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MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
sem nome
Só sabemos da nossa fragilidade real, até da nossa incompetência na vida, quando nos deparamos com algo ou alguém que nos faz enxergar isso. Dia desses, eu estava num ponto de ônibus, já impaciente por alguns minutos perdidos, quando vi se aproximar uma senhora com uma trouxa de roupas. Parecia cansada, mas não colocou a trouxa no chão, continuou a segurá-la nos braços. Eu, acostumada a “pegar amizade fácil”, já fui logo perguntando seu nome, se ela lavava roupas há muito tempo.
Chama-se Celina, tem incríveis 69 anos, e apesar da aposentadoria, continua a lavar as roupas de duas famílias, algo em torno de 40 anos. Já me abalei, com tão poucas informações. Eu e minha bolsa, grande, diga-se de passagem, da qual reclamo o peso. O peso da nécessaire de maquiagem, filtro solar, fio dental, escova de cabelo, meu indefectível espelho de mão. O peso da minha pequena agenda , meus óculos (um para longe, um para perto e outro para o ... o meio. Ah, e um para o sol). As chaves, ah as chaves... do apartamento, da garagem, do trabalho, do consultório. São tantas as chaves que às vezes me sinto a própria mulher de São Pedro. Dona Celina não tinha óculos de sol, nem talvez tivesse sob uma base de maquiagem, um filtro solar. A pele rústica, de antigos músculos, se iluminava sob o sol, com o seu sorriso.
Curiosa, pedi-lhe para carregar um pouco a trouxa de roupas. Queria sentir, afinal, se aquilo pesava. Com o detalhe que me disse ter caminhado até ali, em torno de quinze minutos, sempre carregando aquela trouxa de roupas. No início, riu e disse: “Destá, fia. Que isso não é coisa pra moça que nem você”. Insisti brincando, e disse-lhe que eu deveria tentar ao menos dividir aquele peso com ela, enquanto esperávamos o ônibus. Deu-me a trouxa, com uma cara divertida. Meus queridos, fiz cara de contente, aprumei, bufei, inclinei-me para um lado, para o outro. Dona Celina, disse “Num falei prucê? Isso né trem de moça das letras, que nem você.”
Eu, durona, rezava pedindo equilíbrio: “Minha Nossa Senhora da bicicletinha, e das lavadeiras desse país...” Não entreguei os pontos, nem a trouxa. Também não conseguia falar mais nada. As gotas de suor salpicaram meu rosto. Só sorria amarelo. Aquele sorriso imotivado, do tipo SNN (sem noção nenhuma). Mas, não “pedi pra sair”, como os soldados cagões do “Tropa de elite.”
Dona Celina deve ter ficado maravilhada. Desatou a falar que arrumou pra aposentar tem pouco tempo. A filha olhou os “papé”, e deu tudo certinho. Agora ela e o marido vivem muito melhor. “Ele tá com aquela doença, sabe? Mal de “Alzeme”, coisa que dá em véio. Eu graças a Deus não tenho nada disso. É da dureza da vida, fia. Vai aprumando a gente. É por causa do trabáio. ..
Antes que as pernas falhassem, e eu atirasse aquela trouxa de roupas ao chão, o ônibus dela chegou. Nunca achei tão lindo ver um ônibus chegar. Ela pegou o peso das minhas mãos, comentando que eu era mesmo “dura na queda”. Subiu num pulo só os degraus, acenando e falando sem parar. Só consegui dar um aceno de adeus. Quando consegui falar, falei sozinha: “ Minha querida Dona Celina, quando eu crescer quero ser como a Senhora. Quero ser digna de ver o trabalho como sinônimo de vida, e a vida, por si só, motivo para sorrir e agradecer.”
A propósito, você já carregou uma trouxa de roupas hoje?


