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SONHO
sem nome
Deu o maior bode. Eu cheguei de paraquedas na ilha, e não havia teto para os que assim chegavam. A ilha não se organizara pra me receber. Nem amigos havia sob as árvores, mas alguns macacos se bronzeavam na periferia da praia; outros jogavam coco ao cesto. Mas, era uma comunidade. Recolhi meus pertences: um coração e uma música que havia. Estranha música, na minha cabeça.
Desandei a percorrer a vida e era tanto tapa e bolacha que despertei para o comércio: abri a primeira fábrica de bolachas revoltadas na brasa, de toda a ilha. Eu ia bem, mas nada havia de humano em mim. Apenas as reminiscências de um tempo caduco. Aliás, todo tempo é caduco, anacrônico mesmo. Mas, prossegui. Capitalista triste, abandonada, cifrônica.
Em mim, a música não se apagava, nem o tempo passado, nem a humanidade que falava tão alto aos meus ouvidos.
Passei, decidida, e incontinentemente a promover feiras filantrópicas e em pouco tempo, fiquei total, absolutamente pobre. Eu, meu coração, e a música.
Percorri então, os espaços, em completa miséria, num sentimento que conduzia ao vazio. Estava só. Sofria de uma solidão que arrancava enormes pedaços da minha cabeça. Era um sentimento frio, mas inquietamente vivo. E me matava.
Decidi que fugiria como sempre fugi. Vou para a Índia, pro Japão, pra China. China! Lá tem gente, montões de gente. Gente à vácuo, à granel, iguaizinhos, feito brinquedo em série.
Resolvida a tal mudança, projetei meu primeiro aeroplano. Fiz a festa da inauguração sozinha. Voei. Era um pássaro, o mais dourado que uma ave podia ser.
O céu era lindo. Mas, não era sincero. Eu perdi o motor nr. 1, nr. 2, e saltei.
Caí aqui. Nunca mais.


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Sandra.
1981

Nota: Encontrei esse “Toda prosa”, numa caixa de papéis antigos, cartas, fotos, poemas. O ano era 1981, e eu tinha 19 anos. Caí aqui, na sina de escrever. Nunca mais. Sonhos de voar me perseguem. A solidão também. E as asas douradas que insistem em me vestir...



Criado em: 29/7/2012 14:12
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Re: SONHO
Da casa!
Membro desde:
7/8/2007 21:36
Mensagens: 397
Feliz são aqueles que depois de tudo, podem voar "toda prosa" e você minha amiga, voou majestosa! Abraço, lindo Domingo para você.

Criado em: 29/7/2012 14:46
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Re: SONHO
sem nome
não só uma prosa, é mais q um voo; é um beijo poético...
zésilveiradobrasil

Criado em: 29/7/2012 18:57
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Re: SONHO
sem nome
Legal teu texto, pleno de reflexões... o ' antigo' 'atualizado"... quem tem o dom da escrita tem o poder de belas criações que são atemporais...

Gostei demais minha amiga, meus parabéns desde 1981 até 2012...

Bjs,

ALICE

Criado em: 30/7/2012 2:02
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