exemplificar o porquê dos medos nossos de cada dia. é que não são mais tão simples desfazer desavenças. a atitude de defender-se é louvável, igualmente o é de defender o semelhante, principalmente nas situações de inequívocas de desigualdades, só que não tem mais precisão das possíveis reações advindas de um desconhecido bêbado ou drogado, nunca se sabe. felizmente as atitudes tomadas quais postas na narrativa, transformaram-se ao meu olhar em imagens que por si só se explicitaram em reforço as narrativas de todos os acontecimentos. aliás, Sandra, você se tornou exímia exploradora desse tipo de escrita. envolve o ledor, coloca-o no meio da cena que se avoluma, e já não se sabe ao final se ficção ou uma experiência verdadeira... grato pela partilha..
bj e meu abração bem carioca.

Criado em: 9/7/2013 0:05
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Ótima sua maneira de narrar o fato.
Seu texto envolve de tal maneira que
nos dá vontade de entrar no ônibus
e partir a cara do sujeiro, eu,
particularmente, ainda lhe enfiaria
uma rolha, para prevenir futuros
puns! o resto da viagem.
Gostei muito.

Criado em: 9/7/2013 18:23
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Caro ZéSilveira,
Infelizmente ainda existem indivíduos que não sabem viver em sociedade, dado o grau de primitivismo. Basta uma gota de álcool e um animal selvagem interior aflora, sem que nada o possa barrar. Neste caso ainda teve a coragem de se dizer “advogado”. Passa ao largo do que seja direito individual ou coletivo. Soma-se à isso o fato de quanto mais interior à dentro do Brasil, queiram ou não, prevalece o coronelismo, o machismo, o “Voce sabe com quem está falando”, e por aí vai.
Reconheço as modificações na Constituição, as Políticas Públicas implementadas, os estatutos de defesa de direitos, etc. e etc. mas não reconheço a efetividade dessas mudanças. São insípidas. É um grande engodo direitos humanos no Brasil. Estamos correndo atrás de um prejuízo histórico contra negros, mulheres, idosos, crianças e adolescentes e outras minorias. Para terem uma ideia, quando uma criança é abusada no interior da própria família (o que é comum), é ela que é afastada, e institucionalizada, à guisa de proteção, violando o seu direito ao convívio familiar e comunitário. Não é o agressor que é afastado, para posterior investigação. É a chamada revitimização. É uma medida clássica.
No caso que narrei o certo era uma denúncia formal, mas cuja investigação exigiria testemunhas do fato. Imagine se nem o motorista viu problema já que foi uma primeira vez, e apostou numa segunda investida do sujeito, para caracterizar um assédio... As pessoas pareciam estar mortas, impassíveis, com seus fones de ouvidos, e devo ter sido por muitos considerada como a inadequada, atrasando a viagem. Isso é a realidade. Para completar o quadro, o fato de minha exposição da figura, em público, podia gerar uma reação do sujeito, que de fato sentiu o peso da exposição, ter uma reação pior de violência. Imagine que ainda tive medo, o que é outro absurdo. Ter que ficar calada, com medo de outra violência.
Eu jamais me calei diante de uma injustiça, e é uma reação que não penso duas vezes. Anos atrás enfrentei um sujeito que surrava uma criança de uns quatro anos, em praça pública. Quando vi já estava lá, a criança assustada agarrada nas minhas roupas, e o homem a ponto de me espancar também. Era filho dele, e ele queria que o filho trabalhasse vendendo o artesanato que ele produzia. Acabei sentada no chão, ouvindo a história dele, e chorando junto. Mas, nada justifica a covardia e a opressão de quem se acha superior.
Escrever tem esse poder catártico, por isso escrevo, exercitando essas crônicas. A vida está aí, para ser narrada. Algumas vezes nos oferece cenas emocionantes e bonitas, outras, a crueza e a tragédia da realidade. É a vida, mas ainda é “bonita, é bonita, e é bonita”.
Um grande abraço, meu amigo ZéSilveiradoBrasil.

Criado em: 12/7/2013 13:54
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Caro Jogon,

O seu comentário para mim foi incentivador e importantíssimo, já que aqui neste espaço, eu desejo que predomine o texto. É um exercício, por um lado maravilhoso, mas com um custo emocional muito alto. Não sei fazer diferente. Como na minha poesia, a palavra é uma questão de vida ou morte, sempre um risco. Uma aposta, sempre possível de fracassar.
Adorei sua sugestão da rolha para o bebum fratulento. Quanto à contabilidade do fato, penso que o calei. Isso foi um meio trunfo.
Obrigada e um abraço.

Criado em: 12/7/2013 14:13
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Re: ERA UM HOMEM PRIMITIVO, PAQUIDERME, ALCOOLIZADO, “ADEVOGADO E PROBO”
sem nome
Sandra, quando na "Gloriosa PMMG", perdi a conta de quantas vezes ouvia por dia, os arrogantes me perguntarem, “você sabe com quem está falando”? Eram juízes, delegados, políticos, advogados e tal.
Abraço de luz

Criado em: 12/7/2013 14:15
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