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ANTONIO BANDERAS E EU
sem nome
Apenas eu sabia que ele era El Zorro. No passaporte era José Antonio Domínguez Banderas. Conhecemo-nos em Cannes. Eu, naquela época já uma roteirista aclamada, especialmente pelo meu último texto adaptado para o cinema, “ O homem que veio do plástico bolha”.
Acreditem, ele me amava, e amava meu arroz com pequi e carne-de-sol. Era uma delícia o seu sotaque quando dizia “pan de queixo”. Caía-me o queixo, o pão-de-queijo, e a sacola de pequis, fresquinhos, recém colhidos, ou melhor catados, pois trata-se do fruto mais generoso que a natureza já concebeu. Caem ao chão quando maduros, se dão à colheita, oferecidos na bandeja da terra. Lindo.
Mais lindo era ele. Já não sabia se o atava, quando dizia qualquer palavra. Dizia sempre “bueno, bueno”. Eu dizia “muy guapo”. Em nossa última passagem pelo festival de cinema e gastronomia de Tiradentes, naturalmente disfarçados, não era raro flagrar alguma namoradeira desavisada revirando os olhos para ele, e assoviando, de um modo tão... tão... absurdo. Mais um pouco arrastariam-se pelas estreitas ruas de pé-de-moleque, seus bustos coloridos, desesperados atrás do meu hermoso novio. Credo! Tivesse eu uma carabina, derrubava-as, uma à uma, de suas janelas. Ficavam no pensamento apenas, minhas idéias persecutórias e minha sede de vingança. Mi maravilloso amigo se encantou por ellas, las bonequitas periguetes. Já havia cinco, imensas, em sua bagagem. Pensei que já era hora de discutir a relação. Sim, meus caros, imaginem que fetiche é esse, o raio do espanhol, se arranca lá de Málaga (de “azul se arranca el toro del toril”), para iniciar uma coleção de bonecas namoradeiras de Minas gerais. Sem noção, demais da conta. Ficou tudo por conta da sua sensibilidade. Artista é mesmo assim, e a minha alma de artista, que já tanto havia sido tocada, pela beleza de suas personagens, em especial por El Zorro (repito que só eu sabia que era ele), reconsiderei, e lá fomos nós, nas madrugadas das estreitas ruas de Tiradentes, numa charrete, que para mim era carruagem, percorrendo a história viva daquela encantadora cidade.
Na vertigem de uma qualquer madrugada, despertei com uma lufada de vento pela janela entreaberta. El Zorro estava saltando para o pátio da pousada, e ainda ví a dança da sua capa, quando se jogou do peitoril. Gritei inultimente. “vuelta mi José Antonio”... Nada. Voou talvez para sempre sobre os telhados antigos de Tiradentes e adjacências. Pensei ligar para Almodóvar. Não. Melhor ligar para Melanie Griffith, sua ex. Ligar pra ex de El Zorro? Tá maluca, me perguntei, já com o telefone na mão. O telefone tocou assim que o desliguei. A voz metálica da secretária eletrônica, tipo locutora de aeroporto, informa: “ São seis horas e 30 minutos”. Incrédula, olho para a janela imensa, por onde desapareceu mi novio. Já não há janela, nem namoradeiras na mala, nem quarto com cama de dossel (tão chique...), nem sinal do meu famoso e muy guapo amigo, José Antonio Domínguez Banderas, que só eu sei, El Zorro. A cara amarratoda e a boca com gosto de cabo de guarda-chuva molhado no leite, atendo novamente o telefone. “São seis horas e 35 minutos”. Me apraz responder, e respondo:
- Que fuedase!
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As "namoradeiras" que encantaram El Zorro.

Criado em: 5/9/2012 4:01
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Re: ANTONIO BANDERAS E EU
Luso de Ouro
Membro desde:
22/7/2008 20:24
De ES - BRASIL
Mensagens: 267
Muito bom querida amiga!!!

Criado em: 5/9/2012 13:27
_________________
Uma vida, outra ida e na brisa lenta o vento tenta, venta, inventa...eterna partida.
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Re: ANTONIO BANDERAS E EU
sem nome
ultimamente ando me perguntando demais do que fazemos realmente dos nossos momentos mais aprazíveis. podia dizer sem susto; ler, escrever, cantar, sambar... mas pensando bem, depois de saber dessas façanhas que a minha querida amiga Sandra'minêra'Fonseca conseguiu com sua fértil e insuperável imaginação, deixei arrastar-me pelas ruas dessa cidade mineira cheias de encantos, artes e artistas. eu acredito em ti toda prosa como as moças namoradeiras, tudo a ver com a arte de Minas, como tu e Banderas que é Antonio. simbiose encantadoramente perfeitas de protagonista e coadjuvante. chato é o gosto da 'margosa' logo de manhã.

bj e aquele abração bem caRIOca.
zésilveiradobrasil

Criado em: 5/9/2012 19:13
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Re: ANTONIO BANDERAS E EU p/ Augusto Cola
sem nome
Bom te ver por aqui, neste texto do tipo SNN (sem noção nenhuma). Mas esse é um lugar especial, onde eu posso exercitar um pouco do que mais gosto: surrealismo, realismo fantástico, ou simplesmente delírios e alucinações de uma aprendiz da escrita. Obrigada, meu caro amigo.
Abraços.


Criado em: 8/9/2012 1:00
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Re: ANTONIO BANDERAS E EU p/ Zé SilveiradoBrasil
sem nome
Olha, se você me diz que acredita em mim, e mi José Antonio, e que percorríamos as ruas encantadas de Tiradentes, fugindo das "namoradeiras", e acredita em "El Zorro", digo que mi encantas.Estoy encantada, pero non hay límite a la maravilla fantasía expresó que esta es la experiencia de la escritura.

Mi afecto,simpre.
besos.

Criado em: 8/9/2012 1:18
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