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Luvas de pelica...
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8/12/2008 15:15
De Vila Viçosa
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Um dia destes passei por uma montra e tropecei ao ver exposta na mesma umas luvas de pelica, a finura do material aliada á sua cor não é carne nem é peixe, levou-me pelos remoinhos da existência mais ou menos dividida entre uma crise de soluços e outra de espirros, num breve instante desfilou pela minha mente estarrecida mais de uma dezena de histórias sobre luvas de pelica.
Escusado será dizer que neste avivar de memória outras tantas assombrações preencheram esse momento burlesco, onde dei asas à imaginação e iniciei a caça às bruxas das luvas de pelica. É que sempre que me deparo com um par de luvas de pelica mesmo que jeitoso, o meu estômago dá uma volta, e nem sei se lhes diga se lhes conte, mas bom resultado não dá.
Eu tinha um tio-avô, homem carrancudo de bigode à Cantinflas que me intimidava sobremaneira quando eu tinha sete ou oito anos, mas não pensem que eu tinha medo da sua figura desenxabida, toda cheia de salamaleques e rodeios, outras vezes tão escorregadio como se de uma enguia eléctrica se tratasse, não o que me irritava era a sua mania de levantar o dedo mindinho em riste, na cara de quem o tentava interceptar sobre os seus delírios de perseguição. É que esse meu tio além de desenxabido tinha a mania das perseguições, ora estão a ver uma criança de oito anos que só quer brincadeira e barriga cheia, correndo pela casa em patins de rodinhas, tendo como único objectivo distrair-se da monotonia diária imposta pelas obrigações escolares, e ter à perna um sujeito destes que volta e meia lhe esticava o dedo mindinho, enfiado numa luva de pelica mal cheirosa. Acabando-lhe com a inocente brincadeira sem aviso prévio.
Esticava, esticava mas não avançava nem atrasava, porque se depressa o estendia mais depressa o encolhia, estando eu sempre perdida por entre o estica encolhe exasperante. Além disso, para a minha travessa pessoa não passava de circo encenado, todo aquele esticar de dedo promiscuo, para assim desviar a atenção do verdadeiro problema com que se debatia, ou seja, a luva de pelica não é carne nem é peixe. Estando eu convicta das minhas artimanhas de boa patinadora logo tratei de deitar por terra toda aquela encenação de dedo em riste, se assim o pensei melhor o fiz. Mal sabia eu que para mal dos meus pecados o homem um dia se perderia e na volta traria a reboque uma tia-avó emprestada, de dedo em riste enfiado numa luva de renda.
Para compreenderem melhor esta minha aversão às luvas de pelica, eu passo a explicar o que realmente aconteceu numa manhã de nevoeiro.
O meu tio avó era casado com uma matrona roliça mas que tinha a mania que era a encarnação da bela adormecida, também ela era dada a luvas, mas além das de pelica expunha com ares de prima-dona umas luvas de renda douradas, por sinal, todas esburacadas que mais pareciam um velho passador de arame, é que a coitada não tirava as luvas nem para dormir, e também ela tinha a mania de esticar o dedo na cara do vizinho. Só que ao invés do dedo mindinho era o dedo polegar, com a mania que era gente fina fazia de um todo para se evidenciar, daí o uso do dedo polegar.
Segundo as minhas outras tias emprestadas aquilo do dedo em riste não era mania, era defeito de fabrico, do qual ambos sofriam, assim me explicavam de cada vez que me queixava do maquiavélico casal, contando-me a história de um bendito dia de nevoeiro, em que a tia se tinha perdido e de seguida o tio, ambos tal como o D. Sebastião, mas tendo estes mais azar que o monarca, pelo qual ainda hoje se espera e alguns afirmam que dará à costa de uma manhã de nevoeiro cerrado para salvar a nação. O monarca, porque os tios regressaram passadas poucas horas, coitados, e tiveram que ser carregados em ombros pela população do lugarejo, tal a lástima no regresso.
A tia como era uma espertalhona ao sentir-se perdida por portas e travessas, e dando de caras com o tio por entre o nevoeiro tratou logo de arranjar um matrimónio compensador e rentável, e foi assim que regressaram de mãos dadas mas a abanar, não tendo outro remédio do que consolarem-se mutuamente, contudo depressa esqueceram o mau passo que tinham dado azucrinando o juízo à restante família. Quando todos demos por isso aí estavam eles de dedos em riste, infernizando tudo e todos, um com a mania que a sabedoria adquirida na barriga materna é que faria avançar o universo, o outro com a mania da beleza e que a mesma lhe estendia o tapete vermelho, numa vassalagem singular pela perfeição arrecadada à conta de muitas horas sem dormir pesquisando os bafientos pergaminhos do meu treta avô que por acaso, mas só por acaso não foi o inventor, ou descobridor da Internet, e aí sim teria sido uma grande invenção que pouparia as luvas de renda da minha tia-avó, esburacas por tanto vasculhar os pergaminhos do saber, para depois me atirar ao nariz as suas pesquisas. Como se eu quisesse saber de mais alguma coisa senão em mudar o óleo todos os quinze dias das rodinhas dos meus patins, que lançava a todo o vapor pelos corredores do velho casarão, tendo em mira as canelas dos tios avós, escusado será dizer que os desgraçados andavam todos cheios de nódoas negras e eu toda amolgada com as advertências que a restante família me dava. Mas era feliz. Lá isso era.
Para finalizar esta minha crónica um tanto ou quanto baralhada, resta-me dar a mão à palmatória, tudo porque foram preciso mais de quarentas anos para que chegasse à conclusão que as luvas de pelica volta e meia dão uma mãozinha às existências mais nubladas, e vêm assim transformar os dias cinzentos das mentes amorfas dando-lhes um arzinho de graça. Ai, ao fim de tantos anos consegui por fim compreender a simpatia que o tio e a tia nutriam por luvas de pelica, ou de renda esburacada.
Perguntam como é que cheguei a esta brilhante conclusão, está mais que visto, foi quando me estatelei ao comprido frente à montra onde estavam expostas um par de luvas de pelica implorando por um olhar mais atento e rigoroso.
Qualquer dia falarei dos chapéus-de-chuva que estavam na montra ao lado, nem lhes passa pela cabeça as histórias que tenho com guarda-chuvas sem varetas.


Criado em: 16/12/2011 0:34
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