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JOHNNY DEPP E EU
sem nome
Gosto dele desde que tinha mãos de tesoura.Quando encarnou
o pirata Jack Sparrow, capitão do surreal "Pérola Negra", me rendí quase totalmente aos encantos daquele bruto. Meio afetado, absolutamente politicamente incorreto, mas também, e ainda engraçado, e encantador. E quem me faz rir, já leva essa vantagem. Pensei tudo isso quando me encontrei com ele, claro, o ator Johnny Depp, numa lojinha de souvenirs em Ouro Preto.
Sim, minha gente, “Eles” adoram Minas Gerais. Quer se encontrar com um famoso? Vá em alguma cidade histórica mineira. Imaginem que a ruazinha de piso pé-de-moleque , com seu casario antigo, com eiras e beiras, ficou ainda menor.
O fato é que pegamos a mesma pequena escultura, onde se via escrito "Lembrança de Ouro Preto". Pensam que ele cedeu de pronto? Nada. Puxei de cá, puxou de lá, então rimos da nossa teimosia. Eu sempre acho que cabe ao homem ser gentil e ceder. Mas aquele não era um homem comum, era o espectro do capitão Jack Sparrow, ou seja, egoísta, e até cleptomaníaco, mas, absolutamente pop. E ao dizer isso, ele soltou uma gargalhada, e quase em seguida fez aquela cara de quem ia me mandar amarrar na proa do navio, como isca para aquele molusco gigante. Então, eu disse da impressão que tenho de que os personagens passam a habitar certos atores, e que ele falava com os olhos daquele irresistível pirata. Outra gargalhada. E concordou afinal. Mas disse que tinha então, mais do chapeleiro maluco, do que mesmo Jack Sparrow.
Eu desejei que ele guardasse muito de Edward mãos de tesoura. Pediria um corte de cabelo, para matar minhas amigas de inveja. Pegou na ponta do meu cabelo e disse que era melhor não arriscar. Eu também, afinal quem dominava a cena era aquele pirata maluco, com olhos de indiano, trejeitos, dente de ouro, e ainda assim irresistível.
Lembrei-o de frases emblemáticas que ele dizia: “Só tem dois motivos para uma pessoa preocupar-se com você: ou ela te ama muito, ou você tem algo que ela quer muito.” E ele acrescentou: “Desculpe filha, meu primeiro e único amor é o mar”. Pensei mesmo que ele era um pirata, e mais um pouco, levaria minha alma.
Quis continuar meu passeio, e me despedi dizendo que era uma pena não ter nada pra provar ao mundo esse encontro inusitado. Fez aquela reverência cômica do Capitão, e de repente tirou um lenço, não sei de onde, e depois de beijar-me a mão, desceu a ruela de pé-de-moleque. Pensei em fazer uma oração, em agradecimento por ter escapado ilesa das garras do famigerado Capitão Jack Sparrow. Mas a emoção consumiu minha memória, e só me lembrava: “Minha nossa senhora da bicicletinha”...
Ainda contrariada por não ter pedido um autógrafo, procurei meu relógio de pulso, sem noção das horas. Cadê o relógio? Ai que ladrão fajuto! Nem era um relógio de valor. Na verdade, do Paraguai, comprado a trinta reais, na rua Vinte e Cinco de Março, em São Paulo.
Nem dormi direito, querendo apagar aquele encontro da memória e a figura desconcertante, a antítese de tudo o que poderia me encantar. Acordei num mau-humor terrível, com a campainha da porta. Atendí sem nenhuma ideia de quem poderia ser. Era o recepcionista do hotel. Trazia nas mãos uma caixa, e muito sem jeito disse: “Senhora,me desculpe, mas um homem estranho, de casaca, dente de ouro, mandou lhe entregar isso. “ Agradeci, e abri apressada o embrulho. Dentro estava o seu chapéu de feltro, que lhe dava aquele ar entre o trágio e o ridículo. Dentro do chapéu meu relógio chifrim. O cartão dizia: “Com os cumprimentos do Capitão Jack Sparrow”.





Criado em: 20/10/2012 4:48
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Re: JOHNNY DEPP E EU
sem nome
Raramente venho aqui e hoje li sua crónica.
Comecei e fui até ao fim. Por vezes os assuntos não nos puxam. Mas gostei imenso. Vou ler todas.

Abraço,
Carlos TL

Criado em: 2/11/2012 16:15
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Re: JOHNNY DEPP E EU
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está peremptoriamente provado de que gostas mesmo é de grandes aventuras e lendo-te sinto com que gosto viajas nas estórias, mas não menos, está a preferência de um bom corte de cabelo, e depois uma massagem capilar seguido duma tintura moderna que chame a atenção desses espécimes hollywoodianos ao seu habitat literal' e que já não sei mais se te perseguem', ou que tu é que tens atraído e os encurralado nessas ruelas estreitas desses recantos pitorescos das Minas Gerais. Como também não duvido que tenhas seduzido-o ao invés dele o pirata galanteador Jack Sparrow seduzido-a. artimanhas suas afim de que fostes levada a um voo pelas cercanias no galeão voador 'Pérola Negra'. rs sua imaginação voa dimas da conta moça, e perdão, se pensares que eu quis matar o desfecho do seu relato, não, não quis, mas fico pensando aqui. tanto ardil que a mulher é capaz de arquitetar pra poder justificar um presente ganho. rs
me diverti, e a saga continua...

bj. e um abraço caRIOca.
zésilveiradobrasil

Criado em: 3/11/2012 20:52
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Re: JOHNNY DEPP E EU p/ Carlos Teixeira
sem nome
Carlos,

Gosto da crônica pela dinâmica, e a possibilidade de dizer de um flagrante da vida real (neste caso, da fantasia). Ainda, o exercício de uma narrativa na primeira pessoa. Estou tentando experimentar para "viajar" por aí.

Obrigada pelo incentivo.
Beijo.

Criado em: 4/11/2012 20:07
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Re: JOHNNY DEPP E EU p/ Zé Silveira
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Zé, acho que tens razão. Devo adorar aventura, e já estou até pensando nos encontros com Indiana Jones, e o James Bond. Essas histórias mexeram com minha veia humorística e a menina que anos atrás(pouco tempo, hã, hã... rsrsrsr)devorava os livros de fábulas e contos maravilhosos.
E acredite, eles me perseguem. Dias desses recebi um e-mail, um pedido singelo de uma figura conhecidíssima do set hollywoodiano, quase implorando uma crônicas. São os ossos do ofício, meu caro.
E a saga continua. Aceito sugestões.

Beijo.

Sandra.

Criado em: 4/11/2012 20:23
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