Sandra Fonseca

Criado em: 6/12/2012 22:39
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
Membro de honra
Membro desde:
14/5/2008 21:44
De Leiria
Mensagens: 9702
Adorei ler esta crónica Sandra
que não só está muito bem escrita
como nos relata com uma autenticidade
fantástica o antagonismo das duas
personagens, (com diálogos hilariantes)
e que no fundo têm a dureza do quotidiano da
vida em comum.
O apego à vida mais dura para alguns, não deixa
de ser tremendamente cansativa
(seja lá para quem carrega uma trouxa
pesada de roupa) ou para quem tem que enfrentar
os atrasos do trânsito, etc.
Os meus sinceros parabéns. Muito bem!
Beijinho, Vóny Ferreira

Criado em: 6/12/2012 23:42
_________________
visite o meu blog aqui...http://vonyferreira.blogspot.pt/
Vóny Ferreira
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
Da casa!
Membro desde:
28/9/2012 23:09
De
Mensagens: 479
Existem pessoas que veem a vida de um modo tao diferente, ne Sandra? Pensa bem... a guinada de 180 graus que deu esse encontro... e essa trouxa...representa tao mais do que um peso...
Que bonito. Bonito viver esse encontro com algue que tem tanto para dar...
A gente reclama de tanta coisa, nao reclama? Coisas as vezes tao simples...
As vezes eu reclamo de algo e meu marido fala: "Ah, eu queria ter esse problema o resto da minha vida"..
Que beleza ter 69 anos e pensar como a d. Celina... que beleza o que ela ensinou em apenas um instante na espera de um onibus.
Voce livrou-se da trouxa de suas maos, mas colocou para dentro uma trouxa de sensacoes, em seu coracao.
Lindo! Amei!
Adoro isso...esses relatos, essas coisas que mexem com a vida da gente, essas coisas que fazem a gente perceber o QUANTO precisamos nesse mundo de Celinas..
Um beijo pra voce.
~Mary~

Criado em: 6/12/2012 23:59
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
sem nome
Uma lição de moral.
A vida é assim, um aprendizado surge de onde menos esperamos.
Sandra, achei muito belo o fato de a senhora relatar o seu aprendizado com a da Dona Celina, pois assim todos que lerem esse texto iremos aprender também com a ela.
É verdade mesmo, o mundo não só precisa de Donas Celinas por aí, como está cheio delas!
Um abraço, obrigada por compartilhar!

Criado em: 7/12/2012 0:07
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
sem nome
bom de saber, foi da dignidade das duas personagens; cada qual na sua... trouxa e bolsa traz para cada qual uma utilidade, a sobrevivência... fútil seria um desinteresse no olhar; que não se carregar em bolsas nem em trouxas. enfim, dois pesos e duas vidas, como na realidade a vida é... meu olhar deitou-se sereno na mensagem...

Criado em: 7/12/2012 1:01
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
Colaborador
Membro desde:
16/10/2012 17:18
Mensagens: 1576
você tem toda razão em estar toda prosa com sua excelente prosa

já vi dessas donas por aí, estão em toda parte, menos no senado. sabem que a vida é cansaço, deixam a paz para o sono eterno

não carreguei trouxa hoje, mas sempre há alguém a me fazer de um e me carregar. doce vida...

Criado em: 7/12/2012 1:07
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
sem nome
Sim é uma crónica com tanta vida lá dentro que como podia não apreciar,
Sandra senhora das letras
que bela licão,
para todos - é para isto que serve a Literatura, para registar e
fazer aprender - saibamos como.

Fiquei cheio e satisfeito com esta crónica.
E grato.

Um abraço,
Carlos TL

Criado em: 7/12/2012 10:47
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS p/ Vony
sem nome
Olá Vony,

Gostei muito da sua percepção antagônica das duas personagens. E a certeza única, que é também minha: somos todos feitos da mesma matéria. Sonhos, tragédias... Mas, quanto mais leves, no caminho, ou ainda que o peso seja grande, a disposição de ser leve é toda interior.
Grata pela atenção.
Bj.

Criado em: 10/12/2012 0:50
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS p/ Mary Fio
sem nome
Olá Mary,
As pessoas que mais nos ensinam são essas, que vamos encontrando por aí, muito distantes dos doutores, ou dos mestres acadêmicos. A vida não é teoria. É pura experiência emocional. Pele. A vida é bruta. Mas é linda!
Obrigada,
Bjs.

Criado em: 10/12/2012 0:54
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Re: MINHA BOLSA DE FUTILIDADES, UMA TROUXA DE ROUPAS: DOIS PESOS, DUAS VIDAS
Participativo
Membro desde:
9/12/2012 18:47
De Odivelas.
Mensagens: 42
Querida Sandra seus relatos são maravilhosos,adorei,já conheci muitas Senhoras assim na vida.Mulheres sacrificadas em nome do bem estar de outros,meus parabéns pelo seu texto de rara beleza,abraços Sandra.

Criado em: 10/12/2012 1:21
_________________
Aradia Fortunato.
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